ANO 5 Edição 80 - Maio 2019 INÍCIO contactos

Ieda Estergilda de Abreu


Contos    

Pelas ruas


Horário de almoço no bairro japonês. Tomo coragem e me aproximo da primeira mulher, sentada no batente de uma escada que termina em uma academia de artes marciais.  Não é comum abordar desconhecidos, ainda mais para perguntar o nome, mas era exatamente o que eu queria daquela mulher naquela hora e nem me pergunto por quê. Cruzava com ela quase todo dia, subindo e descendo as ruas, sentada nos batentes ou dormindo debaixo de marquises. Fosse porque fosse, parei decidida a entrar na sua órbita.



          Quando fiz a pergunta, ela me fitou com olhos avermelhados, cuspiu para o lado e depois de acompanhar o trajeto da saliva, respondeu com a cabeça voltada na direção do vento.

 

_Esqueci.  



Insisti.



_ Tenta lembrar, seu nome não é Luzia? Você tem cara de Luzia, sabia?

 

_ Luzia sabia não é meu nome, não.



_É só Luzia?

 

_ Só Luzia também não me chamo, não.


_ Então diz como você se chama.



 _ Não me chamo Luzia sabia nem só Luzia.



_ Tudo bem, esquece.



_ Esqueci, disse, enquanto dava outra cusparada, dessa vez quase me acertando o braço.



 _ Você parece uma princesa.    

 

          Além do olhar recebi de volta alguns dentes no meio da boca, sem saber se era sorriso ou simples movimento da face. Os trapos cruzados nos ombros, nos quadris e nas pernas davam a ela um porte de princesa.



         De manhã cedo podia vê-la se espreguiçando em cima de tiras de papelão, tentando ajeitar os panos, limpando os olhos com saliva. Acompanhei por alguns quarteirões sua batalha por comida na porta de bares e restaurantes, ou por alguns goles. Quando era só isso que conseguia, se animava por instantes, erguia a cabeça e desfilava para ela mesma. Mais adiante se encostava em qualquer canto, pernas abertas, olhar desfocado, a cabeça mal se sustentando no tronco. Ou colocava os braços em volta dos joelhos, cabeça entre as pernas e assim ficava, muda, tonta, nada por dizer, nada por fazer.



        Quando as lâmpadas iam se acendendo e fazendo a diferença na cidade, ela ainda arrastava o manto roto pelas calçadas, pés grossos de tanto chão. Mas não perdia o porte, por mais faminta e suja que estivesse. Havia luz naquela vida, acho que foi por isso que adotei Luzia.

 

***

 

A segunda mulher me atraiu pelos berros e gritos, a disposição de viver brigando com o mundo real e imaginário. Estava dentro do jardim japonês na manhã em que cruzei o viaduto. A saia levantada até à cintura, lavava-se nas águas do pequeno lago. Passantes pararam para ver a figura seminua. Olhares, risos, deboches. Sem interromper o que fazia, a segunda mulher disparou uma rajada de palavrões, que fossem todos para aquele lugar. O que ela exigia a seu modo era apenas respeito, afinal, embora ali fosse um local público, estava num momento de intimidade. Ah, não podia? Que tal a casa de alguém aí da plateia? Quem se oferece?  A voz alterada ecoou pelo viaduto, feriu ouvidos e logo espantou os curiosos que não passavam disso. Terminado o asseio, ela saiu do jardim como se do banheiro da própria casa e foi postar-se na calçada. O olhar desafiador de quem estava pronta para mais um dia de luta, ai de quem tentasse mexer com ela.

 

Um dos alvos mais frequentes de sua ira eram sempre os motoristas saindo dos estacionamentos ou garagens sem buzinar. Assustada e furiosa por ter de parar bruscamente para dar passagem às máquinas, ela não poupa ninguém, xinga até ficar rouca, corre atrás, bate nos vidros, faz questão. Já despejou sua raiva contra dois manequins de gesso de uma loja, uma gueixa e um samurai. Diante da vitrine, se tocava nos braços, no rosto, olhava os manequins impassíveis e fazia comparações em voz alta. O que eles tinham mais que ela? Ela era gente - e se beliscava -, enquanto eles, se desse um empurrãozinho, quebrariam e virariam pó ali mesmo!

 

Nunca quis saber seu nome ou origem, ver e ouvir um ser de vida tão intensa era suficiente. Ela costumava discutir com seus fantasmas. Sentada em um banco da praça, mexia nas sacolas e dialogava com não sei quem invisível. Não queria ele por perto, preferia viver só, de louca bastava ela, dizia empurrando o invisível com mãos e pés. E ria alto, abraçava as próprias costas, dava tapinhas, levantava as pernas, se estirava no banco, se encolhia toda dengosa.

 

O idílio imaginário durou até a chegada do orador de bíblia em punho, que pregava em frente à entrada do metrô e viu na mulher mais uma que precisava ser salva. Conclamou os que o cercavam e foi na sua direção. O suficiente para que ela retomasse seu estado de ira. Urubus e galinhas foi o que ouviram de mais suave, e logo recuaram. A criatura estava na praça curtindo a dela, por que não a deixavam em paz? Pegou suas coisas e saiu praguejando em direção à Ladeira dos Estudantes. Por instantes ainda ouvi ecos agudos ladeira abaixo da naturalmente alterada, enquanto mais uma noite se aproximava no bairro japonês.

 

                                                                    ***

 

A terceira mulher também circula pelas proximidades. Cabelos ralos, olhos de quem vagueia para dentro, sempre para dentro, lembra uma mocinha antiga, dessas recatadas, vive rodeada de cachorros famélicos com quem divide a comida que consegue. Dizem que já foi professora, que perdeu a memória e não sabe mais o caminho de casa, se tem pai, mãe, filhos, irmãos. A última vez em que a vi foi depois de uma chuva, ela estava na porta da padaria, quase transparente, o mesmo vestido bege cobrindo os joelhos. A prole tinha aumentado, debaixo do braço segurava uma galinha, um fogo de penas vermelhas, amarelas e azuladas. Cabelos pingando, riscos modelando o rosto, distribuía concentrada pedaços de pão entre seus bichos e mastigava algum, com gestos polidos.

 

    De tanto tentar, consegui mergulhar naqueles olhos sem que me percebesse, e veio aquele sentimento. Não era pena, pois não a via como um ser miserável. O que me atraía era sua presença, ao mesmo tempo tudo e nada na paisagem.

 

 

 

 

 

 

                                       A  barata  

        Bastou vê-la para me inquietar a ponto de tirar trêmula e apressadamente da pia copo, xícara e duas laranjas descascadas. 

 

      Da mesa ela parecia bem menor, mas foi acuada que me sentei, os ombros se estreitando dentro da blusa. O ser silencioso ocupava menos de um terço do ladrilho, bem na altura dos meus olhos. 

 

      Sabia que era a mais forte, tinha mãos, pernas e intenções, com um simples gesto podia liquidá-la, mas se o fizesse seria eu a liquidada. Como ameaça ela me fez de vítima até o fim.  

 

       E o que era a terrível presença? Dois fios compridos onde deviam se localizar todos os sentidos, deles saía o brilho, a força. Quatro fios menores sustentavam as cascas superpostas. Devem ter me dito há eras que seu nome é sujeira e ali me via incapaz de repensar sensações antigas que só serviam de barreira entre eu e a que não tinha culpa. 

 

       O medo era ainda mais inútil, não havia como ela me atacar, eu gigante, ela sem veneno. Até onde éramos diferentes? O que teríamos em comum? A vida? E quanto ao fato de querer expulsá-la do meu campo de visão?

 

       Tudo se resumia a cascas, fios e uma origem enigmática. De repente, sem ruído naquele espaço e momento mínimos, o ser ali, como se vindo do nada, destoando dos ladrilhos reluzentes, da mesa com frutas. Os fios menores fincados na parede, os dois maiores, antenas captadoras. Não estava imóvel e pelo tempo e permanência, devia aguardar não sei o que. Atacar? A mim, só porque me sentia ameaçada? Desejei que alguém com mais coragem e que soubesse com firmeza que a detestava aparecesse e agisse rápido. Não subiria na cadeira, não soltaria gritos histéricos, estaria fria no momento exato, embora soubesse que se olhasse a esmagada me sentiria mal enquanto durasse a lembrança.  

 

       Querida, saia da minha frente, não me siga através desses fios pretos, não faça de conta (queria tanto entender). Limite-se a ser suja como lhe sentenciaram. Não suporto suas antenas na noite. Não quero você, quero o abacateiro crescendo no quintal. Você não é como os pardais que pulam na área de serviço, para eles a minha emoção. Você não, você me pega por baixo e torna incontrolável o que sinto. 

 

        A vigília começou a cansar. Por instantes, só por instante, poderíamos ser iguais, pensei confusa. Olharia o ser tão fundo que teria vislumbres e me desarmaria, desde que não movesse mais as antenas. 

 

        Exausta, dei as costas para o ladrilho, mas percebi que o gesto em nada resolveria, apenas ficaria sem ver o que me inquietava. Precisava ficar livre antes que fôssemos uma coisa só. O pavor era tanto que o primeiro movimento seria para a ação final.

 

         Até que. 

 

        _Mãe!  

 

        Eis a luz.

 

       Como um raio, corri até o quarto e dei de cara com um rosto assustado, um corpo em pé na cama.

 

        _ O trovão, tenho medo.

 

        Só então percebi que chovia há horas.  Desligada do resto, me detivera nas antenas de outro ser, na vida além dos limites aprendidos. De volta à cozinha, procurei o ladrilho. Vazio, sem sinais, como se nunca tivesse sido ocupado. Dei um longo suspiro por mim e pela que não estava mais ali e voltei ao que era antes do pavor, ouvindo com prazer raios e trovões cortando a madrugada.

 

***

 

 

 

 

 

 

Paradas  breves

 

O trem chega manso em Manoel Vitorino, Bahia. Casas com frentes descascadas, luz entrando pelos buracos das paredes de barro, crianças brincando de dar adeus.  Uma moça olha a estrada, o tempo e o trem passam diante dos olhos dela, a solidão brilha no trilho que divide a cidade.

 

Agora é Armazem. O trem para devagar diante de quintais com trepadeiras e flores nos muros. O cemitério de Armazem fica na passagem, tumbas coloridas fazem pensar na vida que passou como passa o trem azul pelo meio do Brasil. O trem ganha velocidade, café-com-pão-bolacha-não, come trilhos, galhos, barrancos. A menina ao lado se despede sorrindo de bois e cavalos.

 

Catinguá. A cidade é apenas um nome na velha parede que logo desaparece.

 

Catanduva. Hortas, quintais, prédio, viaduto, esgoto escorrendo por baixo dos trilhos.

 

Pindorama. Coqueiros, coreto. Liberdade é uma palavra pixada nos muros de Pindorama. Uma mulher deixa a cozinha, limpa as mãos no avental xadrez e corre até à porta para ver o trem passar.  A menina quer por que quer ficar na janela para sentir o vento. Bandeirolas brancas saúdam a passagem do trem diante dos roçados, o sol desmaia lento e avermelhado pela tarde, nos trilhos, campinas, desertos se sucedem. Um pedaço de lua tão próximo, é quase hora do Angelus, o silêncio parece tomar conta do mundo. Valei-me, Santa Adélia, com seus tambores coloridos, valei-me, Santa Gertrudes, com suas estâncias e fazendas a se perder de vista.

 

Em Amparo, urubus espreitam, voam baixo entre serrotes, vacas e ovelhas pastam no tempo que escorre sem vertigens. Hortas suaves dividem o verde em outros verdes, nesse lugar onde os grilos mostram o caminho da noite. Quem entrou no Café do Ponto, quem fez ponto no antigo prédio da estação? Que rei morou no castelo azul, hoje hospital?

 

Poços de Caldas, Minas, Hotel Nacional.  Uma chuva fina empurrou o sol para outras bandas, a piscina lá embaixo é uma estrela azul de cloro. Cascos de cavalos no asfalto, toc toc toc parando no sinal, seguindo. Vi um cavalo com uma flor apagada na testa, cavalos parados detestam moscas, odeio viseiras em cavalos. Poços de Caldas é puro doce, o doce mel das flores, das frutas, dos vinhos. Tem uma mineirinha na janela de uma casa inacabada, olhos e cabelos esparramados na tarde. 

 

***

 

 

Ieda Estergilda de Abreu, brasileira nascida em Fortaleza-CE, escritora, jornalista radicada em S. Paulo. Autora dos livros de poesias: “Mais Um Livro de Poemas”; “Grãos”; “A Vespera do Grito”; “O Jogo do ABC” (infantil). Tem inéditas poesias e crônicas.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2019


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