ANO 5 Edição 80 - Maio 2019 INÍCIO contactos

José Manuel Morão


Poemas II    

Do livro Caprichosa Inteligência:

 

NA CASA

 

Pla casa, os santos nas paredes.
Os meninos nasciam. Porque à noite
Os lençóis brancos os afagavam,
Lavados. Gostávamos do escuro,

 

Do sal que ainda havia no leito.
Os pequenos choravam pla noite dentro. Eu
Sentia o mar. A mãe gastava-se
A velar. Acendia as velas na capela. Entrava

 

E saía. Queria levantar a névoa. Folheava
As folhas do caderno. Olhava pela janela,
A janela que dava para o rio.
Despedia-se. Havia de voltar.

 

 

 

 

 

 

A CAPELA DA SENHORA DAS CANDEIAS

 

Os olhos eram o voo das gaivotas.
A escura e povoada taberna,
E a capelinha da Senhora das Candeias
(Pois quem havia de alumiar o mar?),

 

Com as quinas, a esfera armilar na parede.
As mãos tomavam o pão e a sardinha,
Aceitavam certa privação.

 

 

 

 

 

 

A IMAGEM DE S. JOÃO BATISTA

 

Tu conhecias as águas,
Sabias quais eram
E quais iam ser.
Tu carregavas o cordeiro da manhã,
Entregaram-to vivo.
Sem letras, eras como nós,

 

Envergando a grossa
Pele, os teus olhos pediam.
Eles vinham batizar-se
Nestas águas. Mas tu olhavas —
Eram o mesmo rio,
Os homens eram cordeiros.

 

 

 

 

 

 

O HOSPITAL DA MISERICÓRDIA, I

 

A pequena cruz do hospital da Misericórdia
Ainda olha, na sua cegueira,
As crianças que pedem
Justiça que dure
Os tempos?
Acreditam elas na sua súplica?
Levantou a cruz com
O Filho, para que a infâmia
Corresse as partes do mundo.
Velou a verdade como ninguém!
Anterior, a arquitetura ardeu
Nas suas mãos, línguas de fogo sobre
A pedra.

 

 

 

 

 

 

O HOSPITAL DA MISERICÓRDIA, II

 

Na arcada do velho hospital da Misericórdia
Encontras as crianças
Sentadas na pedra,
O resto do sol.

 

Passas, não te olham,
Entre as colunas
Do velho hospital da Misericórdia,
À porta donde saíam as carretas

 

Dos defuntos. Passas,
Por vezes olham-te,
E tu bebes a filiação
De haver pedras.

 

 

 

 

 

 

OS RIGORES

 

Os teus olhos cansados
Da noite.

 

Os teus olhos cansados
Do tecido.

 

A mesa: corta
Com a tesoura.

 

Servirá a vivos e a mortos,
Dará silêncio, destruição,

 

Viverá até morrer no anonimato
Dos fatos

 

Vincados, da cor
Do pó, na mudez dos sapatos.

 

Dos teus olhos cansados
Virão ao mundo os rigores.

 

 

 

 

 

 

DESAMPARO

 

Ensinai-me outra vez
A ser pai,
A crescer, a vingar.

 

No fim da vida,
Sereis folhas
Entre os meus dedos,

 

Suaves, mansos,
Satisfeitos,
Mestres de vós mesmos.

 

Porque vós
Sois
O meu desamparo.

 

 

 

 

 

 

A CAPELA DE SANTA CATARINA

 

A capela de Santa Catarina,
Com a âncora sob a cruz, na frontaria.

 

O interior limpo, a santa pequenina,
As miniaturas de barcos nas paredes.

 

A capela de Santa Catarina,
Junto às águas escuras do Lima.

 

A capela de Santa Catarina,
A santa dos pescadores, do tamanho das suas vidas.

 

 

 

 

 

 

A PIEDADE

 

São piedosos os homens que zelam       
Pelos que
Não podem ser mais do que são,
Não calham fazer mais do que fazem,
Morrem no dia certo.

 

 

 

 

 

 

NO FIM

 

No fim, se não formos escolhidos,
Não adianta pleitear,
Foi essa a decisão. Para sempre mortos,
Sem a luz de um denodo que nos ampare
E mantenha.

 

 

José Manuel Morão conta 55 anos de idade. Vive retirado numa aldeia do concelho da Covilhã. A serra da Estrela, o sossego. É poeta e religioso. Cursou Filosofia e Literaturas Modernas na faculdade de Letras da Universidade do Porto. Não sabe falar sobre o que escreve. Não pode acrescentar nem retirar nada aos seus poemas. É neles que está tudo o que sabe dizer. Ainda não sabe o que sabe dizer, por isso deixa os poemas amadurecer durante anos.
 

Mais importante é a religião: crê em Deus Todo-poderoso, criador e senhor do céu e da terra, e na vida eterna.

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Maio de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Maio de 2019:

Henrique Dória, Adelto Gonçalves, arrudA, Caio Junqueira Maciel, Camila Ferrazzano, Carlos Barbarito, Cecília Barreira, Diniz Gonçalves Júnior, Elizabeth Hazin, Fernando Andrade, Frederico Klumb, Geraldo Oliveira Neto, Graciela Perosio ; Rolando Revagliatti, Heleno Álvares, Hermínio Prates, Humberto Guimarães, Ieda Estergilda de Abreu, Jacob Kruz, Jayme Reis; Myrian Naves, Jean Narciso Bispo Moura, José Manuel Morão, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Leonardo Bachiega, Luiz Otávio Oliani, Marcelo Frota, Marinho Lopes, Matheus Guménin Barreto, Moisés Cárdenas, Myrian Naves, pelo Conselho Editorial., Noélia Ribeiro, Octavio Perelló, Waldo Contreras López, Wélcio de Toledo


Foto de capa:

FRANCESCO DEL COSSA e outros colaboradores, 'Maggio', 1468-1970.


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR