ANO 5 Edição 80 - Maio 2019 INÍCIO contactos

Leonardo Almeida Filho


Para enterrar um anjo    

Por caridade, uma ajuda para enterrar um anjo, onze da manhã, brisa leve soprando folhas secas sobre o cimento, ouvia-se o pedido carregado de tristeza, quase um aboio. Ela, à sombra, na praça da Bandeira, abordava, com o jeito de quem teme espantar um pássaro, cheia de dedos, todos aqueles que lhe passavam por perto. Os pedintes têm esse talento de, não espantando o alvo, aproximarem-se com a lentidão do predador na tocaia. Havia horas estava lá, acompanhada de uma menina barriguda, de pernas finas e dentes salientes, vestidinho de algodão com florzinhas desbotadas, cabelos pretos escorridos, quase uma índia branca, um sabugozinho irrequieto. Mãe e filha expostas naquela manhã de sol. Uma ajuda para enterrar um anjo, moço, repetia num lamento, a mão estendida, o gesto ensaiado buscando atenção. Uma ajuda para enterrar um anjo, minha amiga, insistia e a criança a seu lado enfiava o dedo sujo nas narinas, com a atenção voltada para o gesto de futucar o que houvesse nas pequenas cavidades, absolutamente concentrada na tarefa de retirar sujeira do narizinho afilado, barriga enorme denunciando vermes, pezinhos imundos nas chinelas de dedo, como as que a mãe usava, bocejava o seu cansaço infante. Pelo amor de Deus, uma ajuda para enterrar um anjo, a ladainha se repetia há algum tempo sob aquele pé de jambo que lhe dava sombra e, talvez, alguma esperança. A mulher, ossos aparentes, rosto sofrido, faces vincadas expondo um olhar molhado emoldurado por olheiras fundas, olho de quem viu muita miséria no caminho, insistia em seu pedido, confiando na boa vontade dos passantes, afinal de contas, quem se negaria a ajudar uma pobre criatura a sepultar seu filho, um anjinho morto, como tantos iguais em Campina Grande, na Paraíba, no Brasil? E as moedinhas iam surgindo, aos poucos, lentamente, e ela as guardando num embornal de lona vermelha que trazia a tiracolo. Perto do meio dia, deu-se por satisfeita. Conferiu a arrecadação da manhã e suspirou aliviada. Num solavanco impaciente, acordou a filha que sucumbira ao sono no banco da praça e saiu pela rua, puxando-a pela mão, a reboque. Protegendo o embornal junto ao corpo, com receio de ser assaltada, atravessou a rua e enveredou pela Maciel Pinheiro apinhada de gente às compras de Natal. A menina, deslumbrada com as cores, os anúncios, teimava em andar lentamente, olhando as vitrines, encantada com tanta beleza e fartura. Era arrastada pela mãe, Anda, estrupício!. Fincando os pés, reagindo ao comando materno, a pequena tentou enfrentar o comando, como fosse um pequeno burro empacado no caminho. Um puxão de orelhas resolveu a questão, arrancando choro sentido, magoado. Estava muito irritada. Engula o choro, ande. Engula o choro, dirigia-se à filha que, temendo o pior, engoliu o choro e a vontade de sair em disparada. Sabia que chorar, naquelas condições, com a mãe virada do avesso, resultaria num reação muito pior. Avia, mulher! Deixe de pantim, determinara a mãe, aos sopapos. Acostumara-se a engolir o choro, a frustração, a fome, a humilhação. Uma vida de indigestão com a vida. De deglutição do abandono, da falta de carinho, da condoída observação do sofrimento materno. Para gente assim, o estômago é o lugar de todas as mazelas, o espaço de todos os dramas, lugar onde se passam as grandes questões da existência: Ou está vazio de comida, e é o inferno; ou cheio de tristezas, e é pura dor. Uma caminhada de cerca de vinte minutos, cruzando ruas, pequenos becos, atravessando uma rodovia movimentada, a dupla alcançou a porta de um mercadinho de periferia. Saíram de lá com algumas compras e caminharam ainda outros dez minutos por uma paisagem de abandono, tristeza, fome. Esgoto correndo a céu aberto, crianças sujas na rua de terra e cascalho, pés descalços e sorrisos ingênuos correndo atrás de uma bola, homens desempregados à porta das casas, mulheres grávidas. De longe, cinco crianças barrigudas e de pernas finas, reprodução quase exata da menina que já não chorava, puxada pela mão, correram para abraçar a mãe. Caras de fome, receberam-na e à sacola que trazia com a comida que comprara com as esmolas para enterrar um anjo. Ela, muito furtivamente, enxugou algumas lágrimas que permitiu-se verter, ocultando-as dos filhos que comemoravam o arroz, o feijão, o leite e os ovos que ela trouxera. Dizia a si própria, em pensamento, como que se desculpasse com cada uma daquelas boas almas que lhe deram ajuda na praça: Não é para enterrar um anjo, é para evitar que tenha que enterrar um deles. Seu olhar fixado na festa que os seis filhos faziam naquela tarde de maio.

 

Leonardo Almeida Filho, paraibano de nascimento (Campina Grande, 1960), candango de criação, professor universitário, escritor, ensaísta, reside em Brasília desde 1962. Mestre em literatura brasileira pela Universidade de Brasília (2002), com dissertação sobre a obra de Graciliano Ramos (publicada pela Editora da UnB em 2008 sob o título Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito).  Alguns trabalhos publicados: O livro de Loraine (romance, 1998), logomaquia: um manefasto (híbrido, 2008); contos em coletâneas organizadas pelo escritor Ronaldo Cagiano Antologia do Conto Brasiliense (2004) e  Todas as gerações (2007) e pelo Prêmio SESC de contos Machado de Assis (2011); poesias em coletâneas organizadas pelo escritor Joanyr de Oliveira Poemas para Brasília (2004) e pelo Prêmio SESC de poesias Carlos Drummond de Andrade (2011). Em 2010, pela Editora Hinterlândia, publicou, com os professores Hermenegildo Bastos e Bel Brunacci, o livro Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem, que aborda o cenário político-cultural do Brasil em fins de 1942, no cinqüentenário do escritor Graciliano Ramos. Publicou em 2014, pela editora e-galaxia, o volume de contos Nebulosa fauna & outras histórias perversas. Publicou em 2018 o volume de poesias Babelical. Acaba de finalizar seu terceiro romance (ainda inédito) O grande mar oceano.
Email: leo.almeidafilho@gmail.com

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Maio de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Maio de 2019:

Henrique Dória, Adelto Gonçalves, arrudA, Caio Junqueira Maciel, Camila Ferrazzano, Carlos Barbarito, Cecília Barreira, Diniz Gonçalves Júnior, Elizabeth Hazin, Fernando Andrade, Frederico Klumb, Geraldo Oliveira Neto, Graciela Perosio ; Rolando Revagliatti, Heleno Álvares, Hermínio Prates, Humberto Guimarães, Ieda Estergilda de Abreu, Jacob Kruz, Jayme Reis; Myrian Naves, Jean Narciso Bispo Moura, José Manuel Morão, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Leonardo Bachiega, Luiz Otávio Oliani, Marcelo Frota, Marinho Lopes, Matheus Guménin Barreto, Moisés Cárdenas, Myrian Naves, pelo Conselho Editorial., Noélia Ribeiro, Octavio Perelló, Waldo Contreras López, Wélcio de Toledo


Foto de capa:

FRANCESCO DEL COSSA e outros colaboradores, 'Maggio', 1468-1970.


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR