ANO 5 Edição 80 - Maio 2019 INÍCIO contactos

Leonardo Bachiega


Poesia é a linguagem da arquitetura    

Ao longo do tempo não é raro ver a poesia e a arquitetura se misturarem, serem como luz e ambiente, o interior do edifício se tornando um.

 

Le Cobusier, disse: “ declaravam: - A arquitetura é servir, nós respondemos: - A arquitetura é emocionar. E fomos taxados de poetas com desdém.”...

 

Ou então, através das palavras do mestre da arquitetura moderna brasileira Vilanova Artigas que cunhou a frase: “ Admiro os poetas, o que eles dizem em duas palavras, a gente tem que exprimir em milhares de tijolos.”

 

 Não só arquitetos se nutriram da poesia ou da literatura para suas obras, o inverso também aconteceu, João Cabral de Melo Neto, sempre citou o construtivismo e o racionalismo de Le Corbusier como influencia, na sua obra, a máquina de habitar de Le Corbusier, onde sua visão mecanicista e prática, o arquiteto estrutura a relação dos habitantes, as relações sociais da casa com os seus locais comuns, chegando ao conceito da máquina de habitar, uma casa tão funcional quanto uma máquina e que deve ser um objeto de beleza capaz de emocionar o usuário.

 

Da máquina de habitar corbusiana, notamos na máquina de escrever cabralina o seu uso e a forma do arquiteto, em todo o seu fermento. Por exemplo, como seria descrever uma metáfora do poeta pernambucano , senão como bela e precisa , o Cão sem plumas que nada mais é do que o rio, se tornou uma das mais lindas metáforas da língua portuguesa.

 

O nosso projeto “ Um caminho ao cume da montanha” , uma capela nas montanhas, próxima à cidade de Cunha, no Brasil, nossas referências na poesia e literatura são muitas, de Fernando Pessoa, no uso da luz e água, José Saramago na concepção do caminho e para o material, Rubem  Alves.

 

Partimos do preceito da arquitetura religiosa como um lugar de introspeção e de olhar interior, para isso propusemos um caminho para levar à capela, um primeiro contato do indivíduo com a sua fé e com o seu Deus, refletimos o espaço e refletimos a relação do homem à sua fé desde o exterior, não é apenas, o entrar no edifício.

 

Um caminho surge da montanha, a nível, avistamos a capela, e passamos pela grande cruz que repousa num espelho d ‘ água, chegamos a um lugar semiaberto, um átrio, a capela começa a se tornar.

 

Para materializar o caminho, uma manta de cacos de pedra foi proposta,
“Os cacos em si, não tem beleza alguma. Mas se um artista os ajuntar em uma visão de beleza, eles se transforma em uma obra de arte.”


Rubem Alves

 

 

Implantação

 

 

Vista externa

 

A capela, é um volume opaco, uma elipse, como uma pedra, este, o material proposto para o edifício, a única luz que inunda o seu espaço vem do alto, a laje da capela não toca o seu invólucro, uma abertura se cria, corre o perímetro do edifício, a luz jorra o seu interior. Do desenho da luz, um espelho d’água nasce, faceia toda a parede da capela. Água e luz dois elementos da fé cristã, e de todas as religiões desde os tempos mais primitivos, caminham juntas, trabalham e se misturam, a luz que vem do alto toca o cristal da água, elemento purificador.

 

Um lugar místico, um oratório, um espaço dramático.

 

 

“Treme em luz a água...”
Fernando Pessoa

 

 

Vistas internas

 

Completando o caminho, um mirante, uma praça religiosa, voltado para a cruz de tamanho inquietante e a paisagem.

 

 

Caminho

 

A terra basta, onde o caminho para.
José Saramago

 

Vista aérea

 

É com poesia que o homem faz seus dias e livros.
A arquitetura precisa emocionar...

 

 

Leonardo Bachiega é poeta, arquiteto, urbanista, dramaturgo e pós – graduado em Barcelona. Nasceu em 1980 na cidade de São Paulo - Brasil, onde mora hoje. É autor de Poema Número Um (2016), seu livro de estreia, também publicado em Portugal e A cidade desabotoada (2018). Tem poemas publicados em diversas revistas literárias como InComunidade, Literatura e Fechadura, Mallarmargens, Alagunas, Garupa e Amaité.


Contato – leonardo.bachiega@gmail.com

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2019


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Henrique Dória, Adelto Gonçalves, arrudA, Caio Junqueira Maciel, Camila Ferrazzano, Carlos Barbarito, Cecília Barreira, Diniz Gonçalves Júnior, Elizabeth Hazin, Fernando Andrade, Frederico Klumb, Geraldo Oliveira Neto, Graciela Perosio ; Rolando Revagliatti, Heleno Álvares, Hermínio Prates, Humberto Guimarães, Ieda Estergilda de Abreu, Jacob Kruz, Jayme Reis; Myrian Naves, Jean Narciso Bispo Moura, José Manuel Morão, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Leonardo Bachiega, Luiz Otávio Oliani, Marcelo Frota, Marinho Lopes, Matheus Guménin Barreto, Moisés Cárdenas, Myrian Naves, pelo Conselho Editorial., Noélia Ribeiro, Octavio Perelló, Waldo Contreras López, Wélcio de Toledo


Foto de capa:

FRANCESCO DEL COSSA e outros colaboradores, 'Maggio', 1468-1970.


Paginação:

Nuno Baptista


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