ANO 5 Edição 80 - Maio 2019 INÍCIO contactos

Marcelo Frota


As memórias de uma mulher que virou peixe, ou de um peixe que virou mulher    

 

A memória é um peixe fora d’água, primeiro livro de contos de Patrícia Porto é um filho recém-nascido e ao mesmo tempo um companheiro de anos, um amigo intimo com o qual nos identificamos e mantemos diálogo contínuo. A afirmação acima pode soar estranha, e, no entanto, facilmente explicável. A memória é um peixe fora d’água se assemelha àqueles clássicos que lemos e relemos diversas vezes na vida. É Hemingway e seu O velho e o mar. É Saramago e seu Ensaio sobre a cegueira, mas principalmente, e quem sabe nem a autora se de conta disso, é Carson McCullers em seu O coração é um caçador solitário, com seu estilo direto, preciso e extremamente sincero.

 

A escrita de Patrícia Porto remete a algo conhecido, a algo que nos é querido e ao mesmo tempo familiar, tornando o lançamento da Editora Penalux uma das melhores surpresas literárias de 2018. Uma surpresa na prosa, diga-se de passagem, pois Patrícia é poetisa e seus versos se encontram publicados em três livros, lançados entre 2014 e 2017. A jornada poética que precedeu A memória é um peixe fora d’água é ao mesmo tempo um reflexo da visão de mundo de Patrícia, assim como introdução informal para sua primeira jornada na prosa. São as memórias de uma mulher que virou peixe, ou de um peixe, que virou mulher.

 

A memória e sua presença, sua constância, seu peso e suas sombras são a motriz da escrita de Patrícia Porto, seja na poesia, seja na prosa. Sua presença está nas lembranças, ora autorais, ora inventadas. Nunca sabemos completamente quem é o eu lírico, se é a autora, se é uma invenção, se são os dois, se são nenhum. A constância está no desenvolvimento preciso da narrativa, em que lembranças movem a trama, que algumas vezes se encera de forma abrupta, outras, com um desfecho totalmente inesperado, mostrando a excelência da composição literária, assim como um desejo, talvez (in) consciente, de despertar sensações contraditórias no leitor. O peso e suas sombras são uma visão dura, pragmática, pessimista da sociedade e suas máscaras, suas amarras e sua ignorância. Uma constante mais atual do que nunca no Brasil do “acima de tudo”, do “Deus acima de todos”, em que a mediocridade é a palavra chave.

 

Cada conto de A memória é um peixe fora d’água é uma experiência singular, devendo ser vistos como obras separadas, que estranhamente, e coerentemente, são ligados pela memória. O livro está dividido em três partes, chamadas pela autora, de tombos: Os ossos no porão (19 contos), Os crônicos (5 contos) e Fogaréu no céu, exílio na terra (10 contos), que somam ao todo 34 histórias curtas, porém ricas em densidade dramática e intensidade psicológica.

 

Em A Pastora, temos um exemplo da intensidade psicológica, aliada a uma quase “inocente” luta de classe social. Uma menina estudava em uma escola católica com bolsa para órfãos, em que a maioria de suas colegas era de classe média, com seus cabelos bem arrumados e seus corpos bem delineados. Ela se sentia um mosquitinho, um ser insignificante que voltava para casa na boleia de caminhões. Mas ela era feliz. Um dia na educação física, as meninas começaram a puxar e empurrar a menina de um lado para o outro, aos gritos de “Maria João, Maria João, você é feia.” Então, em resposta as agressões tanto físicas quanto morais, a menina revida com socos até quebrar o nariz de uma delas. E ela era feliz.

 

Aqui vemos não apenas a crueldade infantil como o desprezo da classe média pelas classes menos favorecidas. Maria João era vista como inferior não apenas por sua aparência, mas por ser pobre, por ser bolsista, (talvez negra, talvez nordestina, talvez branca). O conto não especifica sua aparência, nem sua origem, mas revela que o preconceito está na visão de superioridade de uma classe que se vê como rica, ou quase rica, mas que na verdade está muito mais perto da pobreza do que seus olhos e mentes ousam admitir.

 

Já em Irmãs em Cristo, que foi o primeiro conto que li, ao abrir o livro aleatoriamente, as meninas eram forçadas a cantar o hino da juventude na escola, com postura impecável. Todas subservientes, menos uma, que rejeitava a submissão a todo custo. E ao parodiar o hino no recreio, e logo ser dedurada, a menina recebeu como punição uma suspensão e como penitencia esperar a tia na capela da escola, sendo por fim aconselhada pela irmã: “(…) Veja o sofrimento de Cristo na cruz. Quem sabe Ele consiga ensinar alguma coisa sobre os benefícios da humildade.” Tudo que a menina, aos doze anos conseguiu enxergar foram as formas da imagem (músculos, rosto indefinido, lábios finos, tapa sexo). O final é uma quebra abrupta, assim como uma fina critica à religiosidade moldada a milênios de servidão cega. Aqui Patrícia critica não só a religião estabelecida, suas regras e dogmas, mas também a falta de voz daqueles que a seguem, daqueles que são ensinados desde a mais tenra idade a baixar a cabeça e aceitar os fatos como “a vontade de Deus”.

 

Esses dois contos, escolhidos propositalmente por se passarem no Divina Pastora, e por a personagem ser possivelmente a mesma, mesmo estando em tombos diferentes, mostram a ligação pela memória, assim como criticam de forma precisa tanto sociedade como religião. Alertam contra a hipocrisia, o conformismo e a perspectiva de que conhecemos nosso meio, conhecemos nossa realidade, conhecemos nosso tempo. Somos o que nossos olhos veem, o que nossas mentes assimilam e o que nossa coragem nos permitem ser. Somos, acima de tudo conscientes, ainda que condescendentes com as barbáries, as desigualdades, o horror que nos cerca.

 

A memória é um peixe fora d’água é um grito libertário, que ressoa primeiro internamente, conscientizando, desafiando, provocando questionamentos muitas vezes desconfortáveis. É, acima de tudo, um reflexo da ciclicidade do tempo, de como nosso passado é nosso presente, nosso presente o futuro e o futuro novamente o passado.

 

Façamos dos gritos de Patrícia Porto, nossos gritos.

 

Marcelo Frota

(A memória é um peixe fora d’água, Porto, Patrícia, Editora Penalux, 2018)

 

 

Marcelo Frota é professor, formado em Língua Inglesa e Literatura pela Unijuí, tradutor, crítico literário e cinematográfico. Nascido no Rio Grande do Sul em 1979, é apaixonado por cinema, literatura e música e tem apreço especial pelo jazz e pelo blues, sem deixar de lado o rock clássico e a chanson francesa. Se considera um cinéfilo devoto e apaixonado pelo cinema europeu, americano, latino-americano e brasileiro. No seu coração literário os espaços são ocupados por autores que vão de Shakespeare a Saramago, sem nunca abandonar os romances policiais baratos, a ficção científica e a poesia marginal. Estreou na literatura com “Compilação Poética das Margens” em 2016 e está lançando esse ano “O Sul de Lugar Nenhum” pela Editora Penalux.

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