ANO 5 Edição 80 - Maio 2019 INÍCIO contactos

Matheus Guménin Barreto


Poemas II    

Como escrever um poema
enquanto a fome carcome um corpo a-
inda que um só corpo ainda que como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como escrever um poema como

 

***

 

 

 

 

 

 

é lícito um poema onde ecoem passos                                  
de um único homem ou de sua sombra os passos?               
é lícito o poema de uns pés descalços, limpos, sobre um
pátio ainda mais? lícito
que água ainda não convexa de toques nem
de rostos outros espelhados que um só rosto, que essa água
reste?
ecos, passos, sombras, pés descalços, toques?                      
é lícito que haja? é lícito que haja tão rara palavra:
lícito?



é lícito que haja o que haver em versos
como estes
se os tiroteios furam a pele de uma mãe de um pai de um filho e de um que não nasceu e não nascerá num canto escuro qualquer deste país que nem me digno a saber enquanto escrevo um poema sobre escrever um poema sobre um revólver calibre 38 que resolve anular o tempo?

 

***

 

 

 

 

 

 

o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e o braço e as mãos
tremulargênteas
e o rosto toca e o sexo
quente e afiado
o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e sabe de repente o que é um ensolarado riso e
a noite antiquíssima que o olha
de volta.

 

***

 

 

 

 

 

 

corpo: que coisa será essa
a que servirá ou a quem, computará quem
os beijos que deu e dará e quem os tons
de carmim que já viu aos domingos e quem                                     
os cachorros que lhe lamberam os dedos e quando
e quem computará as madrugadas e o branco que fazem
e quem
os sons que gestou na garganta e não disse e quem
o amor miúdo e bom que reina entre as paredes de um apartamento e quem
dirá a esse corpo que tudo
cedo ou tarde
não vai ter existido
na garganta faminta do tempo?

 

***

 

 

 

 

 

 

arder a vida em palavras

 

medidas sombra por
sombra
duma mão noutra arder a vida
na geografia incerta da boca

 

que arde um instante e desce à terra.

 

arder a vida nos ecos

 

e nos corpos ora nacarados ora suados do
discurso que o lábio promete
nem sempre cumpre
e quando cumpre é sempre quase.

 

equidistante do fim e do início arder a vida

 

enquanto o corpo se desfaz devagar
com carinho quase
mas resoluto.

 

arder do verbo absoluto à procura

 

o verbo na sarça que se queima magnífico
e não existe.

 

arder a vida pruma bosta qualquer

 

que mal nasce já não existe ::

 

– arder a vida à procura dum sol pousado na mesa
dum dia de justiça entre irmãos
e descer à terra ciente – mas contente, resoluto –
de nada ter nas mãos.

 

***

 

 

 

 

 

 

Aquilo que me sou não me é nunca.
Pensando o que serei no escasso espaço
de mim, não sei se penso e sou aquilo
ou se, pensando, passa o tempo e passo

 

– se passo e já não sou o que pensara,
nem o que penso agora e que já passa.
Não sei se algum momento embosco aquele
que vejo ou se descubro-me sua caça.

 

***

 

 

 

 

 

 

OLEAJE

 

muro branco
onde os adeuses do mar se recolhem junto à sombra,
salgados e frescos.

 

 

 

(27-3-2017)

 

***

 

 

 

 

 

 

PRIMEIRO

 

O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.

 

A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes

 

sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria

 

e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.

 

***

 

 

 

 

 

 

CANTO DE DISSOLUÇÃO

 

Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.

 

Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.

 

Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.

 

Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.

 

Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.

 

***

 

 

 

 

 

 

MANHÃ

 

a –
Notícias da manhã
informam que o tempo, de
                                 fato, passou,
e que a noite foi só uma
de fato.

 

b –
O dorso arrebentado do sol,
surge o dia.

 

c –
A manhã ruge
nos dentes das árvores.

 

 

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs - subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg (Alemanha). Encontram-se poemas seus no Brasil, na Espanha e em Portugal (Escamandro, plaquete “Vozes, Versos”, Mallarmargens, Revista Germina, Palavra Comum, Enfermaria 6, Revista Escriva [PUC-RS], A Bacana e Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne. Publicou em periódicos ou em livros traduções de Bertolt Brecht, Erich Kästner, Ingeborg Bachmann, Johannes Bobrowski, Nelly Sachs, Paul Celan, Peter Waterhouse e outros.
www.matheusgumenin.com
matheusgumenin@hotmail.com

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2019


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Paginação:

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