ANO 5 Edição 80 - Maio 2019 INÍCIO contactos

Octavio Perelló


A alma de uma ideia    

Lábios grossos, como eu gosto de admirar. Agora, um pouco descarnados e um tanto descorados, mas consistentes. Levemente arroxeados – estaria sentindo frio? Sempre que me deparo com uma mulher de lábios carnudos não consigo prestar atenção em outros detalhes do seu rosto. No máximo os dentes, que ficam ali na esfera da boca. Dessa não dava para ver os dentes. Boca fechada.

 

         A pele estava mais clara do que parecia ser normalmente. Corpo esguio, ossos aparentes nos pontos mais insinuantes: ombros, laterais inferiores do peito e quadris. Ossos à mostra nos lugares certos ostentam a compleição bem estruturada, firme para a lida, apta para o ofício de ter que rasgar a cidade, da periferia à vida acadêmica e política no núcleo da cidade, carregando mochila, bolsa, cadernos, livros, lutas e esperanças.

 

         Perco-me nas anotações de praxe. Confiro as descrições do boletim, corrijo uma ou outra informação – ô, gente descuidada para preencher relatórios! Gostaria de fazer perguntas, saber os gostos pessoais, o que acharia das condições de trabalho no local onde estávamos e se acreditava mesmo que as coisas poderiam mudar para melhor.

 

         Eu não sou voyeur, obsessivo por sexo, nada disso. Eu sou apaixonado pelas mulheres, física e emocionalmente. Simples assim, com direito a todas as complicações que isso me causa. No entanto, sei muito bem fazer o meu trabalho com respeito, embora não possa evitar o olhar complacente para as nuances apolíneas. Desde o colo a púbis, descendo pelas coxas, joelhos, panturrilhas. Tudo em condições invejáveis. Tudo pronto para o desgaste natural e demorado dos anos que viriam. Uma bonita mulher. Tão brasileira quanto poderia ser cubana, norte-americana, marroquina ou de qualquer outra nacionalidade na qual caiba nascer uma mestiça de ascendência negra. Porém, carioca. Tão carioca quanto a vida caótica e ensolarada além dessas paredes sombrias.

 

         No meu trabalho também é necessário que eu me debruce sobre os papéis à mesa. Nessas horas dou-me o direito a digressões. A moça diante de mim leva-me a pensar sobre o futuro - como será se lá chegarmos ou como seria se ficássemos no meio do caminho?  Por que para alguns a vida há de ser longa, não importando o volume e a velocidade das realizações, e para outros não passa de um lampejo vibrante e rápido? Melhor tocar a vida lentamente e sem pressa ou fazer tudo a galope? E o nosso legado será continuado?

 

Levanto-me, pego a prancheta, cumprindo a rotina, já quase rito, e olho-a novamente, na busca de sinais, cicatrizes, perfurações. Tem gente que não gosta de ver cicatrizes, e há quem não suporte ter. Eu gosto de ver. Tem seu charme. E não me importo de ter, até tenho uma bastante visível, resultante de cirurgia. Se eu fosse habilidoso com o trato da estética feminina, arrumava para ela um lenço bonito, batom, brincos. Já vi tantas vezes imagens dela com esses ornamentos realçando a beleza dos seus cabelos afrolivres – no púlpito, nas manifestações, em entrevistas.

 

Desenrolei com cuidado a faixa na cabeça - ela merecia esse cuidado. Todos merecem, eu penso. Quatro tiros, quatro malditos projéteis calaram a sua voz para sempre. Quatro entre os nove que alvejaram o carro que a conduzia, e que também mataram o motorista. Não consta no boletim médico, mas eu sei e todo mundo sabe, mesmo quem desdenha ou finge não saber: crime político, provavelmente encomendado, por adversários, aos profissionais do crime que proliferam nessa cidade como decorrência da metástase urbana e social que lhe consome. Por quê? – tanto se perguntou e ainda se pergunta. Por vingança e para cortar as suas asas infladas para voos ainda maiores. Absurdo, tristeza, afronta às liberdades e à razoável convivência entre os contrários! Noite fatídica, da qual não se deve esquecer. Pudesse antes eu teria alertado para ela sempre se lembrar de olhar em volta e perceber as movimentações, jamais esquecer que o seu trabalho político confrontava organismos criminosos e velhas políticas condescendentes com a exploração eleitoreira da miséria, da desordem urbana e da engrenagem rentável do crime.

 

Um médico legista se habitua às agruras da vida e à frieza da morte. Aprende a lidar com as consequências da barbárie humana, com os atos inconsequentes cometidos por certos monstros chamados de gente. Precisa seguir o protocolo. Mas não perde a sensibilidade. Foi desconcertante vê-la ali, calada, sozinha, sem o olhar afetuoso, justo e combativo, sem o sorriso franco que exibia por toda parte. Ela estava totalmente destoante daquele recinto frio e cheio de falhas no reboco, no piso, no teto, nas portas, nas janelas, nos aparelhos e nos funcionários, enquanto lá fora – ah, lá fora sim! – ela permanecia presente e luminosa no amor de familiares e amigos, na admiração dos eleitores, nos olhos de quem chorava sem se intimidar, na boca de quem bradava sem constrangimentos, na cabeça de quem persistia na tese de que a luta continua, que o seu trabalho incansável não morreu, resiste, como a alma de uma ideia, tão eterna quanto ameaçadora.

 

Octavio Perelló é escritor, jornalista e produtor de conteúdo. Autor do romance “Nem toda humanidade está perdida”, autopublicado em e-book para Kindle, pela Amazon, integrou a coletânea “Espanha”, publicada pela Niterói Livros, com o conto “Memórias de um Mouro”.

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2019


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Paginação:

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