ANO 5 Edição 80 - Maio 2019 INÍCIO contactos

Wélcio de Toledo


Contos    

Tão belo quanto a morte

 

Um homem se senta ao meu lado durante a viagem.


 
Tristeza de serenidade magnética que atrai minha atenção. Primeiro, pelos seus cabelos ralos orvalhados. Depois, quando encontro o canto de seus olhos vermelhos fortes o bastante para segurar um turbilhão de lágrimas amotinadas a espera de fuga. No canto calvo da fronte a veia em relevo destaca o brilho da tez marroquina de um escuro luzir, feito o sol do recôncavo.

 

O homem carrega uma dor.

 

Todos os homens carregam uma dor, uma dor em comum. A dor covarde de ter que esconder uma dor. O homem ao meu lado procura alguém para além da janela, para além de sua dor.

 

Estou entre a sua tristeza e o horizonte infinito, incomodado com algo que dói no homem ao meu lado, como se a dor fosse minha. Dor sádica, mesquinha.

 

Não sei se para me tranquilizar ou afrontar minha curiosidade ele diz, talvez para mim, para ele mesmo ou para o infinito:
_ Acabei de enterrar meu filho.

 

O homem que embarca ao meu lado nessa viagem nada sabe de mim e parece não se interessar pelo meu interesse. E segue em seu desdém sobre o que faço, o que penso, o que sinto. Mesmo me colocando a par da sua vida, da sua morte, do seu sentir.

 

Seguimos olhando pela janela enquanto a viajem viaja. Olhares distantes e paralelos. Ele segue falando comigo e com o infinito e eu não consigo deixar de observar seu rosto absorto de dor e de ausência refletido no sol da janela. Não há o que ver lá fora, além daquilo que representa a janela e o que há por traz do seu reflexo. Viajamos numa prisão sem grades que me leva em alta velocidade para histórias que agora terão outros sentidos após o pacto de cumplicidade estabelecido por mim com o velho e seu filho morto.

 

Já sei a origem do passageiro que viaja ao meu lado.

 

Uma única frase. Um livro se abre com histórias de um tempo em que o que me assustava também era o que me fascinava. Como se falasse para outras pessoas que não eu, a voz entre o grave e o suave descreve em pausas o filho perdido. Mas o que vejo da minha janela são os brancos cabelos no homem, desbotados, puídos, feito o tecido das suas memórias.

 

O homem negro com sua história se mostra tão belo em sua dignidade, enredado com a morte. E eu que buscava beleza na vida, na estrada, na viagem, percebo que há algo mais para além das janelas.

 

Ajeito a poltrona, acerto a coluna, respiro profundo e silenciosamente para deixar que o ar acaricie todas as minhas vértebras e começo a compreender.  Sinto-me forte e vivo como o companheiro ao meu lado. E vivo, viajo a caminho do desconhecido. Misterioso e belo como o velho que viaja comigo.

 

 

 

 

 

 

Ela

 

Ela não tem nome. Não tem namorado, marido ou companheiro. Também não tem amigos. O que será que Ela tem? Perguntavam todos ao vê-la sair cedo em direção à Praça da Bandeira para pegar o ônibus às sete e quinze da manhã sem itinerário certo. Ao menos era isso que os moradores de seu prédio, frequentadores da padaria e do botequim próximo, apostadores do jogo do bicho e taxistas falastrões debatiam quando não estavam fazendo nada, ou seja, sempre.

 

No ponto de ônibus despertava a atenção de homens e mulheres não só pela sua beleza, mas pela atmosfera de solidão, indiferença e ao mesmo tempo de calor que a cercava. Estranha combinação aos olhos que a vigiavam. O mais estranho era que em sua intimidade Ela não percebia isso. Tudo bem que se achava bonita e sexy, mas isso era algo dela, quase um segredo dividido somente com seus lençóis e com seu espelho que tomava a parede do quarto quase que por inteiro. Morena de olhos negros e cabelos duma mescla entre aloirado e escuro tipicamente carioca que caia nos ombros esguios como todo o restante de sua silhueta. Chamava atenção pelo que supunham não ser. Enfermeira? Sugeria Marcão, playboy decadente sustentado pela pensão da mamãe e que se achava o esperto sedutor das trabalhadoras domésticas, que, por sua vez, o devoravam sem julgamento, só pelo prazer de ter prazer antes de retornar para casa ou para a labuta diária. Professora? Alguns sugeriam. Talvez, mas provavelmente não. Carregava quase nada de material em sua bolsa sóbria. Secretária? Despojada demais para tal função, afirmava categoricamente Joel, taxista canastrão, metido a culto, mas que não passava de um reaça viciado em Jogo do Bicho. Dois garotos marombados insinuavam tê-la visto passeando em pleno dia de semana ensolarado pelas bandas da Barra da Tijuca. Pelos seus entreolhares era perceptível um julgamento como se Ela estivesse prestes a cometer algum crime ou que já cometera. Qual a acusação? Talvez estar desfilando bonita, sem dono, sem pretensões por aquelas bandas.

 

O atendente do lado de lá do balcão foi mais categórico ao lançar no ar que Ela estava doidona, quase nua desfilando no Bloco das Carmelitas em Santa Teresa. Foi o que disseram a ele. E nesse “disseram”, “foi vista”, “parece”, Ela acabou virando uma celebridade misteriosa da Praça da Bandeira sem ao menos trocar um “oi” com qualquer que fosse. Virou assunto matinal nas rodas do comércio embaixo de seu prédio. Papo de homem que não tem o que fazer, mas que acha estar fazendo muito discutindo futilidades suburbanas. Quanto a mim, parecia que eu estava por me tornar mais um deles, já que, na minha completa invisibilidade, escutava suas idiotices enquanto acompanhava o mote de seu assunto com os olhos de admiração e alguma inveja. Por certo, queria ser como Ela, ou melhor, queria mesmo ser Ela. Admirava seus passos seguros a descer pela rua sem nunca olhar para os lados, sempre em frente, sem caras e bocas, sem pressa, sem pressão, sem ligar para o tempo e sem dar a mínima para os que a assuntavam de longe. De tão anônima, não conseguiria passar desapercebida. E Ela foi passando. Todas as manhãs, inclusive fins de semana, no mesmo horário, estava ali no caminho da passarela que a ajudava a atravessar a praça em direção a algum lugar, a todos os lugares ou a lugar nenhum.
O público da padoca até aumentou. Não faltava quem apostasse a dinheiro para saber se Ela seria pontual ou se atrasaria alguns minutos. O senhorzinho do Jogo do Bicho, um dos raros infelizes por ali, chegou até a maquinar um sequestro, mas a ideia ficou só na sua cachola como uma fantasia platônica cheia de carioquices. Eu acompanhava a uma certa distância e, pela minha condição de estudante, passei a vê-la mais vezes ali de manhã. Não tomava mais café em casa só para fazer o meu desjejum junto aos expectadores matinais em frente ao meu prédio.
 
Ela continuava ignorando solenemente a plateia e parecia até mais descontraída. No entanto, comecei a suspeitar que notava minha presença, mesmo eu me camuflando do lado de fora, me distanciando da parada de ônibus próxima ou, nas mais radicais disfarçadas, eu pegava qualquer ônibus só pela ideia de Ela suspeitar que eu estava ali por sua causa. Eu morava no andar de cima e não foram poucas as vezes que me peguei com o ouvido no piso tentando escutar algum ruído que entregasse um pouco de sua intimidade. Impossível escutar algo na madrugada além das sirenes de polícia e ambulância e vez por outra alguma garrafa se espatifando pelo asfalto ao lado do boteco junkie. Engraçado como na noite as pessoas parecem ser outras. Será por que elas mesmas possuem duas personalidades ou será pelo simples fato de que quem está observando também esteja tomado pelo brilho da noite a prismar sua visão? Divagações idiotas como estas são a prova de que há sempre o outro lado, não importando ser ele bom ou ruim. Qual o lado da sua personalidade Ela mostrava aos transeuntes da Praça da Bandeira quando saia pouco depois das sete da matina? E quando retornava lá pelas oito da noite, seria a mesma pessoa?

 

De uns tempos para cá, seus horários de retorno já não tinham mais aquela exatidão de antes.  Saia de casa no mesmo horário e com o mesmo ar, porém retornava quase sempre antes ou depois das nove, nove e trinta, dez e quinze, onze e quarenta, uma, duas, três da manhã. E eu lá a esperar sua chegada. Claro que nem sempre conseguia flagrar suas voltas ao lar. Aí é que eu ficava com a pulga atrás da orelha, pois brigava com o sono à sua espera e não havia recompensa, nem um mínimo de barulho para saber de suas aventuras. Depois de algum tempo passou a não aparecer todas as manhãs. Pulava a terça ou a sexta-feira em uma semana, a segunda e a quarta-feira na outra, passava dois dias seguidos sem dar as caras, e nós lá na pontualidade britânica da Zona Central do Rio de Janeiro. De repente me vi como os outros boçais da manhã, esmiuçando sua vida, perguntado ao porteiro que nada sabia, olhando em sua caixa de correio e até mesmo investigando sua lixeira. Tudo isso me levava a nada. Até que Ela voltou à sua rotina habitual. Às sete e quinze já estava no canto da parada ao lado da padaria e nós na função, bisbilhotando sua beleza e sua vida. Eu, no meu papel de coadjuvante à espreita, não tirava o olho do seu misterioso corpo e os ouvidos das adivinhações estapafúrdias dos vagabundos pontuais da padaria.

 

A uma distância razoável de todos, comecei a perceber que Ela estava sempre no meu campo de visão, depois observei suas viradas de pescoço para o meu lado até que num determinado momento notei que Ela já olhava pra mim sem pudor algum. Eu, então, me retraí e passei a me escorar num pedaço de banco quebrado junto a uma amendoeira que me serviria de esconderijo caso Ela partisse para o ataque e viesse para o meu lado.

 

Passei a descer antes das sete só para vê-la chegando a me procurar sempre com o olhar discreto e direto, sem titubear, sem se importar com os urubus da Praça da Bandeira. Meus pais começaram a se preocupar com minha dedicação aos estudos, pois passei a dormir tarde para investigar suas notambulices e a acordar mais cedo para estar de prontidão aos seus olhares. Isso durou poucos dias, pois já estava na época do vestibular e tive que viajar para o interior, onde faria a seleção para o curso de Letras. Passaria uma semana longe dos meus afazeres voyeurísticos e também distante dos companheiros de café da padaria. Desses, confesso, até me passou pela cabeça sentir falta também, mas logo isso passou.

 

Antes que o ônibus passasse, lá estava eu chegando com minha mochila preparada para viagem, na maior distração a ponto de não perceber Ela vindo em minha direção; “Vai viajar”? Tomei um susto com a pergunta. Só consegui esboçar um “sim”. No que ela de pronto emendou, “vou sentir sua falta, adoro observar seu jeito misterioso, faz minhas manhãs ficarem mais interessantes”. Confesso que não tive reação a não ser olhar para os seus olhos antes impenetráveis. “Tá chegando meu ônibus, até um dia então”. Senti sua face chegar mais perto da minha e o hálito de café misturando ao sabor doce de seu batom, até que nos beijamos ali, na frente de todos e de tudo que havia a nos espiar naquela praça, naquele ponto, naquele meio de gente com cara de geral do Maracanã dos anos oitenta. Ela se foi no ônibus que não consegui decifrar o itinerário, nem queria saber mais de nada, estava feito estátua com uma mochila pousada em um dos braços e a face corada em rosa. Ao mesmo tempo, conseguia visualizar toda a cena como se tivesse uma lente panorâmica em meus olhos, como se tudo estivesse imóvel, absorto, todos esperando apenas um movimento meu para reiniciarem suas atividades banais.

 

Fiz o que tinha que ser feito, continuei meu roteiro e entrei na velha padaria de sempre, pedi um sanduiche misto de queijo branco e peito de peru, suco de laranja. Nada de comentários, nada de brincadeiras maldosas, um ar solene tomou conta daquele ambiente e até os movimentos pareciam estar sincronizados numa coreografia mal ensaiada à espera de minha partida para iniciarem os comentários. Tomei o meu ônibus em direção à rodoviária, de lá peguei um interestadual rumo à Uberlândia, onde passei três dias fazendo provas de vestibular. Retornei e Ela já não estava mais morando no mesmo prédio que eu. Do mesmo jeito que chegou, sumiu. Não se despediu, não deixou rastro, simplesmente foi.

 

Agora era eu a pessoa que estava todas as manhãs naquele mesmo local, no horário de sempre, aprendendo a ser o motivo das conversas entre os moradores de meu prédio, frequentadores da padaria e do botequim próximo, apostadores do Jogo do Bicho e taxistas falastrões. Fingia que não era comigo e até alimentava a imaginação da plateia fazendo pose de poderosa, olhar fixo no horizonte, caminhar seguro até o meu destino. Durou pouco o meu reinado de musa. Logo estaria de mudança para estudar em outra cidade.

 

Cheguei e me instalei num apartamento pequeno, perto de uma grande praça. Próximo ao ponto de ônibus havia uma padaria onde tomava café antes de pegar o ônibus rumo à universidade. Lugar animado, com uma diversidade de pessoas se mostrando ao mundo logo pela manhã. Iniciei minha rotina. Sete e quinze já estava no meu local de sempre, transitando em busca do ônibus, sem namorado ou namorada, sem marido, sem amigos e com o destino certo, para deleite da curiosidade dos moradores do meu prédio, frequentadores da padaria e do botequim próximo, apostadores do Jogo do Bicho, taxistas falastrões. E mais ao fundo, quase escondida, uma jovem menina também me observava.

 

Wélcio de Toledo  é professor, poeta, contista, fotógrafo amador e atua em movimentos sociais e culturais da cidade, principalmente relacionados à identidade cultural, memória social, literatura e artes em geral. Pesquisa a poesia marginal e a identidade cultural em Brasília no doutorado em Literatura e Práticas Sociais da UnB. Faz parte do Coletivo Anarcopoético, que organiza ocupações artísticas em espaços abertos de Brasília juntamente com outros amigos poetas, com música, poesia, exposições ao ar livre, performances, transgressões e o que mais surgir de arte. Possui poemas em diversas revistas e coletâneas literárias, além de três livros publicados: "Poemas, Visões e Outras Viagens” (2012);  SUBVERSOS (2015); e o de contos “Rosa como o bico do meu peito” (2017). Em 2019 lança seu quarto livro, intitulado “Tudo que não cabe no poema”, pela Editora Patuá.

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