ANO 5 Edição 80 - Maio 2019 INÍCIO contactos

Hermínio Prates


Decepções de um deputado    

A turma esteve por todos os cantos berrando promessas e anunciando o paraíso, desde que eleitos. As picaretas do oportunismo e da esperteza nunca param, perfuram corações e mentes, repetindo frases feitas e discursos vazios. Uns apelam para o sentimentalismo, outros tentam ser racionais, todos mendigaram votos para depois se esquecerem dos ditos e prometidos.

 

 Novos pleiteantes se disseram santos, mas falseando o discurso. Também surgiram na rinha candidatos já cevados nas tetas públicas e em negociações espúrias. Todos, aparentemente, prenhes de boas intenções. Há quem estranhe que alguém perca tempo vendo/ouvindo o horário eleitoral, que dizem ser gratuito, acreditando que a mídia eletrônica, mesmo sendo uma concessão pública, iria veicular a campanha sem nada receber; é o mesmo que aceitar como puras as pretensões dos candidatos. Não há nada gratuito, nós, indefesos pagadores de impostos, bancamos a farra pseudo democrática através do uso e abuso das isenções fiscais.

 

Há exceções no lodaçal, mas como saber antes de votar? Uns são manjados, outros desconhecidos, e deles nada se pode esperar, a não ser o engodo de sempre. “O homem é o lobo do homem”, sacramentou o filósofo inglês Thomas Hobbes, mas não incluiu as mulheres, que subiram os degraus do mando e também mordiscam os calcanhares dos iludidos pela lábia das espertas, manha aprendida com os machos de péssimo proceder.

 

Após ver/ouvir mais um festival de palavrório inconseqüente, busquei nas gavetas da memória uma hilariante participação do Chico Anysio no programa global Fantástico, que se anunciava na época como um show da vida. O humorista, que se tornou piada até quando se casou com a Zélia Cardoso de Melo de tão triste memória, nunca conseguiu explicar o motivo de tal loucura, que resistiu quatro anos, de 1992 a 1996. Ele, um homem de muitas artes – rádio, teatro, televisão, cinema, literatura, pintura e música – caiu de amores pela responsável por tantos horrores, o pior deles o confisco da poupança de quem pouco tinha, liberando antes do bloqueio das contas as fortunas da patota embevecida pelo mando. A malvada, apenas por ser prima do ilusionista Fernando Collor, foi sinistra ministra da Fazenda de março/1990 a maio/1991. E o Chico, além dela, teve mais cinco esposas: Nancy Wanderley, Rose Rondelli, Alcione Mazzeo, Regina Chaves e Malga de Paula.

 

Não, a Zélia de cara quadrada nunca foi bonita e nem vale a pena citar o poeta Vinícius de Moraes (outro campeão em casamentos com nove empreitadas conjugais): “Que me perdoem as feias, mas a beleza é fundamental.” Ora, o Chico Anysio enveredou por outro pensar, podendo ser resumido em “quem ama a feiúra, suporta a tortura”.

 

E qual foi o histriônico mote do Chico no programa dominical? O período era pós-eleitoral e ele narrava os sonhos e decepções de um sujeito eleito deputado federal. Da idéia inicial do causo, dei brevê à imaginação para enfeitar o enredo.

 

 Ao chegar a Brasília, de terno novo e ganância antiga, o eleito se sentiu rei do corredor ao receber do secretário da casa a indicação de qual seria seu gabinete naquela cumbuca arquitetada por Oscar Niemayer. Conferiu e viu que seu nome já estava pregado na porta. Sentou na macia poltrona de couro bem trabalhado, alisou o tampo da mesa, ainda livre de qualquer papel e olhou disfarçadamente o decote e as coxas da primeira das muitas assessoras a que teria direito de requisitar ou nomear à sua livre escolha.

 

 Recostou-se na poltrona e sentiu o conforto da vitória, após campanha de tantas andanças, abraços e tapinhas nas costas de gente que nem conhecia e que só voltaria a ver nas próximas eleições. Imaginou que seria bom apresentar projetos, um que fosse, mas não conseguia se lembrar dos vários prometidos nos discursos. Bobagem – pensou – depois eu penso nisso, o importante agora é esperar o principal.

 

 E o que seria aquilo que ele julgava ser o principal? Sempre ouvira dizer que qualquer um que fosse eleito estaria feito na vida, pois à porta do gabinete se formariam filas de intermediários - os lobistas de grandes grupos empresariais -, que jorravam rios de dinheiro para os bolsos de quem votasse em projetos de seu interesse. Era nisso que pensava quando ouviu o chamado para a primeira sessão no plenário. Foi e se decepcionou, mesmo sabendo que seria um entre centenas. Ele se sentiu transparente, invisível, um ninguém. Soube depois que integrava o baixo clero, designativo para os que não eram entrevistados pelos repórteres que cobrem o Congresso, indicados para as comissões e nem conseguiam fazer tramitar qualquer projeto que apresentassem. Apenas votavam contra ou a favor no que as lideranças decidiam.

 

E o pior, desde os primeiros dias aguardara a visita dos lobistas com as pastas recheadas de notas, preferencialmente dólares, mas as semanas e os meses se foram, sem que nada do que sonhara acontecesse. Nem o apartamento funcional conseguira porque muitos ex-deputados, mesmo sem nenhum direito, se recusavam a devolver o imóvel. E ele permanecia no hotel, pago com dinheiro público, é verdade, mas sem privacidade para receber visitas íntimas. Fora alertado por um conterrâneo, esse com um cargo de excelente remuneração no gabinete de um parlamentar veterano de vários mandatos, que os deputados do baixo clero só mereciam a atenção da mídia em caso de escândalo, por exemplo, ser visto com alguma garota de programa. E existiam inúmeras, todas “capinhas de revista” como era costume dizer e agenciadas por conhecida socialite brasiliense com trânsito livre nos gabinetes dos poderosos e nos coquetéis da elite. 

 

Para ele, Brasília era um deserto, ainda não fizera amizades e nem participava de nenhuma tribo. Até para beber uma inocente cervejinha geralmente o fazia sozinho, logo ele, que gostava de contar - mais contar do que ouvir -, casos picantes de estripulias extraconjugais.

 

 Boa compensação eram as sessões extras, a que geralmente nem comparecia, mas a grana caía na conta. Como todos os congressistas, tinha direito a passagens de avião, que aprendeu a transformar em dinheiro em um esquema que o Congresso pagava, muitos não usavam e recebiam uma parte por fora. E raciocinava: visitar as bases para quê? A mulher era uma enjoada, só sabia reclamar - mesmo com cargo fantasma de bom salário sem ter que trabalhar -, os amigos exigiam empregos e favores, os eleitores cobravam as promessas. Quase sempre alegava reuniões fora da pauta para não viajar, a menos que fosse para o Rio ou São Paulo, onde a folgança era liberada. É – reconhecia -, ser deputado federal não era o que pensava, mas tinha suas vantagens. Muitas, mas nem todas que imaginara.

 

*Jornalista
herminioprates@gmail.com

 

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros.

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