ANO 5 Edição 80 - Maio 2019 INÍCIO contactos

Cecília Barreira


A partir de Peter Singer: considerações sobre uma filosofia do Bem    

Peter Singer nasceu em 1946 e é professor em Princeton na área da bioética. Desde há muitos anos que é uma referência nas causas da condição animal e de outras grandes questões emergentes.

 

Enquanto filósofo vocaciona-se para a estruturação do bem e do altruísmo nas sociedades. Situa-se à esquerda no espetro partidário de um sistema político como o dos Estados Unidos.

 

Este ano de 2019 acabou de sair em Portugal o mais recente livro do pensador Ética no Mundo Real, publicado em 2016 em inglês.

 

Há vários momentos de considerações que pretendo extrair neste breve ensaio: um primeiro, quando se referencia que os principais pensadores globais do momento não seria por acaso que são todos eles filósofos.  Zizek, Daniel Dennett, Habermas e ele próprio, Singer.

 

O papel estruturante do pensamento filosófico no encontrar dos principais dilemas de um mundo global é a força dessa vertente.  Ao contrário de Yuval Harari, académico israelita, fanático na dimensão programática do ser humano  através da Inteligência Artificial e à distância de um algoritmo,  Singer  prende-se à  condição humana e à sua eminente solidariedade inter comunidades e mesmo na condição de  indivíduo.

 

O Homem não perdeu o livre arbítrio tal como desesperado clama Harari.  Não. O Homem não é só um fracionamento bioquímico.

 

Claro que na humanidade, sobretudo a ocidente, há um crescendo de individualismo até na dimensão de um materialismo e um consumismo desenfreados. Daí Singer ponderar junto dos leitores uma atitude mais ética em relação à vida, em relação ao modo utilitarista como olhamos os animais. O visionamento ético é uma singularidade humana.

 

O sofrimento causado aos animais perturbou este filósofo desde sempre. Em 1976 iniciou um périplo de publicações em torno da condição animal. E enquanto pensador global, não descartou as questões climáticas e nos tempos mais recentes a digitalização e a emergência da internet.

 

Existem dois tipos de pensamento filosófico no mundo: o da bondade do ser humano, o do altruísmo e o do despojamento total da humanidade em relação à gratidão e à bondade.  E O Homem como fonte do mal. Ora os homens cresceram muito neste século XXI na emergência de grandes causas fraturantes e incondicionais.  Os direitos das mulheres, dos gays, das minorias, nas alterações climáticas, na guerra contra a poluição generalizada, no fim de contas, numa tendência para uma maior felicidade e equidade.

 

Claro que as forças mais conservadoras não apreciam estes desenvolvimentos. As religiões também se encontram nos questionamentos. Singer não o diz, mas o catolicismo encontra-se em crise identitária com um chamariz sobre o Vaticano e os escândalos sobre pedofilia no seio da Igreja.

 

Neste século XXI há como que uma consciência outra em relação à vida humana.

 

O aborto enquanto polémica pertence ao século XX. Embora em muitos locais do mundo, que não o ocidente, não se pense assim. A condição dos homossexuais, que em alguns países já se podem casar no civil e até de constituir família e filhos na legalização total. Portugal é um exemplo mundial da abertura a estes eixos temáticos.

 

Mas o mundo como se sabe não é o ocidente. O mundo vive nas cercanias de muita tirania mental e física. África precisa de crescer nos direitos humanos.  A Ásia também.  A condição humana espraia-se num eclodir de causas extraordinárias.  A Felicidade é um bem maior. Como usufruir da Felicidade sem abdicar de um consumismo desenfreante? Como abdicar de um consumo frenético onde se compra tudo?

 

Aí entra a margem do individualismo. O indivíduo não deixa de ter menos liberdade se optar por escolhas inteligentes. Se optar pela Vida.

 

A vida não é só a minha vida e a da minha família. Ponderemo-nos enquanto seres que se inserem num coletivo. Este coletivo já não é o conjunto sem identidade dos comunismos. A liberdade de expressão é fundamental.  Com as racionalidades adquiridas a partir de 1789, na revolução francesa, e após um século XIX onde o progresso técnico e os mecanismos liberais de governação se centraram  numa sociedade mais igualitária.

 

Em Portugal as nossas lutas pelos liberalismos iniciam-se em 1820 e prolongam-se até 1926.  Após uma longa pausa de 1926 até 1974, as tentativas de um condicionamento do poder político por algum esquerdismo e a seguir a 1976, a apologia de um regime mais facilitante e justo para todos.

 

Não é fácil contentar toda agente.  As idiossincrasias de cada um, a história familiar, a formação escolar ou académica dimensionam uma atitude em relação à vida em comunidade.

 

Do lado do liberalismo mais radical, a emergência de uma direita que não se conjuga com a libertação de minorias no que respeita ao preconceito. Do lado da esquerda, existe desde a mais ponderada à mais radicalizada.

 

Talvez a vertente mais incómoda e inquietante para as sociedades humanas seja por um lado o direito de cada um ter a opção sexual que quiser e por outro as questões ambientais e climáticas.  A atitude de percecionar a autenticidade de um direito à sua sexualidade, sem perseguições, sem intolerâncias, é a margem identitária neste século XXI. E nada foi fácil. Nem nada é fácil.

 

Por outro, a nossa necessidade de consumir plástico ou papel em demasia colide com os próprios meios naturais à disposição. Consumir tudo sem pensar é egoísta e fragilizante. A inquietação perante um planeta que tem de ser preservado, é um facto.

 

O egoísmo é normal nas sociedades. É uma naturalidade desde sempre.

 

Mas nós ainda somos portadores de um livre arbítrio. Ainda somos pensamento e racionalidade. Aliás, um aspeto que nos torna diferentes dos animais é a nossa condição de entes que sabemos que somos mortais.  A morte aguarda-nos.  Daí a nossa corrida contra o tempo.  Daí uma medicina do século XXI que já vai muito longe. Os problemas oncológicos ou a sida já se cruzam em muitos tratamentos de uma medicina global.

 

Mas por exemplo, em África os tratamentos de saúde não são para todos.  A pobreza e a fome ainda resistem. Como erradicar a fome?  Como erradicar a pobreza extrema?

 

A Europa é o continente das grandes conquistas. Mas África é um continente com muitas inseguranças.

 

Na Ásia também não há questões fáceis. A América Latina ainda se debate com muitas dramaticidades.

 

Por um mundo de Ética: A expansão da bondade e da solidariedade pode traduzir-se numa apologia do Bem.  E o bem deve ser a nossa primeira prioridade.  Não ao ponto de abdicarmos da nossa realidade somática.  Mas de estendermos uma mão às causas solidárias. Sem o egoísmo radical que liberalismos ultrarradicais nos propõem.

 

 O outro lado desta dimensão é o eclodir de populismos. Os populismos são de um egoísmo dilacerante. Mas estão aí. E há que pensar que chegaram em força.  Para o pensamento ético, há que percecionar como dialogar com os populistas e ultrapassar as crises de identidade que esses movimentos propõem. Nada se faz sem o diálogo. As guerras só se perpetuam sem o diálogo.

 

O Bem é o apelo a uma virtude maior: a consciência da nossa finitude e a solidariedade com aqueles que sofrem. Com ou sem religião. O Humanismo ainda não morreu.

 

Cecília Barreira – CHAM/FCSH /UNL

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Revista InComunidade, Edição de Maio de 2019


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