ANO 5 Edição 79 - Abril 2019 INÍCIO contactos

Alexandre Brandão


Poemas    

Poema do amor em queda

 

Hei, baby, esse nosso arregaço
está me deixando com um taco atrás da orelha
e uma pulga no sapato —
lasca dessa madeira, você sabe

 

Nosso amor vinha bem, baby,
até cairmos na ditadura das invenções
uma omelete de vísceras de cremogema e um risoto doce de covardias
deram no que deram — isso que não deu

 

Tô agarrado à sorte das loterias
e vivo a alegria dos potes vazios
você, baby, imagino, lava a tristeza na máquina de moer roupa

 

ou bebe ainda trigo a cerveja dos anjos tolos
ou escreve esse mesmo poema às avessas.
Beleza, você diz, enquanto descasca a cebola dos nossos erros.


 

 

 

 

 

Seiva e sangue

 

Vem em minha direção como se não chegasse
mas partisse —
com a raiva de quem vai
com o sofrimento de quem teve de ir

 

Atropela quem vê
E quem não vê —
como se fossem pequenas aves sem asas
como se não passassem de invisíveis formigas

 

E se joga em meus braços,
como se eu fosse uma árvore, e ela
não procurasse a sombra
nem se desse à empatia do que brota da terra,
como se eu, a árvore, e ela, a que vai,
fôssemos a última máquina de seiva e sangue.

 

 


 

 

 

Um grito

 

Sou coisa mansa
vale sem água protegido por montanhas
me faço ouvir pela mímica do sapato
enquanto fujo
pela mímica da dor
enquanto roo as unhas e o silêncio

 

Roo o silêncio
na quebrada invariante da tarde
e chuto seu eco, esse
pássaro visível
pássaro sem medida

 

Coo a noite feito café
e caio em pó nos braços da escuridão
pó manso
brisa inerte
grito cheio de graça com o infortúnio.


 

 

 

 

 

Num momento assim

 

Ao sair do eixo
Feito um pato sem plumas diante do espelho
Ou, diante do mesmo espelho, o espelho da alma de um gato triste

 

A memória caçoa do desejo —
Esse que escreve descolorido
Em pergaminho que não guarda segredos.

 

E eu me pergunto:

 

Quem costura a fissura da dor?
Quem limpa o dejeto da beleza?

 

O braço com sede de morfina
O rosto pálido do sem-vergonha
A nostalgia rasteira dos confusos
— ou nada disso.

 

O verbo adjetivo
A frase sem vida
O pôr do sol depois do susto da chuva
— ou nada disso.

 

Quem?


 

 

 

 

 

Perguntas à toa

 

Você poderia me dar um silêncio de seu tempo?
Por que os cegos fecham os olhos ao recordar?
De vinte em vinte a gente ultrabraça o intocável?
Com quantas palavras é possível navegar um minuto?
Por que o riso fuma maconha?
Vovó contraiu o diabetes num beijo mal dado?
O que não estou vendo é uma chuva que brota do chão?
Quando me distraio eu roubo a alegria dos beduínos?
O dia brigou com a morte?
Aquele relógio estava desesperado?
A cor da ilusão esgana?
No céu, a terra é um esquecimento?
Os urubus salgam os próprios voos?
Se uma palavra for elevada ao quadrado nós nos entenderemos menos ainda?
Posso morrer depois de passar o café?
Você está rindo pra onde?
É possível acender cigarro em ovo?
As gotas invejam a enxurrada?
Alguma mulher pelada tentou entrar numa revista esquecida no banheiro?
O que pensa o escocês que só me viu em sonhos?
Dois e dois vai além da matemática?
Do lado de lá dói?
O que o cansaço diria ao tempo?
Você poderia me dar um minuto do seu temperamento?
A função social do homem é prender o choro?
Qual o melhor remédio para não se curar de nada?
A histeria conhece os canais de Veneza?
Por que o mar não nos conta tudo?
Todas as palavras são inconstantes?
A sujeira tem saudades do esfregão?
O que meu pai fez com o não de minha mãe?
O sol também sabe?
O buraco da fechadura mede o poder que transfere aos olhos do curioso?
Se essa rua fosse minha eu seria menos órfão?
Chegaremos a tempo de adiar a noite?
Quantas perguntas tem a incerteza?


 

 

 

 

 

Em silêncio

 

O cais do caos
a pedra do penhoar
o cós do cobre
a voz do vórtice
tudo em silêncio

 

A tempestade da tâmara
o suicídio da sucata
a colher da cólera
o peão da pedra
tudo em silêncio

 

A seiva da selva
o obituário do obséquio
a noiva do nódulo
o móbile da morte
tudo em silêncio

 

O silêncio sonso
o seco
o silêncio suave
o súbito
vozes que me calam.


 

 

 

 

 

Os nomes do medo

 

Teremos medo, todos sabem,
por isso, alguns afirmam, seremos tomados por cancros
que nos matarão
no íntimo da família
nas bocas do mundo
         — do medo, o fim.

 

Cedo ou tarde, o medo calcinará ao revés nossa força
sem que nos mate. Outros dizem e prosseguem:
os cancros não passam de flores selvagens
que nascem como caem os dentes
um dia um, outro dia outro
         — o medo, uma roseira banguela.

 

O medo é a mão invisível que nos guia até o outro lado da rua
o medo é o juízo ingênuo
luz nenhuma da lua nova
o medo é triste
quase incêndio
         — sol que não se reconhece.

 

Do medo ao mundo
um pulo
do medo ao modo
um mundo
do medo ao medo, o próprio, em si, miúdo infinito.

 

 

 

 

 

 

Feito de milho

 

Meu silêncio debulha milho
em noite inexistente.
No batente, é velho
é forte
         — e insolente também é.

 

Meu silêncio desfaz angu e mingau
descome polenta e chora pamonha.
De tanto, quedou amarelo
do sorriso ao não olhar
         - do pássaro ao espantalho.

 

Meu silêncio debuxou
em percurso de sol travesso
o vazio siroco de outros silêncios
como se fosse desdança
         — no milharal, funk pipoca sem pulo.

 

Meu silêncio, esse fubá,
em noite que canjica cega o céu,
olha faroleiro
como se cuidasse de navios de carne
         — cortando flocos de farinha triste.


 

 

 

 

 

Senhor cansaço

 

Nesses dias
Meu cansaço é minha companhia
É meu sexo e é meu medo
Tudo que tenho, tudo que não mereço

 

Nesses dias
Meu cansaço é, do apetite,
Um manjar faminto
Um silêncio suado, um ruge destino

 

Nesses dias
Meu cansaço canta
O verso que some
O verbo que de mim consome

 

Nesses dias
Meu cansaço é secreto
Se esconde no meu andar ligeiro
No chão que pede meu beijo.

 

 

 

Alexandre Brandão, contista e cronista brasileiro, é autor de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio), entre outros. Mantém o blog No Osso (noosso.blogspot.com.br).

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Paginação:

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