ANO 5 Edição 79 - Abril 2019 INÍCIO contactos

Amoi Ribeiro


Brasil despedaçado    

Diante da avalanche de más notícias sobre o Brasil que diariamente recai sobre nós que preservamos a sensatez, quase não temos chance de parar para refletir sobre o incompreensível: o que realmente está acontecendo com o Brasil? Incompreensível, porque é inaceitável e, no entanto, o absurdo é tão real que nos deixa em estado de letargia, imobilizando-nos. E sem querer aceitar a realidade, a imobilidade faz com que a deixemos acontecer. Face à Aporia, a personificação da impotência, do impasse, da incerteza, esperamos atravessar o mais breve possível este caminho inexpugnável.

 

No momento, existe um presidente no Brasil que, sem programa de governo em sua campanha eleitoral, sem ter participado em debate importante e decisivo, cujos preconceitos e racismo foram expostos frequentemente por meio de seus pronunciamentos ao longo de sua vida política, foi mesmo assim eleito pela metade da população que acreditou poder ele melhorar o país, sobretudo, aniquilando o partido adversário, o Partido dos Trabalhadores. Jair Bolsonaro é sincero (quando ele não se emprenha em ocultar as verdadeiras finalidades das movimentações financeiras com seu ex-assessor, Flavio Queiroz), é espontâneo e possui, segundo as suas crenças, a “melhor” intenção para o país.

 

Essa intenção foi ressaltada na ocasião do jantar, na residência do embaixador do Brasil, em Washington, ao lado de Olavo de Carvalho, Steve Bannon, Sérgio Moro, e dos ministros Paulo Guedes (Economia); Augusto Heleno (Segurança Institucional); Bento Albuquerque (Minas e Energia); Ernesto Araújo (Relações Exteriores); Marcos Pontes (Ciência, Tecnologia e Comunicações); e Tereza Cristina (Agricultura), Bolsonaro declara: “O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos de desconstruir muita coisa, desfazer muita coisa, para depois começarmos a fazer. Que eu sirva para que, pelo menos, eu possa ser um ponto de inflexão, já estou muito feliz. O nosso Brasil caminhava para o socialismo, para o comunismo, e quis a vontade de Deus, entendo desta maneira, que dois milagres acontecessem: um é a minha vida, e o outro é a eleição. E nessa missão que nos foi dada, eu tenho certeza que Ele sempre estará do nosso lado e me dará, mais do que inteligência, nos dará coragem, determinação e boas pessoas do meu lado –como tenho aqui, nesse momento, sete ministros– para a gente poder levar adiante o que nós queremos deixar, não no tocante à Presidência, mas no tocante à democracia e liberdade para os nossos filhos.”

 

Este discurso histórico repleto de desconhecimento e despreparo revela o fundamento do governo Bolsonaro. A memorável frase: “Nós temos de desconstruir muita coisa, desfazer muita coisa, para depois começarmos a fazer”, poderia ser associada ao pássaro Fênix, que na mitologia grega simboliza a renovação através da destruição. Fênix quando morre entra em combustão e renasce das próprias cinzas. Entretanto, não é o caso quando ela é pronunciada por um homem racista, homofóbico, machista, inculto e néscio. Aqui não se trata de modernização, aperfeiçoamento, reparação, mas significa apenas um governo isento de ponderações e infenso às negociações com a oposição e, rendido a uma obsessão ideológica, concentrado no desfazer, no desestruturar, no desmanchar.

 

Mas o que exatamente Bolsonaro rechaça? No país de Bolsonaro e da extrema-direita, no país do neoliberalismo irrefreável e do capitalismo selvagem, redistribuição de riquezas e projetos sociais pertencem ao comunismo. Neste país, o lugar da população pobre é o da luta pela sobrevivência nua e crua, da punição, da discriminação e da retirada de direitos. Neste país, o Estado deve ser minimizado e existir apenas para os mais abastados, uma vez que as vantagens para o Judiciário, em forma de auxílio-moradia, o auxílio financeiro para bancos, impostos baixos para os mais ricos e a aposentadoria vitalícia para os militares continuarão existindo e são intocáveis. O Estado aqui existirá exclusivamente para defender os interesses da classe econômica e política. Na concepção da extrema-direita e do populismo, consequentemente na de Jair Bolsonaro, o que diz respeito à emancipação da mulher, à inclusão de deficientes na sociedade, à demarcação de terras indígenas, à distribuição de terras para os sem terras, à ecologia, à humanização da polícia com melhores salários e treinamentos, à escola, ao ensino superior e ao sistema de saúde gratuitos, em suma, tudo aquilo consoante à administração humanista da sociedade é interpretado como uma ameaça comunista. É de se admirar que um povo não queira ser realmente comunista diante desta “ameaça”! É surpreendente que um povo tenha tanta dificuldade em reconhecer que essas medidas são benéficas para a sociedade inteira e podem muito bem ser integradas em um sistema capitalista!

 

Quando o presidente de uma nação começa o seu governo “desconstruindo”, ele revela ser essa a sua essência. Mas aqui não se trata de extinguir as epidemias de zica ou dengue, acabar com o aumento da febre amarela, do analfabetismo, da pobreza, da fome, da alta taxa de desemprego, da precariedade das escolas públicas, do desrespeito aos professores, do desmatamento na Amazônia, da caça a animais selvagens, ou com a emissão excessiva de gás carbônico no ar. Não, não se trata desta destruição! O que o governo Bolsonaro e seus aliados pretendem é substituir a infraestrutura do país, construída nos governos anteriores com muito sacrifício e marasmo, há décadas, uma infraestrutura democrática ainda que inconsistente, mas democrática, por uma base estrutural montada em empresas e nos princípios do meio empresarial.

 

No país do Bolsonaro não existe país, a nação deve submeter-se ao mundo excludente, materialista e ganancioso do comércio e seu lucro. Na nação de Bolsonaro, na qual a cultura e o ensino são vistos como nocivos à população, multiplicar-se-ão cidadãos ignorantes e brutos e a justiça feita pelas próprias mãos. E sendo a sua absoluta preocupação restrita à desconstrução, não há tempo para construir. Desta “desconstrução”, dos escombros chamados Brasil haverá espaço para nascer somente aquilo que anula a solidariedade e a civilidade. Este presidente inepto em apreender o cerne da nação brasileira: a sua cultura diversificada, a mentalidade flexível, as línguas portuguesa e indígenas, a riqueza da natureza, os costumes diversos, nega a sua origem, recalca o seu complexo de inferioridade e idolatra de forma acrítica e subserviente um único país: os EUA, como se este país fosse o parâmetro para todo tipo de progresso no âmbito econômico, social e político.

 

No país do Bolsonaro, existe o direito de celebrar a ditadura, regime que por excelência comete crimes contra a humanidade, conhecido por assassinar adversários políticos e promover a tortura, inclusive de mulheres e crianças. O povo que o elegeu deseja a submissão e a “tranquilidade” daqueles que não pensam por si só, que repudiam o discernimento, abominam o direito de igualdade e desejam que outros tomem decisões por eles, outros com os mesmos princípios, argumentos e intenções como eles, que possuam o poder de oprimir a classe pobre com mais brutalidade e os cidadãos que pensem diferente.

 

Na ética de Nicômaco, “a política é a ciência do Bem para o homem”, no imperativo categórico kantiano, a moral do Homem deve ser reduzida a um único mandamento fundamental, aquele proveniente da razão, isto é, da sensatez, não da autoridade divina. Para Kant o homem deve “agir somente de acordo com a máxima, pela qual você pode, ao mesmo tempo, querer que ela se torne uma lei universal”, em outras palavras, não deseje aos outros aquilo que você não pode querer para si mesmo. Longe de conhecer qualquer premissa filosófica, o presidente Jair Bolsonaro de extrema-direita e populista faz o bem somente àqueles que pensam como seus asseclas, governa visando a vantagem da elite empresarial e objetiva desconstruir a nação para construir a empresa brasil & CIA (brasil com letra minúscula e Agência Central de Inteligência), na qual ele coloca a classe-média trabalhando para a elite política e empresarial e pode despedir outra grande parte do povo brasileiro, abandonando-a à margem da sociedade.

 

Amoi Ribeiro, pseudônimo

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Revista InComunidade, Edição de Abril de 2019


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