ANO 5 Edição 79 - Abril 2019 INÍCIO contactos

Carlos Matos Gomes


Identidade, coesão social e sindicalismo de classe    

Em Estados de formação muito antiga, como é o caso de Portugal, os vários grupos sociais criaram ao longo dos séculos um sentimento de pertença comum, aquilo que se designa por identidade nacional. Em Estados que desde há muito convivem com povos fora das suas fronteiras, como é o caso de Portugal, a sociedade matricial ganhou o saber de integrar, por vezes de forma violenta, outras comunidades. O resultado foi até agora uma sociedade com forte coesão nacional, o que permitiu o bom e o mau, Aljubarrota, as navegações mundiais, mas Álcácer Quibir, a Restauração, mas as guerras civis do liberalismo, a Ditadura do Estado Novo, mas também o 25 de Abril de 74.

 

Estamos, estivemos juntos, utilizando a frase dos rappers. O 25 de Abril terá sido o último grande momento de coesão social. Talvez, mas menos consensual, a adesão à Comunidade Europeia, esta resultante do golpe de Estado dos capitães, tal como a descolonização.

 

O aspecto mais marcante da adesão à Comunidade Europeia é, ao contrário do que nos querem fazer entender os formatadores do pensamento dominante, ideológico e não económico. A adesão à CEE e à UE alterou o paradigma da identidade nacional que ao longo dos séculos se tecera e substituiu a coesão social pela competição do mercado. Competir passou a ser o santo e a senha. Competir, vencer a todo o custo. A sagração da lei da selva.

 

Do antecedente, até ao 25 de Abril, as relações de domínio de classe em Portugal eram apresentadas como promovendo um bem nacional. A Igreja agia para o bem da Nação, assim como as grandes famílias. A luta de classes tinha dois campos definidos. A atomização das relações de produção provocadas pela ”abertura” ao capitalismo globalizado trouxe os factores de desagregação social para o interior da grande de assalariados.

 

É surpreendente, mas real, que tenha sido o movimento ideológico conhecido por “neoliberalismo”, hoje dominante, a promover o novo reforço do papel do Estado na sociedade portuguesa e que tenham sido os sindicatos a promover a luta entre trabalhadores. Não deixa de ser irónico, social e politicamente trágico, que sejam os sindicatos a introduzir e a promover a luta de classes entre os trabalhadores. O grande problema nacional são as “carreiras” dos funcionários públicos! O desígnio nacional é o “descongelamento” e a progressão dos funcionários do Estado! Cesse tudo o que a Musa antígua canta/ Que outro valor mais alto se alevanta.(Lusíadas)

 

Da velha frase de “proletários de todo o mundo uni-vos” passou-se para “proletários de todo o mundo façam-se funcionários do Estado e saquem o mais que puderem!”

 

Os movimentos político-reivindicativos dos sindicatos das corporações do Estado – professores, enfermeiros, médicos, juízes, guardas de várias causas, funcionários em geral, militares – são, goste-se ou não, projecções do novo paradigma da sociedade portuguesa, são movimentos thatcherianos, no sentido em que, para Thatcher, a sociedade não existia, mas indivíduos. Estas lutas são a tradução desse princípio: a classe trabalhadora não existe, mas sim sindicatos decididos a obterem o maior quinhão de riqueza e bem-estar possível e à custa de outros trabalhadores. O homem funcionário lobo do homem assalariado e precário.

 

A sociedade, como um todo, com um desígnio comum e referências interiorizadas, pelas quais vale a pena os seus elementos baterem-se deixou de existir, ou está a desaparecer às mãos dos sindicatos corporativos do Estado.

 

É também neste novo caldo de cultura, da supremacia dos funcionários do Estado sobre os cidadãos – tido no imaginário da sociedade como um “valor de esquerda”, que crescem e medram os movimentos de extrema-direita. Estes aproveitam, como lhes compete, as armas que a “esquerda sindical e corporativa” lhes fornece: desigualdade, “dessolidariedade” e “desidentidade”.

 

Carlos Matos Gomes

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Revista InComunidade, Edição de Abril de 2019


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