ANO 5 Edição 79 - Abril 2019 INÍCIO contactos

Angelo Abu


Angelo Abu, em depoimento: “ Em 2019 revivi aqui toda a história da minha vida profissional, o que me trouxe uma espécie de frescor. Um senso de renovação, um prenúncio de novos começos.”    

Angelo Abu é corruptela de Angelo Hermeto Abi-Saber. Bisneto de imigrantes libaneses e italianos miscigenados com o caldeirão étnico que é o Brasil, nasci em Belo Horizonte, estado de Minas Gerais, em Junho de 1974. Aos 5 anos de idade, mudei-me com minha mãe, recém divorciada e sua namorada, para Porto Seguro, estado da Bahia. Na época era ainda uma pequena e desconhecida cidade praiana, onde elas abriram um restaurante e pude viver uma infância muito livre. Foi lá que mergulhei profundamente no universo das histórias em quadrinhos (bandas desenhadas), que era uma paixão que compartilhava com meus primos mineiros. Fiz da única banca de revistas da cidade o meu templo, que visitava quase diariamente em busca das novidades que sempre chegavam. Desenhava histórias compulsivamente. Desenho e narrativa tornaram-se assim, indissociáveis para mim.

 

Acabei retornando para Belo Horizonte 3 anos depois, onde passei toda a adolescência. Quando completei 17 anos, decidi estudar por um ano em outro país, e o destino acabou me enviando para o estado norte-americano de Oklahoma, para uma cidadezinha chamada Tahlequah, polo cultural dos Cherokees. Lá, fiquei conhecendo um artista chamado Murv Jacob, que dentre outras habilidades, ilustrava livros infantis, sobretudo, mitologia Cherokee. Murv acabou tornando-se uma grande influência.

 

Paralelo a tudo isso, apaixonei-me por psicanálise, por interpretações psicanalíticas de mitos, filmes e fábulas. Quando voltei ao Brasil acabei cursando dois anos de psicologia na UFMG, sempre com o foco nas narrativas. Até que em 1995 aconteceu uma oficina de ilustração no Festival de Inverno da UFMG, na cidade mineira de Ouro Preto, ministrada pelos ilustradores/autores Marilda Castanha, e Paulo Bernardo Vaz, que haviam tido a genial ideia de pedir textos inéditos a editores para que, a partir deles, pudéssemos trabalhar. Depois de um mês, o resultado foi apresentado aos editores para que fosse analisado e eventualmente, publicado. Foi o que ocorreu com as ilustrações que fiz para o texto de “Zoomágicos”, de João Carrascoza, pela Editora Formato. Assim foi minha estreia como ilustrador de livros. Um ponto de virada em minha vida.
Dali em diante comecei a ilustrar cada vez mais. Ingressei então na Faculdade de Belas Artes da UFMG, onde acabei por graduar-me em Cinema de Animação, no ano 2000.

 

Em 1999 o livro “Pena-Quebrada, o Indiozinho”, de João Geraldo Pinto Ferreira, também pela editora Formato, destacou-se por ficar entre os 10 finalistas na categoria ilustração do Prêmio Jabuti, a premiação mais importante em literatura no Brasil.

 

Imagens do Livro “Pena-Quebrada, o Indiozinho”, de João Geraldo Pinto Ferreira, Ed. Formato, 2000.

 

O Homem da Árvore na Cabeça”, adaptação de Celso Cisto, Ed. Nova Fronteira, 2015.

 

Ao longo desses anos foram mais de 100 livros, entre didáticos e literatura.

 

A Voz de Sofia”, de Andréa Belo, Ed. Autêntica, 2009.

 

Ciço Na Guerra dos Rebeldes”, de Flávio Paiva, Cortez Editora, 2014.

 

Benito Cereno”, de Herman Melville, tradução de Marcos Maffei. Ed. Aletria, 2015.

 

Em 2006, com as facilidades tecnológicas que foram surgindo, (computadores e scanners portáteis cada vez mais leves, redes de Wi-Fi disseminadas...) percebi que poderia ilustrar de qualquer parte do mundo. Foi quando iniciei uma fase nômade em minha vida, que resultou em um projeto que venho chamando de “Censos Ilustrados” – ainda sem editora definida. Consiste em fotografar e posteriormente desenhar personagens representativos de alguns daqueles países e, através de legendas, esboçar um panorama humano de cada lugar. Este trabalho segue em construção, ao longo dos anos.

 

 

Indianos retratados para o projeto “Censos Ilustrados”. Além destes já fiz dos turcos, suecos, cubanos e moçambicanos, entre 2012/2017, ainda sem editora definida.

 

Em 2010 participei de um concurso cujo prêmio era o ingresso profissional no jornal “Folha de S. Paulo”. Sempre quis ilustrar para um grande veículo de imprensa. Acabei ficando em primeiro lugar na categoria Caricatura, e assim passei a colaborar ocasionalmente para o jornal.

 

Caricaturas palíndromas de Dilma Roussef/Lula, Fidel Castro, Dalai Lama e Roberto Carlos.

 

Em 2013, recebi um convite da Editora Peirópolis para adaptar para os quadrinhos (banda desenhada) qualquer clássico da literatura mundial que já estivesse caído em domínio público. Percebi que a obra “Macunaíma”, de Mário de Andrade, um clássico do Modernismo brasileiro, estava em vias de se enquadrar naquele critério. Assim, convidei um grande amigo, o Dan X para me acompanhar na empreitada, que durou dois anos. O livro foi lançado no princípio de 2016, com grande destaque midiático.

 

Capa do livro “Macunaíma em Quadrinhos”, adaptação do livro de Mário de Andrade de 1928 feita por mim em parceria com Dan X. Editora Peirópolis, 2016.

 

Naquele mesmo ano recebi um convite da Editora Cia. Das Letras para refazer a capa das edições brasileiras de 15 livros do escritor moçambicano Mia Couto. Para aprofundar em minha pesquisa, fui até Moçambique e comecei a ministrar uma oficina de ilustração para crianças em uma instituição filantrópica de Maputo, o Centro Hakumana. Ao final, a oficina acabou por resultar em uma bela exposição de pinturas na Embaixada do Brasil em Moçambique.

 

Imagens realizadas pelos alunos do Centro Hakumana durante Oficina de Ilustração
Expostas na Embaixada do Brasil em Moçambique.

 

 

Durante as tais oficinas gravei histórias da tradição oral moçambicana contadas por meus alunos, e agora, como um segundo resultado direto daquele encontro, estou preparando um áudio-livro em parceria com eles, cujo personagem principal acaba sendo a língua portuguesa, com suas variações regionais (no caso, brasileira e moçambicana). Este projeto ainda segue sem parceria editorial.

 

De volta ao Brasil, baseado em toda minha vivência moçambicana e imerso na obra do Mia, ilustrei suas 15 capas.

 

Capas para edições brasileiras dos livros de Mia Couto, Cia das Letras, 2016 e 2017

 

Imagens em construção para o projeto “À Sombra da Mangueira”, ainda sem editora definida

 

No final de 2015 entrei para a equipe do longa-metragem de animação para adultos “Nimuendaju”, para criar sua concepção visual. No ano seguinte passei a trabalhar como diretor de arte do filme, ainda em fase de produção.

 

Em 2017 fui convidado pelo jornal Folha de S. Paulo para ilustrar semanalmente a coluna do cronista português João Pereira Coutinho.

 

Ilustrações feitas entre 2017 e 2019 para a coluna do cronista João Pereira Coutinho para o caderno Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo.

 

Em 2019 revivi toda a história da minha vida profissional, ao ser convidado para participar desta página, o que me trouxe uma espécie de frescor. Um senso de renovação, um prenúncio de novos começos.

 

Angelo Abu, ilustrador brasileiro, nascido em 1974, em Belo Horizonte, Minas Gerais.

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Revista InComunidade, Edição de Abril de 2019


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Colaboradores de Abril de 2019:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandra Vieira de Almeida, Alexandre Brandão, Amoi Ribeiro, Angelo Abu, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Carlos Alberto Gramoza Vilarinho, Carlos Emílio Faraco, Humberto Guimarães, Carlos Matos Gomes, Cássio Amaral, Constâncio Negaro, Danyel Guerra, Deisi Scherer Beier, Delalves Costa, Eduardo Wotzik, Hélio Aroeira, Henrique Prior, Jesús Fuentes, José Arrabal, José Gil, Leila Míccolis, Marcelo Frota, Marcia Kupstas, Marcus Groza, Maria Alice Bragança, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Mulherio das Letras, Patrícia Porto, Paulo Loução, Ricardo Ramos Filho, Rocío Prieto Valdivia, Viviana Bosi


Foto de capa:

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Paginação:

Nuno Baptista


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