ANO 5 Edição 79 - Abril 2019 INÍCIO contactos

Patrícia Porto


A liturgia dos milagres    

 

E estou de longe,
compadecida.
Minha vigília
é anfiteatro
que toda a vida
cerca, de frente.
Não há passado
nem há futuro.
Tudo que abarco
                                  se faz presente.   

 

- Cecília Meireles

 

 

Mesmo os católicos muitas vezes se esquecem que a cerimônia litúrgica é uma celebração dividida em quatro partes: Ritos Iniciais, Rito da Palavra, Rito Sacramental e Ritos Finais. Lembrei disso, aprendido na minha infância em colégio católico, ao ler A Liturgia do Tempo e Outros Silêncios, de Wanda Monteiro. Não foi uma recordação gratuita nem efêmera. Foi mais próximo de um insight (ou comunhão, se preferirem), quando fechei a última página do livro e comecei a pensar neste texto.

 

O primeiro ponto que devo destacar é que a leitura de A Liturgia do Tempo e Outros Silêncios deveria ser feita como se a obra fosse um romance. Sugiro que os poemas sejam lidos em sequência e, de preferência, de uma vez só, respeitando os diálogos presentes e seus respiros. Só assim alcançamos o efeito do ato litúrgico, do Religare que a autora proporciona. Pois, neste livro, Wanda Monteiro não é uma escritora apenas. É também uma celebrante, que parece encarnar uma tríade – poeta, prosadora e milagreira.

 

Explico melhor: em vez de dividir a obra em partes, Wanda Monteiro optou por utilizar pequenos trechos em prosa para introduzir o grupo de versos que vem a seguir. Foi isso que me fez pensar na cerimônia litúrgica, em que sempre há uma introdução aos ritos. Outros também se lembrarão – e com bastante pertinência – dos coros presentes nas tragédias gregas. A prosa é o coro. A prosa é o tempo que se dilata para a passagem do cordão dos milagres, como no círio de Nazaré. E os poemas que se seguem ritmados são também mãos entrelaçadas, dialogadas entre o tempo que se abre aos ritos dos silêncios e outras passagens. Pois somente no silêncio nos religamos à terra, aos rios, às profundezas das matas e às profundezas do ser. Todo silêncio também é uma forma de milagre. Estar em si no tempo de celebrar-se, de emborcar o corpo para ver de dentro a paixão, a dor de crescer, amadurecer diante da inexorável porosidade do tempo.

 

Da carpintaria do livro passamos ao tema de Wanda Monteiro sem perder o eco dessa artesania fundamental, porque é em seu empenho estético que ela se desvela e se consagra. Wanda Monteiro está na entrada da floresta e nos convida a entrar no tempo presente, no seu inconsútil diálogo com o passado e seu inevitável aceno ao futuro. A poeta nos oferta o pão dos milagres e propõe um diálogo “desacademizado” com a filosofia que traz para a nossa reflexão cotidiana ingredientes como escolhas, destinos, marcas, lembranças, inevitabilidades e aceitações, não por acaso elementos que reforçam os elos da obra com a religiosidade e a saga épica dos ritos litúrgicos.

 

Há uma poética da passagem no tempo litúrgico de Wanda Monteiro, há uma trama poética que faz da poesia uma via de diálogo com uma ou mais de uma possibilidade de existência e de resistência ao esquecimento. Existe uma poética desse tempo que é um mergulho único na eternidade dos outros silêncios, o tempo fluído da memória que corre como Kairós, um tempo que guarda dentro dos ponteiros a não-linearidade e que por isso é o próprio movimento e é também a alquimia, numa mudança contínua de um estado para o outro.

 

Dos versos em si, não há muito o que falar sobre a maestria da autora, que atravessa liricamente os tempos que propõe. Ler uma escritora que atinge a maturidade poética juntamente com a maturidade temática é um grande prazer estético. Trago a seguir alguns exemplos.

 

“no exato quando do entreato
o tempo nos toma de assalto”

 

“olha
procura por debaixo das coisas miúdas
os sentidos partidos ao meio pelo tempo
recusa a morte”

 

“na janela o espelho
no espelho o tempo
preso no silêncio da imagem”

 

Para ser justa, deveria copiar o livro todo aqui. Mas devo deixar para o leitor as descobertas e os deleites que esta viagem verdadeiramente anímica pelas palavras pode proporcionar. Acrescento apenas que, num diálogo com a notória abertura do Evangelho de João (“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o verbo era Deus”), Wanda Monteiro encerra o livro com a frase “O verbo esse deus feito de luz e silêncio”. Luz talvez. Mas de silêncio não mais, pois encontrou na autora uma pitonisa em consonância com a mais elevada poesia.

 

Fotografia: Bruno Pellerin

 

Wanda Monteiro, advogada, escritora, uma amazônida nascida à margem esquerda do rio Amazonas no Pará, tem seus textos publicados em várias revistas literárias, virtuais e impressas, tais como: Acrobata, Diversos Afins, Gueto, Ruído Manifesto, Mallarmargens, Zona da Palavra, Intacta Retina, Relevo, InComunidade, LiteraturaBr e outras. Atua como colaboradora em vários movimentos de incentivo à leitura no Brasil. 

Obras publicas: O Beijo da Chuva, Ed. Amazônia, 2008; ANVERSO, Ed Amazônia, 2011; Duas Mulheres Entardecendo, Ed. Tempo, 2015; Aquatempo, Ed. Literacidade, 2016.

Onde adquirir: Editora Patuá

 

 

Maranhense, professora universitária, formada em Letras e Mestre e Doutora em Políticas Públicas e Educação, organizou o livro Poemas de Portinari (Funarte), publicou a obra acadêmica Narrativas memorialísticas: por uma arte docente na escolarização da literatura (2010) e os livros de poesia Sobre pétalas e preces (2013), Diário de viagem para espantalhos e andarilhos (2014)  e Cabeça de Antígona (2017). Também é autora do volume de contos A Memória é um Peixe Fora D’Água (2018). Seus textos estão presentes em coletâneas poéticas e sua atuação como escritora ainda inclui a participação em vários eventos literários no Brasil e no exterior. 

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Abril de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Abril de 2019:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandra Vieira de Almeida, Alexandre Brandão, Amoi Ribeiro, Angelo Abu, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Carlos Alberto Gramoza Vilarinho, Carlos Emílio Faraco, Humberto Guimarães, Carlos Matos Gomes, Cássio Amaral, Constâncio Negaro, Danyel Guerra, Deisi Scherer Beier, Delalves Costa, Eduardo Wotzik, Hélio Aroeira, Henrique Prior, Jesús Fuentes, José Arrabal, José Gil, Leila Míccolis, Marcelo Frota, Marcia Kupstas, Marcus Groza, Maria Alice Bragança, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Mulherio das Letras, Patrícia Porto, Paulo Loução, Ricardo Ramos Filho, Rocío Prieto Valdivia, Viviana Bosi


Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Crucificação branca' (1938)


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR