ANO 5 Edição 79 - Abril 2019 INÍCIO contactos

Carlos Emílio Faraco, Humberto Guimarães


Três poemas de Carlos Emílio Faraco ilustrados por Humberto Guimarães    

[sem título, 2019] Humberto Guimarães.

 

 

 

 

 

 

 

A cada dia me subtraio:
Sou um eterno ensaio.

 

 

 

 

 

 

 

[sem título, 2019.] Humberto Guimarães

 

 

 

 

 

 

 

"Dobrado pela chuva
O bambu volta a alçar-se
Para ver a lua".
(Bashô)

 

Alquebrada por tristezas,
Minha alma, qual bambu,
Soergue-se pouco a pouco
Para espiar as marcas
Que me deixaste no corpo:

 

Um rastro níveo de beijos
Forjados para acalmar
A pele eriçada em desejo
Com a qual a tua, muda,
Já não tem o que falar.

 

Dois olhares piedosos
Nascidos de vistas sagazes
(Que a outrem já entregaste)
A me cegar as pupilas
Servas do teu olhar.

 

Uns dedos escorregados
Por entre os cabelos revoltos
Da minha cabeça vergada
Sobre o eixo de uma culpa
Que me insiste em nausear.

 

Uma par de pés inexatos
Que aos meus não mais se alinham
No desenho dos caminhos
Que a alma-bambu desconhece:
Estranho,
Doído,
Sozinho.

 

 

 

 

 

 

 

sem título, 2019] Humberto Guimarães.

 

 

 

 

 

 

 

O outono existe
Simplesmente por existir,
Não para ser compreendido.
A folha que amarelou,
Se pudesse olhar-se ao espelho,
Se veria como folha -
Pois não sabe o que é amarelo.
Ao cair,
A folha não atina com sua queda,
Porque desconhece o que é permanência.
O outono,
Ao contrário das gentes,
Não enxerga contrapontos,
Apenas se deixa ser.
Não se saber
É a sabedoria extrema
Que a natureza guardou
Para seus filhos diletos,
Não para os humanos,
Essas arrogantes excrecências
Que assinam poemas de amor
E mil canções desesperadas
Para enganar o próprio olhar,
Incuravelmente carente
De entender as essências.

 

 

 

 

 

 

 

Carlos Emilio Faraco

 

 

 

 

 

 

 

Humberto Guimarães

 

Carlos Emilio Faraco é professor e coautor de obras educacionais. Começou a escrever o que entende ser poesia e ficção há 6 anos, perto dos 70, no twitter e no facebook. Atualmente substitui a mentira cotidiana pela ficção. Em 2015 lançou, pela Penalux, um livro de poemas: Navegar é conciso.

 

Humberto Guimarães, artista plástico brasileiro, nasceu em Sabará, Minas Gerais, em 1947. Desenhista e pintor, é professor de desenho na Escola Guignard em Belo Horizonte. Iniciou sua carreira de ilustrador no periódico Suplemento Literário de Minas Gerais, em 1970. Recebeu várias premiações pelo corpo de seu trabalho, principalmente pelas suas pinturas e por suas ilustrações para livros infanto-juvenis. Foi selecionado, em 1994, pelo programa internacional da Pollock-Krasner Foundation, New York/USA. Em 2000, recebeu o selo Altamente Recomendável da FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil) Prêmio Ofélia Fontes.

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Revista InComunidade, Edição de Abril de 2019


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Colaboradores de Abril de 2019:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandra Vieira de Almeida, Alexandre Brandão, Amoi Ribeiro, Angelo Abu, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Carlos Alberto Gramoza Vilarinho, Carlos Emílio Faraco, Humberto Guimarães, Carlos Matos Gomes, Cássio Amaral, Constâncio Negaro, Danyel Guerra, Deisi Scherer Beier, Delalves Costa, Eduardo Wotzik, Hélio Aroeira, Henrique Prior, Jesús Fuentes, José Arrabal, José Gil, Leila Míccolis, Marcelo Frota, Marcia Kupstas, Marcus Groza, Maria Alice Bragança, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Mulherio das Letras, Patrícia Porto, Paulo Loução, Ricardo Ramos Filho, Rocío Prieto Valdivia, Viviana Bosi


Foto de capa:

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Paginação:

Nuno Baptista


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