ANO 5 Edição 79 - Abril 2019 INÍCIO contactos

Eduardo Wotzik


A Domingos de Oliveira, por Eduardo Wotzik    

 

Domingos. É MUITA COISA. Tudo que eu escrever é insuficiente. É MUITA COISA. Tudo que eu falar aqui será sempre insuficiente. e MAL ESCRITO E confuso. Pra ser gaguejado em voz alta que é pra ser falado, é prum dramaturgo, sobre um autor que falo. Domingos foi o último nobre. Um nobre. Um homem bom, generoso, incapaz de reclamar de nada, da vida, ATÉ OS ÚLTIMOS TEMPOS se manteve fiel a máxima de sua companheira máxima: "reclamar da vida é o oitavo pecado capital." Conde Domingos José de Oliveira Pavón de Botas e Sapatos Bicolor Ternos Brancos e Gravatas Borboletas. Tinha uma identificação pelas cidades imperiais. Passou anos lá. Nós também. Vamos a cachoeira?!. Vamos! E todos se arrumaram e partiam para a cachoeira. Um km. 2 sei lá. Andando e lá ia o Domingos de bota e roupão. E então quando chegávamos lá depois da caminhada suados saiamos correndo para um mergulho não sem antes ouvirmos ele dizer: vou ter que voltar. esqueci o calção. Eu to contando essa história porque eu falei pra ele que se UM DIA me perguntassem depois que ele morresse quem era ele que eu ia contar essa história pra definir ele. Pronto já fiz. E tem a historia do Complicações uma peça que ele fez com a Maria Paula... Até o dia da estreia ele nao sabia uma palavra do texto que ele mesmo escreveu e que ele mesmo mudava todos os dias, quem trabalhou com ele sabe que era assim, enfim, estávamos no dia da estreia assistindo da cabine e ele acertava tudo, cada palavra ele acertava, e nós na cabine vibrávamos a cada frase dita e morríamos a cada pausa dada, cada hesitação, cada gaguejada, um clima de tensão máxima que aos poucos foi se dissipando porque ele acertava tudo, e chegou ao final do espetaculo com vamos dizer 99% de acerto. Uma alegria. Quando ele acertou a última linha do dialogo a cabine explodiu. Festa! Mas FOI entao que veio a ultima frase da peça. Que fechava a peça: ele tinha que dizer "Complicações, uma comédia de Domingos Oliveira" e ele disse com toda a ênfase e veemência, "SEPARACÕES, uma comedia de Domingos Oliveira." E nem notou. Ninguém notou. E quando passamos uma semana em Punta ele jogando no 26 que a mãe dele soprou no ouvido dele: joga no 26. E ele jogou todos os dias no 26. Cismou. Palpite de mãe, né?!. Perdeu. tudo. Uma nota. E quando eu e Michele ficamos esperando dar meia noite e um para ir embora da casa dele que ele tava com medo de morrer teve um pressentimento que ia morrer naquele dia. Ficamos lá desde as 8 ate meia noite esperando passar o dia para ele enfim liberar a gente para ir embora. É MUITA COISA. Passeou por todas etapas do conhecimento: foi aluno, discípulo, professor, mestre, sábio, guru e ascendeu a uma nova e última fase que eu o nomeei: ORÁCULO. Sim. E os tres últimos pensamentos que o oraculo deixou para a humanidade.., ele me disse: O dinheiro venceu. Disse também que como estava com dificuldade de sair na rua que as pessoas estavam indo muito lá na casa dele entao ele descobriu que as pessoas são completamente diferentes umas das outras, MAS por medo de não serem aceitas, tentam desesperadamente parecer que são iguais, A terceira eu esqueci. mas lembrei dele em Curitiba num evento do BB que eu levei ele dizendo PARA O PÚBLICO QUE LOTAVA A OPERA DE ARAME: vocês tem que colocar no mundo alguma coisa que nao estava lá. E quando a Globo perguntou quanto ele pretendia ganhar e ele respondeu por email entre 7 8 e nao colocou a virgula. A Globo pagou 78.Ninguém nesse mundo brigou mais pela vida, NINGUÉM, travou guerra MAIOR pela vida com tudo e com todos que se postavam no seu caminho e o impediam de viver inteiro, pleno, até com Deus ele travou uma luta final e essa ele perdeu. Parecia que ele ia ganhar. Teve um momento da queda de braço que quase que ele vence. E foi muito triste para quem estava por perto ver isso. Domingos era a última esperança que eu tinha de que seria possível vencer a morte. Não era. Vamos mesmo morrer. Suas ultimas palavras: apertou a minha mão para se despedir e falou: "estamos resistindo." Servia para nós dois, para o brasil, para a arte, PARA O TEATRO, mas naquele momento e principalmente servia para ele mesmo. Foi a única vez na vida que ele não me levou até a porta. Domingos foi por muito tempo a maior prova viva de que existe corpo e alma. O corpo parando e a alma cada vez mais vibrante. Ele me disse: "Eduardo eu me sinto como se tivesse dezoito anos." E chorava. Formamos uma tríade, um triangulo, um trio, sei lá que nome se dá a isso, UMA TRAMA de amigos eu priscila e ele por 40 anos PRATICAMENTE diários. Era padrinho dos meus filhos e estava presente em todos os eventos importantes da minha vida. Foi o primeiro a chegar no hospital quando meu pai morreu. Foi meu pai, meu irmão, MEU MELHOR AMIGO, esteve sempre ali. É MUITA COISA. Tive amor, tive raiva, tive admiração, a gente competia muito. Pensávamos a arte de forma completamente diferentes e tentávamos desesperadamente e conseguimos no mais das vezes manter o respeito que só os grandes alcançam. Era sempre bom encontrar UM SER HUMANO que pensava grande. Hoje eu queria ir na casa dele pra a gente comentar como foi o enterro dele. o VELÓRIO. SE ele gostou? Quem foi, quem nao foi, se ele gostou da musica: "não sou eu quem me carrega, quem me carrega é o mar.". Viu aqueles paparazzi trepados em cima das tumbas? Fiz a Missa nossa missa para Clarice para ele... por nós...e no final uma moça pediu a uma das clariceanas para me entregar um bilhete que dizia : "SIM. Domingos partiu para ser todos os dias." Eu tambem acho que ele era PAVÃO demais para sair da vida a francesa, discretamente, e com certeza pensou um jeito de diante da eminencia e inevitabilidade do xeque mate de Deus, pensou que diante da eminente derrota, estaria muito mais vivo e para sempre, que ia estar muito mais presente nas nossa vidas, saindo de cena do que estando ainda. E entao ele escolheu um momento tranquilo jogando generala, um pôquer de dados que ele adorava e venceu. VENCEU. SE estamos aqui mais uma vez falando dele, celebrando, estreando filmes, conversando, contando historias, produzindo musicas, festas, lendo suas cartas de despedida, ele dirigiu seu velório, encheu a casa dele de amigos e família, inventou uma nova fonte de rendas para dramaturgos, que é fazer pre videos do morto para passar em enterros e velórios, A GLOBO ENTERRO, uma MISSA ESPETÁCULO QUE me parece vai entrar em cartaz e viajar pelo país e deixar o autor rico, salvar o teatro brasileiro, dar emprego a uma turma de amigos que queiram se reunir, Domingos ainda não parou de produzir. póstumo... isso em uma semana. Domingos venceu a parada, XEQUE MATE. E é assim que vai estar em nós para sempre. Domingos partiu para ser todos os dias. E é assim que JÁ ESTA em nós para sempre. É MUITA COISA. MUITA.PODE SORRIR MEU AMIGO VOCE FEZ A GENERALA. (que é QUANDO o jogador FAZ cinco dados iguais DIRETO NA primeira jogada.) Eduardo Wotzik

 

 

Domingos de Oliveira (Rio de Janeiro.1936-2019)

 

 

Domingos José Soares de Oliveira, o Domingos de Oliveira Ator, autor e diretor, pensador, dramaturgo e cineasta brasileiro com uma carreira de quase 60 anos no teatro, na televisão e no cinema. Criativo, sensível, habilidoso, e um dos mais profícuos dos artistas de sua geração, soube lidar com sua época e criar sua obra dentro das perspectivas apresentadas por ela. Faz parte da história do cinema, teatro e televisão brasileira. A partir da década de 1980, não abandona mais o palco, atuando como autor e diretor em pelo menos um espetáculo anual. Ainda na década de 1960, Domingos trabalhou como redator na revista Manchete. Em 1963, acabou convidado para fazer a programação da Globo, que estrearia dois anos depois. Ele foi o segundo produtor contratado pela emissora até 1966, quando saiu para dirigir o grande filme de sua carreira: "Todas as mulheres do mundo" (1967), produção que recebeu 12 prêmios no Festival de Brasília e estrelada por Leila Diniz e Paulo José. Em seguida, dirigiu os filmes "Edu, coração de ouro" (1968), "As duas faces da moeda" (1969), "É Simonal" (1970) e "A culpa" (1971). Este último recebeu a Estatueta Dama del Paraguas por sua fotografia, no Festival de Barcelona, em 1972. Em 1990, fez um remake para a tv de seu filme "Todas as mulheres do mundo". Estreia como autor com Somos Todos do Jardim da Infância, em 1963. No ano seguinte, dirige outro texto seu, A Estória de Muitos Amores. Chama a atenção no cinema com os filmes Todas As Mulheres do Mundo, 1967, que lança Leila Diniz (1945-1972), e Edu, Coração de Ouro, 1968. Durante vários anos se dedica à televisão. Nos primeiros anos da década de 1980, Domingos Oliveira se torna um dos mais atuantes diretores do teatro carioca, voltando assim à atividade na qual dera seus primeiros passos na década de 1960. Dirige grandes atores como Henriette Morineau (1908-1990) em Ensina-Me a Viver, 1981, de Colin Higgins (1941-1988), Jorge Dória (1921-2013) em Amor Vagabundo, 1981, de Felipe Wagner (1930-2013), Tônia Carrero (1922-2018) em A Volta por Cima, 1982, de Domingos Oliveira e Lenita Plonczynski, Marília Pêra (1943-2015) em Adorável Júlia, 1983, de Somerset Maugham (1874-1965) e Marc-Gilbert Sauvajon (1909-1985). Em 1980, recebe o Prêmio Mambembe de melhor autor com Assunto de Família. Com direção de Paulo José (1937), a montagem tem no elenco Fernanda Montenegro (1929) e Fernando Torres (1927-2008). O texto procura fazer uma radiografia da alma pequeno-burguesa no cotidiano de uma família tradicional no início dos anos 1950, exemplar da mentalidade de uma classe social que decidiu em vários momentos os rumos da história brasileira.

 

O crítico Yan Michalski (1932-1990) analisa a peça, sequenciando pequenos e banais acontecimentos familiares:

 

"Essa pequenez dos episódios causa certa sensação de saturação [...]. Ao mesmo tempo, porém, é na manipulação dessa pequenez que reside uma das qualidades da obra. Com muita sensibilidade, Domingos transforma cada um desses inócuos incidentes do passado num autêntico minidrama, que machuca surdamente os seus protagonistas. Mas, simultaneamente, cada dramazinho comporta a semente de uma minicomédia. Com um espírito bem tchekhoviano, o autor mistura extrema simpatia pelas suas personagens com uma exposição bem-humorada dos seus ridículos".

 

MICHALSKI, Yan. Familiares fantasmas do passado. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 27 out. 1980. Caderno B, p. 2.

 

Em 1983, Domingos Oliveira escreve o policial No Brilho da Gota de Sangue, com o qual ganha os prêmios de direção e cenografia (com Juarez Puig), com desempenhos elogiados dos atores, entre eles Carlos Vereza (1939), Francisco Milani (1936-2005) e Clemente Viscaíno (1946). Segundo o crítico Macksen Luiz (1945), o maior mérito da encenação é o cuidado com o acabamento:

 

"Há cuidados que chegam a ser comoventes, como um personagem manuseando um exemplar de O Correio da Manhã ou o luto usado na lapela do delegado pela morte da esposa [...]. E esses cuidados se transferem para o trabalho dos atores [...]".

 

LUIZ, Macksen. Um policial à procura da justiça. O Globo, Rio de Janeiro, 15 abr. 1983.

 

Recebe o Prêmio Molière de direção pelo conjunto de trabalhos - Conversas Íntimas, Escola de Mulheres e Irresistível Aventura - realizados em 1984. Em Irresistível Aventura, Domingos reúne quatro peças curtas - de Federico García Lorca (1898-1936), Artur Azevedo (1855-1908), Tennessee Williams (1911-1983) e Anton Tchekhov (1860-1904) - e, tendo Dina Sfat (1938-1989) e José Mayer (1949) como atores centrais, consegue, na opinião do crítico Macksen Luiz, "manter aguçados os sentimentos e a inteligência para criar o verdadeiro jogo teatral".

 

LUIZ, Macksen. Irresistível aventura: o autor, o ator, o público e uma arena. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 14 ago. 1984.

 

1985, A Fonte da Eterna Juventudee Do Amor, nova coletânea de textos. Em 1992, lança Confissões de Adolescente, espetáculo que é sucesso de bilheteria e propõe um formato que o inspira a escrever e dirigir, no ano seguinte, Confissões das Mulheres de 30.Na segunda metade da década de 1990, assume a direção do Teatro Planetário, onde realiza seus espetáculos até 2000. Ali escreve, dirige, interpreta e organiza eventos. É dessa fase a sequência de cabarés filosóficos, em que mistura música, humor e crítica em espetáculos de diálogo direto com o público.

 

Fontes de pesquisa

 

Morre Domingos Oliveira, anos 82 anos. O Globo, Rio de Janeiro, 23 mar. 2019. Disponível em: < https://oglobo.globo.com/cultura/morre-domingos-oliveira-aos-82-anos-23545910 >. Acesso em: 23 mar. 2019.
Morre o cineasta e dramaturgo Domingos Oliveira, aos 82, no Rio. Folha de S. Paulo, São Paulo, 23 mar. 2019. Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/03/morre-o-cineasta-e-diretor-de-teatro-domingos-oliveira-no-rio.shtml >. Acesso em: 23 mar. 2019.
DOMINGOS Oliveira. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa109156/domingos-oliveira>. Acesso em: 16 de Abr. 2019. Verbete da Enciclopédia.
ISBN: 978-85-7979-060-7

 

Eduardo Wotzik, Diretor de Teatro, nasceu no rio de janeiro em 19 de dezembro de 1959. A partir dos anos 90 torna-se um dos mais representativos diretores cariocas de teatro. Iniciou sua carreira como integrante de um dos grupos mais importantes do teatro brasileiro, o grupo tapa, onde durante dez anos (1979-1989) atuou como ator, produtor, coordenador e depois diretor.  Formado em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Especialista em tragédia grega, teatro brasileiro, teatro de Nelson Rodrigues, os caminhos da teatralidade, o ator e o texto, processos de criação e direção de um espetáculo. Foi fundador do Grupo Tapa, professor e criador dos cursos de teatro da Casa de Cultura Laura Alvim, consultor do Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro e da Casa de Cultura Laura Alvim.

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Abril de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Abril de 2019:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandra Vieira de Almeida, Alexandre Brandão, Amoi Ribeiro, Angelo Abu, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Carlos Alberto Gramoza Vilarinho, Carlos Emílio Faraco, Humberto Guimarães, Carlos Matos Gomes, Cássio Amaral, Constâncio Negaro, Danyel Guerra, Deisi Scherer Beier, Delalves Costa, Eduardo Wotzik, Hélio Aroeira, Henrique Prior, Jesús Fuentes, José Arrabal, José Gil, Leila Míccolis, Marcelo Frota, Marcia Kupstas, Marcus Groza, Maria Alice Bragança, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Mulherio das Letras, Patrícia Porto, Paulo Loução, Ricardo Ramos Filho, Rocío Prieto Valdivia, Viviana Bosi


Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Crucificação branca' (1938)


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR