ANO 5 Edição 79 - Abril 2019 INÍCIO contactos

Alexandra Vieira de Almeida


O poeta do deslimite em “Extemporâneo”, de Delalves Costa    

 

Grandes nomes da literatura universal se utilizaram de uma linguagem cifrada, cheia de códigos para desafiar a inteligência do leitor. Assim, encontramos neste livro de poemas de Delalves Costa, Extemporâneo (Coralina, 2019), uma linguagem cujo poder do hermetismo nos hipnotiza no seu dom de enigmar as palavras e trazê-las ao seu estágio latente de esconderijos e descobertas. Três grandes nomes da poesia italiana do século XX se valeram de poemas obscuros para atingir uma poesia mais intelectualizada e não simplória e banal. Montale, Ungaretti e Quasimodo fazem parte da tríade hermética da poesia italiana. Aqui no Brasil, temos um nome de peso que se revelou pleno em seu hermetismo e dificuldade de leitura. Murilo Mendes, a partir de sua poesia surrealista, ultrapassou o meramente factual e flexível para se mover numa poesia dita abstrata e conceitual. Em Delalves Costa, temos a carne tensionada até o seu deslimite. Ele interrompe o fluxo normal do que costumamos sentir como natural, atingindo um vanguardismo “pós-pós-moderno”, com uma poesia única e complexa em suas sutilezas e entrelinhas.

 

Este poeta magistral e diferente de muitas coisas que enxergamos por aí, tem a maestria de fazer uma poesia que vai além de seu tempo. Consegue ser o poeta do futuro com destreza e magia inaugurais. No Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, podemos saber o significado de “extemporâneo”: “que ocorre ou se manifesta fora ou além do tempo apropriado ou desejável, serôdio”. O poeta aqui em questão está à frente de seu tempo com um olhar projetado para mais além de nossa época, antecipando elementos que estão por vir. Por isto, o vanguardismo de sua poesia que se utiliza do processo de experimentação com a linguagem, sempre renovada. No poema que abre o livro, “O Efêmero”, temos: “Já não leem o que escrevo/no agora, julgam-me apenas/pela inconstância do relevo”. A potência poética é sua energia vital, o que move a esfera de seus sonhos mais recônditos. Mario Quintana, na sua crônica “Pausa”, assim disse sobre o autor e seu poder misterioso de enigmar: “A verdade é que a minha atroz função não é resolver e sim propor enigmas, fazer o leitor pensar e não pensar por ele.”

 

Além desta postura hermética, no seu aspecto conteudístico e intelectual, o poeta por ora aqui apresentado, se utiliza, no seu aspecto formal, de aproveitamentos linguísticos, fazendo e refazendo a teia das palavras. Vejamos: “à medida que o rio aventura-/(se) m temer a queda”. Aqui, encontramos a ambiguidade de sua construção imagética que leva ao entrecruzamento de versos, palavras e linguagens numa dose dupla a formar vários sentidos para o texto, formando assim um mosaico de várias pinturas que funcionam como imagens nascentes e múltiplas. Sua visão é pluriestilística, construindo várias palavras a partir de uma mesma palavra e ressignificando versos.

 

A musicalidade também é recorrente, com rimas fortes, num ritmo cadenciado e diversificado, revelando pontes de contato entre a forma e o conteúdo, assim como muralhas que distanciam sentidos com analogias cada vez mais complexas e profundas sem a liquidez de nossa realidade una. A pluralidade linguística enforma seu arcabouço literário, formando um tecido de rara beleza que só os fios mágicos de sua poesia brilhante poderiam tecer. Outro elemento primordial em sua poesia é a metalinguagem, fazendo uma íntima comparação entre a poética e os movimentos da natureza. A gênese da poesia mergulha na natura, transbordando os sentidos do mundo em múltiplas direções de significados. Ao produzir esta linguagem multifacetada, o poeta consegue atingir o cume da poesia mais grave e alta, sem nada a dever aos grandes nomes da poesia universal. Nem só da natureza ele produz seu artefato linguístico, a cidade também comparece com seu grande poder de sedução e espelhamento, com os habitantes passando por dificuldades e intempéries, como a intertextualidade com o poema de Drummond, “E agora, José?”, trazendo a lume sua influência de vários nomes da poesia, como o já citado Drummond, Manuel Bandeira, com seu “Vou-me embora para Pasárgada” e, aqui a releitura em, “Vou-me embora pro Asteróide 329”. Mas, aqui, para além do olhar para a tradição poética e do passado, Delalves Costa é um poeta do amanhã, do futuro em gestação na sua poesia antecipadora daquilo que vai além da pós-modernidade. Ele é o vanguardista de um tempo mais além do que o presente.

 

Outra influência, que é ressignificada pelo poeta, é a fonte primeira de Guimarães Rosa a partir da criação de novas palavras, os neologismos. Delalves cria palavras originais, unindo as palavras numa só. Utiliza-se de um processo de criação anterior, mas com olhos diversificados, pintando um novo quadro de grande satisfação sensorial, juntando o intelecto ao sensório em criações inusitadas. Há até mesmo um poema em que ele cria elipses com o vazio de letras, para que preenchamos como num jogo o sentido do texto. O poeta faz um nobre trabalho com o leitor que deve completar o texto através do contexto textual. Assim, nos lembramos aqui, com um novo espelhamento, características da experimentação linguística de Gregório de Matos e seu barroquismo, para complexificar a relação entre autor-texto-leitor numa chave interpretativa que leva ao trabalho dinâmico do receptor. Vejamos: “Pess a, liberte-me de mim. Pois/quem estou  ão basta/turvo refleti  o, eis açude no céu/e acaso  ret(raso qu  nos arrasta).”

 

Outra referência literária importante é a figura de Dom Quixote, com alguns poemas dedicados a ele. Como um leitor de amanhãs, este personagem da obra de Cervantes se caracteriza por seu anacronismo, pois é leitor ávido de novelas de cavalaria, levando a literatura com o choque no real, fazendo um abismo entre leitura e realidade. Ele quer viver como um cavaleiro andante numa época em que isto não mais existe. Com o título de “Extemporâneo”, o livro de Delalves Costa subverte este sentido original de passado e presente, levando sua poesia ao choque entre presente e o que está por vir, seu devir num processo que leva ao infinito das dobras que se desfolham em novas perspectivas jamais pensadas. Sua poesia pensa no pensado o que ainda não foi pensado, eis o paradoxo. Outra imagem recorrente na sua poesia é a estação do outono, que aparece ao longo de seus poemas com significados cada vez mais novos e desafiadores. O outono, como a estação das frutas, significa fecundação do que está por vir, que terá sua maturidade no porvir. Delalves antecipa rotas e itinerários, como um novo Colombo prestes a desbravar novas terras, faz de sua poesia a gênese da árvore do futuro que dará frutos de beleza e criatividade para novos autores. Sua poesia pulsa na chama do novo, é fogo que impele para frente e produz seus incêndios numa nova poesia.

 

Num processo de antropofagia cultural, Delalves Costa deglute outros, reinventando o antigo e renovando com novas palavras e metáforas; o calor que aquecerá os corações de leitores futuros. Esta partilha entre a chama de dentro do eu-lírico e o fogo exterior do leitor dá o impulso erógeno para a força provocativa do autor e seu texto. Em A psicanálise do fogo, livro genial do ensaísta Gaston Bachelard, temos: “O complexo de Novalis sintetizaria, então, o impulso para o fogo provocado pela fricção, a necessidade de um calor partilhado”. Em Delalves Costa, podemos perceber: “vamos atear fogo no resultado/renascer das cinzas não basta,/é preciso remodelar as chamas”. Vivenciando o processo prometeico de criação, sua poesia caminha a quilômetros de espaços mais além do que nossa época poderia supor. Isto é o que os grandes gênios da literatura fazem, anteciparem-se além de suas épocas pelo fogo criador de seu projeto criativo e original, ultrapassando fronteiras e limites textuais. Como um poeta do deslimite, Delalves Costa é um escritor de grande amadurecimento, deixando sementes do futuro nas terras férteis do conhecimento. Portanto, sua poesia hermética tem muito a nos dizer com seus enigmas decifráveis por leitores inteligentes e atentos.

 

 

Alexandra Vieira de Almeida é poeta, contista, cronista, ensaísta e resenhista.Tem Doutorado em Literatura Comparada (UERJ). Tem quarto livros de poesia publicados, sendo o mais recente Dormindo no verbo ( Penalux, 2016). Tem poemas traduzidos para vários idiomas e publica constantemente em jornais, revistas, antologias, e alternativos por todo Brasil e também no exterior.

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