ANO 5 Edição 79 - Abril 2019 INÍCIO contactos

Cássio Amaral


Contos    

O MUFIKU

 

É madrugada, acordo assustado com barulho no apartamento do lado.

Estou no Rio de Janeiro faz um calor insuportável.

Eu levanto, tomo um pouco d'água, passo a mão no rosto.

O barulho continua, parece um casal trepando.

Na verdade parece um cara trepando com duas mulheres.

Eu ainda há pouco conversava com meu amigo Pablo sobre cultura e arte no bar Amarelinho, bar de frente da pensão que estamos hospedados, no bairro Glória.

A noite passa e a suruba continua...

Penso como será a noite de autógrafos dos nossos livros de poesia, o meu e do Pablo.

Uma das mulheres grita, o cara parece abusar mais dela que o necessário.

Na verdade o grito é dele, aliás ele dá vários gritos e ordena:
__Isto, chupa ela! Assim, chupa ela!

Eu no cubículo que chamam de apartamento apenas ouço.

O lugar é uma pensão típica dos contos de Nelson Rodrigues.

É um cortiço, cheio de apartamentos, várias pessoas diferentes, figuras enigmáticas, cheio de estrangeiros.

Os apartamentos são sujos, minúsculos, todos cheirando a sexo barato e doentio.

Os habitantes são vários, prostitutas, alcoólatras, traficantes e estudantes universitários.

Num quarto, um senhor alcoólatra que dorme com o quarto aberto, onde há várias garrafas de água vazias em cima de uma mesa.

Ele gosta de música erudita.

Eu o vi jantando ao som de Vivaldi quando passei mais cedo para o meu quarto e achei a cena inusitada.

A noite passa, é de manhã e vou tomar banho.

Há apenas um banheiro no lugar.

Alguém me chama. É uma "garotinha" trazendo na mão uma camisinha ainda cheia, dizendo:
__Sexo é bom, mas tem que ser com camisinha, né?! Se não a Aids pega!

E pede pra tomar banho na minha frente.

Acordo Pablo  e vamos ao Sebo "Baratos da Ribeiro", na rua Barata Ribeiro pra acertamos os lances finais do lançamento de nossos livros.

Enquanto Pablo  conversa com o Maurício, o proprietário, eu fico vendo as mulheres maravilhosas, fico observando o movimento da rua.

Nossa, o Rio é lindo!

E quanta mulher bonita!

Cidade Maravilhosa, mulher bonita, côco gelado, praia, chopp no bar Garota de Ipanema, ou no bar Vinícius de Moraes.

O Rio que dá arrepio, mistura da beleza e do caos. Curtimos como duas crianças em busca da  poesia. Ao retornarmos ao Mukifu, a pensão para tomarmos banho e trocarmos de roupas vejo o dono, um tipo espanhol traficante dizer:
__Senhor Weverton, o senhor está expulso da pensão.
O senhor Edson reclamou mais uma vez que o senhor estava se masturbando de novo na escada e bêbado imaginava duas mulheres.

 

(Rio de Janeiro, 2003)

 

 

 

 

 

 

A PUTA II

 

 

(imagem do Kamasutra)

 

Simone ficou pensando na transa com seu Acácio.

O homem era um animal, a sua virilidade era algo digno de um ator pornô jovem e cheio de tesão.


Resolveu depois do banho ir dormir um pouco. Seu Acácio pegou seu telefone, mas nunca ligou.


Passaram-se dois meses, ela fazia os programas e lia agora Michel Foucault, Freud e poemas de Fernando Pessoa.


Estava cansada de dar pra qualquer um, de ser esporrada e tchau.

 

Estava cansada de ser enrabada por velhos, peões e operários ávidos de sexo.

Seu ritual era o mesmo. Acendia um incenso, fazia uma prece e saía. Sempre acordava meio dia e meia. Na noite gostava de vagar, fazer programas e freqüentar um bar chamado Vitrola. Seu dono era Flavinho Ferreira, um cara sacado, inteirado de Glauco Matoso, Paulo Leminski e adorava Jimi Hendrix. No Vitrola os malucos se reuniam. Lá os alternativos, undergrounds e artistas passavam noites a dentro conversando sobre arte, cultura, Modigliani, Basquiat, Modernismo, o Barroco e outras expressões. Flavinho era um poeta, um cara pra lá de inteirado. Era o dj da noite e mandava logo Zappa, Jimi Hendrix e Jorge Ben Jor na galera. Numa altura da noite, o bar era uma catarse, a galera fumava um baseado e ficavam num estado doido, ou alguns mais abusados como Fernandinho Vampirinho, que cheirava no banheiro e ficava dançando dizendo que era o Jim Morrison.


Simone gostava de ir lá, o clima era subpop e ali sempre conseguia quem pagasse umas cervejas e descolava um programa. Ela sempre trepou com Flavinho. Era um ritual entre eles. Eles gostavam de poesia e sempre no final da noite trepavam para tentarem achar um verso bacana.


Simone estava cansada, esperou Flavinho se vestir depois da transa e foi embora. Na rua pensava em mudar de vida. Pensou em alguns filósofos, o devir de Aristóteles a instigava. Mudança, ela precisava mudar. Pensou e pensou até que viu que a filosofia era o que gostava. Decidiu então fazer filosofia, um curso à distância numa universidade do Norte do Paraná, chamada UNOPAR. Não demorou muito seus amigos de faculdade à distância vinham conhecê-la. Ela transava com a maioria. Agora só transava com homens intelectuais e ligados à arte. Admirava Dona Beja e seu estilo de viver. O tempo passou e pensou em ser professora universitária. Era inteligente e sabia o que queria. Depois de três anos de curso graduou-se em Filosofia. Sabia tudo de Foucault e Sartre. Gostava da leitura. Já não freqüentava mais o Vitrola e não chegou mais ver Flavinho Ferreira. Estava noutra, estava na academia e agora buscava um mestrado. Fez um projeto de mestrado e inscreveu-se para o mestrado da UFU (Universidade Federal de Uberlândia). Seu tema era a prostituição e tinha cruzado várias fontes, duas delas era Foucault e Sartre.


Conseguiu passar no mestrado, sua bagagem cultural era boa e seu inglês afiado.


Continuou fazendo programas, apenas com homens inteligentes. Até que um dia sua prima a convidou a participar de um jantar do pessoal do escritório em que trabalhava.


Ela não tinha nada a fazer e foi. Era 14 de dezembro e o jantar estava animado com uma bandinha cover dos Los Hermanos agitando a festa. Numa mesa ao lado da sua havia um casal e um cara sozinho. O cara usava óculos, era magro, falava muito e gesticulava. Ficou olhando aquele cara e o código bateu. Ele conhecia sua prima e as convidou a sentar à mesa. Sua prima Márcia fez as apresentações:
_Simone este é Cassiano.


_Prazer respondeu Cassiano.


_Você é parecida com alguém que conheço disse Cassiano.


Ela ficou preocupada, pensou que ele já tinha sido seu cliente. Ou que ele a conhecia do Vitrola.


Realmente era do Vitrola, mas não conseguia recordar de onde naquele momento.


Conversaram sobre cultura, artes e Cassiano aplicou um verso que tinha feito nela.


Ela riu, achou legal e viu que ele tinha sentimentos, era um cara diferente e com inclinações pra o budismo.


Simone começou a sair com ele, levava a vida paralela mas saía com ele. Ele era um zen lunático, uivava pra lua e bebia nos bares da cidade, especialmente no seu Alísio.


Com o passar do tempo ela foi se acostumando com ele. Não tinham transado ainda. Ela ia devagar pra ele não sacar que ela ainda fazia programas com outros. Simone tinha uma filha e um ex marido também. No tempo da universidade ela tinha se juntado com um cara e aberto um mercadinho de verduras. Como os dois não tinham tino comercial o mercadinho faliu, e ela ficou apenas com a filha.

                                                                                             
Simone então ia mudando sua vida, ainda gostava de fazer programas sem que Cassiano percebesse. Ela gostava de dar, dar pra homens interessantes e descolados.


O natal se aproximava e combinaram de passá-lo numa boa. Só que seu ex chegou da Paraíba, onde estava morando e sua filha ficou enchendo o saco pra que os três celebrassem a noite de natal.


Ela um dia ligou pra Cassiano e ele estava perto de sua casa.


Ela ficou feliz e pediu que ele aparecesse. Sua casa ficava num bairro distante, mas era bem melhor que o Dormitório Belo Horizonte. Ela pode comprar seu primeiro carro com as aulas que dava e os programas que fazia na surdina.


Cassiano pintou lá e ela estava sozinha. Sua filha Maraíza tinha saído. Os dois ainda não haviam transado e Cassiano estava pra lá de louco pra transar com ela.


Ela colocou um dvd em homenagem ao Renato Russo, onde Vanessa da Mata cantava “Por Enquanto”. Ele era legionário, mas gostava dessa música cantada pela Cássia Eller.


Os dois se abraçaram e beijaram-se. Ela não perdeu tempo, caiu de boca no pau dele e viu que seu pinto era enorme. Ela deu uma risadinha e perguntou a ele:


_Nossa quem fez isso? Seu pau é muito grande. Assim você vai me machucar. E não vou poder fazer umas coisas que gosto. É muito grande!


Ele tentou tirar suas roupas, mas ela não deixou, disse que estava menstruada e que os dois transariam quando seu ex fosse embora. Ela só iria passar o natal com ele e sua filha e depois ficariam numa boa.
Na véspera de natal ela não atendia as ligações de Cassiano. Ele saiu e foi beber um pouco no seu Alísio. Tentou ligar várias vezes e nada. No natal ficou sozinho. Ela sumira. Ele pensava que ela estava o corneando com o ex. Ficou puto. Mas não a procurou.


Depois do natal ele chegou chapado, bebaço na casa dela, agarrou-a e tentou fazer amor com ela. Ela não quis, beijou-o por um longo tempo. Ainda deixou ele dizer um poema do Leminski:


“Carrego comigo o peso da lua
Três paixões mal curadas
Um saara de páginas
Essa infinita madrugada
Viver a noite me fez senhor do fogo
A vocês eu deixo o sono
O sonho não,

Esse eu mesmo carrego”

Ela achou que o poema era de Mário Quintana.


Eles romperam e Cassiano foi pra São Paulo lançar seu sétimo livro de poesia na Vila Madalena.


Simone continuou dando e fazendo programas. Agora gostava de babys, de garotinhos mais novos e que tinham perfil no orkut, que tivessem na flor da idade. Ela gostava de arrancar cabaços, prepúcios, de tirar a virgindade dos caras e que eles fossem homens com ela. Ela gostava de dona Beja, pensava que dona Beja era a deusa das putas.


Continuou dando aulas e comia também os aluninhos. Terminou seu mestrado e começou a lecionar Filosofia na Faculdade local. Lá também comia os alunos, usava de uma discrição total. A magnífica reitora e o conselho da Faculdade nunca souberam de nada. Ela dava e gostava que os universitários gozassem nela. Depois discutia Platão e o mito da caverna com eles.


Simone já estava mais madura, completaria 35 anos e sabia o que queria. Continuava trepando com os alunos. Havia um aluno na sala do primeiro período de Direito. Seu nome era Leandro, era alto, musculoso, mas muito tímido. Era lindo e parecia Tom Cruise. Um homem com quem toda mulher quer transar. Era burguês e agroboy e gostava de “Só pro meu prazer” cantado pelo Zezé de Camargo e Luciano.


A faculdade tinha modernizado e havia filmadoras por todos os lados, até nos banheiros. Muita gente não sabia disso, mas havia filmadora por todos os lados.


Simone um dia então decidiu que comeria Leandro, ele já tinha 28 anos e era virgem.


Pensou em Michel Foucault na ordem do discurso:
“O discurso se anula, assim em sua realidade, inscrevendo-se na ordem do significante”.


Numa sexta-feira à noite deixou todos saírem, só tinha três horários. Deu as aulas e convidou Leandro pra conversar. No campus da saúde tinha um banheiro que poucos usavam e convidou Leandro pra ir lá. Ele já sabia o que ela queria. Entraram no banheiro. Ela o beijou, tirou suas calças e começou a chupá-lo. Ele tinha um pau pequeno que a princípio a desagradou. Ela gostava de pau grande. Ela o chupou muito, com a voracidade e a maestria de sempre. Leandro a penetrou mas não conseguia transar direito, ele era virgem e era sua primeira vez. Ela o ensinava calmamente os movimentos. O tempo passava e já tinha 40 minutos que estavam ali. Ela gozou duas vezes e Leandro ainda nada. Colocou-o no chão e começou a cavalgá-lo e praticar o pompoarismo. Ele sentiu uma coisa indescritível. O pompoarismo era algo fenomenal pra ele. Mas sem muito entender seu pau broxou. Ela olhava pra ele e não acreditava. Era um homem magnífico broxando. Tentou chupá-lo por mais 20 minutos mas o pau do rapaz não deu mais sinal de vida.


No outro dia ela foi despedida da faculdade.


Dona Aparecida a magnífica reitora ficou sabendo de suas peripécias sexuais e chamou-a na sala da reitoria.


_ Simone você está demitida.


_Como dona Aparecida, qual o motivo?


Nós colocamos filmadoras por todo o campus e vimos suas atitudes com o aluno Leandro, ontem à noite.


Simone ficou triste, saiu dali direto para o bar do seu Alísio pra tomar uma cerveja.


O Vitrola já não existia. Um funcionário da faculdade colocou o filme na internet e todos davam risada do agroboy metido a burguês marombeiro que havia broxado com a professora de Filosofia. Maraíza ficou sabendo também de sua mãe e um gaiato criou um comunidade no Orkut . A comunidade chamava “Simone a Cicciolina da terra de dona Beja”.
Simone tomava sua cerveja no seu Alísio e pensava em Nietzsche:
“Não existem fenômenos morais, mas interpretações morais dos fenômenos”.


Ela pensava nessa frase, até que um rapaz de uns dezoito anos chegou e perguntou a ela:


__olha, posso sentar com você e conversar um pouco?


Ela respondeu que sim. E pensou numa frase de Sartre:
“O importante não é o que fizeram ao homem, mas sim o que ele fará disso”

 

Cássio Amaral: Nasceu em Araxá-MG em 1973. Professor de História.  Autor dos livros  de poesia: “Lua Insana Sol Demente”-2001, “Estrelas Cadentes”- 2003, “Sonnen”-2008,  “Enten Katsudatsu”- Haikais  E-book (Germina Literatura) - 2010 “Faísca”- 2014 e “Milenar” – 2016.

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Paginação:

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