ANO 5 Edição 79 - Abril 2019 INÍCIO contactos

Constâncio Negaro


Poemas    

CELA


no alto
acima da porta: o crucifixo
corpo nu
sobre lençol nácar
dedos a roçar
as contas do terço
como se fosse
a fenda de uma vulva
depilada
oração nenhuma
me devolverá os mortos
ou aliviará a dor
das perdas
: só o orgasmo, salva!!!!!!!!


 

 

 

 

 

CLAUSURA


o que me trouxe aqui
nesta cela fria e mofada
foi o medo dos homens
das mulheres e das crianças
em carne e osso e sexo
mais a pobreza - não a fé...
aqui tenho os anjos
sem um pelo no corpo
as orações e pregações
um silêncio absoluto
e o pão sobre a mesa
pela manhã
assisto à missa e me confesso...
e tudo – graças ao Pai - volta ao normal
: a fome saciada!
(e o sexo em vigília camuflada...)


 

 

 

 

 

GÊNERO

 

oro
sussurro ladainhas
de um corpo ardente e asqueroso
o terço tremula
em mãos suadas e frouxas
os dedos a roçar
o clítoris intumescido de M*
ou o falo rígido de C*
adormeço
anjo sem gênero e sem pelo
o sangue branco
de Narciso ejaculado nas virilhas


 

 

 

 

 

FILIA

 

o que fazer
com esses anjos sem vida no altar?

 

o que fazer
com esses anjos sem vida no altar
se o desejo é ter meu falo como pão de ázimo consagrado
nas bocas dos fiéis na comunhão?
o que fazer
com esses anjos sem vida no altar?
o que fazer
com esses anjos sem vida no altar
se são as crianças
à espera da hóstia que mais me excitam
e tornam minha voz sedosa e serpenteante
pronta a dar o bote nos inocentes?
o que fazer
com esses anjos sem vida no altar...

 

 

 

 

 

 

LUXÚRIA

 

era um Frei Franciscano
cabelos grisalhos e bem cuidados
um Hyundai do ano
a data do aniversário na placa
hálito de menta
Gabana como fluído da pele
e a voz serpenteante
como Don Juan travestido de Cristo
tem razão
: mais parecia o Diabo disfarçado...


 

 

 

 

 

ENCONTRO

 

- Como escutar a Deus e reconhecer sua voz? – perguntamos ao Papa
- Através dos acontecimentos da vida e da fala Sagrada Escritura como a palavra viva de Deus – respondeu-nos o Pontífice.
- Senhor, o que fazer com esse ódio contra os homens depois de ter sido violentado aos 3 anos? Como continuar fingindo diante dos sacerdotes? Como negar o que sou e o que meu corpo pede? O pilar para ordenar-se é o fingimento e a mentira? E o que fazer com os gritos da carne? – apontamos ao Papa.

- O Senhor sabe que também na Igreja existe o pecado, devemos aceitar nossa fragilidade para reconhecermos a necessidade da graça do Pai, a dor e o sofrimento são parte do amadurecimento individual, é a dor de cada dia que nos torna capazes de ajudar aos outros – respondeu-nos o Pontífice.

 

- Quer dizer que em nome de Deus, tudo pode? – insistimos ao Papa.


- Sim, em nome de Deus, com humildade, tudo pode! E a igreja, em nome de Deus, os protegerá do julgamento dos homens. – respondeu-nos o Pontífice.

 

Constâncio Negaro, natural do agreste pernambucano, admirador de Padre Cícero, veio para o Sul ainda jovem para estudar em colégio de religiosos. Formado em filosofia e teologia, atualmente não segue qualquer orientação religiosa, vive de um modo cigano, vive atualmente em Maputo. Publicou “Poemas sobre a fé” no site Cronópios e Coletivo Dulcinéia Catadora, outros poemas sobre a fé no site Mallarmargens, e Exílio no Germina Revista Literária. Dividiu seus poemas de um modo muito particular com a escritora e amiga Valderez Nepomuceno.

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Revista InComunidade, Edição de Abril de 2019


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Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Crucificação branca' (1938)


Paginação:

Nuno Baptista


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