ANO 5 Edição 79 - Abril 2019 INÍCIO contactos

Danyel Guerra


La prima notte…    

“A meu favor, tenho o verde secreto dos teus olhos.
Algumas palavras de ódio, algumas palavras de amor”
Alexandre O’Neill

 

Para Ana CC

 

‘La Prima Notte de Quiete’. Para um exausto espectador, sentado na última fila da primeira plateia, junto à coxia central, do Cinema Odeon, essa é também a primeira noite de tranquilidade, a todo o transe parida a forceps.

 

Ele sente-se, no mesmo frêmito, carente e saciado, após semanas de inebriações no frenesi dos festejos revolucionários, do engajamento em reuniões que visam acertar, com novos ponteiros, o relógio do trabalho e da militância política. Urge a missão, ruge a prioridade de transformar a nascente revolução dos Cravos numa genuína Revolução dos Escravos.

 

Esse cidadão será, talvez, um dos únicos na assistência que nunca tinha ouvido falar de Valerio Zurlini, o bolonhês conterrâneo de Pier Paolo Pasolini e de Cristina Campo, regista do filme. A opção por este atribulado drama existencial se filiou, antes de tudo, na circunstância do enredo se encenar em Rimini, a cidade natal de sua mãe, Marcella. Uma professora de Literatura Italiana, radicada no Porto, na sequência do matrimônio com um confrade português.   

 

Alguns abris se sucedem e num deles propicia-se a primeira ocasião em que o arquiteto Andrea Insigne Cardoso vai comemorar o dia 25 longe dos seus domínios. Em março, o equinócio da primavera só bate o ponto no calendário. Um mês passa e a invernia insiste em continuar cruel, inclemente. Mais dilacerante que o frio, uma chuva gélida, viciosa, atiçada por vento cortante, ensopa os ossos até ao tutano. Uma primavera desesperada.

 

Abrindo o escrínio das recordações mais balsâmicas, Andrea quase que remoça, fazendo ressuscitar as vibrações daquele lírico dia 25 de abril de 1974, uma quinta-feira abençoada por um sol morno e aconchegante. 

 

Na companhia de Andrea, a namorada, Andrea vê-se descendo de novo a Avenida dos Aliados, avistando uma concentração, em torno da estátua do rei Pedro IV. A praça justifica, por fim, o nome de Liberdade. A escassas dezenas de metros, na Praça D.João I, em frente ao Teatro Rivoli, eles se divertem vendo um agente da polícia bater o record mundial dos 100 metros ao fugir de populares.

 

Nos seus ouvidos ecoam  novamente as palavras de incentivo, de júbilo da multidão concentrada em frente da sede distrital da PIDE, polícia política da ditadura, bunker ainda sob domínio dos algozes. E relê o cartaz agitado por uma anarquista, cãs grisalhas aflorando na cabeça, onde se estampa um clamor de alívio: “Eu sofri, mas agora sou free. Sofia”.

 

Ele paira tão envolto no transe dessa evocação feliz que nem se apercebe que a aeronave está prestes a aterrissar no Marco Polo de Venezia. Descendo as escadas do avião, o visitante é recebido na pista por um Hélios exuberando luz e calor, acompanhado por sua prima Vera, florindo orquídeas nos ruivos cabelos. É essa a primavera que ele esperava.

 

Quem sabe se na terra dos “vitelloni” fellinianos, eu não encontro, tal como o Prof. Daniele, a minha Vanina, graceja, recostado na poltrona do autopulman que o leva até Rimini.

 

No terminal rodoviário, mal desce do bus, avista um primo que já o visitara no Porto. Benvenuto a Rimini, Andrea!, saúda Ivone. Sei que já estás de novo solteiro.

 

É verdade, a firma Andrea & Andrea também já faliu no papel, responde melancólico. Não vais demorar a encontrar uma nova sócia.  Quem sabe se não será una carina romagnola?!, vaticina Ivone.

 

E nos primeiros dias de estada na Riviera Romagnola, una carina  Flora até vai abraçar o forasteiro. O luso-italiano se sentirá bafejado pela calidez de um “primeiro verão”. Sol de curta duração, todavia. Caprichosa, a florida Vera decidirá mudar de humores, passando a vestir trajes cinzentos e até invernosos. 

 

Andrea, que desfeita é essa, trouxeste o frio e a chuva na tua bagagem?,  provoca  Ivone, à entrada do Ondeon. Um mau tempo..ral  insiste em fustigar o litoral de Riccione, alagando as areias de algumas das praias mais capitosas do Adriático.

 

Aderiu ao tempo à moda do Porto… O hóspede mal tem tempo para desfechar a réplica. Um halo de luz faísca repentino, inundando de claridade o lobby da discoteca, como se vários spotlights estejam se acendendo em uníssono.

 

E o que está acontecendo é mesmo coisa de cinema. Somente a  transfiguração de um corpo feminino, de aprumada arquitetura, seria capaz de agir, funcionar como fonte geradora  de tão intensa e buliçosa luminosidade. O mau tempo evapora-se num instante.

 

Che bella donna, exclama um extasiado Ivone. Eu conheço-a. Estou a lembrar-me, só pode ser aquela ragazza  da…, arrisca Andrea.

 

Adejando esbelteza, erotizada por um coleante vestido de lycra verde limão fluorescente, a jovem entra no salão e dirige-se a mesa onde se senta uma autêntica deusa de ébano.

 

A negra ainda consegue ser mais deslumbrante que a amiga, exalta Ivone. Ela é afro disíaca! Andrea, porém, só tem olhos para a recém-chegada. Sem hesitações, aproxima-se da mesa onde ambas já tomam licor de peppermint.

 

Ciao, signorina, julgo que ainda se lembra de mim. Eu sou…  A visada acende um sorriso irradiando gratidão. Com certeza, eu lembro, apesar de estarmos de óculos de sol. O senhor nem imagina o alcance do favor que me prestou. Esse páreo tem para mim um grande valor estimativo. Foi um presente de…

 

…de um admirador, certamente, galanteia.

 

Expedita, a signorina contraria o alvitre. Porque arrisca ter sido um presente de um admirador? Não pode ter sido um presente de uma admiradora?

 

Andrea fica mudo, desprovido de munição para ripostar. Ele poderia, com toda a propriedade, alegar que tinha sido também um presente de um novo admirador.

 

Por vias aleatórias, foi essa magia que aconteceu a escassos metros do adriático mar. Uns dias antes. O portuense gozava as delícias de uma calda tarde, quando, impelido pela brisa marítima, um objeto sobrevoou seu pedaço arenoso. Talvez os  mesmos em que o Carlo e a Roberta de ‘Estate Violenta’, de Valerio Zurlini, começaram a se enfeitiçar .

 

Levantando-se lesto conseguiu capturá-lo. Não demorou a constatar que o OVNI não passava, afinal, de uma espécie de sarongue. Em instantes, uma praista, vestindo um bikini asa delta, que mostrava tudo, mas escondia o essencial, aproximou-se dele e o interpelou com afã.

 

Grazie, esse pareô é meu, reclamou a moça, de estatura meã, não mais de um metro e sexyssenta, estendendo a mão ao cavalheiro. Escapou-me quando eu abandonava o areal.

 

Agora, no tumulto sonoro da danceteria, é o cavalheiro que estende a mão a senhorita. Sem dar mostras de afetação, ela declina cortês o convite para ‘Let’s Dance’, de David Bowie. Aparenta preferir continuar conversando num italiano com sotaque em dose dupla.

 

Para sua surpresa, a menina do pareô voador é jugoslava, nascida na Istria croata, região que entre as duas guerras mundiais foi colonizada pela Itália. Uma natural de Pula, cidade banhada pelas águas adriáticas.

 

Eu sou conterrânea da Alida Valli, conhece?

 

 

Sim, a condessa Livia Serpieri de…‘Senso’ de Visconti, corresponde Andrea.  A jugoslava sinaliza com um gesto de aquiescência. E revela, fazendo cintilar seus olhos cor de esmeralda. Eu nasci num 31 de maio, data do aniversário dela. Também por isso, meus pais decidiram  registrar-me com o nome de Alida Maria. Na semana passada, vi-a em ‘Suspiria’ (de Dario Argento). E qual é o seu nome?

 

Ele responde sucinto, mergulhando num enlevo deslumbrado. Neste momento, o forasteiro já “suspiria” pela homónima da intérprete de Miss Tarner do filme de Argento. Mais do que só ter olhos para a bronzeada croata, ele apenas tem olhos para admirar, na acepção stendhaliana da palavra, os olhos cor de esperança da ragazza. Até já se imagina, acolhendo-a meigamente em seus braços, dançando a copla ‘Ojos Verdes’, na voz da Conchita Piquer.  Para seu regozijo ,é a declaração ‘Io che amo solo te’, de Sergio Endrigo, que se ouve no Ondeon.

 

Vamos dançar, Alida?, insta Andrea. A resposta, protocolar e perentória, da fleumática dama decepciona o fogoso gentil-homem. Hoje não, hoje e amanhã, eu estou de folga.

 

Estou de folga. Hoje e amanhã. Repete em tom de lamento ao primo, à saída da discoteca, com aquellos ojos verdes na retina. Não consigo entender essa desculpa. ‘She Works Hard for the Money’. Ouves a Donna Summer? Andrea, essa menina não engana. A Alida e a Gigi, a etíope, andam numa rica lida.

 

Quem andou numa afanosa lida foram eles, nos dias e noites que se sucederam, investigando quem era a recatada dona do pareô de motivos tropicais. Nesses dias e noites, os primos Insigne constataram o desaparecimento da croata das arenas, novamente ardentes de Riccione.

 

Na noite de terça-feira, dia 24, Andrea volta ao Ondeon. Alegadamente, seu propósito, bem benévolo, note-se, aponta para um brinde a mais um aniversário do 25 de abril. E a taça de espumante quase lhe cai da mão ao avistar a ragazza sentada numa mesa, vestindo uma minissaia plissada, colorida de salmão e um top cai cai preto, tomando una birra*. Impulsivo, não evita a precipitação de uma birra.

 

Buona sera, signorina. Que encontro propício. Decidi contratar seus serviços. Quero que me acompanhe numa viagem a Fescenia, dispara com acre sarcasmo.

 

Sentindo-se desmascarada, a morena consegue, contudo, reunir expediente para ripostar. Il signore deve contatar a agência Buona Compagnia. Meu codinome é Merope (1). Mas escusa de…

 

E o travo irónico do contra-ataque vê-se abafado pelo avolumar dos aplausos que saúdam o hino ‘Bella Ciao’. O 25 de aprile  se comemora e bebemora igualmente em Itália. Em 1945, nesse dia, uma quarta-feira, o nazifascismo era derrubado pelos partigiani. Noutra quarta, o cessar-fogo é novamente declarado. Alida e Andrea brindam a festa della liberazione d’Italia.

 

A trégua leva o arquitecto a desmoronar, num átimo, o edifício granítico da sua acrimônia. Desculpe, mais essa me parecia ser a única maneira de estar com você. Quero muito conhecê-la, confessa quase suplicando.

 

Sinto-me lisonjeada, mas é um desejo difícil de satisfazer, replica.  Esta tarde, eu me demiti da agência. Oggi è la mia prima notte de libertà

 

O requestador não tem tempo para reagir. Na pista começa-se a dançar ‘Temptation’, cantada por Teddy  Renno. Vamos, arrebata a aposentada acompanhante. O cavalheiro não desperdiça o ensejo de ter Alida, por bom fim, em seus braços famintos. Será que a alquimia gerada, há décadas, por essa balada, nos corpos e espíritos de Roberta e Carlo, vai se reeditar?

 

 

Amanhã, regresso a Pula para ficar, anuncia. Andrea constata que não tem um minuto a perder. Numa frase, busca sintetizar sua utopia sentimental.

 

Alida, eu não fui o primeiro homem da sua vida, mas quero ser, vou ser o último. A desejada sorri e contraria, voz prenhe de certeza. Andrea, não sei se você seria o último, mas posso garantir que seria o primeiro.  Afetuoso, o cortejador atavia-se com a roupagem de uma categórica convicção.  Eu serei o primeiro, sempre dedicado, sempre fiel.

 

Fiel?  Os homens –assegura ela- , não são capazes de me trair, porque são incapazes de me atrair. Eu vou ser o primeiro, Alida. Andrea, só as mulheres me atraem. Estou apaixonada por uma patrícia, a Laurinda, la  carina  Laura.

 

A sinceridade afiada, desconcertante de Alida corta, golpeia, ameaçando despedaçar, o devaneio afetivo de Andrea. Não o pulveriza de todo, porém. A execução da canção popularizada na voz de Bing Crosby termina. Outra tentação tem asas para continuar.

 

Venha visitar-me a Pula, desafia a croata, entregando-lhe um cartão, que retira, ágil, do aconchego quente e úmido do top. E que tal irmos ver ‘La Strategia del Ragno’, de Bertolucci?.

 

Strategia? Qual é a estratégia dessa mulher- aranha?, interroga, acomodando-se no assento do avião. Voando em direção a…., Andrea, auscultadores assestados, recorda os versos de ‘Lontano dagli Occhi’, de Sergio Endrigo. “lontano dagli ochi e tu sei lontana, lontana da me”.

 

Antes que la  prima notte de quiete chegue, muitas noites ainda se vão suceder. Noites e madrugadas em que ele rogará a Hipnos que, à imagem do pastor Endimião, lhe conceda o dom de dormir de olhos abertos. Para assim poder contemplar (e)ternamente os olhos verde esperança de Alida, enquanto la prima notte d’amore  não despontar.

 

Nota:

Nome da personagem intepretada por Alida Valli em ‘Edipo Re’, de Pier Paolo Pasolini

 

Danyel Guerra é natural da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro (Brasil).Tem uma licenciatura em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Escreveu e editou os livros 'Em Busca da Musa Clio' (2004), 'Amor, Città Aperta' (2008), 'O Céu sobre Berlin' (2009), 'Excitações Klimtorianas' (2012), 'O Apojo das Ninfas' e 'Oito e demy' (2014). No prelo está 'O Português do Cinemoda' (edição Douro Editorial).

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Paginação:

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