ANO 5 Edição 79 - Abril 2019 INÍCIO contactos

Deisi Scherer Beier


Poemas    

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todo início de verão ela veste a mesma blusa. espécie de ritual de chegada. o corpo dando boas- vindas à escassez de tecidos que faz parceria com a estação. toda vez que pega um livro, abre na página 47 e, no meio dela, verifica a palavra: tenta usá-la por uma semana. depois descansa. quando põe açúcar no café, mexe três vezes circulando a colher pela xícara da direita para a esquerda, salvo nas segundas-feiras. não compra maçãs maiores do que sua mão fechada, e sempre as mais vermelhas. na calçada, anda colada aos muros, uma certa tendência a limo lhe é forte. seus bichos não têm nome. ela os chama pelo que são. certa vez cortou o cabelo na lua cheia, chorou dias vendo-os se projetarem da cabeça feito piaçava de vassoura. tornou à minguante. quando caminha ao sol, confere se sua sombra permanece. tem suspeitado que as sombras andam abandonando as coisas às quais pertencem. olha para o chão enquanto anda. se calça o sapato de usar em casa sabe que deve dar duas voltas na chave da porta e, mesmo caminhando na ponta dos pés, o piso estala. carrega na bolsa um frasquinho de perfume, há anos vazio e cuja tampa, que era dourada, ficou gasta de tanto ser carregado. o frasquinho lembra algo que, de vez em quando, faz com que sua cabeça quase caia para dentro do pescoço, para dentro dela mesma, como se morasse no seu porão. ela dorme com uma pequena lanterna que brilha uma luz amarelada ao lado da cabeceira e sempre conta a mesma história antes de fechar os olhos. a luz da lanterna não é suficiente para ver, é suficiente apenas para a certeza de que a noite não consegue comer a inocência inteira, mas só a metade dela. quando a noite se torna um bloco só, alguém que espera pelo sono é só um ruído coberto de incerteza. frequentemente, durante a noite, ela conta à escuridão para quem vendeu suas últimas palavras. ela não informa sobre os silêncios. quando acorda fica muda. seu silêncio não tem motivo, as palavras apenas empacam. porque ela não sabe se aquilo que pensa se tornará uma frase em voz alta ou um nó na garganta. ou apenas um sopro no canto da boca. há que se pôr atenção no bafejo do medo. guardou todos os dentes de leite, aqueles que não ficam moles por muito tempo, mas caem ao se morder o pão amanhecido e, a isso, não chamou de infância, mas de falta. quando criança lhe disseram que uma pessoa vale um pedaço de pão. ela acreditou e não conseguiu mais crescer. hoje, ela não o compra, mas o come quando outro o faz, e acha gostoso, embora os olhos continuem vazios. ainda escreve cartas, só para saber onde está. e passa a mão pelos cabelos, como se houvesse pensamentos lá. no corredor de casa, a luz é fraca e suas costas ainda ficam rígidas, o nojo não se curva e o medo torce o estômago. suas frases são curtas e a voz baixa. ela treme de frio já no outono. cata as migalhas de pão bicando com os dedos. anda pela casa como um cachorro preso e pela cidade como um cachorro perdido, e seus pés nunca são suficientes, nunca rápidos o bastante, nunca entendem a direção. na casa, há um retrato pendurado na parede do outro cômodo e, pela manhã, um raio de luz cai sobre ele. o retrato passa o dia todo olhando a janela, como se pressentisse a fuga. tudo lhe vem de viagem. e ela, convite.https://ssl.gstatic.com/ui/v1/icons/mail/images/cleardot.gif

 

 

 

 

 

 

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recolho os restos das conversas
e umas tantas cismas
e faço sala pra esse silêncio oceânico
com um café terapêutico disposto entre o gesto e o olhar
tantas conjecturas esvoaçantes feito fumaça
talvez me irrite o modo como tua boca soletra os assuntos do dia
ou como teus dedos rimam círculos frugais
entre nós aquele espaço nu e abismo
a queda sob o som desse peso
é quando o olhar se perde na janela
não, o olhar se torna a janela
deliberadamente
nem mesmo o gosto frio do teu súbito palavrório me localiza na grafia do junto
coisa química transpondo a sensação à toa de ter
simplesmente adormecido
antes do perigo 

 

 

 

 

 

 

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na foto, como se ele tivesse posto uma mancha morta no rosto, uma que ela não consegue tocar. frio. na casa, ninguém passava a noite, ninguém era hóspede. mas havia um penico próprio para essas ocasiões, o mais branco e de louça. se ele vinha, tinha as roupas amarrotadas, eram o dia de ontem. ela troca as roupas de baixo todos os dias. como se tudo que tivesse usado no dia anterior tivesse ficado pequeno demais. vou te comer, ele diz, vou te comer. e seus beijos molhados ficam pendurados no céu preto e branco. a lâmpada, de lado, olha ao invés de iluminar. lembra que ele trepou como se tivesse pedras nos bolsos, ela como se todo o seu branco fossem penas. ela esteve descalça em sapatos grandes demais. ele tem sapatos gastos por pisadas tortas. havia noites em que o sono os invadia tão profundamente: tinha vergonha do escuro. noutras, não podiam dormir. estavam tão despertos que seus olhos enchiam todo o quarto de breu. às vezes, ainda, seus pensamentos eram transparentes, um corredor vazio e tão comprido que ninguém podia se esconder dele. se há lua na noite, os cachorros uivam. isso porque a lua faz uma lacuna na escuridão. e as pessoas têm tantos cachorros para não ouvirem os gritos e trocam galinhas por gansos, porque eles também grasnam a noite inteira. se prestar atenção a cada ruído pode-se confundir o medo com ausência. lá longe, a mesma noite consegue chegar com a pontinha do próprio pé. mas é outra. quando ele acorda, a fila do pão continua longa e as moedas, poucas. o café, pela manhã, tem gosto de sono. às vezes, não. enquanto ela come, ele mastiga, ausente. pela cortina, se olha para fora, recita para si mesmo a cor do céu e se está frio. e o coração martela.

 

Poemas retirados do livro “Cais do alheio”, ed. Belas Letras, selo Modelo de Nuvem, Caxias do Sul, 2017, o segundo do capítulo “Enseada” e, o primeiro e terceiro do capítulo “Mar Aberto”.

 

Deisi Scherer Beier é formada em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e pós-graduada em Direito do Trabalho. Frequentou oficinas de criação poética com  Fabrício Carpinejar, Marilice Costi e Ronald Augusto e, de narrativas, com Caio Ritter. Estreou na literatura em 2007, com Tramas de orvalho (poesia), obra finalista indicada para o prêmio Livro do Ano 2009, concedido pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Lançou, em 2010, seu segundo livro de poemas, Córrego de amarras. Participa da coletânea Moradas de Orfeu – antologia poética, sob a edição da Letras Contemporâneas (Florianópolis-SC/Br), de 2011, obra que congrega poetas da região Sul do país, bem como da Coletânea de poesia gaúcha contemporânea, organizada por Dilan Camargo e publicada pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul-Br, em 2013. Lançou, em agosto de 2012, seu terceiro livro, também de poemas, Breu rendado (Ed. Movimento), indicado como finalista para o prêmio Livro do Ano 2013, pela AGES e também para o Prêmio Açorianos. Data de junho de 2015 a publicação de Nu de dentro, seu quarto livro de poesia. Lançou, em 2017, mais uma obra, Cais do alheio, pela Ed. Modelo de Nuvem. Cais do Alheio foi ovencedor do prêmio Livro do Ano de Poesia,  troféu Alceu Wamosy, pela Academia Rio-Grandense de Letras, em 2018. Mantém página no facebook como autora com o nome @deisibeier.

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