ANO 5 Edição 79 - Abril 2019 INÍCIO contactos

Delalves Costa


Poemas    

O Efêmero

 

Já não leem o que escrevo
no agora, julgam-me apenas
pela inconstância do relevo.
Morrem a metáfora e o olfato
nos olhares que agonizam
sobre a semântica do ato...
Efêmero, alguém no outro lado
teme pela vida que logo
cairá no mundo da língua vazia.
Aqui: o amor erógeno. E lá
(entre carros e sombras)
está o caos sem fantasia;   
vultos, inexistentes em si
entreolhamo-nos. Às Ruas,
nós estaremos apressados
pela interminável respiração
que se alonga já sem fôlego
para os olhos que morrem
ao ver o mundo sem poesia.

 

 

 

 

 

 

O Relógio

 

Me apunhalaram. Uma carne fria
com estímulos eletrônicos,
assim deixaram minha alma.
Me arrancaram o susto de vida
e deram corpo ao previsto.
A alma que soprava arrepios
agora é piano sem lírica
e palpável às mãos do mundo.
Carne de metal: não chora,
não contempla. Só vê.
Frio é o afago, como é
também o nosso tempo
– esse homem de muitas portas
e chaves humanas,
e contudo vazio de mistério.
Arrancaram da caixa mágica
a lírica, a música e o susto.
O sangue já não é quente...
O corpo já não me escuta...
Me apunhalaram ainda n'alma
e me jogaram à carne fria
que não chora nem contempla.
Me arrancaram o susto
e no lugar puseram o relógio.

 

 

 

 

 

 

Plenitude – chuva por nuvem

 

          I

 

Tragar o mar depois morrer
açucarar-se. Contudo, chuva
ao largo, desperto
doce-água e sangria,
nuvem no incerto

 

fui chuva a pouco
não, não havia céu
tampouco campo
senti sede no açude do gado
eis-me agora, boi confinado

 

          II

 

Tragar o mar depois morrer
açucarar-se. Contudo, chuva
deveras ao incerto:
pólen fértil e fatídico,
nuvens no deserto

 

fui chuva a pouco
não, não havia céu
tampouco árvore
respirei sombra na semente
eis-me agora, flor indolente

 

          III

 

Tragar o mar depois morrer
açucarar-se. Contudo, chuva
deveras ao incerto:
céu cálido e salobro,
eis-me não liberto

 

água doce a jorrar
mas não, não morro
(tampouco viverei)
se não penetrar a terra e ser
plenitude, prefiro ser nuvem

 

 

 

 

 

 

 

Osório Porto Alegre São Paulo

 

          I

 

Na vez primeira
Osório Porto Alegre São Paulo
o poeta não adormeceu de ver
só pra divagar
é primaveril o inédito, pétalas
caem na prosa
do historiador
assim, épocas
e línguas afins
são polinizadas (tempo não há)
noite dia logo
verso aferido não vem do caos
vem da gente (que vive a pele)
poemamente

 

          II

 

sinto sede e vertigem no olhar
bebe-se nuvem
bebe-se estrela
azul-garoa pela intensa cidade
à toa desvairado
suspiro o tempo que inevitável
nunca se sente em casa. Nutre
se de metal espelho e sinapses
o homemporâneo sem estação
eis o migrante
vulto sem voz face ao instante
o ser, outro nós
eletromiserável
e apátrida na rua que é mundo

 

          III

 

não há o onde
há itinerários, é a vida diversa
a poesia que transcende no ser
tão inacabado
tão liberto como nos é a cidade
vivaz poliglota
a velha árvore
assiste ao voo
da sua espécie
o pássaro edifica-se; não mais
o alto prédio
é sombra etérea, tem semente
que germina no chão da tarde,
flor que arde

 

          IV

 

é outubro. E fecundos, o estar
e seus corpos
se é travessia
por que nem todos embarcam?
Ao taciturno
é salobra a jornada (o espirro
quando muito é da poeira). Ei-
(sem estação) lo homemoinho
que sobrevive de pedir outono
na primavera
(ao poeta) nem tudo são flores
viaduto é casa
inverno é casa
é casa lágrimas de quem florir

 

          V

 

Paulicéia, sobre
tudo multi: étnica, outonal país
(metrópole em eterna gestação)
que se jardina
no caos. O escrevente que se vê
migrante, eis
que a desenha
traço abstrato,
vulto efêmero
no Brooklin entre pitangueiras
ruas e aromas
que polinizam asfalto concreto
e risos contidos. Além-estética,

 

escrevivências

 

 
Delalves Costa (13 de dezembro, 1981) é escritor e poeta com 7 livros de poesia publicados: COISAS que faltam em mim (2005); O Menino dos Cataventos na Rua dos Passatempos (infanto-juvenil, 2006); “Considerações Pré-maturas & Outras ausências” (2008); “Josseu Solta-inventos e as Invenções do infantiletrando” (infanto-juvenil, 2008); “Fragmentos e iluminuras do discurso pré-maturo” (2013); “Inacabamento, a eterna gestação” (2016), e “O Apanhador de Estrelas” (Becalete, 2018; 2ª edição Class, 2018). Formado em Letras Licenciatura-Plena Português e Literatura Portuguesa, é mestrando no Mestrado em Educação Profissional da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul/Uergs, Unidade Litoral Norte – Osório. Profissionalmente, professor de português, literatura e texto técnico na rede pública de ensino do Rio Grande do Sul. Pesquisador nas áreas de ensino, literatura e cultura locus-regionais do Litoral Norte do Rio Grande do Sul.

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Paginação:

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