ANO 5 Edição 79 - Abril 2019 INÍCIO contactos

José Arrabal


Joana Matheus    

O vinho por três vezes veio sempre do mesmo lugar, porque era desse vinho que ela gostava, desde muito tempo, quando haviam conhecido o sítio e quem fabricava o vinho, num fundão do Batistini, zona rural de São Bernardo, no ABCD paulista.

 

Vinho do sítio de Seu Prudêncio Garcia, antigo operário, jeitão estranho de espanhol. Homem guardado e escondido. Homem de quem contavam histórias duras de acreditar. Que fora bravo e brigão noutras épocas, moço dado a comandar greves nos idos de Jango e de antes, até ser pego pelos militares, que por uns tempos prenderam Prudêncio num antro de diabos, de onde saiu castrado e manco.

 

Hábito dos militares que sempre fizeram isso, desde que começou o inferno, cumprindo gosto dos patrões.

 

De volta da prisão, solto, ferido e manco, desacertou seu casamento. Vendeu o sobradinho em construção, que aprontava para a vida. E, com o dinheiro contado, comprou terras no Batistini. Seu Prudêncio Garcia, homem de briga por direitos. Comunista, dizem que foi, sim. Dizem. E mais, diziam ainda pior. Que era um baderneiro. Isso. Diziam. Até.

 

Escondeu-se no sítio, construindo tudo o que construiu com as mãos. Por mais de dez anos sem ver os amigos, nem vir às ruas e praças antes freqüentadas na cidade.

 

Fez barracão. Depois, casa e plantações, vivendo de vender mel, própolis, cera, velas de abelhas e mais alguns legumes de horta. Frutas. E vinho. Vinho caseiro, vermelho leve, posto contra o sol, quase violeta, que fabricava suave e fino, feito vinho de igreja, vinho para padres, seus melhores fregueses, e mais para algum freguês, desconhecido qualquer que aparecesse, mesmo sem conhecê-lo bem, dele, porém, logo ficando íntimo.

 

Era esse o vinho que Marcos Matheus usava.

 

Já a carne, a carne era não mais que cinza. As cinzas dela, porque, conforme seu gosto, Joana fora cremada e ele trouxera as cinzas para casa em urna de cobre, em casa protegida por pano de linho, guardada no gavetão do meio de um camiseiro do quarto.

 

Lá, escondia as cinzas, naquele gavetão onde antes haviam estado suas roupas e as roupas dela, íntimas, servindo o gavetão, então, às cinzas e à urna de cobre coberta com pano de linho branco.

 

Trancara as portas. Vedara as janelas. Mais tarde, tendo as cinzas, comprara os cálices, três dúzias de diminutos cálices de cristal próprios para licor, comprados no atacado, numa loja do Brás. E o vinho de Seu Prudêncio Garcia. Três garrafas e assim três vezes teve de ir ao sítio para ter a bebida.

 

Servia-se às nove da noite, toda noite. Um cálice só e no cálice servido de vinho apenas uma colherzinha com cinzas.

 

Dosava e mexia com a colherzinha. Às nove da noite.

 

Antes, no aparelho de som três-em-um, colocava a fita. Sempre a mesma. Ludwig van Beethoven. Réquiens, nunca. Nem Marchas Fúnebres.

 

Sempre a Nona Sinfonia.

 

Deixava a música fluir, mirando o cálice com vinho e cinzas.

 

No início do terceiro movimento, “Adagio Molto e Cantabile”, arregalava os olhos e recordava a vida e segurava o cálice suspenso com a mão esquerda diante de si e de seus olhos, na sala negra da casa com as portas trancadas e as janelas vedadas, até as frestas, vedadas com cera de abelhas.

 

Era quando rezava:
- Eloi, Eloi, lamá sabachtháni!?

 

Por três vezes. Conforme aprendera no Evangelho. E tomava o vinho com as cinzas dela.

 

Servia-se e devolvia o cálice vazio à mesa.

 

Aguardava pleno que prosseguisse a Sinfonia por seus tempos até o fim, quando tornava a segurar o cálice, lançando o cálice para o chão da sala, pouco a pouco plena de cristais em cacos.

 

Toda noite. Após as nove da noite.

 

Levantava-se da cadeira com os pés descalços e pisava nos cacos. Vagarosamente via o sangue deixar seus pés, manchar o chão.

 

Depois? Depois?

 

Rebobinava a fita até o início, para a noite seguinte. Desligava o aparelho de som três-em-um. Lavava os pés. Tratava as feridas com pomadas de ervas e bandagem, indo dormir.

 

- Deus meu! Deus meu! Por que me abandonaste!?

 

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Prenunciara o mal desde um sonho. Joana, ao acordar aflita, contara a ele:
- Marcos! Que sonho ruim, Marcos! Que sonho horrível eu tive agora há pouco!

 

Havia um desatino nos cabelos dela. Um odor de medo, também, em seu hálito. As mãos, mais brancas que de costume. Frias.

 

- Sonhei com você sentado à mesa, no escritório, corrigindo provas de alunos. Eu, sentada, na cadeira de balanço, lia qualquer coisa. Creio que uma história sua, penso que sim, mas não sei ao certo. Aí, vi você e perto, também na mesa do escritório, um aquário, feito aquele que tivemos aqui em casa, logo que casamos. Bonito, redondo, vidro grosso. No aquário, apenas um peixinho dos neons iguais aos nossos, só que era grande. Marcos, não vi bem, pois era você, mas não era você.  Corrigia provas. Tinha os cabelos imensos, negros, revoltos, caindo pelos ombros e uma capa vermelha sobre os ombros, mais um rosto difícil, angular, com os olhos escuros. Vi você se voltando para mim, sem muitos sorrisos. Assustada, deixei de ler sua história e você, com a caneta, levantava a caneta sobre o aquário, enfiando sua caneta no aquário e já não era mais uma caneta, Marcos! Era um garfo! Um garfo tridente imenso. Lembro perfeitamente, um garfo! E parecia querer garfar o peixinho nas águas e eu gritava, lá, na cadeira de balanço, ‘não faz assim com o peixinho, não faz assim, não faz, comigo’. Enquanto você garfava a água e eu gritava. Gritava. Que sonho horrível! Que sonho ruim, Marcos!

 

Buscou o seu sossego com abraço vagaroso, aconchegando nele o corpo dela. E, entre beijos, sussurrou ‘não temos mais aquário, nem provas para corrigir, Joana’.

 

Claro. Estavam em mês de férias, com a faculdade fechada e mais esperavam passar as festas de Natal e fim de ano para passar tempo na praia de Trindade, em casa de amigos. Haviam combinado.

 

- Horrível, Marcos! Que sonho ruim!

 

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Gostavam de passear. Saíam de carro do Bairro de Parelheiros, onde moravam em uma chácara, indo até longe, logo em qualquer feriado, muito mais nas férias. Assim foi, num desses passeios, que conheceram  sítio no fundão do Batistini, em São Bernardo. E o vinho de padre que ela gostava e sempre compravam daquele homem, Seu Prudêncio Garcia.

 

Deveras estranho esse sonho, pensou consigo, pois com certeza lera em algum lugar: ‘Os sonhos são os jardins do demônio e suas mais perfumadas flores o que de mais escondido temos na memória’.

 

E mais pensou, enquanto tentava sossegá-la:
‘Sorte nossa sermos cegos para melhor enxergá-los, vendo só o que vemos dos sonhos, feito vemos dos icebergs a porção diminuta, a que não mata, a que não tem a cor dos olhos da morte, o perfume’.

 

- Não era você! Era e não era! Não podia ser! Não podia ser você, Marcos! Mas quem seria, meu Deus!? - Joana se intrigava.

 

Mais? Pouco faziam além.

 

Viviam juntos e trabalhavam juntos, lecionando. Ele, Filosofia da Linguagem. Ela, Literatura.

 

Às vezes, ele escrevia contos, mais para agradá-la.

 

Histórias engraçadas, com personagens de outras histórias da literatura e de outros escritores, muitas vezes com lugares distintos, épocas diversas entrelaçadas, feito aquela história que tanto ela gostara e em que misturara Stendhal e Machado de Assis, “O Vermelho e o Negro” mais “Dom Casmurro”, com Julian Sorel mais Capitu se conhecendo, para desespero ainda maior de Bentinho.

 

Brincava assim com seus textos, todos sempre assinados com o mesmo pseudônimo, a mesma dedicatória: ‘Para a Professora Joana, de seu Chapeleiro Maluco’. No país das maravilhas.

 

Às vezes, reescrituras de histórias bíblicas.

 

As que menos ela gostava, mas as que mais ele sentia gosto em escrever, criando situações intrigantes com parábolas e personagens. Moisés bêbedo, descumprindo as leis das tábuas. Cristo criança abusando de seus poderes para impressionar os coleguinhas. E Jeová deveras arrependido por ter destruído Sodoma e Gomorra.

 

Assim, dizia, exorcizava seu tempo de Pastor Evangélico, quando substituíra o pai, no templo, em Osasco, até abandonar o templo e a crença, casando-se com ela, tudo muito rapidamente, desde que a conhecera, há três anos, na faculdade onde fora lecionar, transferindo-se, os dois, para a chácara em Parelheiros.

 

Sempre : ‘Para a Professora Joana, de seu Chapeleiro Maluco’.

 

Às vezes, reuniam-se com amigos, os mesmos de sempre. Os mesmos da faculdade. Às vezes, ela bebia e ia além da conta. Às vezes, ela chorava. Muitas vezes, ria. Ele, não, sendo de pouco riso. Mas gostava dos encontros com amigos.

 

E ouviam música. Muita música. Beethoven, quase sempre. Mais que tudo.

 

Gostavam também de colher frutas no quintal.

 

E prosseguiam com suas teses. Ele, Doutorado. Ela, Mestranda. Ele, “O Sagrado e o Profano na Obra do Padre Anchieta”. Ela, Rosa. “O Feitio do Feminino em Guimarães Rosa”.

 

E mais? Até trepavam bem. Por que não? Se trepar é assim como é e foi com os dois, bons bocados de cada um, um dentro doutro. Não havendo o que fazer de melhor, nas horas mais diversas, lugares vazios, nem sempre em casa. Davam-se sempre, brincando um com outro de ser um corpo só. Assim faziam, nos nós do gozo.

 

A Nona Sinfonia. Porque não queria Réquiens. E desgostava de Marchas Fúnebres.

 

Seu Prudêncio Garcia, alegre com eles, lhes dissera certa vez, já íntimos:
- Se não trepam bem, não devem andar juntos, nem beber de meu vinho, mas, se estão juntos, bebam bem, que meu vinho ajuda mais.

 

Riu com eles, ainda que pouco risse. Também.

 

Ela dizia meter. Ele falava trepar. E mais brincavam no gosto.

 

E assim mais se divertiam. Igual os dois se divertiram, após ter Joana sossegado, já livre das ânsias do sonho estranho com Marcos e o garfo Tridente garfando a água com o peixinho néon no aquário do escritório, onde ele corrigia provas de alunos e ela lia mais uma de suas histórias, na cadeira de balanço.

 

Ele se divertiu. Ainda que prenunciasse algo ruim. Foi, sim. O que não demorou acontecer, pois que três dias depois ela pôsse a tossir. Uma tosse seca, repetida. Três vezes seguidas, assim feito as batidas que de costume escutamos, vindas dos bastidores nos teatros, anunciando o início do espetáculo. E as dores de dias depois.

 

Sempre três vezes, a tosse. Sempre seca.

 

Enquanto, vagarosa, ela emagrecia. E não houve mar de Trindade que lhe sustasse o hábito. A tosse cada vez mais insistente. Agora, com estranhas dores. Também, fortes cólicas. Até sangrar.

 

Os dois, já em São Paulo. No dia do aniversário da cidade, em fins de janeiro. A cidade suspensa, chuvosa, mas embandeirada, com o povo nas ruas, reunido na Praça da Sé, trezentas mil pessoas pedindo eleições diretas para Presidente da República e eles dois sozinhos, na casa de Parelheiros, mirando no quintal o pé de acerola vergado, milhares de acerolas vermelhas, maduras e mais outra consulta ao médico marcada para o dia seguinte.

 

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Trouxe consigo até em casa a urna de bronze com as cinzas que fora buscar no Crematório de Vila Alpina, pois, de fato, a ela prometera sepultar suas cinzas aos pés de um pé de ipê amarelo, ‘em qualquer lugar, Marcos, desde que haja um pé de ipê florido bem perto, desses com flores amarelas bem bonitas’. Mas, onde?

 

Havia, na chácara deles, laranjeiras, mimosas, pés de manga, banana, lima da Pérsia, pêssegos, dois pés de pêssegos, um de ameixa, romã, pinha, pitanga, pimenta e um loureiro, mais plantas rasteiras. Ipê, não havia. Nem mais o pé de acerolas, que ele cortara a machadadas rápidas.

 

Decidira que lá ela ficaria com ele, ‘até que eu ache o pé de ipê florido’, e guardara a urna no gavetão do camiseiro, no quarto deles, conforme lhe sugerira uma velha amiga espírita, ‘bem envolta em linho branco, recém lavado’.

 

Levou consigo a urna e assim fez.

 

E trancou as portas. E vedou as janelas. E disse a todos que iria viajar. Talvez viver uns tempos em Trindade. Quem sabe, Parati.

 

Antes, passara no trabalho, acertando os últimos detalhes de sua licença, para não mais ter que voltar até lá.

 

- Vai com Deus, professor - recomendou Geondes, o mesmo funcionário da Secretaria que cuidava de seus diários de classe. Os dele e os de Joana.

 

Eloi, Eloi, lamá sabachtháni!?’ - sussurrou por entre os lábios, pela primeira vez, inaudível, alcançando com os pés apressados o corredor da faculdade, indo ao estacionamento buscar o carro e estar de novo com a urna das cinzas que no carro deixara, numa frasqueira branca da cor do linho lavado, guardado no gavetão do camiseiro.

 

Em casa, acendeu velas e incenso. Dispôs sobre o camiseiro, numa jarra cor de jade, flores que comprara. Rosas vermelhas de seu Chapeleiro Maluco, para a Professora Joana.

 

Não encontrara flores amarelas.

 

Lembrou-se então das acerolas maduras. Rezou e chorou. E pôs-se a ouvir a Nona Sinfonia, que tanto ela ouvia. E deixou crescer a barba.

 

Até a noite.

 

- Em qualquer lugar, Marcos, desde que haja um pé de ipê florido por perto.

 

- Amanhã, arranjo e planto no quintal a muda do ipê, aguardando florir - propôs-se, antes do sono.

 

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As evidências não permitem disfarces, mesmo quando verbais, as evidências. Na placa da porta, no consultório médico, sempre pulsara com febre aquela mesma palavra cor de bronze: ‘Oncologia’.

 

- É mentira, Marcos! Mas e se for verdade?

 

Verdade e mentira. Dois bálsamos. Sabia. Uma, arma com facas a alma. Outra, lhe concede armadura. Nas guerras da vida. Algumas vezes, sempre, doses diversas de Nepente, poção mágica usada pelos antigos para conter tristezas.

 

- São dois tumores, Professor. Veja os exames. Um, no pulmão direito, em avançado estado. Outro, no útero. Estranho que tudo tenha se dado de modo tão imediato.

 

Havendo pouco o que fazer, pois o que se pode fazer com um sonho?

 

Doutor Jardim. Lucas Jardim e o seguro saúde.

 

Já no início de fevereiro, internou Joana no Hospital Albert Einstein. Apenas por nove dias, para conter hemorragia aguda.

 

- Sossega, Marcos. Se acalma. Eu escapo dessa. Há de haver um jeito, que não tenho pressa. Os apressados só colhem sapos, em vez de peixes. E eu sou de Peixes. Lembra? Lembra de sua história, aquela do décimo terceiro apóstolo, o que não era pescador. Era apressado, ele. Eu, não.

 

Ela, brincava. No Albert Einstein. Isto, após a primeira dor maior, quando tiveram de cessar as trepadas, por falta de ar dela, o câncer no pulmão vedando desde aqui a vida.

 

A vida!? A vida!?

 

Marcos Matheus lembrou-se do pai, ao envolver as cinzas e a urna de cobre no linho branco lavado.

 

- Deus não dá o cobertor conforme o frio, Marcos! Cai na vida! Cai, meu filho.

 

Sempre essa lembrança do pai, Pastor Evangélico, que enlouquecera em pleno púlpito, durante sermão a propósito da queda de Adão e Eva no Paraíso, advogando em defesa da queda, do sabor do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal da vida e do pecado, delícia entre as delícias:
- Deus o quis! Deus o quis! Quis e quis, sim! - possesso, esbravejava o velho Emanuel Matheus, sob tensões, seu rosto vermelho feito uma grande acerola madura, sendo por fim arrastado do púlpito onde pregava, levado de lá, direto para o hospício em Vila Ema, quase junto do Crematório de Vila Alpina.

 

- Aqui é bom. Não é mau - lhe disse o pai um dia, no sanatório, quando lá levou Joana para que conhecesse. – Aqui não sinto frio, meu filho.

 

Em março, no aniversário dela, Marcos lhe preparou uma festa em casa, só para os dois, mas as dores não deixaram Joana beber do vinho.

 

Sequer ele bebeu e na manhã seguinte, sem que ela notasse, espatifou a garrafa cheia e arrolhada no muro dos fundos da chácara de Parelheiros, bem junto do loureiro que haviam plantado juntos por espécie de devoção a Apolo, Deus de outros tempos de deuses sensuais.

 

Em cacos, o vidro da garrafa no chão da chácara e as folhas do loureiro manchadas com os respingos do vinho vermelho suave de Seu Prudêncio Garcia.

 

Quando chorou e sentiu frio, inquieto com a vida que se desperdiçava desde aquele sonho. O tridente, a água e o neon no aquário.

 

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Morreu Joana Matheus, aos 33 anos e 42 quilos, no dia 22 de abril de 1984, dia ensolarado, Domingo de Páscoa, em casa, após três internações hospitalares.

 

Tinha consigo a mãe, a irmã, uma enfermeira, duas amigas e Marcos Matheus.

 

A bem da verdade, morreu vagarosamente, após seis dias de inconsciência absoluta, transfusão de soro, plasma e sangue.

 

Antes, surpreendera a todos com melhora repentina, ainda que conforme o costume.

 

Quis comer e pediu que lhe trouxessem carne de coelho. E trouxeram. No dia seguinte, quis linguado com tenros brócolis cozidos. E lhe deram de comer.

 

A Marcos, solicitou que entregasse a uma colega de Mestrado todos os seus apontamentos e textos a respeito das feições do feminino nas histórias de Guimarães Rosa. E que sepultasse suas cinzas junto a um pé de ipê florido.

 

Vira, na TV que Marcos Matheus trouxera até o quarto, boa parte do grande comício do dia dezesseis, na Praça da Sé. Por “Diretas Já”.

 

- Quanta gente, Marcos. Tem mais de um milhão de pessoas. Todo mundo de amarelo, bastante bonito.

 

Ouviu também “A Consagração da Casa” e pediu que tocassem bem alto, no aparelho de som três-em-um, a Nona Sinfonia. ‘Mais Beethoven, outra vez. Beethoven, sim! A Nona, Marcos. Pelo poema de Schiller, com a Filarmônica de Praga. Aquela gravação do Maestro Paul Kletzki. Enquanto Querubins circundam Deus. Lembra?’

 

Sussurrou por sorriso branco. E ouviu.

 

Depois!? Depois dormiu. Por seis dias, desde aquele dia, até morrer.

 

No quintal da chácara, Marcos Matheus mal havia acabado de cortar o pé de acerolas a machadadas rápidas.

 

Há um mês, no Hospício de Vila Ema, também morrera o Pastor Emanuel, seu pai. Ele sequer pudera ir ao enterro. Encontrava-se com Joana entre a vida e a morte, no hospital, em sua segunda internação.

 

- Quando o pai morre, seu Prudêncio, a gente fica sempre com algum remorso pesando por dentro. Remorso pendurado, feito pêndulo em nós. A gente vira uma espécie de outro relógio, governado por um outro tempo. Nunca é mais o mesmo. É sempre assim. É sempre assim. Mas quando morre a mulher, aí é diferente. É como se cortassem num só golpe o pau duro da gente, sem sangrar. É, sim.

 

- Verdade, professor. É sempre assim. Depois, pior mesmo é que tudo morre, morre mesmo. Menos a guerra dos homens e a miséria. Eu, quando moço, até tentei em vão matar um tanto essas duas pestes. Em vão. Não vai levar mel?

 

- Não, senhor. Apenas vinho e velas de abelhas.

 

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Desde que se trancara na casa com as cinzas e deixara crescer a barba, evitando encontrar o pé de ipê e sequer comprar a muda, conforme se comprometera, pouco fazia e às vezes lia e às vezes arrumava e rearrumava. As lembranças de Joana. O quintal. Nunca o jardim. E escrevia um tanto sua tese de Doutoramento, o sagrado e o profano na obra do Padre Anchieta. Por jogo e por nada. E um tanto mais, lia cartas e recordava histórias dos tempos da mulher viva. E rezava e chorava e acendia velas e incenso até que aconteceu o que se deu. Nove dias após a morte de Joana. Sendo assim:
À noite, deitado, já sob a luz apagada, com apenas o incenso aceso, sentiu tremer a cama. Leve tremor, por pouco imperceptível. A princípio, um, mais um e mais um. E mais, muitos tremores. De repente, sentindo sua cama sendo arrastada, indo lá e cá, apenas a cama e ele, estando tudo mais no quarto em seu lugar silencioso, até mesmo o camiseiro com o incenso e as cinzas guardadas na urna protegida pelo linho lavado no gavetão.

 

Guardou-se no cobertor, seu corpo inteiro que tremia. E implorou aos céus que cessasse aquele tumulto e pediu a Joana que chegasse a ele de outro modo, despido de medo. Sendo atendido.

 

Até dormir.

 

Pelo sono sonhou que visitava certo lugar de nome Colônia do Mar. Lá. Viu a mulher entre ipês sem flores e viu alguém mais. Um homem que jamais vira e que colhia flores roxas de outras árvores que não eram ipês. E viu no mar labaredas. Joana, sobre uma calçada bem elevada acima do nível da rua, balbuciava só para ele a Ode de Schiller à alegria: ‘EnquantoQuerubins circundam Deus’.

 

- Os de amanhã, Marcos, já não serão os mesmos. Nem os de hoje - e nada mais ela lhe disse.

 

Ouviu e despertou feito os vivos, com dores por seu corpo e se lavou e se alimentou e fez funcionar o carro, trancafiado na garagem.

 

Com a barba crescida, foi buscar mais uma vez, pela primeira vez, agora, desde a morte dela, o vinho do velho do Batistini, no ABCD.

 

Era preciso. O que havia de fazer. E não comprar qualquer muda de ipê ou encontrar algum ipê florido, amarelo. Conforme.

 

Não. Mas por quê?

 

Sequer sabia, ainda, pois, até chegar, apenas foi, percebendo, mesmo, só estradas e avenidas, ruelas velozes sob os pneus do carro. Só.

 

Até, lá.

 

Quando Seu Prudêncio Garcia lhe deu dálias. Flores de muitas cores. E lhe serviu chá de folha de laranjeira, mais pão de mel. E instou para que se cuidasse, pois ‘quem de nós segue o melhor percurso, dentre os que vão e os que ficam?’

 

- Sei lá eu, professor. Só sei que com meu pai, o velho Zocaleón Garcia, que mais foi homem do mar, tranqüilo pescador por toda a vida, em Parati, aprendi, do que dizia e falava certo, que ‘sempre entre fezes e urina nascemos. Já, quando morremos, não. Porque morrer, é feito acordar sem desgosto até pela morte. Coisa que vivo não sabe o que é’. E se eu sei, é também porque morri um dia, quando os militares me mataram, lá no tempo do inferno. É sim, professor. Embora tenha coisa que não morre. Coisa que não tem conserto. Isso, tem. O senhor bem sabe...

 

Não cobrou dele o vinho. Nem as velas de abelhas. E ainda lhe deu um pote de mel do mais forte, com sabor de flor de eucalipto. Que Marcos não quis aceitar e só aceitou por fim.

 

- Leva por ela. A professora gostava desse mel. Sempre levava um pote.

 

- Gostava, eu sei. Gostava, sim.

 

- Depois! Acho que o senhor devia raspar essa barba, professor. A professora não conheceu o senhor com barba. Só bonitão e barbeado. Não foi assim, homem? - tentou alegrá-lo, apesar de sua clara tristeza. Também.

 

- E as cinzas, Seu Prudêncio? O que eu faço com as cinzas?

 

- As cinzas? As cinzas são o que são. O fim e o princípio. É sempre assim, não mais. O que fazer? Enterre as cinzas, professor. E não demore. No Jardim do Lago, aqui perto, existe um pé de ipê. É amarelo, grandão e bem antigo. Deve florir em breve. Se quiser, vou com o senhor até ele.

 

Foi lá. Nessa visita ao sítio do Batistini, que Marcos Matheus viu-se por fim com certeza, naquilo que havia por fazer. Seguro de que era preciso, fazer o que se propusera pelo caminho.

 

Seu Prudêncio Garcia. E suas idéias, nas conversas com Joana:
- O povo!? O povo é um ovo, professora. Às vezes, ovo de andorinha. Às vezes, ovo de serpente. Juro à senhora. É também semente, o povo. Dessas que a gente custa descobrir de que planta é. E tem mais. Quem planta nem sempre é quem faz a colheita. Vale o que vale, o povo.

 

Mais seus desencantos. Mais:
- Não sei, professor. Só sei do que tem acontecido. Se reagimos pra valer, na disposição, botam veneno na vida da gente. Se somos cachorrada fiel, costumam nos jogar um osso seco e velho. Pior é que tem muita gente que no costume fica encantada com a enganação. É sempre assim. Não vê agora? Esse Tancredo. Essa conversa fiada. Esse papo de aranha. Cruz credo. Depois de tanto veneno, tanto veneno e tanto inferno, esse osso velho. Seco.

 

Homem de história por direitos. Seu Prudêncio Garcia. Dado a comandar greves. Bravo e brigão, noutros tempos. Manco e ferido pelos militares a serviço dos patrões. Comunista, dizem que foi. Sim. Diz o povo. Mas o povo. O povo!? O povo diz tanta coisa, que a gente nem sabe mais no que acredita.

 

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Arranjou as dálias na jarra cor de jade sobre o camiseiro. Acendeu velas e incenso. Mais, retirou do gavetão a urna de cobre com as cinzas. Desdobrou o pano de linho branco lavado, trouxe a urna para si e com uma chave de fenda vermelha no cabo, bem lentamente, retirou um a um os seis parafusos da tampa, destampando e mirando em seu interior o pequeno saco plástico. As cinzas contendo Joana.

 

Antes, no percurso até em casa, admitiu visitar mais alguém, qualquer amigo. E constatou de vez não haver mais sentido nisso. Só no que decidira de vez, ao deixar o sítio, pois haveria de ser assim.

 

Tocou as cinzas e marcou os dedos das mãos, marcando o rosto e sentindo o sabor das cinzas ao tocar a língua com o anular da mão esquerda. No que percebeu todo um gosto seco por seu corpo, vazio da vida de antes.

 

Sem dúvida, não seriam os mesmos, os de amanhã. Nem os de hoje. Ninguém. Por isso, comprara os cálices, três dúzias de pequenos cálices de cristal, próprios para licor, no percurso até em casa. E não visitara amigos. Nem parentes. Sequer a mãe de Joana.

 

Apenas, com o vinho e as velas de abelhas e as dálias e até o mel inútil. E os cálices.

 

- Para hoje à noite. A partir de hoje, desde já. Não mais.

 

Eloi! Eloi! Lamá sabachtháni!?

 

Trancafiou o carro na garagem e de lá só retirou o carro para ir mais duas vezes ao sítio de Seu Prudêncio Garcia. Buscar vinho. Só vinho. Sequer mais velas de abelhas. Por mais que o velho tenha insistido em retorná-lo à vida, com o mel que lhe oferecia.

 

- Ela gostava. Porém, não mais... - sabia, consigo.

 

Isto, na segunda vez que foi ao Batistini para servir-se do que necessitava, pois que doutra vez, a terceira vez, a última vez, o velho bem compreendeu ser em vão qualquer esforço, lendo nos pés de Marcos Matheus, descalço e manco, as chagas marcadas pelos cacos de cristal na carne ferida, com que se lembrava do que perdera. Seu Prudêncio, enfim, vindo com outra história, talvez para reconfortá-lo, com transversa confirmação de seu intuito com as cinzas e o vinho.

 

- Qualquer dia, professor, também me expulsam daqui. Semana passada vieram com proposta fechada. Querem porque querem que eu venda o sítio. E quando querem, não tem conserto. Mandam e desmandam, ocupando tudo com máquinas e chaminés, mal nos deixando apenas com o corpo da gente intoxicado. Soube até que já cortaram o ipê, lá no Jardim do Lago. O que era praça, vai deixar de ser praça, para ser terreno de firma. Lembrei do senhor. Ainda bem que não sepultou as cinzas por lá. Então!? Só leva mesmo uma garrafa? Uma só? Quem sabe não precisa de mais vinho?

 

- É o que me basta, Seu Prudêncio. Só essa. Queria até que fosse muito - respondeu, antes de partir.

 

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Dessa vez, não tratou as feridas dos pés com pomadas e bandagem. Sequer rebobinou a gravação em fita magnética após o término da Nona Sinfonia pela Filarmônica de Praga.

 

Sequer. Sequer.

 

Naquele sábado, dezesseis de junho, quando, desde a manhã, após despertar, viu e viu e não se apartou por todo o dia do último cálice à espera da última dose de vinho. Com as cinzas. Por fim.

 

Até a noite. Com tudo preparado conforme seu gosto, para o que havia de acontecer.

 

E no instante certo pôs-se a ouvir a música e no “Adagio molto e cantabile” arregalou os olhos e recordou a vida e segurou o cálice suspenso com a mão esquerda diante de si e de seus olhos, na sala negra da casa com as portas trancadas e as janelas vedadas, até as menores frestas, vedadas com cera de abelhas.

 

Quando rezou. Por três vezes. Conforme aprendera no Evangelho. E  tomou o vinho com as cinzas dela. E devolveu o cálice vazio à mesa. E aguardou pleno que prosseguisse a Sinfonia por seus tempos até o fim, quando tornou a segurar o cálice e lançou o cálice contra o chão da sala plena.

 

- Deus meu! Deus meu! Até os vermes recebem a alegria de viver, enquanto Querubins circundam Deus!

 

E eis que assim... misteriosa centelha, rastro de fogo, lambeu o chão, tornou-se labareda e seguindo sobre aquele mar de cristais partidos bebeu as portas e as janelas e as paredes da casa mais o telhado. Levou consigo entre as chamas, sob suas amplas e ternas asas, Marcos Matheus.

 

Por tudo.

Em fim.

SP/SP

 

 

JOSÉ ARRABAL é professor, jornalista e escritor, autor de contos, novelas e romances. Entre suas obras, sobressaem “O Nacional e o Popular Na Cultura Brasileira – Teatro” (Editora Brasiliense), “O Livro das Origens”, “Lendas Brasileiras - Vol 1/Vol. 2”, “Histórias do Brasil”, “Cacuí, O Curumim Encantado”, “As Aventuras de El Cid Campeador”, “Romeu e Julieta”, “Da Vinci das Crianças”, “O Terrível Gosmakente”, “Lazarilho das Crianças”, “A Chave e Além da Chave” (Paulinas Editora), “A Ira do Curupira” (Editora Mercuryo Jovem), “O Noviço” (Editora FTD), “Histórias do Japão”, “O Lobisomem da Paulista...” (Editora Peirópolis), “Contos Brasileiros” (Editora Expressão Popular), “Sherlocks On The Rocks Nas Diretas Já”, “A Sociedade de Todos os Povos” (Editora Manole) e “Anos 70 – Ainda Sob a Tempestade” (Aeroplano Editora), “Nouvelles Brésil” (Éditions Reflets d’Ailleurs - /França/2014). Blog: http://josearrabal.blogspot.com.br/

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Revista InComunidade, Edição de Abril de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Abril de 2019:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandra Vieira de Almeida, Alexandre Brandão, Amoi Ribeiro, Angelo Abu, Caio Junqueira Maciel, Camila Olmedo, Carlos Alberto Gramoza Vilarinho, Carlos Emílio Faraco, Humberto Guimarães, Carlos Matos Gomes, Cássio Amaral, Constâncio Negaro, Danyel Guerra, Deisi Scherer Beier, Delalves Costa, Eduardo Wotzik, Hélio Aroeira, Henrique Prior, Jesús Fuentes, José Arrabal, José Gil, Leila Míccolis, Marcelo Frota, Marcia Kupstas, Marcus Groza, Maria Alice Bragança, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Mulherio das Letras, Patrícia Porto, Paulo Loução, Ricardo Ramos Filho, Rocío Prieto Valdivia, Viviana Bosi


Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Crucificação branca' (1938)


Paginação:

Nuno Baptista


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