ANO 5 Edição 79 - Abril 2019 INÍCIO contactos

Leila Míccolis


Crônica: “Pra não dizer que não falei das flores…”    

Recebi de uma amiga queridíssima, autora multifacetária (escritora de livros de poesia, histórias infantis, romance) uma mensagem com uma paródia da antiga cantiga de roda da minha infância. Eis o teor do vídeo enviado pelo WhatsApp:
“O cravo brigou com a rosa / escondido dentro de casa / o cravo cometeu delito / e a rosa não ficou calada
“O cravo foi insistente / e a rosa ele foi perturbar / o cravo disse ‘daqui não saio’/ e a rosa foi denunciar
“A rosa empoderada / as outras flores foi ajudar / e agora elas estão unidas / para que os cravos saibam respeitar”

 

Do jeito como está sendo veiculada, esta campanha incomodou-me – e atentem bem para o fato (quero deixar bem claro) de que não sou contra a campanha, que aborda uma questão muito importante e válida, para feministas e não feministas, afinal direitos humanos são assegurados a todos, indiscriminadamente (pelo menos por lei), por serem fundamentais à vida. O que eu quero aqui é tão somente questionar aspectos deste “powerpoint-clip”, sem precisar colocar a mão em nenhum vespeiro conceitual, do tipo: o que feminismo, ou o que é ser feminista?, etc. e tal.

 

Restringindo-me apenas a esta mensagem no que diz respeito aos aspectos que me desagradaram, vou, primeiro, para a última quadra, que começa falando do empoderamento da rosa (poder é uma palavra perigosa, para mim: que poder?, de quem? E para quê? Lembra-me de imediato Foucault ao analisar a microfísica do poder, tão enraizada em nós que nem mais o percebemos) e a estrofe termina mencionando respeito. Para ilustrar, a imagem que fecha a mensagem da rosa “vitoriosa”, orgulhosa de sua conquista e empoderada, é a de uma mulher (com aparência de dona de casa dos anos 50, com um lenço de bolinhas na cabeça – quem se lembra de Lucille Ball, feliz em sua rotina doméstica, no seriado I love Lucy?), dando “uma banana” (gesto que no Brasil ainda é considerado obsceno, fálico, ofensivo e desrespeitoso, como o é levantar-se o dedo médio para alguém). Respeito e empoderamento feminino assim, desta forma? Se for, o que muda no reino da falocracia e em suas funestas consequências?

 

Também indago se só a denúncia (pura e simples) acaba com a violência doméstica. Não, ou melhor, não muito. Diversos fatores podem explicar esta trágica afirmação, inclusive o medo da revanche do companheiro ou do estuprador processado. Ocorre também que muitas vítimas acabam perdoando, voltando ao lar e até morrendo nas mãos do agressor que elas denunciaram. Um poema meu (“Preconceito”) sobre violência contra mulher gira em torno do crime de uma jovem de 18 anos (em 1958), levada à força para um apartamento, espancada, currada e morta: “Quando Aída Curi foi currada, / estuprada, / violada, / morta por três homens / ouvi gente puritana / dizer ainda: —“Bem feito!, / quem mandou ser leviana?...” (sim: a propósito, o criminoso principal foi absolvido pela Justiça, como aconteceu também com o marido que assassinou a poetisa Vileta Formiga, em 1982, na Paraíba).

 

Denunciar é importantíssimo, mas mudança de comportamento, desenraizamento da impiedade e de sentimentos interiores negativos, também. Porém não há campanhas de conscientização com tal finalidade; e enquanto não mudarmos os valores que passamos para os familiares, amigos, terceiros, relacionamentos invasivos e agressivos se repetirão, porque estão latentes em nós. Como os noticiários, jornais e campanhas só divulgam fatos, acabamos nos esquecendo de que, como me posicionei no final de um poema chamado “Troca-troca”, (...) “Não adianta mudar o nome dos velhos padrões / nem ter direitos que só geram deveres, / sem prazeres, / nem conseguir para a mulher/ o que continua servindo para oprimir o homem”.

 

Em minha infância, a cantiga original era a seguinte:
“O cravo brigou com a rosa / Debaixo de uma sacada / O cravo saiu ferido / E a rosa despedaçada
“O cravo ficou doente / E a rosa foi visitar / O cravo teve um desmaio / E a rosa pôs-se a chorar
“A rosa fez serenata / O cravo foi espiar / E as flores fizeram festa Porque eles vão se casar”

 

Bem diferente, não?, mostra bem o esvaziamento de significados simbólicos, a ensejar, hoje, paródias literais e superficiais (rasas) como esta. Não, não estou tendo um momento de nostalgia, parecido com “recordar é viver”, quem me conhece sabe que não sou nem um pouco saudosista, gosto de viver o momento presente, por mais difícil que ele possa ser; no entanto, a briga entre o cravo e a rosa da canção de outrora não diz respeito a brutalidade, crueldade, confronto e embate com facas e tapas, tem a ver mais com o afetivo do que com o físico-corporal. O ferimento do cravo é apenas um amuo, uma zanga, um desentendimento que faz ele sentir-se ofendido, e ela, a rosa, despedaçada (sinônimo de dilacerada, de coração partido) por ver o cravo magoado (ferido) com a briga que ele próprio causou; sentindo-se mal com o seu ato, ele adoece; a rosa o visita com carinho, e a reação dos dois é altamente emotiva. No final, é a rosa quem faz serenata para o cravo (e, na época, esta cantiga é antiquíssima, era apenas o homem quem fazia serenata para a sua amada) e os dois se entendem. Havia uma “moral da história” intrínseca, ensinada às crianças: não seja impulsivo, não brigue por motivo fútil, bobo, porque ambas as partes se machucam. Como afirma o livro de Rhonda Byrne: “A inteligência te ajuda a vencer uma discussão, mas a sabedoria te ajuda a não entrar em uma”. No contexto da cantiga popular, ferido e despedaçada são termos utilizados pela linguagem poética (despedaçada podia ser perfeitamente substituída por despetalada, por se tratar de uma rosa...), para mostrar uma briga (mais pra discussão passageira) que foi superada. E o que eu acho fantástica é a inversão de papeis sociais em uma cantiga infantil (a serenata feminina), de forma tão simples e sutil que de início nem a notamos.

 

– E aí: uma crônica só para concluir, que mudaram os tempos, Leila?

 

– Não, Vandré, talvez seja só para te dizer que propagamos, agora, empoderamentos dúbios e que até mesmo nossos “finais felizes” acabam tendo o ranço da agressividade.

 

Leila Míccolis, escritora de livros (poesia e prosa), televisão, teatro, cinema, pesquisadora, com Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado em Teoria Literária (UFRJ).

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