ANO 5 Edição 79 - Abril 2019 INÍCIO contactos

Marcia Kupstas


Para além das estrelas    

_ Vai, vô, atira, atira! O inimigo foi para o seu lado!

 

         Vovô César moveu o mouse como o neto havia ensinado, mas sem a rapidez necessária. As bombas voadoras explodiam na tela e colocavam sua nave em perigo mortal, quando...

 

         Tela totalmente escura, nem o mais leve ruído nas caixas de som.

 

         _ Vô! O que aconteceu? – o menino conferiu fios, digitou códigos, apertou teclas e nada.

 

         _ Não foi com o computador, Rodrigo. Olhe para cima.

 

         O menino, desapontado, não entendeu.

 

         _ A lâmpada apagada, Rodrigo. Está a faltar energia. – o avô levantou, abriu a janela do apartamento, investigou: – E nem deve ser só no prédio... os vizinhos também estão no escuro.

 

         _ Sem energia, vô? – o menino desligou o inútil computador. – E agora, como é que a gente termina o jogo?

 

         _ Não termina. – o avô conformou-se depressa com a interrupção, que adiava sua vergonhosa derrota.

 

         _ Quer ver TV, vô? Daqui a pouco começa o programa de esportes.

 

         _ TV, Rodrigo? De que jeito?

 

         Então o menino lembrou que estavam sem TV, ou som, computador, Internet ou videogames... até a pipoca de microondas estava adiada.

 

         – E se não voltar? E se não tiver mais energia, vô, já imaginou?

 

         _ Já. – o avô sorriu e provocou. – Você ia viver como antigamente. Andar de carroça, ler à luz de vela, buscar água no poço, fazer comida em fogão a lenha e se quisesses ouvir música, era bom que aprendesses a tocar um instrumento.

 

         _ Que vida! – o menino olhou para sua bela coleção de jogos, agora inúteis nas prateleiras.

 

         _ Diferente, Rodrigo, só isso. Sem esta energia elétrica, tão facilitadora, que tu conheces. Mas o homem sempre podia contar com a energia do sol. Energia que traz a vida para todos...

 

         _ Ciclo da natureza, né, vô?  Planta, fotossíntese, daí vem o bicho e come a planta, e a gente come o bicho... já aprendi isso na escola. - Então o menino parou e pensou, um tempão. E perguntou: - E o Sol, vô? E se o Sol também acabasse?

 

         Vovô César conferiu o céu, pela janela do apartamento. Anoitecia, o pôr-do-sol tingia de vermelho os telhados dos edifícios daquela grande cidade. Achou que bem podia oferecer um extra, antes do jantar.

 

         _ Que tal um sorvete, Rodrigo? Teus pais ainda demoram.

 

                                               X-x-x
                                     
         Sorvete duplo de creme para César, pote incrementado sabor pistache, morango, crocante e limão para Rodrigo. Uma brisa começava a refrescar a noite. Avô e neto sentaram num banco da praça.

 

         _ Estava a pensar em tua pergunta, Rodrigo. Sabes que muita, mas muita gente já questionou coisas parecidas? Li um conto uma vez, de um escritor de ficção científica, que fazia isto de um modo brilhante.

 

         _ Ficção científica, vô? Assim, uma guerra nas estrelas?

 

         _ Nesta história não há guerra, Rodrigo, mas desenvolvimento. A chegada nas estrelas. E esta tua pergunta, em tantos momentos. Queres ouvir?

 

         O garoto acenou confirmando, enquanto lambia o sorvete.

 

         _ Há uns 60 ou 70 anos atrás, começaram a surgir os primeiros computadores. Eram imensos, cheios de válvulas, umas coisas que hoje iam parecer ridículas, ocupavam uma sala inteira... Então imagines um primeiro cientista, dos que participaram desse projeto. Ele – vamos chamar esse cientista de dr. John, porque os americanos foram os primeiros a desenvolver este tipo de informática – o dr. John acabou de mostrar o invento para os homens do governo. Está feliz da vida, o projeto tem futuro, e num momento lá ficou sozinho na sala, com o computador. Acionou um monte de teclas e fez a pergunta:
         “ O que vai acontecer com a Terra quando o Sol se apagar?”

 

         _ O que o computador respondeu, vô? – Rodrigo limpou a calda do sorvete do queixo com um repelão.

 

         _ O mesmo que eu responderia hoje para ti, Rodrigo... – vovô César revirou os bolsos, achou um lenço e o estendeu para o menino. – Não sei. Não sei o que aconteceria com os homens, se o Sol se apagasse.

 

                                               X-x-x

 

         Mas vamos continuar nossa história, Rodrigo. Tu me fizeste esta pergunta hoje e certamente, se pesquisasse no teu computador, teria como resultado uma confusão de sites e hipóteses, que no fundo não confirmariam muita coisa... Vamos então para o futuro. Daqui a... uns cem anos, um menino, o teu tataraneto, então com a tua idade, fez a mesma pergunta.

 

         _ Meu tataraneto, vô? E como é que ele é?

 

         _ Parecido contigo. Assim de cabelos escuros e lisos, um nariz cheio de sardas e olhos grandes e inteligentes como o teu...

 

         _ Iiiiiiiih, vô. Pega leve no elogio. Qual é o nome dele? Não vais dizer que é Rodrigo também, né?

 

         _ Por quê, não queres? Então que tal... Alexandre?

 

         Alexandre era o nome do melhor amigo de Rodrigo e ele gostou da homenagem.

 

         _ Alexandre estava numa nave espacial, viajando com os pais para colonizar a lua do planeta Júpiter. Os homens já haviam montado bases lunares e marcianas e com uma nova tecnologia, que nem imaginamos agora, criavam cidades mesmo em lugares onde a atmosfera e a pressão eram bem diferentes daqui da Terra... era um grande desafio, ocupar todos os planetas do sistema solar. Estás a entender?

 

         _ Claro, vô, sou bom em Ciências. E daí? O Alexandre tinha amigos na espaçonave?

 

         _ Certamente. Eram muitas e muitas famílias, viajando para colonizar a lua de Júpiter. Os pais de Alexandre estavam cansados e foram dormir. Mas o menino ficou a olhar para o céu e via o Sol, assim o nosso Sol, meio distante, mas ainda e sempre tão importante para a vida em todo o sistema. E olhou para as estrelas, os homens começavam a namorar outros sistemas solares, estavam enviando naves para a estrela mais próxima, Vega de Centauro e se esparramando pelo universo e... – o avô suspirou fundo e olhou bem para os olhos brilhantes de Rodrigo. – E Alexandre conversou com o computador central da nave e perguntou:
         “O que vai acontecer com o homem, quando o Sol e as estrelas se apagarem?”

 

         E a resposta, Rodrigo, a resposta ainda foi negativa. “Não há um registro preciso”, disse aquele super-computador.

 

         Aí, vamos adiantar a nossa história. Vamos dizer, Rodrigo, que uns 900 anos se passaram...

 

         _ Espera aí, vô! Mas o que aconteceu com o Alexandre? Eles chegaram bem na lua de Júpiter? Ele morou lá, tinha escola lá, como era a vida dele e...

 

         _ Rodrigo, um outro dia eu prometo que conto tudo que quiseres sobre o teu tataraneto, mas agora é outra história, está bem? – vovô César viu o rosto decepcionado do menino, sorriu: - Posso garantir que Alexandre adorou o seu satélite, tinha um grande amigo chamado Rodrigo e depois foi trabalhar como cientista de aeronave, casou e foi muito feliz. Está bem assim?

 

         Rodrigo engoliu o último bocado da casquinha de sorvete e concordou.

 

                                                                  X-x-x

 

         _ Então na virada do ano 3000, quando os homens já conheciam todos os detalhes do nosso sistema solar e éramos bilhões e bilhões de pessoas ocupando tudo e já estávamos colonizando as estrelas mais próximas e namorando aquelas mais distantes, bem, havia um solitário guarda espacial na fronteira de Plutão com o espaço profundo... este homem, vamos batizá-lo de...

 

         _ Ele pode se chamar João? João Pedro é o meu outro melhor amigo na escola.

 

         _ Pode sim, claro. João Pedro fez um brinde solitário, ali em Plutão, comemorando o novo milênio. Ele viu o Sol como uma bola minúscula no céu, muito menor do que vemos a lua aqui da Terra... e viu as novas estrelas que se abriam à conquista do homem e ficou comovido. Mas ficou também com medo. E perguntou: “O que vai acontecer quando todas as estrelas se apagarem?” E perguntou isso, para seu único companheiro, aquele computador que era então muito mais do que uma máquina e ainda teve a resposta negativa, de que não se podia saber o que aconteceria, quando todas as estrelas se apagassem.

 

                                               X-x-x

 

         Agora, Rodrigo, eu vou pedir-te que me acompanhe numa imensa aventura imaginativa. De milhões e milhões de anos... imagine que nossa espécie se espalhou pelo universo. Que evoluímos de um modo nunca sonhado. Que em cada sistema solar (tu sabes, cada estrela é um sol e cria seu próprio tipo de vida) o homem se adaptou. E construiu maravilhas e cidades e foi bom e foi mau, e foi feliz e triste, enfim, cumpriu seu destino, sempre auxiliado pela tecnologia e...

 

_ E o computador? – o menino antecipou a pergunta.

 

_ O computador também evoluiu, deste modo sequer sonhado por nós e foi companheiro em toda a trajetória... milhões e milhões de anos, Rodrigo... de realizações e vivências. Mas foi tempo demais, demais... e a última estrela, no meio de todo o universo, estava com seu tempo acabando.

 

_ Isso é muuuuuuuuuuuito tempo mesmo, hem, vovô?

 

_ Muito de verdade. O homem já nem era homem, era assim a reunião de toda a vida, de toda a experiência humana. E o computador, do seu lado, já deixara de ser máquina há muito tempo. Era assim a... síntese,  compreendes? A síntese de todas as dúvidas humanas, todas as inseguranças e necessidades humanas... podes imaginar?

 

O menino arregalava os olhos e o avô sorriu diante daquela surpresa. E continuou:
         _ Então a última estrela estava para se apagar... e o último dos últimos homens, que reunia tudo que ser homem significava, voltou-se para Aquele que se tornou o seu refúgio e guardião de respostas, nestes milhões de anos, e perguntou:
_ O que vai acontecer, quando a última estrela se apagar?

 

E a resposta Daquele que era a essência de todas essas esperanças humanas, disse:
_ Ainda não posso dizer.

 

E a estrela se apagou.

 

E o universo acabou.

 

                                      X-x-x

 

E o avô fez uma pausa profunda... e a noite chegava rápida, naquele banco da praça... e o menino mantinha os olhos arregalados e apertava o lenço sujo de sorvete entre os dedos, a esperar.

 

_ E foi o fim, vô? Deste jeito? A última estrela se apagou

 

_Fim? Não, Rodrigo, não foi.

 

Então o avô puxou um livrinho do bolso traseiro da calça, apertou-o nos dedos:
– Está dentro deste livro, uma versão muito bonita desse começo. -   abriu o livro numa página e leu - “As trevas cobriam o abismo. Aquele Ser Supremo sentiu que era o momento e disse: ‘Que se faça a luz’, e a luz se fez. E o universo se viu povoado de estrelas e a noite e o dia se separaram e esse foi o primeiro dia”.

 

_ Vô! – o menino prendeu o fôlego um instante. – Mas então o sr. está a dizer que o computador... era Deus?

 

_ Já não era computador faz tempo, Rodrigo.

 

_ E as estrelas surgiram e...

 

_ O universo começou. Porque Deus assim o quis e a vida criada por Ele e nós, seus filhos, também surgimos na Terra e assim por todos e todos os tempos.

 

_  Que história estranha, vô.

 

O avô conferiu o relógio, colocou o braço em torno dos ombros do neto, ajudou-o a sair do banco:
_ Talvez. Mas a essência dela, Rodrigo, entendeste?

 

Os dois retomaram a caminhada pela avenida. O silêncio do menino era resposta.

 

_ É preciso ter fé, Rodrigo. Sempre, diante até do mais improvável, é preciso ter fé no Criador.

 

 

Marcia Kupstas. Escritora e professora,  nasceu em 1957 em São Paulo, capital. Publicou mais de 150 livros, entre eles: Crescer É Perigoso (Prêmio Revelação Mercedes-Benz 1988), É Preciso Lutar (Prêmio Oŕigenes Lessa,1989), Eles Não São Anjos Como Eu (Prêmio Jabuti – Juvenil 2o lugar – 2005), A Namorada de Camões. Edita este ano, pela Chiado Editora, o seu novo romance, BALADA DOS ROCKEIROS MORTOS E ANJOS CAÍDOS.

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Revista InComunidade, Edição de Abril de 2019


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Paginação:

Nuno Baptista


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