ANO 5 Edição 79 - Abril 2019 INÍCIO contactos

Marcus Groza


Três poemas, com tradução para o espanhol    

Retábulo com Jesus e avarios

 

uma legenda antiga recomenda (ou proíbe?)
não cobiçar o capim viçoso alémcerca
não cozinhar o cabrito no leite de sua mãe
enterrar as miudezas que sobrevivem à queima

 

do que se salvou dos cupins sabemos que tal legenda
mente pois diz que os deuses distribuem os bens
de maneira sensata quando até os nascituros
já intuem que o tempo não mede os avarios

 

que a vida persevera (ou melhor dizer se arrasta?)
por uma maldição com nome de promessa
e herança paterna é deserto esculpido no dorso
é miséria com generosas pitadas de pólvora

 

se há nisso alguma ventura podemos dizer que seja
a manhã que sempre vem deturpar leis não escritas
esmorecendo o que impunemente se encolhe sob
oculta capa qual pedra aconchegada à superfície

 

pensa das coisas que não se abrem (ou se blindam?)
porém só o chão seria um rim para o sangue rude
velho dos avós que recusam a dar-se em libação
e voçorocam a terra nas calejadas veias dos netos

 

 

 

 

 

 

Retablo con Jesús y averías

 

una leyenda antigua recomienda (¿o prohíbe?)
no codiciar la hierba vigorosa allá del cercado
no cocinar el cabrito en la leche de su madre
enterrar los despojos que sobreviven a la quema

 

de lo que quedó de las tablas sabemos que tal leyenda
miente pues dice que los dioses distribuyen los bienes
de manera sensata cuando hasta los nasciturus
ya intuyen que el tiempo no mide las averías

 

que la vida persevera (¿o mejor decir se arrastra?)
por una maldición con nombre de promesa
y herencia paterna es desierto esculpido en el dorso
es miseria con generosas pizcas de pólvora

 

si hay en eso alguna ventura podemos decir que es
la mañana que siempre viene a pervertir leyes no escritas
desvaneciendo lo que impunemente se encoge debajo
oculta capa cual piedra arropada en la superficie

 

torcida de las cosas que no se abren (¿o se blindan?)
pero sólo la tierra sería un riñón para la sangre vieja
ruda de los abuelos que rechazan darse en libación
y socavan el suelo en las callosas venas de los nietos

 

 

 

 

 

 

Três ou quatro coisas


pronuncio as sílabas da palavra cratera
derramo silêncio dentro
sem o engano de que silêncio seja um trabalho de luto
silêncio pode ser prenúncio
a condenação como uma dádiva que se encomenda a si mesmo
você me pergunta se acredito em homeopatia
respondo que o possível é largo como um peito de atleta
vi
três ou quatro coisas que alegam a alegria bruta que pode verter uma emulsão
o luto entretanto
é
este estardalhaço de vivos
este querer deixar rosto e rastro
este ferro-velho atulhado de relíquias
é o poema
enquanto
me pronuncio fraco e vaidoso nos silêncios da palavra-enigma

 

 

 

 

 

 

Tres o cuatro cosas


pronuncio las sílabas de la palabra cráter
derramo silencio dentro
sin el engaño de que el silencio sea un trabajo de luto
el silencio puede ser prenuncio
la condena como un regalo que se encomienda a sí mismo
tu me preguntas si creo en la homeopatía
yo contesto que lo posible es ancho como un pecho de atleta
conoci
tres o cuatro cosas que alegan la alegría bruta que puede verter una emulsión
el luto sin embargo
es
este alboroto de vivos
este querer dejar rastro y mirada
esta chatarra atiborrada de reliquias
es el poema
mientras que
me pronuncio débil y vanidoso en los silencios de la palabra-enigma

 

 

 

 

 

 

Miçanga de espasmos

 

bêbados na sacada de um prédio em Montevideo
você desconhecida
me disse que gostava de amontoar
pedras quentes sobre os chacras

 

tatear a vastidão calcária
com uma glândula salivar desregulada para mais
lamber
com tapetes de água
ex-corpo
mel sem membrana
gagueira antipedras


miçanga de espasmos
lâminas de apagar fogaréu
até quando conseguimos
sincronizar músculos e nervos do rosto
reconstituir a fala
e então pude
ouvi-la pronunciando
ce ri mo nial men te:
vem comigo
se você não se recusa
a ver que todo afago se atravessa
de um roçar bruto
que todo amor é um ofício atroz de peritos desastrados
vem comigo
se você não se recusa
a ver que coisas como acupuntura
foram inventadas por aqueles que conhecem mil e uma
técnicas de apedrejamento

 

 

 

 

 

 

Mostacilla de espasmos

 

borrachos en una terraza en Montevideo
tu desconocida
me dijiste que te gustaba amontonar
piedras calientes sobre los chakras


palpear la vastidad calcárea
con una glândula salival desregulada para más
lamer
con alfombras de agua
ex-cuerpo
miel sin membranas
tartamudez antipiedra


mostacilla de espasmos
lámina de apagar fogata
hasta cuando hemos conseguido
sincronizar músculos y nervios del rostro
reconstituir el habla
entonces pude
escucharla pronunciando
ce re mo nio sa men te


ven conmigo
si non te recusas
a ver que toda caricia se atraviesa
de un rozar bruto
que todo amor es un oficio atroz de peritos desastrados
ven conmigo
se non te recusas
a ver que cosas como acupuntura
se han inventado por aquellos que conocen mil y una
tecnicas de apedreamiento

 

 

Marcus Groza é poeta, dramaturgo, encenador e pesquisador em ciências humanas. Autor dos livros “Milésima demão nas paredes de estar perdido” (Ed. Urutau - 2019)“E a lua como órgão principal”(Ed. Primata, 2017), “Sossego Abutre”(Ed. Patuá, 2015). No teatro, escreveu as peças “Não Urine no chão”, “Tambor de Couro Vivo” e “Rua Carne Entre as Articulações” entre outras. É doutor em Artes Cênicas e editor da Revista Abate. Seu ensaio “Hacia una poetica del olvido” saiu em Olvidar – Brumaria Works #9, coletânea de ensaios publicada em Barcelona, em 2018.

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Revista InComunidade, Edição de Abril de 2019


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Foto de capa:

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Paginação:

Nuno Baptista


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