ANO 5 Edição 79 - Abril 2019 INÍCIO contactos

Maria Alice Bragança


A poesia de Maria Alice Bragança    

À CIDADE

 

I

 

Minha cidade me habita.
Geografia material que desapareceu,
consumida pela pressa,
pelos estetas de um mundo veloz, voraz.
Cinza, muros, viadutos,
famintos de nossas lembranças,
devoram marcos, mapas de nossos afetos.

 

II

 

A cidade de Pedro se perdeu.
Para onde foi o cinema do primeiro beijo?
As luzes da noite alegre? As gargalhadas?
O sol que nunca se põe?
Minha cidade me habita.
É quase só memória, pura emoção.

 

III

 

Minha cidade me habita,
território de cimento e alma,
corpo de nuvem e carne,
pavimentada de sonhos, ilusão.
Para onde foi a casa de Luiza?
A que ouvia os segredos?
A que conhecia os poemas, os autores?
Que mapa obscuro sepultou sua morada,
sob esse condomínio? Esse viaduto?
Para onde foi a casa daquele novo amor?
Aonde a música barroca, o beijo terno?
A fuga?
De Bach?

 

IV

 

Os olhos não enxergam.
É o coração que desenha a cidade,
a ronda pelos bares da avenida.
As palmeiras que nos espiavam
ainda estão lá.

 

V

 

A memória agora é turva,
janelas embaçadas.
A praça sucumbiu.
Sob a elevada, sob o ginásio,
foram sepultados os bancos,
a sombra acolhedora.
Juras, medos, palavras-de-ordem, manifestos,
desapareceram junto com os grafites
no velho muro derrubado.
Onde nos perdemos de nós?

 

VI

 

Minha cidade me habita.
Caminhávamos sobre o tapete,
lilás dos jacarandás.
Havia o perfume dos passos
noturnos entre jardins.
E os jasmins do amado, tão garoto,
naquela noite tão fria, tão noite.

 

VII

 

O mapa da cidade guarda mistérios,
madrigais, gemidos, um som de violão.
Aonde o bar do café da manhã?
A banca de jornal? O sorriso do engraxate?
O bom dia do seu João?
Um carro passa e reflete o olhar.
Nós dois, de mãos dadas...
Passou.
É outro tempo.

 

VIII

 

O cine Baltimore e seus cartazes espiavam.
- “Beija a garota”, diziam.
- “Vamos! De olhos fechados”.
Mas moça de família
não se abraça na rua.
- “Casa com ela, então...”. Não podias.
Que pena!
O suspiro foi engolido pelo shopping,
pela garagem que se ergue ali.
Ela casou-se com outro, tem filho...
É avó?

 

IX

 

Minha cidade me habita.
Mapa que desaparece
E se recria a cada um de meus passos.
Cidade múltipla, tear dos tempos,
de meus avós, de minha infância,
das paixões que se foram...
De novos amores que virão?
Túmulo de meus antepassados,
cemitério e perguntas.
Berço do meu filho, talvez de meus netos.
Os terei?

 

X

 

A casa se abre,
tão diversa, tão igual,
não me pertence mais,
nem eu a ela.
A rua, familiar, é a mesma,
e tão outra.

 

O tempo é também um lugar.

 

 

 

 

 

 

PASSEIOS NA MAUÁ

 

O rio invisível se rebela
nos mastros dos navios
que o muro não engole.
Quando olhavam o entardecer,
Solano e Lúcia pensavam
em visitar os portos do mundo.
Os sonhos, as promessas,
a cidade guardou consigo.

 

 

 

 

 

 

NAUFRÁGIO

 

Carrego este porto dentro de mim.
Cais de muitas despedidas.
Partida, alma fracionada,
Espera sem esperança.
De quem? De quem?
Minha voz se lança, questiona o vento.
– Quem? Quem?
Apenas um som ondula sobre as águas...

 

 

 

 

 

 

PARTIDOS

 

Marcelo foi a Dakar.
Voltou.
Celene morou em Paris,
no Quartier Latin.

 

Pobre coração,
queria conhecer o mundo,
mas não coube em si.
Tão só.

 

Dó de Laura que partiu.
Viu o mundo e só.
Dentro de si não cabia
tanta solidão.

 

 

 

 

 

 

CORONEL RODRIGUES SOBRAL

 

As estações do ano na infância
aconteciam na grande paineira.
Era só abrir a janela
e ver a casa no outro lado
na Coronel Rodrigues Sobral.
A rua, sempre Alameda,
no dizer dos moradores antigos
no Bairro Partenon.
A primavera surgia nas cercas
floridas da esquina,
cerca viva de véu-de-noiva,
perfume de saudades.
A primeira escola
também ficava na esquina.
Prédio velho, onde os buracos no assoalho
engoliam as borrachas
caídas das classes dos desavisados.
Desavisados éramos todos nós em 1964.
Esquina fechada por baionetas caladas,
em um primeiro de abril,
que nos roubou a voz
e tantas partes de nós,
que nem adivinhávamos ainda.

 

 

 

 

 

 

JANELA

 

Meus cotovelos
e um suspiro se perguntavam
naquela tarde de sol
saudades, roupas lavadas,
amores, roupas a lavar,
futuro, lista de compras

haverá sentido nesse rol?

 

 

 

 

Maria Alice Bragança. Nasci em Porto Alegre em 9 de janeiro de 1958, talvez um dia de temporal, como ocorreu em vários aniversários dos quais me lembro nesses tantos anos. Jornalista, mestre em Comunicação Social pela PUCRS, redatora e editora de emissoras de rádio de jornal, fui também professora de jornalismo e artes visuais. Os primeiros poemas, escrevi por volta dos 14 anos, impactada com a leitura de Drummond. A poesia tornou-se, então, parte imprescindível da minha vida. Publiquei poemas em jornais, antologias e um livro individual, “Quarto em quadro”, em 1986. Mantenho, sem periodicidade, o blog “Alice & Labirintos” (alicelabirintos.blogspot.com) e integro o coletivo Mulherio das Letras (RS, Portugal e Europa), tendo participado de coletâneas editadas pelo Mulherio das Letras no Brasil e em Portugal. Este ano publico pela editora Casa Verde, de Porto Alegre, o livro “Cartas que não escrevi”.

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Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Crucificação branca' (1938)


Paginação:

Nuno Baptista


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