ANO 5 Edição 79 - Abril 2019 INÍCIO contactos

Paulo Loução


Nowruz e a alma da Pérsia    

Viajar hoje ao Irão é uma autêntica desvelação. Recebe-nos um país em paz, um povo com orgulho na sua cultura milenar, nos seus heróis e poetas.

 

Todos os que viajam a este território persa ficam encantados com o espírito de hospitalidade dos iranianos, a riqueza do seu património e tradições, e o seu amor pela poesia. À parte de Teerão, já uma megapolis com mais de oito milhões de habitantes, caminhar pelas ruas das suas cidades é receber um bálsamo de paz. Não se sente stress, a vida flui naturalmente.

 

Foi há cerca de dois mil e quinhentos anos que os povos indo-europeus ganharam especial preponderância em todo o Médio Oriente sob a liderança de Ciro II. Assim surgiu, no século VI a. C. o império dos aqueménidas, dotado com sistemas de organização muito avançados para a época. Absorvendo muitos elementos da tradição elamita, os persas criaram uma ampla rede viária, uma ordenação por províncias (satrapias), e um espírito de tolerância cultural e religiosa, que mais tarde seria adoptada pelos romanos. Símbolo desse espírito ecuménico é o rolo de Ciro, documento onde o primeiro imperador persa (shāhanshāh, «rei de reis»), após a conquista da Babilónia, outorga liberdade de culto a todas as populações que passavam a integrar o novo império persa. Este é considerado pela ONU como o documento mais antigo inspirador do conceito dos Direitos Humanos. Recordemos também que no Antigo Testamento (Isaías, XLV, 1-4), Ciro aparece como um «ungido» do Deus hebraico, uma vez que terá sido o libertador do povo judaico do cativeiro babilónico.

 

Ainda hoje, Ciro e Dario são considerados heróis nacionais, fundadores da grandeza do império persa.

 

Em 330 a. C. Alexandre Magno conquistou a Pérsia, ficando os selêucidas helénicos a governar até 247 a. C., quando emerge o novo império dos arsácidas ou partos, com o fito de reeguer o império que fora dos aqueménidas. Em 224 d. C., sucede uma nova dinastia persa, a dos sassânidas, último grande fulgor dos persas pré-islâmicos, que dura até 651 d. C., ou seja, até ao período do início da expansão muçulmana.

 

Naquele milénio dominado pelos persas pré-islâmicos, dominaram os cultos solares de Mithra e de Ahura Mazda, em que pontificava o heroísmo como via de chegar ao divino e de receber a kvarnah dos deuses, ou seja, a glória como força divina que permite manter a ordem e unidade na terra. Havia, como ainda hoje, uma forte ligação espiritual à Natureza, onde o cipreste emergia como árvore da vida e da imortalidade, e assim está representado nos magníficos relevos de Persepólis. Em Abarkuh, um cipreste com mais de quatro milénios, uma das árvores mais velhas do mundo, é monumento nacional do Irão. Encontra-se perto de um antigo templo de fogo (chahartaqi) e, segundo a tradição, fora o próprio Zoroastro que o plantou.

 

 

(cipreste de Abarkuh)

 

 

(Chahartaqi Templo de fogo, Neyasar, Kashan, Irão)

 

No mazdeísmo expandido por Zoroastro, o culto da Luz e do Fogo espiritual era simbolizado pela manutenção de um fogo físico em estruturas arquitectónicas muito simples. Dos sassânidas, ficaram-nos muitos chahartaqis, estruturas com quatro arcos e uma abóboda, no centro das quais se mantinha o fogo ritual. Os modelos arquitectónicos dos chahartaqis, assim como dos iwans (pórticos persas abobadados), influenciaram depois a arquitectura persa islâmica.

 

O culto da Luz também fora integrado no islão xiita, tomando como base a interpretação da surata 24, verso 35, do Corão, «Deus é a Luz dos céus e da terra... É luz sobre luz! Deus conduz a Sua Luz até quem Lhe apraz.» O inspirado filósofo persa do século XII, Suhrawardī, é o expoente máximo desta filosofia da luz, ou da iluminação, onde integra no islão xiita, ideias platónicas e mazdeístas.

 

Este é um aspecto muito importante para compreender o Irão de hoje: a cultura persa mantém-se viva.

 

Disso são exemplo grandiloquente os festejos do Nowruz (Festa do Ano Novo) que se prolongam por várias semanas. Este Nowruz que tem origem na antiga Pérsia pré-islâmica, continuou no período islâmico e chegou bem vivo aos nossos dias.

 

Podemo-lo viver, há poucas semanas em Portugal, através de uma iniciativa do Círculo Cultural Luso-Persa «Vareyna» e da Nova Acrópole, onde actuou o fantástico grupo Soroush Mowlana de música tradicional iraniana.

 

Esta tradição do Nowruz, património imaterial classificado pela UNESCO, é hoje praticada não só pelos oitenta mihões de iranianos como também por vários povos da região, crendo-se que ao todo serão duzentos milhões, os participantes desta Festa da Primavera festiva do início do ano.

 

Esta festa sagrada do antigo império persa é, assim, actualmente, realizada por crentes das mais diversas religiões e países. No Irão é feriado nacional e o momento festivo mais importante do ano.

 

Através do desenrolar dos diferentes momentos do Nowruz podemos constatar como o pensamento simbólico e tradicional se mantém vivo, algo deveras peculiar num mundo que se tem vindo a tornar híper-racionalista e mecânico, pelo menos nas áreas mais influenciadas pela civilização ocidental.

 

O novo ano começa precisamente no momento do equinócio da Primavera. Para além de «novo ano», nowruz, também significaria «nova luz», a luz do novo ciclo.

 

Semanas antes começam as preparações, convém afastar tudo o que possa atrair o mal ou a desordem. Há que «sacudir a casa», quer dizer, como nas tradições da Páscoa, realiza-se uma limpeza geral da casa ao pormenor, nomeadamente limpando bem os cantos. A sujidade abre brechas de entrada para o mal, portanto, tem que se erradicá-las. Senão, entra Ariman (o senhor das trevas, opositor a Ormuz, ou Ahura Mazda), como diriam os zoroastrianos, ou mazdeístas. Também há que comprar roupas novas, para o novo ano. Realizam-se outros ritos de preparação e regenerativos tais como subir ao telhado e atirar uma jarra com um fito apotropaico, ou seja, de afastar a doença e o mal da proximidade da família durante o próximo ano. E na quarta-feira anterior ao Nowruz acontece o Chaharshanbe Suri, as ruas enchem-se de fogueiras, como se do S. João se tratasse. Todos saltam à fogueira, homens, mulheres e crianças. E gritam ao saltar, «dá-me o teu vermelho e fica com o meu amarelo», o que significa, «dá-me com o teu fogo a nova luz e absorve as minhas impurezas do ano velho». Entretanto, à maneira de um folião vestido de vermelho e com a cara tisnada, anda pelas ruas o Haji Firuz tocando pandeireta e anunciando o Nowruz. Este Haji Firuz, com o tempo, veio a substiruir o Mir-e Nowruzi, uma espécie de saturnais que tinham lugar nos últimos cinco dias do ano. O calendário zoroastriano tem doze meses de trinta dias, 360 dias, como os graus de uma circunferência, ficando assim cinco dias fora do calendário, eram os «Panje». Tinham o mesmo simbolismo que os cinco dias epagómenos do antigo Egipto. São os dias do regresso ao caos primordial, caos que antecede o Ano Novo. Nesses dias havia inversão de papéis sociais e muita folia; da desordem sucedia a ordem do Ano Novo, e da vida do invisível surge a vida no visível.

 

 

(Chaharshanbe Suri, fogueiras rituais da festa de Nowruz)

 

 

(Haji Firuz)

 

Assim, nos dias epagómenos as dimensões da vida e da morte ficavam mais próximas. Hoje, os iranianos recordam os seus antepassados que já partiram na última quinta-feira do ano, dias antes do Nowruz, visitando os seus túmulos.

 

 O momento mais solene acontece então, em reunião de família, nas horas próximas ao equinócio da Primavera. Festeja-se coincidentemente o Ano Novo e o renascimento da Natureza trazido pela Primavera, bem simbolizado pela Haft Sin, ou seja, pela mesa de sete elementos, onde a ideia das forças da Natureza, da regeneração, da luz e boa-ventura estão bem simbolizados.

 

 

(festa do Nowruz, com a mesa Haft Sin, com sete elementos que começam com a letra «Sin», por exemplo a maçã)

 

A partir desse momento mágico, o Nowruz continua por mais doze dias, onde se sucedem as visitas aos familiares (aos mais velhos de início) e aos amigos. No décimo terceiro dia, os festejos do Nowruz encerram com picnics em espaços naturais. Todos saem à rua e comungam com a Natureza.

 

Sem dúvida, o Nowruz é parte integrante da alma persa, uma tradição milenar que ultrapassou os limites das formas religiosas que se foram sucedendo no território persa.

 

 

Paulo Alexandre Loução
Instituto Internacional Hermes
                                                                     Estoril, 14 de Abril de 2019

Paulo Loução: Escritor e investigador. Professor de Filosofia. Com relevante obra publicada, particularmente, nos domínios da história simbólica de Portugal e das suas tradições.

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