ANO 5 Edição 79 - Abril 2019 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: Amores perfeitos    

Um beijo de língua. Agarradas, corpos colados, encostadas em pé próximas à porta do vagão, as meninas entregavam-se apaixonadas às carícias. Lindas. jovenzinhas, ambas com cabelos compridos, deixavam as mãos passearem livres.  Uma delas, mais tímida, enfiava os dedos por baixo da camisa da namorada. A vontade evidente era de subir e tocar os seios ali tão próximos, pontudos a ponto de forçar o tecido para fora. Titubeava. Avançava, recuava, não se decidia, talvez por medo de perder o controle já tão tênue. Ou, quem sabe, ressabiada com o olhar da senhora ali próxima, banco dos idosos, cheia de caras e bocas. A outra garota, olhos vidrados, encarava a parceira como se tivesse vontade de mergulhar dentro dela. O movimento do carro correndo nos trilhos permitia que se roçassem sensualmente, equilíbrio bambo de desejos, balanço conveniente. Em determinado momento a de cabelos cacheados começou a alisar os da mais introvertida. Os carinhos se estenderam um pouco mais para baixo, seguraram o rosto afogueado, e outro beijo um pouco mais prolongado aqueceu meu coração. Tanta ternura assim era bonito de se ver. Quando a marcha diminuiu e o carro parou na próxima estação elas se afastaram, trocaram um sorriso de intimidade, aguardaram passageiros descerem, outros entrarem. Pareciam preferir ficar de sobreaviso, atentas, naquele momento de maior fragilidade. Alguém poderia passar por elas e importuná-las.

 

Instintivamente comecei a ficar de sobreaviso também, disposto a ajudá-las caso precisassem. O amor às vezes se descuida, a cidade esconde pessoas nem sempre capazes de aceitar o diverso. Um pouco à minha esquerda reparei em dois rapazes com um tipo de postura um pouco mais descontraída. Riam, cochichavam, poderiam estar julgando o comportamento ali presente. Mostravam-se um tanto debochados. Medi tamanhos, imaginei os dois em pé, considerei que facilmente daria conta deles. Fiquei um pouco mais tranquilo. Às vezes sou assim, assumo internamente posturas de super-herói justiceiro, imagino-me um ás de lutas marciais. Como nunca precisei ir às vias de fato, a fantasia permanece. Contudo, funciono meio como um cão-guia. Fico por ali tenso, atento, reparando em tudo, pronto para ajudar o pretenso deficiente visual merecedor dos meus cuidados.

 

O trem partiu, as meninas relaxaram, voltaram a se pegar. Fascinado reparei na dança de toques. Felizmente a figura delas se refletia no vidro à minha frente, podia olhar livremente sem incomodá-las. Uma alisava o corpo todo da outra. Havia um carinho lascivo, trêmulo, delicado, como se para elas fosse muito difícil aguardar o momento de estarem sozinhas em ambiente mais favorável. Às vezes interrompiam o ritual sensorial e permaneciam um tempo apenas se encarando. Somente um par de olhos ficava disponível desde o início à minha curiosidade. A outra, de costas, não me oferecia contemplação completa. Não consigo definir o que havia naquele olhar que me era exibido. Fome, desejo, paixão, mas ao mesmo tempo emoção tão grande capaz de tornar os olhos úmidos. A mocinha parecia que a qualquer momento desandaria a chorar, as retinas mergulhadas em líquido febril, contemplamento marejado, todo o corporal denunciava um estado de emoção exacerbado, vívido, eu quase podia sentir seu coração batendo acelerado.

 

A bruxa próxima delas deu um muxoxo alto e meneou a cabeça para um lado e outro reprovando a desinibição do casal. Pigarrei alto e a anciã, por sorte, avistou-me buscando cumplicidade. Devolvi-lhe um ódio tão grande na expressão, tamanha raiva, que a senhorinha se encolheu, disfarçou, aquietou-se.

 

A que estava de frente para mim invadiu o espaço entre o cinto e a cintura da namorada. Desceu até o punho, alcançou as partes íntimas da companheira. A ousadia provocou um gemido tão alto da outra que, assustada, rapidamente ela desistiu da invasão, fez um delicado gesto de cheirar os dedos, como se neles estivessem o melhor perfume do mundo. As duas riram alto e eu me peguei rindo também.

 

Na próxima estação, a da Consolação, desceram e seguiram de mãos dadas, mochilas nas costas, desejei-lhes intimamente a melhor noite do mundo.

 

A velha continuou balançando a cabeça, talvez fosse algum tique nervoso, os rapazes permaneceram rindo, estavam mesmo se divertindo, e eu, despindo a fantasia de super-homem, percebi, surpreso e um tanto incomodado, que fui o único a reparar naquele namoro.


Fevereiro/2019

 

Ricardo Ramos Filho, é escritor com livros editados no Brasil e no exterior, publicados em Portugal e nos Estados Unidos. Mestre em Letras no Programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, doutorando no mesmo programa. Desenvolve pesquisa na área de literatura infantil e juvenil, onde vem trabalhando academicamente Graciliano Ramos, privilegiando o olhar sobre seus textos escritos para crianças e jovens. Ministra diversos cursos e oficinas literárias na Escola do Escritor (literatura infantil, roteiro de cinema, poesia, conto e crônica). É roteirista de cinema com roteiros premiados, tendo ministrado curso de extensão na ESPM. Atua como coach literário, orientando clientes na elaboração de seus livros. Cronista da revista literária eletrônica Escritablog, onde publica mensalmente. Participou como jurado de concursos literários: Proac, Portugal Telecom, Prêmio São Paulo de Literatura, Prêmio Mato Grosso de Literatura, Paulo Setúbal de Tatuí. Curador do 1º Prêmio Nelly Novaes Coelho UBE de Literatura Infantil.  Sócio proprietário da empresa Ricardo Filho Eventos Literários, onde atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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Paginação:

Nuno Baptista


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