ANO 5 Edição 78 - Março 2019 INÍCIO contactos

André Nogueira


Um conto e três poemas    

TACO DE OURO

 
A primeira vez que lá estive, por completo acaso, foi escapando ao temporal sob um de seus toldos marrons. Aliás, minto. Houve antes uma tentativa: certa noite quando eu e um velho amigo tentamos lá entrar: uma partidinha, para lembrar os tempos de estudante! A ele, que passava a negócios pela cidade, levei para um passeio pelo centro antigo, por suas ruas de paralelepípedo e construções históricas, outrora opulentas, hoje mais do que decadentes, embora nelas permaneça certo ar de glamour. Paramos em frente: “Taco de Ouro: o rei do bilhar”. O palacete de três andares meio barroco, cujo só o térreo estava aceso, olhando-se da rua, parecia bem animado, e prometia uma bela noite, para nós que na juventude jogávamos naquelas bodegas tristes, mas saudosas, da cidade universitária. Mas então, quando fazíamos menção de entrar, um enorme segurança de terno nos barrou: “Fechado. É festa particular”. Que seja, bebamos noutro lugar! Mas chegará nossa vez de gozarmos o seu ouro!

 

Ironicamente, se lá eu voltei, não foi para jogar. Mesmo porque o jogo para mim ficou no passado e, se todo santo dia eu venho ao centro trabalhar, raras vezes passo por ele à noite e, jamais, para me divertir. Foi por completo acaso, escapando ao temporal sob um de seus toldos marrons, que lá parei. E não de noite, mas de dia, no intervalo do serviço. Andando eu à procura de não lembro o quê, é provável que um chaveiro ou algo assim, começou a cair o pé d’ água e, quando me dei por mim, estava diante do palacete, o qual nunca mais eu vira! E à luz do dia, sem o brilho dos letreiros piscantes, se resumia a uma casinha com colunatas e pintura bege descascada. Para minha surpresa, estava aberto e, na frente, uma plaquinha: “Almoço — Bufê de comida caseira! — R$ 13,90 à vontade — R$ 31,90 KG”. A chuva não prometia dar trégua, e afinal era meu horário de almoço... Um homem trabalhador tem o direito de, uma vez na vida, almoçar como um rei!

 

Desde então o tal “Taco de Ouro”, onde certa noite fomos barrados à entrada, passou a ser meu habitual local de almoço, quase uma segunda casa, que sempre está aí para me acolher nos intervalos do trabalho. Nela eu me sento bem à vontade e à vontade eu como. Ignoro o porquê, mas a comida é surpreendentemente boa, e o preço inexplicavelmente justo. Aliás, nem justo chega a ser. Eu me sirvo à vontade da mesa de frios, com salame italiano e provolone, de saladas, com aspargos e salpicão, e dos pratos quentes o que há de melhor, com bolinhos e tortilhas de toda espécie, para chegando ao caixa sentir vergonha de pagar tão pouco. Inclusive sobremesa e o café de cortesia! Um restaurante de fechada para um esquema de lavagem de dinheiro? Cheguei a suspeitar. Mas por fim concluí que o lucro do negócio é o bilhar e, o restaurante como um todo, uma cortesia só, e equacionei a casinha de colunatas e pintura bege descascada, como aparece à luz do dia, com o palacete que à noite brilhava de letreiros piscantes e onde a entrada era proibida, a não ser para homens realmente importantes. E penso que para esses homens, quando a noite cai, os tacos engordurados de madeira no veludo verde-escuro de repente se cobrem de ouro, as bolas se fazem de cristal e todo o entorno se transforma.

 

Você entra no grande salão a princípio mal-iluminado (demora para as pupilas se ajustarem) e se senta na mesa, toalha xadrez e galheteiros de vidro, uma dentre as quarenta mesas postas em fileiras ao lado do bufê. Do teto uma estrutura rebaixada de madeira, como o convés de um navio virado de ponta cabeça, retangular e que de um lado se arredonda, rodeada de luz verde neon (em alguns lugares piscando-falhantes...) e o centro de vidro espelhado, que reflete de volta o xadrez das toalhas. Imagino como à noite, retirando-se o bufê e todas as mesas e cadeiras, sob a luz neon o salão se converte numa pista de dança, de algum lugar desce um globo refletor, e ao som do jazz dançam homens importantes com alegres raparigas.

 

Pela lateral do navio uma câmera espia o balcão de talheres — grandes, pesados garfos lavrados de aço meio riscado, daqueles que já não se fabrica hoje em dia... — e fico imaginando como nesse mesmo lugar à noite roda uma máquina de jogo ou, quem sabe até, uma roleta; que esses homens com ar grave e pensativo se colocam ali, de olho nas fichas e no dinheiro, e quando um é pêgo trapaceando começa uma briga, o bandido saca um desses garfos e crava ao peito do adversário, mas já logo vem o segurança, pega-o pela gola da camisa e adeus.

 

Enormes seios quase saltando do decote, tatuagem no ombro e olheiras, a moça do caixa pega o dinheiro da tua mão sem falar boa tarde. Das mesas é possível vê-la no balcão, com bebidas ao fundo, de onde às vezes ela sai para atender misteriosos telefonemas. Sempre aquele olhar triste, esquivo e sobretudo cansado, como que há dias sem dormir. Imagino como à noite ela se transforma: a rainha do baile! Em seus olhos se acende um fogo, ela solta os cabelos, balança os ombros e, a depender da música, seus seios de fato saltam, ela mesma salta do balcão — o balcão outrora tristonho, em que pousavam moscas sonolentas, de repente piscante e com garrafas de wiskey abertas e drinks fosforescentes —, dança na pista e ocasionalmente senta no colo de um desses homens importantes. E de igual modo as garçonetes, que trocaram os aventais pelas cintas-ligas.

 

Rente ao teto de madeira nobre, ao longo de todo o salão corre um encanamento vermelho, e dele para todas as direções jorrará água, se numa dessas noites de orgia um desses homens com mulheres no colo se esquecer do cigarro aceso roçando na cortina, e então tudo se acender, a começar pelas gravatas, e ir subindo, subindo o fogo já incontrolável pelo dispositivo anti-incêndio, até que o teto caia sobre essas importantes cabeças.     
 
O toilette — ah, o toilette... simplesmente opulento! Todos os dias, com ou sem necessidade, impreterivelmente eu o visito! Os mictórios com sachês envelhecidos se transformam em verdadeiros tronos de mármore para que esses homens importantes mijem e caguem, podendo a seguir secar as mãos em toalhinhas que as faxineiras, sem que ninguém as perceba, trocam por novas a cada cinco minutos.

 

Esqueci de falar no principal: o bilhar. Principal e todavia inacessível: as mesas de bilhar, para nós que sentamos nas mesas xadrez, mal são visíveis lá no fundo, atrás do biombo, uma área reservada, sempre na penumbra, para ser acesa só de noite e mesmo assim à meia luz. Para lá tenho até medo de olhar. Decerto é um lugar sagrado, o altar das diversões e do gozo, onde também se acertam negócios, encomendam-se assassinatos, o salão dentro do salão, o palácio dentro do palacete, diante do qual possivelmente há de terno um segundo segurança, para só permitir a entrada dos mais importantes dos importantes. Lá os tacos são de ouro, e são de ouro também as mesas, os talheres e galheteiros e mesmo os homens não têm nas veias sangue, e sim ouro, ouro, ouro. Lá o fogo não chega, nem Deus e nem lei.

 

E aqui estamos, numa dessas quarenta mesas com toalhas xadrez e no prato salpicão e tortilhas a 13,90 à vontade e 31,90 o kg. Mas chegará nossa vez de gozarmos o seu ouro! 

  
Março 2019

 

 

 

 

 

 

A VIÚVA DO JORNAL

 
Com o envelopinho pelo viaduto.
 
No envelopinho
uma passagem para Santa Rita do Sapucaí,
um trocado para um lanche e uma coca
e o santinho, com a prece pro anjo da guarda,
que comprei numa loja católica.
 
No viaduto
ela me disse: “Minha história
deu notícia no jornal.
Foi quase ontem:
cinco tiros por cem conto.
Meu marido nem chegou no hospital,
já me chutaram para a rua sem um puto”.
 
Com o envelopinho
pelo viaduto.
 
Deus te livre e guarde!
Amanhã pode ser tarde...
Hoje mesmo vou trazer essa passagem.
Tua mãezinha em Santa Rita
ainda chora de saudade
e minha Mãe, que é mãe tua,
é quem te guia na viagem.
Tu acredita? Eu te prometo
que tu vai sair da rua”.
 
Mas na loja católica
não achei um só livreto
em que Jesus não fosse branco
e Judas preto.
E na cidade o tempo voa,
é fila no banco,
guichê da Cometa
e com o aperto da garoa
fui direto para casa.
 
No outro dia eu rápido saí
para cuidar da minha causa.
Alcancei o viaduto…
A passagem pra Santa Rita do Sapucaí,
a prece e o trocado para o lanche,
no envelope estava tudo.
 
O velhinho do sinal
segurou na minha blusa
oferecendo-me um chiclete.
“Viúva do jornal?
Não sei, jornal só uso
pra cobrir minhas canelas.
Mas na ponte do outro lado,
vai saber tu acha ela,
tem um povo, uns colchonete…”.
 
Quando olhei, e vi piscando a viatura,
os dois guardas com revólver na cintura,
a pobre gente recolhendo suas tralhas,
eu à toda e sem pensar atravessei,
o busão não me pegou e foi por pouco,
“Que é isso!?”, protestei
com o coração na boca.
 
“Como assim, o que é isso?
É meu trabalho!”, falou o polícia.
“E tu, não trabalha?
A propósito, teu nome, tua idade
e documento”, e também disse
apontando o chão de pedra:
“Este lugar é um cartão postal da cidade,
aqui não cabe essa imundice.
Agora arreda!”
 
Assim tomei o meu caminho,
debaixo da chuva,
amassando em minha mão o envelopinho
e engolindo a seco minha prece.
Nunca mais vi a viúva…
Mas escuto a sua voz no viaduto
como a mim ela dissesse:
“Mamãezinha em Santa Rita me espera!”
E se me lembro da mãe minha,
que é mãe dela e mãe de toda gente pobre,
já no peito o coração me acelera,
mas a blusa ainda o cobre
e macia é sobre o leito minha queda.
 
Roga a Deus por tuas filhas
que se enrolam no jornal,
pois ninguém delas se apieda.
Como o pão que se partilha,
rasgo em dois o cartão postal.
Raios partam essas pontes!
E aos montes caiam pedras
sobre os edredons dos maus.

Abril 2017

 

 

 

 

 

 

 PEDRA MOLE, ÁGUA DURA

 
> “Em 2015 e 2016, Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos, colecionou medalhas em competições estudantis na cidade do Rio de Janeiro. Mais habilidosa no basquete, ela sonhava em se tornar atleta profissional e se preparava para isso na escola. Na tarde de ontem (30), a adolescente foi morta com dois tiros na cabeça e um no tronco, dentro da escola municipal Daniel Piza, quando treinava com a equipe de educação física… Testemunhas relatam que policiais atiraram contra homens que estavam perto da escola, esses tiros teriam atingido a quadra e também a sala de direção. Professores relatam os mesmos fatos e contam que tentaram proteger as crianças nos corredores. A turma na quadra, no entanto, estava mais exposta. A família questiona que a morte tenha ocorrido por bala perdida: ‘bala perdida é um tiro, não três’”;

Recorte de notícia de jornal, 31 de março 2017.
 
  
Qualquer rua que eu pegue
é uma árvore cortada.
Cada página que eu vire,
uma troca de tiros
num colégio,
um corpo caído na quadra.
 
Via de regra,
uma operação de guerra
com a pior das estratégias:
do quartel da infantaria ao infantil um.
O caminho mais curto
para um alvo comum…
 
Escuto:
caiu uma colher no andar de cima.
Viro de lado na cama,
o outro ouvido se aguça:
o soluço
da criança
pelo leite
que derrama.
 
Casa própria, quem não sonha?
O beijo áspero da insônia
após muito mastigar o meu espírito
me cospe
da janela do cubículo
à próspera metrópole dos ricos
e dos pobres.
 
Como um copo caído
o corpo na cama estatela,
coração cai no carpete.
Já me vou pela janela
como seta de alabarda!
Num arredor desconhecido
o pesadelo se repete:
a colher
que se converte
em fuzil
na mão do guarda.
 
O disparo à queima-roupa
em quem nem roupa tem
somente às vezes
dá manchete:
“Maria Eduarda,
13,
jogava basquete
na quadra”.
Os tribunais se abstêm.
A ninguém a tropa poupa
e quando acerta uma criança
quase ganha dos jornais os parabéns.
 
Num bairro de classe média,
o soluçar da ambulância,
o choro arrependido do caminhão de gás…
Espiam das janelas os vizinhos assustados
e por todo o prédio
suam frio os azulejos…
Em qual boca de fogão o bom rapaz
terá dado seu último beijo?
 
Qual terá sido
a bad trip do
corpo estendido
no paralelepípedo?
 
E este que dorme profundo
abraçado ao corote
no coreto da cidade?
Não abraça, acaso, a morte?
Quantos desiludidos por segundo
no mundo da pós-verdade!
 
Mansões se erguem aos eleitos entregues
em grinaldas elétricas que cospem faíscas…
Para os prósperos se abrem os caminhos.
Próximo cospem
os homens de quepe
e com ódio confiscam
de um pobre catador o seu carrinho.
 
Qualquer rua que eu pegue
é rota sem alternativa:
de um lado o carro-forte
repleto de cheque,
de outro o esquadrão da morte
em suas “rondas ostensivas”.
Nessa rua qualquer
que divide o Brasil,
o fuzil é colher
e colher o fuzil.
Estou fadado a ir por ela
declarando estas rimas quase estúpidas,
enquanto na tv alguém ao vivo
conjuga o verbo “estupra”
no modo imperativo.
 
Por esta rua um dia eu volte
e arregalem-se as janelas
quando içarem da revolta
e negra vela
para além do horizonte do valor do combustível.
 
O coração da boca,
que as lágrimas engole
mas não cala para a época cativa,
é dele a glória e o milagre
de mais forte bater que a louca dor
da pedra mole do petróleo
e a água dura da saliva.
 
Abril 2017

 

 

 

 

 

 

O PRESIDENTE ME QUER MORTO

 

 
O presidente me quer morto.
E mais quarenta e seis por cento,
e meu pai, meus avós e meus tios
me querem morto sem saber.
Nem de longe lhes ocorre ao pensamento
que amanhã sob o fuzil
pode ser eu, ou ser você...
 
Da guarita o rosto redondo
do porteiro, acenando com a mão,
o bom velhinho joga aos pombos
na praça farelos de pão,
e conversando alegremente
motorista e passageiros,
a bordo do bonde,
que sorriem com bondade
e me respondem: “Boa tarde!”
Nem de longe
lhes ocorre
ao pensamento! —
se é esta realmente
a vontade
que eles todos compartilham.
Penso, e talvez
esteja errado,
que todos são bons,
mas quando for a minha vez
de ser levado
ao paredão,
haverá quem aperte o gatilho
e quem chore tendo entregue
o próprio filho.
 
Está difícil de se amar a humanidade,
e mesmo assim eu insisto,
com um misto
de terror e apatia,
e ando sem norte
pelas ruas da cidade,
a pensar que minha morte
é a vontade
da absoluta maioria.
 
Mas eu sei que não é isso
o que pensam realmente,
e também sei como é difícil
não ceder à sintonia
urgente do rádio,
ao ódio servido
em cada banca de jornal.
Meus queridos!
Eu sei que nenhum de vocês
me quer mal!
Mas quando for a minha vez,
já não lhes dará ouvidos
carcereiro ou general.
 
Outubro 2018

 

André Nogueira: nascido em 1987 na cidade de Herdecke, Alemanha Ocidental. Registrado cidadão brasileiro no Consulado em Munique. No Brasil desde 1991. Vive atualmente na cidade de Campinas. Formado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e em Literatura e Cultura Russas pela Universidade de São Paulo. Tradutor, poeta, ensaísta. O Presidente me quer morto, publicado pela Editora Urutau em 2019, é seu terceiro livro. Fotografia: Auto-retrato com foice, martelo e locomotiva (câmera soviética com tripé e filme vencido).

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Março de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Março de 2019:

HENRIQUE DÓRIA, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, André Nogueira, Artur Alonso, Augusto César, Berta Lucia Estrada, Caio Junqueira Maciel, Fabián Soberón, Fernando Maia da Motta, Gabre Valle, Gerardo Burton; Rolando Revagliatti, I Mulherio das Letras, Joel Henriques, Jorge Castro Guedes, Jorge Elias Neto, Jorge Miranda, José Ioskyn, Leila Míccolis, Luís Henriques, Luísa Demétrio Raposo, Maraíza Labanca, Maria Manuela Jardim, Marinho Lopes, Nayara Fernandes, Nuno Rau, Octavio Perelló, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Rocío Prieto Valdivia, Thiago Ponce de Moraes, Zetho Cunha Gonçalves


Foto de capa:

'Frevo', Cândido Portinari, 1956


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR