ANO 5 Edição 78 - Março 2019 INÍCIO contactos

Augusto César


Poemas    

Eletrodo de sacrifício


"Amar os outros é a forma mais pura 
de ingenuidade e delírio." 

 

a mente corrói 
o que o corpo abriga 
o de dentro é um bicho 
que quando não acariciado 
entrega-se ao desamparo 
e se auto-oxida. 

quero devorar cada partícula 
da légion étrangère
que sacrifica estranhamente 
o que me é extra
por puro desprezo e fascínio,
como uma esfinge
que me guarda e me rege 
o âmago fundamental 

o eu é: 
o cão que morde e ladra 
o cão que ladra e morde 
— egoico — 

não me surpreende que 
na manhã de ontem 
acordei com taquicardia 
e com formigas subcutâneas 
na palma da mão,
desvendando entrelinhas 
como a quiromancia maldita 
não dita, e eu sei: 
não quero uma linha de vida...
sempre quis voar! 

o corpo colapsado 
está em febre e sua frio 
não sobrevive ereto 
e expurga o lixo 

:: ambul(ânsia) :: 

não me abra a porta
proibido entrada de estranhos 

por motivo algum 
toda noite meu sangue 
é possuído pelo vampiro 
que emerge obsceno 
do liquor de beladona,
enclausurando mil e uma 
almas lodosas 
em devir profundo. 

salvaram-me pelo olhar estrangeiro
com oito eletrodos sobre o gel 
em meio as cerdas do meu peito 

a quem interessa
postergar minha morte?
para quê?
o que deseja o querubim lácteo 
que me carregou 
tremulamente em seus braços? 

por um momento eu quis 
mergulhar em seus lábios 
mas em minha veia corre o pecado 
e naquela manhã eu não merecia 
sentir nada pelo querubim 
que protegia o mundo do perigo
que habita em mim.

 

 

 

 

 

 

Labirinto

 

Nunca me disseram que a vida é fácil
Eu também nunca quis esse “é” da coisa
Ser por ser me limita demais!
Prefiro não ser a ser eternamente a coisa.
O verbo estar é mais livre.
Ensinaram-me a entender o mundo
Ensinaram-me com detalhes a estrutura atômica
E o que eu mais queria era me entender.
Minha mente é um turbilhão de informações
Raras pessoas apontaram-me caminhos
Rumo ao meu próprio entendimento
Mas... para cada direção há sentidos opostos.
Errei o caminho...
Perdi-me em mim mesmo
A trajetória foi calidamente dolorosa, disforme
As lágrimas entraram em calefação
Enveredei por caminhos desconhecidos
Farejei minha felicidade como
o cão fareja o caminho de volta a casa
depois de um triste abandono
Farejei por mim e aspirei minha 
essência
Tenho momentos felizes
Controlo-me para não me perder...
em um simples espirro
Eu vivo!
É só isso!

 

 

 

 

 

 

Empedernização do eu 

 

Choro para perimir meu choro. Estou à beira de um conluio comigo mesmo que visa  à maquinação da minha própria morte. Meu corpo é um mocambo que abriga a minha quintaessência em um cômodo obscuro de sangue denso e insosso. No intermezzo da minha loucura, antevejo incisivamente o desapercebido da coisa e me pego desbragadamente absorto em meus pensamentos. Algo em mim tornou-se impassível, embora haja uma afluência de delicadezas que me arrojam de bruços contra o travesseiro. Levanto-me e me apoio sobre a torça da janela, e sinto o vento que vem do longe e irrompe as minhas memórias, transviando-me para um encontro frontal do éthos com o "eu" do eu lírico. Golfo minhas bazófias e mergulho a minha cabeça na tina que se encontra no mesmo cômodo de sangue crespo. De ímpeto, suspeito de que a janela seja composta por uma torça falsa e de que o vento nunca existira, e de que o encontro comigo próprio também nunca ocorrera. Estaria esse "eu" na parte mais etérea da minha existência, na qual a fluidez de tudo confunde-se com a não existência do nada? Fui designinado por Deus à autocolusão. Estou a cada dia mais achatado, ressonando dias e noites sem ouvir os estrilos arfantes que o sonhar da  vida e da morte tem me causado. Sinto-me reificado, como se eu ainda fosse semelhante a uma coisa que já fui: como se eu fosse um  parônimo corpulento de alguma outra coisa de que sinto saudade. Culmino em balbuciação uníssona de frações impróprias de anamnese,  escrevendo-me errado, mal direcionado entre o real e o imaginário de uma essência que se ovalou nos meus passos. Sou copiosamente contencioso, conquanto aquele cômodo seja teso e me faça senti-lo sobre a pele flácida um pouco acima do estômago. Constranjo-me a felicidade e  transformo o meu músculo cardíaco em um objeto quadrilongo, senão  esquadriado. Visto-me de um sambenito contumaz, felpudo e lanoso, como se o estopim do mundo estivesse no porvir de me sugar a última gota de sangue chafurdada em humanidade. Atiro-me em minha própria  arapuca... Que os Tupis, sangue primo da bandeira do  meu país, perdoem-me. Embora bravamente, luto para salvar a minha morte. Eis uma tapera à procura de habitação. 

 

 

 

 

 

 

Microeconomia do querer 

todas as mentes do meu tempo 
são incapazes de produzir 
toda a neurofisiologia necessária 
à assimetria de informações do mundo 

a racionalidade limitada opera a
favor dos dardos mais viciados 
a economia é tão cética
como o meu último namorado 

o que há afinal de diferente 
entre o amor e o negócio? 

 

Ilusão
oportunismo ex-ante
seleção adversa

Cremos em mais detalhes do 
que realmente existem.

Love is negotiable! 


Acredita-se no ser único vide
a produção ostensiva de estranhezas...
o grande outro é o único elo possível 
diante da nossa fragilidade 

Às vezes, a publicidade é tão maldita 
que nos venda e se torna o deus 
nunca mais substituível

Houve casos de pessoas que morreram 
devido à manipulação dos custos de transação
A doutora disse: morre-se também 
pela grande oferta quando é alto o 
ris⊄o

Não  é que granja não me remete 
mais a galinhas: 

de                           s 
ver 

in loco: integração vertical

soube ultimamente de sua vontade incansável 
de transcender o monopólio bilateral 
e atingir o âmago da transformação fundamental 

poderíamos ter feito da natureza do nosso contrato 
um conjunto de cláusulas condicionais 
mas é que o homem é um ativo de alta complexidade 

O que é o sujeito, senão em relação ao outro?

 

 

 

 

Piaçaviva 


Nada é capaz de me levar 
à epifania do seu toque 
além dele mesmo 
O que há de tão especial 
em suas falanges? 
Por que sempre morremos 
— like an apocalypse — 
quando nos envolvemos? 
E por que queremos retornar
ao mar e salgar nossa própria 
carne, conservando -a 
para não ser comida? 
Há poesia em renascermos 
daquilo que não existe 
enquanto matéria viva? 
FORGIVE ME!
Não quero escrever difícil,
mas é que só escrevem fácil 
aqueles que têm domínio 
da mente e da língua 
E eu vivo emaranhado  
na minha própria matrix... 
cercado por inseguranças e medos, 
intercalando punhetas nas entrelinhas 
Ainda me deleitarei da proteína 
secreta do seu leite? 
Prometa-me que poderei 
arrepiar-me através de cada pelo 
que habita o seu corpo 
Prometa-me!
e eu finalmente estarei libertado 
de todo o pó
que me varre a vida. 

 

 

 

 

 

 

Desencontro


Nosso desejo era mútuo 
e jorrava sangue 

Meus dedos grossos tocavam-no 
levemente entre as coxas... 
quando presenciei a opulência 
de um sorriso refletido no vidro
Comutamo-nos em silêncio atra(s)vés 
de um desejo  apertado e rubro
Minha petulância em o tocar 
em meio às pernas fora a carga de prova
 de toda a energia quista a ser revelada

Olhos puxados,
sotaque asiático,
corpo definido,
Era do Tiro de Guerra,
Só me perco nisso! 

Nunca soube seu nome
Talvez fosse paulista, 
porque o vi descer olhando para a frente
 — que era eu —
no terminal rodoviário de Campinas

Ele deixou lembranças
e não levou a minha: 
uma gigantesca camada 
impermeável e translúcida
de um sal almofadado 
que respingava ureia suada, 
mas rescendia a   
hipoclorito de sódio.

Mesmo distante,
senti-me seguro, em casa.
Dendritos doentios foram sinalizados,
e eu chorava por minha mãe, 
lembrando-me de um lar 
que eu nunca mais tive.

 

 

 

 

 

 

Afluxo


Desenhei um guia 
uma espécie de bússola 
de forma tão sinuosa 
como o cerrado plagia  
os seus lábios 

Precisava urgentemente saber 
do rumo nordestino 
que os seus pés tomaram 
tanto em ares 
como em estradas
Aqui perto de mim 
nasce o São Francisco... 
Se acaso eu me doar 
aos ventos e às águas, 
deixa-me desaguar 
nos vórtices 
do seu mar? 

Suplico-o: 
diga-me agora 
a latitude da falésia 
que o circunda 
e me faça fogo, 
para que sua fumaça crua 
guie-me na busca 
pela saliva 
que matará a sede 
severina do meu desejo. 

 

 

 

 

 

 

Diálogo 

 

Fumamos um maço inteiro de cigarro 
Nossos pulmões deterioravam-se como cacos de vidro 
que se estilhaçam pelo chão 
Mas juro que me sentia mais vivo a cada trago 
Ela disse que jabuticabas são como uvas... 
Só que melhores. 
De fato: 
pode-se saber quais são as mais doces 
pela própria anatomia da fruta 
enquanto as uvas enganam
e nos deixam à mercê do acaso. 

 

 

 

 

 

 

Angústia 

 

Deito-me em uma bacia de gelo, 
ocupando-a com 86 quilogramas
e meio de tétano 
Ofereço minha alma salgada e enferma
aos orixás que um dia
salvaram-me da vida 
Tenho pressa para lutar... 
Lutar para salvar minha morte
Tenho medo de uma agonia perplexa 
que implora por uma sobrevivência pouco intrínseca 
Prendo a respiração
e me afundo abaixo do gelo, 
alimentando-me das feridas
que me estragam a retina 
Sinto que minhas pupilas umedeceram-se
com um cuspe de carboidratos
e proteínas sinistras
Mas juro que terei paz antes da morte

 

Augusto César:   Mineiro. Araxá, 1997. Vivendo em Curitiba. Acadêmico de Medicina da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Jovem Embaixador, 2014. Fundador do Medfulness, e presidente da Liga Acadêmica de Genética Médica da UFPR e do EAT Brazil/UFPR. Tradutor e divulgador da poesia de Jotie T’Hooft. Administrador da página: “Clarice Lispector: Obra e História” e promotor do evento “Clarice Lispector e a Bruxaria do Jardim Botânico”. Recém publicado na R.Nott Magazine pelo “Ensaio dionisíaco sobre a morte de uma cigarra” e na Revista Plástico Bolha por “Empedernização do Eu”.

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2019


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Foto de capa:

'Frevo', Cândido Portinari, 1956


Paginação:

Nuno Baptista


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