ANO 5 Edição 78 - Março 2019 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


Um Deus enfermo vem de um escrito do Espírito Santo    

 

Em seu livro de memórias, Meu último suspiro, o cineasta Luis Buñuel, ao tratar da Santíssima Trindade, queixa-se que se dá muita atenção ao Cristo: “Só se fala dele. Deus, o Pai, ainda existe, mas muito vago, muito distante. Quanto ao infeliz Espírito Santo, ninguém se ocupa dele e ele mendiga nas encruzilhadas.” (Meu último suspiro, trad. de Rita Braga, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982, p.346). Recorro a esse trecho para expressar meu espanto e admiração pelo mais recente romance do capixaba Reinaldo Santos Neves, Blues for Mr. Name ou Deus está doente e quer morrer (São Paulo: Patuá, 2018).

 

O Espírito Santo, estado da Federação, é citado uma única vez nessa alucinante narrativa que tem mais de 400 páginas, cujos numerosos capítulos são indicados por 22 repetições das 22 letras do alfabeto hebraico. Na página 176, ao saborear um café gelado, a protagonista Kate Whishaw faz a seguinte digressão: “Sabia que os grãos são recolhidos das fezes de um pássaro tropical, e que provêm de cafeeiros plantados num local do Brasil chamado Espírito Santo – o que, a meu ver, indica que esses cafeeiros são cafeeiros inspirados e que o café, quente ou gelado, é um café católico.” Uma passagem assim me concede, no livre voo das associações de um leitor meio desvairado, a relacionar Espírito Santo a ave; inspiração a escatologia. Aliás, na p.259, Kate ouve de Fay, sua suposta mãe, este conselho: “Se vir alguma coisa estranha nessa casa, e vai ver, pergunte sempre, em voz alta, que merda é essa.” Pois é a expressão que o leitor tem vontade de enunciar, ao se ver transplantado para o distópico espaço e tempo em que se passa a história, num “mundo depois de amanhã” – como esclarece o Autor em um texto  on line que propõe a elucidação das fontes de sua obra. Podemos, inclusive, usar o termo escatológico em seu duplo sentido para percorrer as linhas desta passagem, na p.193: “A Violência, por outro lado, desceu também à terra e foi acolhida com entusiasmo por todo canto, como a chuva no deserto, e fez entre os homens sua morada definitiva e permanente. Sim. É apenas uma parábola, e muito antiga, mas representa a realidade em que sempre vivemos, a mostra que a cada dia cultuamos com mais alegria e orgulho o esterco, o estrume, a bosta, a merda de que compõe essa realidade.

 

Ao narrar a saga de Kate, cuja missão é salvar a humanidade e pôr para dormir Aquele Que É, ou seja, Deus, o Autor não é simplesmente um ser bafejado pela inspiração do Espírito Santo: o que se vê é uma encruzilhada de fontes intertextuais, densa floresta de signos itinerantes, provindos de origens diversas e dispersas, com ênfase nas Histórias Galesas (The Mabinogion) e na Demanda do Santo Graal. Há um posfácio do autor que comenta algumas dessas fontes, incluindo aí o clássico Pinóquio, de Collodi. Também são frequentes alusões a Branca de Neve e um sem número de paráfrases e paródias de repositórios de mitos e histórias. O adjetivo “desconcertante” talvez ainda seja pouco para classificar tal romance que é capaz trazer um “prodígio dos prodígios” como um arco-íris noturno (p.380), ou ainda uma chuva holográfica de sombrinhas e guarda-chuvas (p.179). Numa mesma passagem (p.194), encontramos Noé e Átila; a lagarta da Alice de Wonderland (p.189) pode ser relacionada a outras que perturbam a protagonista, como na estonteante revelação à página 392, que não cometo aqui o spoiler.

 

Confessa Reinaldo Santos Neves que esse é um Livro de Lamentações. Narrativas bíblicas perpassam pelo seu texto, a despeito de trechos aparentemente sacrílegos, como o que se vê na p.208, com strippers fazendo a coreografia da Ave Maria de Schubert. Ainda que a missão de Kate seja a de salvar a humanidade, ela sabe que “nenhum ser humano é inocente, todos cometeram, cometem ou cometerão crimes; todos nasceram, com raríssimas, quase imperceptíveis exceções, para se odiarem e se saquearem uns aos outros, para causarem, uns aos outros, gratuito, gratuito, gratuito sofrimento, tanto moral como físico e de outras e variadas e inventivas categorias. Este não é o planeta Terra, nem, como alguns sugerem, o planeta Água: este é o planeta Dor.” (p.147)

 

Crime maior é o silêncio que se faz, ainda, em torno desse admirável romance. Salvo excelente entrevista do autor ao jornal paranaense Rascunho, no último mês de dezembro, não encontrei outras repercussões. Numa das numerosas passagens irônicas da narrativa, o narrador brinca com títulos assim: “ ‘Como escrever literatura de ficção que venda’ e ‘Aprenda a ler literatura popular como obra de arte: Moralidade implícita, alegoria arquetípica, e significado hermético do clássico Crepúsculo”. (p.175) Numa época em que se entrevê o crepúsculo da inteligência nesses rincões, é fundamental ter ao nosso alcance um livro como Blues for Mr. Name. E, ao som do Jazz, vamos encontrar alento para encontrar um artista que extrai o som da própria alma, assim como a heroína é capaz de arrancar sangue do próprio vento – um dos episódios extraordinários dessa saga.

 

 

 

"Caio Junqueira Maciel foi professor de Literatura Brasileira. Ensaista, poeta, contista e cronista."

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