ANO 5 Edição 78 - Março 2019 INÍCIO contactos

Gabre Valle


Tombuctu real    

Remendou o velho manto com retalhos de panos ralos, amarrou as sandálias com cordão de cânhamo e partiu para ver. Pingente uma botina de bronze num elástico de dinheiro, entorno do totem e não de dinheiro, mas três moedas de dez centifrancos reais, e partiu para ver.


Tombuctu a sua morada árida, simples em gasta, como a maioria das moradas da sua cidade, com a qual partilhava o nome, espalhadas pelos cinco bairros,: justos quadrados de barro. Tombuctu mulher de idade eterna, dos cinzas olhos bravos, ainda calmos, e presentes. Sem a memória. Desconhecido fato quem o seu nome lhe tinha dado como dado, fixado-a neste espaço Tombuctu, se o espaço é sempre o espaço, e o tempo. Sempre só tempo, a mulher sabia-se, por senti-lo, como constituída de princípio e fim concomitantes nesta terra; masporém do meio, que a tinha feito, não possuía História. Seu antes e seu depois colidiam e da coesão não se sabia. Era aqui presa viva, de si guepardo e gazela, numa existência nunca mais ou menos do que plena – era neutra. Tudo quanto fazia vinha não de memória mas de sê-la, imediata ação perfeita: as mesas e as cadeiras que fazia, de mãos, como também o pão, para a Madraça de Sancoré; as fotografias que fazia da fauna do seu em torno Mali, contribuição sua para a Gazeta de Ciências Naturais da Madraça, financiada pela UNESCO. Ela só era. E seus concidadãos tinham-na natural enquanto perpetuado enigma. E seus mais abeirados, só com quem diretamente comercializava, igualmente enigma viam-na – e entretudo ninguém a mais precisas investigações se investia, porque se via, nos seus gestos completos e no seu olhar pronto, que qualquer coisa de sem-razão residia, a que não dizia respeito fazer maiores ciências. Chegava saber que lá estava, entre mesas e cadeiras que se apinhavam dentro e fora dos seus sete metros quadrados de casa, sentada no chão a organizar as suas imagens da fauna do seu em torno Mali.


Partida para ver, a partir de sua soleira, e hoje era silêncio civil de um dia em que os ventos traziam o deserto. Voltou os cinzas para as molduras da sua única janela, onde, pousado o moderado raio da manhã, revelavam-se poeiras verdes. No centro deste quadro via pregada na parede oposta a fotografia, um seu prémio do sentimento, rara, que um dia, do qual não tinha recordação, tirara de um Bico-de-sapato, raro. Esta não a pudera vender para a gazeta por se ter esquecido de anotar os dados de tempo e espaço. E, remendado, amarradas, continuou para ver. Pingente do totem e não dinheiro, mas centifrancos reais... Foi ver.

 

Pela rota To Kabara, passando pelo Forte Militar e depois pelos Correios. Alguns homens em reunião numa esquina eram mergulhados no ar laranja, como em pintura antiga nunca restaurada. Um camelo e uma égua repousavam lado deles e achavam bom quando eles riam. Mais à frente, passando pela Aco, a pastelaria mais antiga da cidade.

 

– Tombuctu! Tombuctei, estimada! Para onde se encaminha tão persuadida? Respira-se deserto.

 

E prontamente tombuctou-lhe, ao velho Membe, dono daquilo, um aberto riso sem som absurdo e seguia; ante o que o sorriso dele tremeu e sumiu num pasmo, e do seu pasmo foi um sem-palavra feito.


Passou pelo Estádio, passou pelo Banco, necessidade impensada dava continuidade à sua partida, mais à frente outro Banco. Ao longo da estrada seca cruzavam-lhe sendo guiadas cabras por boa carne, desgraçadas pelos humanos paladares. Ela não: arranjava seus grãos...suas leguminosas. Passou pelo Albergue e, logo, quando a rota paralelou próxima da continuidade afinada do rio, na altura do Aeroporto, Tombuctu afastando-se de si deixou-a para passar a ladear a água nos vinte quilômetros que eram de ser seguidos até. Última vez que tinha ido, de que não se recordava, era uns anos antes quando na descoberta da calamidade do vazamento petrolífero que tomava lugar no delta nigeriano, pelo que um vulto de perigo a tomara na própria sobrevivência. Era mulher tomada no fundo do cérebro por causas de panorâmicas importâncias, de imediatos fins urgentes. Sua estranha consciência regia-se por um véu de mundividentes abrangências, com as quais ela todavia não se articulava directamente. Tinha muito um pouco de tudo lido, dos livros com que a Madraça a pagara pelos serviços, mas, sem guardar linear memória, e sem ter memória da sua própria História, tudo quanto sempre apreendera do mundo da vida ficara como que espalhado na água parada da sua cisterna: constituía-se-lhe, porém não havia movimento, tendência, uso. Ah, que sim, seus ofícios diários eram técnicas aplicadas, saberes de mãos e do pão pão, era bom, mas tombuctava-lhe integralmente no instante que algo mais tinha que não bem organizava, porque sesquecia, bloqueafugia, mas de eternamente, de diplomática e de Realmente; e de que devia de usar para o bem geral. Hoje agora caminhava, convicta de nada, para ver. Numa sede inaugural da sua vida intacta, eram galinhas selvagens pelo caminho.


Uma ferrugem alcançou esta manhã
O paraíso humano do meu coração em fauna.
O que, depois do princípio nonde vivo, sou antes do fim nonde eu vivo?

 

Mal tinha sido o dia aberto e a luz iniciada, ainda ela em mônade mônada pelas savanas oníricas a caçar raízes para seu alimento, teve o rabo da sua inconsciência puxado com violenta força quando a cabeça de uma ventania que tinha percorrido o inteiro mistério do deserto arrombou sua janela. Mistério precisamente o incompleto: não inteiro: aberto. O susto e o ar que invadia deixaram-na imediatamente tonta, seu instinto impecável desarrumado, um rasgo feito. De mão cega e instantânea apanhou a jarra de barro do chão lado à esteira tramada de cânhamo que tinha como leito, mamou naquilo com a impulsividade e a falta de sentido de um bezerro prenho, vesgo, e assim engasgou-se com a bruta quantidade de areia lá contida. Areia arcaica e nova da sua sina oca. O sino da Hora cantava enquanto. Ao fim do canto era o desencanto derramado. Leite ocre escorreu pelas paredes de barro da sua casa, feita por mãos esquecidas.


Que valor tem um Nome? afinal que rege o Sem-Nome mas a este não se conhece, então aqui as dez, treze mil coisas. Ademais: que histórias contar, como que num novo aceno, vazio e pleno, ao coração do mundo nas gentes? Questões que se formulavam quase autônomas, seu cérebro estendendo tentáculos ao fundo da sua cisterna. Era um primeiro, único, e fatal descontentamento na sua até então completude salvaguardada pela amnésia. Cidadã, citadina, temperpétuo espaço onde vibrava imóvel. Tinha uma vida produtiva, cuidava ela própria do seu sustento – mas mais assemelhava-se a uma máquina. Mas não: nada em seus hábitos era mal à Natureza.  E formigas... verdes... Ouvia rãs. Nunca as comeria. Bonitas aves na falda do rio, ria... Não trazia nada consigo excepto no bolso do manto velho o que tilintava de moedas e o pingente eterno no elástico no totem. Esse totem era uma pequena antropofigura talhada em madeira, e não tinha nada nela que revelasse qualquer sinal de etnia, gênero, idade; tinha um rosto que parecia ter sido desenhado por correntes d'água, que quase indicava um nãorosto. E à medida que caminhava, a cidade pelo ocre dissolvida, a sede amplificada mas os pés decididos de não parar até, o todo organismo da moça latejava em pescarias. É março...

 

– sabia disso?


Retornou algo de que sabia, não com pouca perturbação: eram umas cartas. Ela recebia, eventualmente, correspondência unilateral duma Associação cujo nome ainda agora não acessava. Quê? Metia-as, depois de lidas, debaixo de velharias que mantinha na mais alta prateleira, para não mais ver – a confusão que aquilo lhe causava a induzia a este espasmo. Carimbadas dum círculo vermelho e eram muitas palavras. O familiar: sem dados de tempo e ou espaço. Era um dia bonito e vacas pardas começavam a aparecer ao longo. A tonteira de repente voltava e quando voltava trazia trechos daquilo. Trouxe o que mais a espantara: como se-lhe nomeava a destinatária:


                                                Tombuctu Real


Mas não sabia ter nome mais do que o local. E não sabia ser a si mais real do que engrenagem do funcionamento disto. Ou o que valer. O que podia poder. E como tal entidade despessoalizada tinha-a pelo espírito – porque tinha... E ecoava na fonte! Cheia! Branda. Falava-se a sua língua. Mas não se tratava dum contato, dum remetente, vernacular. Lá eram também expressões enigmáticas em outros idiomas, que, como era possível, podia ela compreender. Alô! Está me escutando, minha parceira? Viva la Balena! Eco politisation pour le Bonheur des Dames! E, pior que lhe desconfundia, eram outros termos complexos que faziam-na lembrar, agora, os livros da Madraça. Tinha algumas vezes sido convidada para lá estudar, ah, tinha sim sido. Todas as vezes recusara. Não tinha interesse naquilo que parecesse uma seita, um embrutecimento. Os escolásticos falando teoréticos dialetos que o restante do povo não podia adentrar. O robô ganhando. Também a ela ganhava? Se perdia. Se ela engrenava mesmo que não ali onde eram instituídas indústrias de inteligências serventes. Disciplinas separavam e modos de devoção separavam. Ah, isso... – Um estranho dia, atrás, em que andou muito! Conhecera os Bosquímanos, ouvira e compreendera os seus estalos e cliques. Quilômetro por quilômetro, palavras e imagens irrompiam, tinha sede, visões de bolhas que lhe saíam pela boca. Tombuctu não está louca. Um pouco nervosa. Porque de aqui nascente e como? Estavam ademais endereçadas a ela recordações de revoluções e guerras – e depois aforismos fluidamente construídos em versar sobre um dever afectivo-criativo para com a pátria; que era o Mundo. Estava era farelos perdidos do alimento planetário: para as gentes! E tinha sido posta para borbulhar lá no Mali, no seu fazer móveis e fotografar faunas e negar instrução formal, e interação verbal... Mas desenovelava em mente:


Salut a Tout le Monde!

 

Como a partir de África a humanidade se espalhou pelo planeta...
Germes, Girafas, Gentes
e Grafias novas.

 

Se apercebeu de que podia falar a língua xhosa. O sol tremia em saído já do alto meio do dia. Sem pegadas, soterradas, e pegadas novas: voltava a sombra. Entre o princípio e o fim haveria então um só mundo, todo comunicado, comunitário. Suas palmas, ocres. Na sua fronte uma criança passava correndo de quatro. Levantava areia e o rabo, e sumia. Horas ela andava a beirar a água, fazendo pequenos avalanches com a terra, depois tornava ao regular, iniciada em pensamentos que tendiam, que buscavam dar mãos. Já não era um automático, inconsciente existir pronto, que sem se refletir seguia. Irisado se fazia o seu céu com a Hora – e Tombuctu, Tombuctu ainda, assenhorada se ia esquecendo e lembrando de histórias. “Agora chove no Sertão!” era uma notícia que bradava no seu acervo partilhado pelo Real. Além, a grande lama da displicência deles... E já caminhava com ela a sua sombra, que balançava e tornava a rectificar, como bambu, como bandeira, o gole do deserto sussurrava-lhe:

 

Aqui na mente, irmã
Jade cinzento.
A sombra da bandeira é todas as bandeiras do mundo.
Eu não te enganaria.


O seu nome rectificado, Realmente? Sobrenome que lhe faltava que era só extensão da família do mundo da vida dela. Estava sendo revestido o poço; era tanto lodo que não se podia compreender que espécie traumática o havia instalado. Nuvens caminhavam pareciam que tinham pressa para o entardecer logo. Dor nos dois mamilos ao mesmo tempo: leite do mundo. É mulher o que é. Eles se mentem, elas e eles barbarizam, algumas outras lutam e são assassinadas. Como os nativos. Como a sabedoria anciã, boa e má, vil e vã – mas o simples, o justamente essencial e o essencialmente justo, diz o bicho, diz a lei da selva, diz o amigo, diz, muito, a amiga... Nas cartas perguntava-lhe acerca das fotografias. Era isso, estava à vista. Dor nos dois pés: mãe do mundo. Muita informação vinha como vexame mas à turva visão na luz jade cinzenta dessa altura do dia a coisa se aquietava, cessava o falatório memorioso agora, amansava o polvo no cérebro: via.


A vegetação ali era de poucos arbustos secos, algumas árvores vívidas, na terra vermelha onde acontecia o encontro. O que tinha vindo acompanhando surpreendeu em estar, no encontro, quase seco, em meio fluxo preso. Devia encontrar por baixo; por lá passava. Mas na superfície quase que não encontrava. Depois, no grandioso, um estreito caminho de terra vermelha seguia ainda por sobre ele por alguns sete metros, um deque natural. Não havia ninguém ao alcance dos olhos. Chamava-lhe a atenção o grito de algum pássaro que não reconhecia e que também não se mostrava. Tombuctu Real passando os dedos pela pele quente dos seios dela. Um coração verde no habitat. Eco polis. Eco politisation pour le. Le monde... Entre os prédios gigantes com palavras e imagens... Vinte quilômetros e do outro lado do Grande Rio por atravessar, fata morgana, Baobab... – Até a ponta da terra vermelha, au Niger.


Caiu de ver. Mas ninguém para ver. Estava entregue. Junto cânhamo, panos ralos, madeira e bronze. Centifrancos reais afundando, a areia venta por cima.
– Andiyazi. Ndilahlekile.
E cliques.
E, regente não proclamada mas colectivamente aceite, uma Cabra de pé no centro da Aco. Irreverente, na sua perspectiva a ordem do lugar está bem. Sua dupla de retângulos oculares aprova a risada deslizada, de um gemido sábio nascida, duma mulher à mesa sozinha quando o empregado se distrai e transborda o chá em servi-la. Que em risada ele replica, e que igual o faz detrás do balcão o velho Membe, vice-não-regente da casa. Além, areia em todo lado. Que eles façam melhor trabalho na próxima.
E cliques.
Ossudas maçãs do rosto negro Tombuctu são perpétuas.
Ossos desenterrados, na corrente, no crepúsculo dentro da Grande Água, Mortes velhas e continuadas, e também vivas vidas.
Ossudas maçãs – de um rosto Real para outros.
Numa altura estranha do Katsura debatendo-se entre as pedras, depois de fugir pelas pedras Com o sangue entre as pernas e na roupa branca ela ter dito:
– Eu não vou ter o seu filho! – e afogou-se.
Mas isto foi visto e passou rápido, entre as bolhas e a terra e o escuro.
Levantou a cabeça com mais cabelo e era dia no São Francisco, um dia
Simplesmente belíssimo. À uma distância de um quilômetro um barquinho de madeira, azul, aguardava-a da pausa na pesca. Cultivava certa ansiedade porque naqueles dias estava sendo muito tão difícil uma pesca que rendesse e suas crias em casa sem um pai, que se tinha vazado.
– Quando Marilene sugeriu de a gente se juntar à Antônia e à Maria José pra escrever uma carta aberta ao prefeito e pôr no jornal, reivindicando, pelas terras, olha mas eu era devia tê-la encorajado, ter-nos... Onde é que foi parar Marilene que eu não mais dela ouvi?
Voltou, horas na Égua, para casa com um pouco de dinheiro e um pouco de comida. Fez-lhes comida, comeram, passou o fim da tarde balançando na rede com seu o menino e a sua menina, viram a multimatiz sobre o Sertão cair. Acordou pelo leve raiar da manhã na rede ainda mas em sozinha, sozinha com o que tinha sonhado ainda pairando: “Vida longa à Prefeita Silvia Real!” e ela se avermelhava de ter seu nome assim alardeado na televisão, seu rosto ali que não precisava, mas, se tinha feito por onde, com o apoio delas, então aceitava aquilo de bem.


Ora uma grande Ema tem paz para alimentar-se de um lagarto na caatinga nordestina.
Ora a savana esfria.
No transporte público, ladeando o Paraíba do Sul na estrada entre as cidades grandes, ela escrevia para o companheiro não na segunda pessoa, escrevia como quem lhe contasse uma história triste que não o incluísse, contava-lhe: Primeiro eu abandonei o meu companheiro por egoísmo e medo. Depois conseguimos reunir e então ele abandonou-me por egoísmo e medo. Agora estou de luto e não consigo mais trabalhar direito. O desejo por este amor compartilhado que está bloqueado me põe as patas presas num pântano horrível, como um pato ingênuo, e os sapos riem de mim porque sabem estar sobrepauís. Ou fujo, finjo-me, “decidi dormir sozinha para o resto da minha vida”.
Hora da sublimação do trigo na cinza poente que não foi visto porque a cabeça estava baixa:
No quarto ao lado chora a Cássia. Gritou e bateu em alguma coisa.
No outro dia, tantos, chorei eu; e recusei a vida.
Érica disse: Gabrielle. Qual o valor que tem um não-nome?
É por vezes mais Real que o nome nome: segundo nascimento. Eco Renascimento.
Aqua fata morgana acompanhava a jornada dela pelo deserto do fundo delas.
Atravessar a grande água é todavia atravessar a grande água.
Psicolodo emocional na vida alienando ética e luta e depois tê-lo secado ao neutro alienou o saber Sentido: o fazer contínuo é cego, sem...
Trata-se da Mãe de deus. Trata-se de salvar, sem glórias e heroísmos,
Desambiciosa determinação exacta, – O Mundo.
Tombuctantra uma Isabel, uma Neuza, uma Madalena residente num veleiro no Tejo.
Tomei de volta o que já me pertencia, essa terra é minha dela.
Ngubani igama lakho?
Na selva, no jardim, na praça é o meu nome.
Centifrancos reais nadam e os patos levam as cartas entre seus bicos belos: precisa deles.
O Sino é Este, a Hora Vira, o Azul é Recordado.
Mary Lengees, fronte-à-fronte com o Rinoceronte, com o Elefante, cuida deles.
Conquista-se sem guerra e é-se sem esforço; – se se quer, é pelo outro.
No justo quadrado de barro:
Eu vim para aqui foi para evitar alienar-me do Mundo.
Eu vim para aqui foi alienei-me mudo.
A jardineira disse: Alien de Si.
Vi: Eu Sou O Mundo – assim como as Verdes Formigas.


Quatro, cinco besouros reunem-se sobre um tabuleiro de xadrês meio-enterrado na areia num pátio público em Tombuctu. Mil gatos regem a arquitetura das mesquitas como macacos em galhos.


Do fundo do rio, mexida e inaugurada pela corrente
Que beneficia todas as coisas sem competir com nada
Provérbio uma advertência em forma de conta-gotas
Compreender mutuamente para ver se conseguimos
Com elegância e decência.


Sandálias de cânhamo bem amarradas ainda e a una botina de bronze nas mãos juntas Tombuctu mulher abrigo da semente moto-contínuo partiu enquanto mantinha-se no ver. Branco. Creme. Espuma. Jade cinzento. Percorreu aquilo como um Caracal trilhando por entre as rachaduras da Pangeia e chegou à casa. Eram quatro; negro-azul-profundo. Tirou-se do manto úmido e nua acendeu a vela. Encontrou facilmente as cartas e contemplou a marca circular vermelha carimbada: contemplou o nome quieta, de cócoras. Era mesmo enviado de nenhum lugar, o que significava que era todos. Igualmente não era uma só na firma. Na fluida. Esta micro do macro empresa regida pela não-doutrina de uma forte rainha igualitariamente dividida. Estava vendo.


16°46'14.9"N 3°00'28.9"W
Tombuctu, Mali
08/03/2019

 

À Ega Real,

 

   (…)

 

E d'agora todos os dias o dia a minha letra activa em correspondência continuada.
                                                                    
Amor,

Tombuctu.

 

I


O Gato-que-convida tauxiado em  plástico soa cliques no abanar da pata esquerda. Penso se esta repetição ininterrupta poderia equivaler a um certo bosquímane que estivesse obcecado com uma palavra Ou a constância de um caminho.


II


Gosto demasiado da luz laranja que mora neste meu quarto à noite.
Mona, de Varda, morre na vala.
O improviso no trompete acaba de repente.
A tela acende, dilata na minha vista e um gato Maneki Neko na fotografia no Wikipedia enquanto O outro soa sobre este meu guarda-roupa.
Estas minhas coisas – de aqui.
Quando estava ainda entre telhas e camas de outros
Só o que carregava comigo, fora as duas malas, Era a escrita, o papagaio, a pedra, e as máquinas.
Penteio com dois dedos tranquilos a sobrancelha. Só sou livre quando entre o não querer nada e o querer Algo – Querer é sempre demasiado.
O gostar, laranja, não me sufoca.
Fez- me escrever agora.

 

III


Então voltarei ao serviço de mesas? Minha palavra já parece menos insuportável – menos importante.
Todavia o farei pelo dinheiro.
E pelo movimento; contra a letargia.
O ócio do escolástico é besta.
O sagrado ofício é entre todas as mesas.
Só se é livre quando se pode operar com variável firmeza entre Gravidade e Graça em cada momento. Os dois convivem bem num corpo e mente que convive bem e mal juntos.

 

IV


Não importa a numeração.
Quando eu limpar o vidro dessas janelas; Nem discurso indireto – Discurso, apenas; Se concentre em respirar e o resto será brinde.
É quase primavera.
Eu não morri. Continuo a saudar todo mundo sem importância alguma.

 

V


         Aqui no aposento, irmã
         Laranja-telha.

 

 

Gabre Valle publica o Cinoverbo com a Douda Correria esta Primavera.

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2019


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'Frevo', Cândido Portinari, 1956


Paginação:

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