ANO 5 Edição 78 - Março 2019 INÍCIO contactos

Joel Henriques


Candelárias    

Sempre desejei inventar um profeta e se estou a fazê-lo ao menos que tente aproximá-lo do verdadeiro e não seja aquele que virá no fim dos tempos para enganar os homens. Este falará como a pessoa mais séria, mais inocente, e só por isso me lanço na recolha de alguns fragmentos. Pequenos discursos que ele fazia ou episódios contados pelos simples, que falam sem grau académico mas da raiz da ancestralidade.

 

*


         Deixou poucos textos da sua lavra. O primeiro é uma resposta a alguém que lhe exigia ser uma espécie de teólogo; que desenhasse o edifício da sociedade, à luz do corpo de um deus coberto de cinza. O segundo, uma frase escrita por desespero, enquanto pensava na maneira de recusar certas honrarias. O seguinte, um protesto, contra a multidão que o tentava demover. As suas palavras ora pareciam ser uma rendição à ordem da vida ora ele a esgueirar-se de uma seriedade que o aterrorizava.

 

         «Se apenas serve a cidade construir edifícios, não faltam por aí arrojados construtores. Queriam uma ermida com azulejos iguais aos de um qualquer estádio ou demolir o palácio para construir outro em vidro com decoração a arte conceptual… Não só não derrubo edifícios como não me atrevo a questionar algo que faça sentido para alguém. Pouco sei de alvenaria, apenas do que qualquer pessoa pode fazer: abrir as janelas, para entrar um pouco de luz ou a brisa amena. É importante, porque sem isso a casa cria humidade, bolor e até doenças graves. No entanto, quem destrói o património para levantar um mamarracho pode conseguir sucesso na vida e o mundo não tolera o mais subtil desvio da cortina».

 

         «O que me dá autoridade para falar? Não retirar proveito das palavras e não as utilizar para ter influência sobre os outros».

 

         «Sou do povo, é claro, e isso vê-se pelos privilégios. Conheço-o bem. É tão sagrado como terrível. Embora pouco instruído, recorre a todos os saberes e manhas e desvaloriza quem fala da sua alma. É sagrado, porque permanece na sua natureza e outros mais educados falam ao lado. Porém, são muitos os defeitos. Está sempre a acusar os políticos e outros, e embora dizê-lo seja uma blasfémia por vezes parece o pior. Não respeita o querer e o desejo. Aceita com a maior naturalidade alguém mentir, por exemplo, para ter um trabalho, porque a vida é difícil e só a desdenha um louco. E tanto é pródigo em má-língua como em branqueamento de certos capitais. Há algo de paradoxal no povo, porque ele, aparentemente, não existe. Ninguém o quer ser e todos têm vergonha de parecê-lo, até os mais desfavorecidos. Ou se é superior ao povo ou inferior a ele. E quem lhe pertence realmente é quem menos lhe pode pertencer».

 

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         Se lhe prestavam demasiada atenção, como quem o quer repreender, o Grande Profeta corrigia-os: «Há muitas pessoas e qualquer uma delas tem conteúdo».

 

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         Havia uma atriz na cidade que se apaixonava sempre pelo par com o qual contracenava. Por isso, viveu um romance com um sertanejo, um violoncelista e até se enamorou de um grande escritor de outro século. Não era por confundir o real com a imaginação, mas por não ser capaz de fingir o amor e precisar de vivê-lo para ser convincente.

 

         O profeta terá visto nela esta enorme qualidade, e ela também o considerava muito espontâneo. Era transparente de outra forma, mais despojada. A sua nudez pedia manto de burel, camisola de lã, para tomar as cores da imaginação. Então, ela começou a representar de forma diferente, de modo a vestir aquele seu amor, com o desamparo do firmamento.

 

         Contracenava com os atores mais belos sem os desejar. Eles serviam só para ela cobrir o profeta e protegê-lo do calor, do frio e dos olhares que não lhe respeitavam o pudor.

 

         E, depois de o vestir das mais diversas formas, encontraram-se um em frente do outro, ainda nus, e amaram-se.

 

         Por esses dias, ele era um homem feliz. Ainda mais por convencer outros de que na realidade não tinha visto senão a ninfa Dinopeia.

 

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         Como as suas palavras não soavam no vazio qual tuba canora mas de outra forma, mais silenciosa, ele próprio pensou que inventara uma linguagem que era entendida pelos animais da terra, as aves do céu e os peixes do mar; até pelo vento, o sol e as estações. Se chorava fazia-o com tal ardor que o sol brilhava e afastava as nuvens. Se por qualquer motivo sentia-se só, o seu próprio grito lhe povoava as horas de rebanhos e bandos de flamingos. Se ele pedia o verão, Júpiter comovia-se e fazia desabar a tempestade sobre as colheitas.

 

         Toda a natureza parecia participar da alma de tal homem e ritmava o seu heroísmo, o seu medo, os poemas, o seu dia a dia. Mal se espalhou o rumor foi proibido de falar e sofria muito com o decreto. Todavia, logo depois tudo voltou a ser como era.

 

         Então, por obra do acaso, conheceu a paixão da sua vida, a atriz que não era capaz de fingir o amor. Compreendeu que as suas palavras eram entendidas por todos e os animais, as árvores e os elementos compreendiam-no melhor de corpo aceso. Já podia cantar com ardor no inverno, que chovia. Ou sentir-se melancólico em agosto, as nuvens não cobriam o céu antes do outono.

 

         Na cidade onde vivia, todos lhe pediam para cantar, mas o que o tornava mais feliz não era tal reconhecimento. Era poder fazê-lo e ser igual a qualquer pássaro que escutava da janela.

 

         Muito antes de morrer, já ninguém lhe perscrutava as iluminações. Porém, o certo é que pouco depois todos gostavam de ouvir as aves.

 

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         «A morte é um destino que se partilha com quem se ama, seja ele qual for», quem sabe se não era a grande verdade deste «Mestre». Todo o medo é medo do medo. Toda a coragem, desmascará-lo. O que receava não era a espada, mas ela revelar a sua fragilidade. Não era o rugido do leão, mas o silêncio. Interessava o que vinha depois, mas tanto a vida como a morte iam longe nesta vida.

 

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         Há coisas que são um pouco do que são e tentam ser um pouco de outras coisas. O seu desejo tinha sempre a mesma cor, mas era tudo o que ele podia alcançar; não era um limite. O seu corpo não era a última palavra sobre si, mas o silêncio a partir do qual não há limite. Deus serviria para concluir deste modo a sua vida, não para ele construir as suas próprias cúpulas.

 

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         «Já escreveste tanto», dizia-me com olhar de misericórdia. E eu sei que não era por mim, mas porque ele via a verdade mais fundo do que estas palavras e ninguém olha o sol de frente.

 

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         Era inocente como a turba que pelo verão colhe maçãs, muito longe de serem o fruto proibido. Se um deus já tinha vindo à terra, ímpio o profeta que revelasse muitos segredos. Todavia, ele próprio perguntava-se: se não era grande em qualquer fé e não adivinhava o futuro, como poderia sê-lo? Não sei se ele tinha sequer agenda, e estou muito longe de o saber, mas de facto o verdadeiro teria pouco a anunciar.

 

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         Era o dia em que o profeta seria chamado para servir o templo, do mais alto púlpito. As pessoas esperavam com ansiedade o momento e, quando chegou, soou a sua voz. De repente os rostos ficaram pálidos, as órbitas em revolta. Era «não».

 

         E para o espanto ainda ser maior, argumentava com o episódio mais cruel dos livros sagrados: aquele em que Abraão foi sacrificar o filho Isaac à montanha. Dizia ele que era o melhor exemplo de que se deve obedecer à voz da profundidade, por mais que ela nos revolte.

 

         Onde outros viam dureza, ele via respeito pelas emoções. Onde outros entendiam desobediência, ele, um leal sofrimento, muitos antes de o hebreu levantar a espada sobre o cordeiro.

 

*

 

         Então alguém repleto de revolta vociferou a abanar a cabeça: «Saramago, Saramago, que só confundiste maldade com doçura. Maria Teresa Horta, Maria Teresa Horta, que acusaste de submissão a verdadeira rebeldia».

 

         Mas o Profeta, muito sereno, começou a dizer: «Abençoado Saramago que te soubeste indignar com injustiças que só deus soube discernir. Abençoada Maria Teresa Horta que louvaste a coragem na inconveniência, quando outros calaram a Vida».

 

         Claro que muitos tomaram tais palavras como provocação, o que lhe granjeou ódios. A situação ainda piorou, porque o Profeta abordava qualquer pessoa na rua como quem adverte a humanidade para um grande perigo: «Conheces o Lavrenti Béria? Um dia vais conhecer».

 

         Poucos dias depois, a caminho de casa, deparou-se-lhe um canídeo corpulento, de aspeto muito feroz, que rosnava assustadoramente só de respirar. O dono era o Caos que lhe segurava a trela e dizia: «Este é o Migalhas».

 

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         «O povo espera e deseja com virtude ardente a vinda do seu profeta negro», lamentava-se ele, com o desespero no rosto.

 

*

 

         Porém, todos o abordavam com perguntas. Exigiam-lhe visões para além da sua verdadeira condição. Ele, que só tinha a verdade para agradar ao Alto. E protestava: «Se não morro do diabo, morro de deus». Acusavam-no de loucura, mas ele não só a reconhecia como os lembrava dos Anjos.

 

*

 

         De tal modo atormentavam o Grande Profeta, que ele já dizia também, com o respeito de gracejar e de não parecer demasiado sério: «Livrai-me do fogo do inferno e levai as almas para o céu», que já não as consigo ouvir a gritar.

 

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         Depois de um atentado contra a sua vida, já não sonhava em ser herói, só ele mesmo. Depois de ter sentido os olhos a arder, já não queria desvendar os mistérios. Então, agradecia: «Abençoados, os que me deram outra modéstia; só vale a pena fazer algo maior do que nós para sermos iguais a nós mesmos».

 

         Pela rua, via a multidão de olhos marejados e ele, o que mais chorara outrora, era o único de olhar sereno.

 

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         Há muito que não chovia no país do Profeta. Desde a juventude que não gostava do tempo de inverno, mas lembrava-se ainda da alegria da água a correr pelas valetas de forma abundante, na infância.

 

         Acontece que no exato momento em que concluíra as suas revelações, do céu caíram as bátegas com força. Ele procurava olhar para a rua a ver se havia muitas nuvens, com receio de perder a paz. Porém de noite, lembrou-se do seu povo e, logo que algo lho ordenou, com valentia começou a rezar. Escutava a precipitação, mas continuava só para não o sobressaltarem outros pensamentos.

 

         Choveu até de manhã, logo depois pela tarde, um dia e outro dia, até perfazer mais de um mês. Há muito que não havia semelhante primavera. Mal se acercava de qualquer lugar, vinham nuvens sobre o céu onde pouco antes o sol brilhava, e ele caminhava sob a água e o ribombar dos trovões.

 

*

 

         Por esta altura perdera o medo. Com o bem que sentia, que mal lhe poderia suceder? Porém, magoara muitos com aqueles sinais. O pior era o Mário Gadanha. Recebera este apelido do seu pai, depois de cortar ervas daninhas, roseiras e até duas nespereiras do quintal da sua moradia, ainda na saudosa idade de ouro, ao limpar o canteiro. Já o nome de guerra herdara-o da sua avó, que depois de saber de tão graves acontecimentos proferira em tom de censura:
         – Este Alarico…

 

         Agora envergava-o com orgulho, porque soava quase terno na voz dos seus companheiros de jornada e, além do mais, honrava o Reino visigótico.

 

         Sem qualquer motivo, Alarico tentou preparar-lhe outra cilada, no intervalo de almoço. Só que entre uma manhã de sol e uma tarde de primavera caiu um dilúvio colossal, de que nem havia alembrança.

 

         Por esta razão e por ter abraçado um deles que já o salvara de pior, o Renegado nem saía de casa e as hordas entoavam-lhe cânticos de glória.

 

*

 

         Do outro lado, já se agitavam bandeiras brancas em sinal de rendição. Ele sabia que era do mesmo chão que via a árvore mais perto ou mais longe o firmamento. Outro julgaria: se não era senhor era escravo, se não era menino era Rei.

 

         Por esses dias, veio um Pastor da Turíngia investigar o milagre. Poucas semanas depois, extasiado na visão de casas singelas, flores silvestres e do próprio Migalhas que, para bem da humanidade, não passava de um cãozinho, disfarçava o riso com amável condescendência:
         – Que país tão engraçado, onde tudo é pequenino…

 

         Agora, o «visionário» diria «sim», mas já todos teriam entendido: não vislumbrara mais do que o desespero ou, na melhor das hipóteses, o mapa de qualquer ilha obscura, repleto de nomes cavernosos, mas que se revela com a transparência do mar, a claridade do sol e a leveza do voo das aves, no céu depois do temporal.

 

*

 

         Contaria estas e outras histórias sobre este ser tão singular, que não é mais do que alguém com quem eu já muito sonhei e está longe de adivinhar a fulgurância para lá do horizonte.

 

           

O único propósito é que as pessoas, ao lerem este livro, não se deixem levar pelo profeta falso. Não venha no final dos tempos o «Redentor» e todos se apercebam que ninguém reparou no verdadeiro, decerto com muito menos a dizer…

 

Joel Henriques:   Nasceu em 1979, mas com este nome só em 2007, data da estreia com O Fio da Voz. Tentou sobreviver por meio de A Claridade (2008) e publicou Terra prometida em 2010. No entanto teve de deixar a capital em 2012, mudando-se para Coimbra.
É licenciado em Estudos Portugueses, pós-graduado em Ciências Documentais e operador de máquinas.
Vive nas Caldas da Rainha desde 2016. Encontrou morada, em Matilde.

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Paginação:

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