ANO 5 Edição 78 - Março 2019 INÍCIO contactos

Jorge Castro Guedes


Testemunhos na primeira pessoa: auto-retrato de um menino na moda    

Aqui procurarei deixar alguns testemunhos, cuja forma pessoal é um estilo e também verificação da substância encerrada neles, a única coisa que interessa verdadeiramente. Nem tanto para um hoje insensível a eles, mas para memória futura, caso a Humanidade ultrapasse a curva da auto-destruição.

 

EPISÓDIO 7: AUTO-RETRATO DE UM MENINO NA MODA

 

Imagino a perplexidade de quem lê habitualmente estes testemunhos ao reparar na alteração da fotografia. [Um pequeno parêntesis para esclarecer que estas fotografias são da fotógrafa Fernanda Carvalho, que não sei hoje onde anda, e pertencem a uma série que ela decidiu fazer com pessoas amigas e conhecidas. O seu a seu dono]. Mas trata-se de uma excepcionalidade. Vou falar ‘contra’ mim! No próximo testemunho, o cano da arma deixa de estar apontado à minha própria cabeça.


Eu fui um menino na moda no teatro português, mormente na década de 80 do século passado. Com tudo o que isso significa de bom, com tudo o que isso gera de mau. Ou com tudo o que as circunstâncias, por vezes fortuitas, fazem. Isto começou quando, unanimemente, a Crítica (havia críticos em 9 publicações e 6 eram diários, todos nacionais), resolve atribuir um “Prémio Especial pela Renovação de Um Clássico” a um espectáculo com encenação minha e dramatologia feita com o Deniz-Jacinto (notável conhecedor de Gil Vicente) chamado “Inês Pereira” (e que aqui já veio à baila por permanecer como aquele que, de teatro não-musical, mantém o maior número de espectadores no Porto: 20.063). Na verdade já havia alguns antecedentes. Alguém chamara a Viana do Castelo, a propósito do TEAR e do que ele fez ‘explodir’ cultural e artisticamente na cidade, “a capital da Cultura do Norte”. E até se pode dizer que o antecedera uma outra encenação que eu fizera de “O Barbeiro de Sevilha” de Beaumarchais que fracturara mesmo a meio essa Crítica, levando aos extremos entre Carlos Porto contra e Jorge Listopad a favor. O primeiro dissera “Na verdade trata-se de uma autêntica parvoíce” e o segundo “Temos de saudar o novo Meyerhold ou Vakthangov do teatro português”!


Mais tarde, quando essa ascensão de um jovenzinho que fizera esse Beaumarchais com 25 anos, se consolidou com um outro espectáculo que arrebatou 5 prémios da Associação Portuguesa de Críticos para o Porto (já o TEAR era companhia residente no Carlos Alberto) e ‘entra’ em Lisboa aos 29 para encenar, a convite, para o Teatro Nacional Dona Maria II, quando havia Companhia e nunca ninguém fora antes convidado tão jovem, já era mesmo menino na moda. Porque tenha eu os méritos, que não vou fazer de conta que me não atribuo, e tenha os deméritos de que não tenha consciência mais os que a idade me deu a possibilidade de os reconhecer, estar na moda é sempre uma circunstância. Ao caso, penso que foi determinante, o facto de prosseguir numa senda estética que continha largos contactos com as ideias de Meyerhold (sobretudo o de maturidade, mas isso ninguém o percebeu, salvo Listopad quando acrescenta Vakthangov). E mais ninguém até então se aproximara sequer ao de leve da escola meyerholdiana, sendo que muitos nem da existência dela sabiam. Brecht, Grotowski, Artaud, mesmo Brook e ainda Stanislavski eram os azimutes de muitos. De Meyerhold, por essa altura, só então se ouviu falar. Mas também porque – como consequência e retornando como causa – desato a ir em espaços de menos de um ano encenar, por convite, a Lisboa, incluindo a abertura do Serviço Acart do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, o Novo Grupo, a Casa da Comédia do La Féria primordial (pré-musicais). E no Porto recebo convites a cair de todo o lado, incluindo o de um projecto que nós (TEAR) negámos, mas hoje posso quebrar o sigilo pedido e confessar ser verdade: a nossa ida para o Carlos Alberto tinha mesmo tudo a ver com o lançamento da semente que era para dar (não foi assim que aconteceu, mas a intenção era essa) um Teatro Nacional no Porto.


Ora bem… Se até aqui parece que permaneço em auto-elogios é só para pedir benevolência nas outras confissões nada abonatórias que de mim mesmo faço. Alguém que decide aos 15 anos ser profissional de teatro, aos 23 é director de companhia e lhe cai em cima tudo o resto, julgo que é atenuante para os seus próprios exageros. Que também, apesar de não constituir desculpa, em muito resulta do inebriamento da agressividade (tão bem explicada em Dostoiewski) e petulância que usou como ‘arma’ para se defender e defender o projecto do TEAR. Porque a prolonguei depois para a minha própria personalidade que, até aí era bem diferente na sua manifestação comportamental é que já é lamentável. Tão diferente que a frontalidade (muitas vezes excessiva por desnecessária e ofensiva, outras usada como estratégia sem deixar de ser frontalidade) reconhecida veio substituir, por necessidade e não por mérito de esforço para melhorar humanamente, aquilo que até seria algo de muito próximo da pusilanimidade, tal era o pavor que tinha de ter de me confrontar com outros, calando-me. Eu até era (e mantenho traços ainda) um miúdo tímido e envergonhado, que se enrolava numa toalha na praia para esconder as pernas, de camisola para esconder o tronco e com a pieguice de usar peúgas (!!!) porque, também ultra-sensível, a areia me incomodava (e incomoda) em contacto com os pés.


E foi assim que nesses anos 80 me torno realmente arrogante, um pouco megalómano (defeito hiperbolizado ao cubo pelos meus detractores, aproveitando esse fundo de verdade, mas também porque confundiam rigor e grandeza produtiva com megalomania), irritante mesmo na constante provocação, cruel ao humilhar com uma metralhadora de conhecimentos  os que se me opunham, muitíssimo ambicioso (muito para lá do que estava à vista), vezes inúmeras com traços autoritários, vaidoso para lá de o mostrar (se isto faz sentido), frio na execução de acções quando permitia que a afectividade fosse completamente ignorada se havia uma causa a defender… Enfim, chega?


Tinha uma enorme necessidade de afirmação ou afirmações, melhor dito (porque uma objectiva para atingir fins, outra subjectiva, a raiar o narcisismo), a ponto de num colóquio ter tido o desplante de, com um ar de soberba, afirmar o mais rematado disparate dizendo que eu era o melhor encenador de Portugal. O que é em si um egocentrismo tonto. Facto que até remetera para o inconsciente na maturidade e me foi recordado em tons de elogio (!) por alguém a quem pedi que nem o repetisse por aí, que tinha vergonha. Mas disse. Como disse muitas outras barbaridades, mesmo em situações em que podendo haver até muito valor, logo se desvalorizam por as superlativizar eu mesmo enquanto menino na moda. Facto que me trouxe mais invejas e ódios de estimação, o que, por sua vez, era combustível para ter caprichos!


Ao dizer estas coisas aqui não é uma mera demonstração de sentido autocrítico, nem um truque para me ser consentida a violência de outros testemunhos em que outros atinjo. É a necessidade, isso sim, de deixar claro que os meus testemunhos não são fel, nem vinganças. São uma forma de deixar memórias que, se em si parecem gratuitas, encerram o substracto de coisas muito sérias, de que talvez um dia exponha como e porquê. Mas com a noção dos meus próprios exageros, com que hoje brinco num processo de desconstrução com o rabo de fora quando digo aos actores que podem dizer que sou um génio, que eu não oiço! E sei que em meu redor muitos houve que me incensaram só porque eu era menino na moda.


Apesar dos berros como um cabrito em ensaios, não me pesa na consciência o facto. Nunca tive intenção de humilhar ninguém, nem tão pouco perfilhava a prototese (que para alguns ainda subsiste) de que ao encenador cabe provocar estados de tensão para obter resultados! Uma pura inutilidade e uma demonstração de insegurança, até porque quem humilha é porque muitas vezes foi antes humilhado, tornando-se, assim, quando deliberado, sobretudo patético. De há uns bons 20 anos para cá devem contar-se pelos dedos das mãos as vezes em que me saiu um grito. Naquela altura era o contrário: num só ensaio não chegariam os dedos das mãos para contar os gritos que dera. Ora, apesar de ter a consciência limpa em termos das intenções, hei-de objectivamente ter magoado mesmo pessoas que se possam ter sentido diminuídas e, isso sem dúvidas, inibido as suas reais capacidades, porque hoje sei que a autoridade de um director (seja em que área for) advém da capacidade de estar com os outros não sobre os outros, de os fazer potenciar o próprio mérito e não impor-lhes o que julga dever ser o caminho, ser flexível e obter a autoridade pela competência e nunca pelo medo.


Sei disso tudo e aqui me exponho, sabendo que não me tenho na conta de superior a tudo e todos. As minhas imagens cáusticas e o criticismo compulsivo resultam da mesma exigência a que me imponho e da insatisfação em que vivo. Tormenta para mim e, muitas vezes, com consequências de desgaste para os demais que comigo trabalhem, em Arte. Mas nem por isso fujo à tendência de me colocar a olhar de cima para baixo. Porque como na célebre anedota de dois amigos que ainda faziam xixi na cama em adultos e resolveram ir, um a um psicanalista e o outro a um psiquiatra, eu serei o que foi ao psicanalista, por acaso até fiz mesmo intervenção psicanalítica, mas não é disso que se trata, é da anedota. Anedota onde os dois se encontram tempos depois e confrontam as experiências, respondendo o que foi ao psicanalista sobre se deixara de fazer xixi na cama: “Não, continuo a fazer, mas sei porque faço”. E eu serei, de facto, ainda, figurativamente este, ainda que o xixi seja em menor quantidade. Mas mesmo assim prefiro sê-lo porque não caio na precipitação deste que ao ouvir o que foi ao psiquiatra dizer que já não fazia na cama, logo se entusiasmou precocemente com a psiquiatria e só depois ouviu-o concluir “Agora só faço cocó”.


Apesar disso e de enquadrar muitos dos acontecimentos no seu contexto, sei que, por vezes, fui injusto por desmesura de reacções ou nas apreciações excessivas com o Roberto Merino, o Carlos Porto, o próprio José Cayolla e alguns outros mais, certamente. Assim como me sinto cúmplice e pecador por omissão de variadíssimas coisas enquanto co-director artístico no Teatro do Noroeste, não sendo já menino na moda, de todo. Como director artístico a solo não me lembro de nada que me leve a apontar o dedo contra mim mesmo, salvo o ter permitido aspectos laborais, não por mim determinados, mas a que me devia ter oposto mais do que o que fiz em algumas situações. Antes foi pior: muitas vezes devia ter dado dois murros na mesa, tomar partido e fazer a defesa de actores e técnicos bastante maltratados, quer em ensaios, quer no plano pessoal. Fui demasiado solidário com o meu par nesse aspecto e demasiado condescendente com actos e atitudes absolutamente deploráveis.

 

E passado este testemunho, obviamente que nos seguintes voltarei a desferir mais balas para a frente. Se outras há – e haverá – para disparar sobre mim, que o façam outros. Porque nesta fotografia, tal como na vida real de criador, não vou ser eu a premir o gatilho. Não o fiz sequer quando fui alvo dos mais incríveis ataques, quanto mais agora em que criei a ‘carapaça’ que o citado meu amigo Deniz-Jacinto tantas vezes me disse que tinha de criar para nem sofrer, nem andar a ter algumas reacções defensivas que, hoje, considero desproporcionadas.

 

 

Jorge Castro Guedes é encenador

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Paginação:

Nuno Baptista


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