ANO 5 Edição 78 - Março 2019 INÍCIO contactos

Jorge Elias Neto


O estalo da palavra    

Duo

Sou do tipo de poeta
que não tem cisma
de beijar o diabo na boca.

Sou poeta;
aprendi cedo
a mordiscar os lábios de Deus.

 

 

 

 

 

 

A realidade de cada um

 

Desconheço a ordenação dos anjos,
mas sei das cores nas fachadas das casas.

 

Na foto antiga, as casas já receberam
O insofismável tom trazido pela areia do tempo.
Naqueles olhos ausentes,
que cruzaram desapercebidos
a falsa eternização do momento,
surpreendo o olhar humano.

 

Desconheço a verdade dos santos,
mas tenho aprendido sobre a mutilação do desejo.

 

do livro “Verdes Versos” (Editora Flor&cultura – 2007)  

 

 

 

 

 

 

Régua quebrada

 

Não me importo
em numerar as penas do cisne.

 

Versejo com apetite.
Cato palavras de aluvião.
Sou sapo de língua comprida catando mosca.

 

Insisto na ingenuidade da metamorfose.
(só sei transformar sapato em borboleta)

 

do livro “Rascunhos do absurdo” (Editora Flor&cultura – 2010)

 

 

 

 

 

 

À prazo

 

Levem-me as horas
para os caprichos mundanos!

 

Já destaquei a etiqueta.

 

Tomei posse do indivíduo.

 

Será que não vêem
no meu ante-braço
o carimbo de “pago”?

 

do livro “Rascunhos do absurdo” (Editora Flor&cultura – 2010)

 

 

 

 

 

 

Balada da carne

 

Já que o dia é par: falemos de amor.

 

Já que à frente sempre restará o horizonte:
não me enterrarei além dos olhos.

 

Já que é no vazio insalubre da cura
que se percebe a alma evanescendo:
             tragam-me uma taça.

 

Já que eu disse sim:
limitem os convidados
presentes à minha  embriaguez.

 

Já que a palavra é uma puta:
                   rasguem o poema.

 

Já que a rima é farta e o poeta um estorvo:
que se recompense o primeiro idiota
             a me cortar a carne.

 

do livro “Rascunhos do absurdo” (Editora Flor&cultura – 2010)

 

 

 

 

 

 

OS OSSOS DA BALEIA

 

I

Minha terra
é uma ilusão da linguagem.

Tenho de meu
esse rastilho de palavras
que pressinto
                        atadas
aos calcanhares.
Se o desfaço, perde-se
o encantamento das vivências cerzidas.

Sei que as mãos ensaiam
           obscenidades
entre dois espelhos.
Quero mesmo criar algumas
      reentrâncias
na estrutura dos olhares.
Mas olhos extraviados não ardem
no lugar-comum em que me perco...

 

III

 

Dou conta de minhas cicatrizes;
e são bem humanas:
            com cheiro
de menstruação e defunto.

           Para os crentes,
desejo o reino dos Céus.
Para mim, a realidade.
Sou um desencontrado;
não me cabem subterfúgios.

 

X

 

Dormir é distrair-se do mundo
Jorge Luiz Borges

 

- Onde não estive
custa-me adivinhar trevas.
A imprecisão do escuro
não reveste os meus sonhos.
Sou um companheiro da morte.

 

XVI

 

Olhos extraviados não ardem
no lugar-comum em que me perco...

 

Falei da irrelevância
relativa da existência.

 

(As sombras, somadas,
ocuparam todo lugar no espelho.)

 

Custou-me entender
que não se deve revirar
prateleiras alheias,
desmantelar espaços,
desarranjar a ordem estabelecida para a vida.

 

Mas também,
                que besteira!...
Não se compartilha
o fundilho rasgado
                   para morder o rabo!

 

XVII

 

Para tudo existe um peso,
         uma medida
e uma visão distorcida.

 

XXVII

 

Vou sair na noite
e me travestir de amenidades.

 

Desenhar na névoa
elefantes com trombas sonoras,
zebras com listras de estrelas,
casais gozando
em seus fuscas falantes,
de faróis de neblina,
iludindo o passeio dos guaiamus.

 

Sentarei a meia-distância
              de lugar algum
e gritarei seu nome em vão.

 

E então amanhecerá,
e me despedirei da aurora.

 

do livro “Os ossos da baleia” (Prêmio SECULT 2013)

 

 

 

 

 

 

Sobre anjos e blasfêmias

 

Existe uma parte que se quebra.
E, sem ela,
receia-se
pelo fim do todo.
(Dizem-no: extinto.)
Reluzem desejos na convexidade
da grande esfera.
Por isso videntes
não a deixam tocar.
E a iluminam com a castidade
de seus olhos puros e atentos.
Deixam cair sobre ela
o que há de imaterial
nos anjos e estrelas.
(A ausência de peso
não trinca
— não lasca —,
não faz perecer a perfeição
do que se enseja.)
Só que um toque atrevido,
por delicado que seja,
faz desabar o enigma
(Chamam a isso: pecado.)

 

do livro “Glacial” (Ed. Patuá – 2014)

 

 

 

 

 

 

Um resto de sol no desalento

 

Ocupo-me de uma febre
sem propósito.
Modos existem
de forjar os dias,
principiar universos,
rir do descomunal
segredo da vida ...
Mas não nessa noite gelada
em que persisto centelha.
Eis a última pele ― a palavra ―
que se desgarra inapta
a prosseguir
afirmando
o esplendor da verdade.

 

do livro “Glacial” (Ed. Patuá – 2014)

 

 

 

 

 

 

Noturno

O impulso carrega
uma promessa dos pés

 
Andava
─ confortavelmente ─
no escuro
 ( sentia o calor
        das coisas mortas)

 

(Quem o pariu foi o vento nordeste
               assustado
               com o apito do navio)

 

Nas mãos
a lista dos homens tristes
e linhas tortas
─ desencontradas

 

A seu lado
uma inútil sombra
─ essa mundaneidade

 

Tinha a noite
e a paz das sarjetas abandonadas

 

O Mundo
acontecia dentro dos olhos

 

Deus   
era imagem ausente  
à margem da fábula

 

O corpo
  ─ acaso assombroso ─
rompia a escuridão
da Ilha morta.

 

do livro “Cabotagem” (Ed. Mondrongo – 2017)

 

 

 

 

 

 

Anacrônico

 

Meu, é este desperdício,
olhar que não se enquadra,
silêncio que espia na luz apagada,
o medo de não estar vazio
quando se acercar a luz do nada.

 

Meu, é este dizer do tempo,
discurso interrompido,
lampejo, lamento,
saber inútil
o saco e a porra.

 

Meu, não é o inicio,
mas o gargalo,
o rente, o arrebol sorvido,
este escuro ‒noite que ressente de frio,
a fresta que observa,
o liberto, o estio,
ornamento dos dentes,
pavor, pavio.

 

Meu, é o fim
justificando a queda,
o dedo ‒ semente das unhas,
o arvoredo brotando no interminável.

 

Meu, é o absurdo,
o privilégio das horas,
o beijo contado,
o assobio, o assombro,
o firmamento inútil.

 

Meu, é o desafio,
o preto e o branco
e este zelo
pelas coisas perdidas.

 

do livro “O ornitorrinco do pau oco” (Ed. Cousa – 2018)

 

 

 

 

 

 

A BOCA DO INEFÁVEL

 

Cobre-te melhor
        a seda rasgada,
contornando teu corpo,
nas fendas do meu desejo.
E esse cheiro das madrugadas
em que me masturbo
de tanta insônia.
Os momentos perdidos,
em um sonho mau,
tornam justo esse pesar
por amanhecer,
e ter que partir
nessa rotina que me afasta de ti,
obscena mulher de língua áspera,
imensa,
onde derramo
minhas noites de macho,
                  perdido.

 

do livro “O ornitorrinco do pau oco” (Ed. Cousa – 2018)

 

 

 

 

 

 

SAUDÁVEL

 

Humores, farrapos,
cachaça.
Rumores, gargalos,
cabaços.
Batuques, bagulhos,
               Carcaça.
E eu debruçado
                no ocaso.

 

do livro “O ornitorrinco do pau oco” (Ed. Cousa – 2018)

 

 

 

 

 

 

Le risque

 

Hommage à Charlie Hebdo cartunistes
Tradução: Francis Juif

 

Le risque était libre.
Il vivait sans Père,
sans Patrie.

Indéchiffrable,
il frétillait au moindre
indice de calligraphie.

Il ricochait sur les dalles,
se sortait à peine échaudé des querell
e set sans résidus de lettres.

Le risque ne le savait pas,
mais il était hédoniste.

Il se servait du camouflage
des incompris.

Rusé,
il créait ses fausses pistes.

Le risque était tantôt relâché,
tantôt tendu ;
ses intentions n'étaient pas claires.

Insaisissable,
il ne se laissait pás
marquer avec des mots.

Incorrigible,
il ne connaissait qu'une peur:
la discontinuité.

Il se créait dans le silence,
ne laissait pas de traces.

Il choisit la clandestinité

 

do livro “O ornitorrinco do pau oco” (Ed. Cousa – 2018)

 

 

Jorge Elias Neto (1964) é capixaba, médico “eletricista do coração” , pesquisador e poeta. Livros: Verdes versos (Vitória: Flor&Cultura, 2007), Rascunhos do absurdo (Vitória: Flor&Cultura, 2010), Os ossos da baleia (Vitória: Secult–ES, 2013), Glacial (São Paulo: Patuá, 2014), Breve dicionário (poético) do boxe (São Paulo: Patuá, 2015), Cabotagem (Ilhéus: Mondrongo, 2016), Breviário dos olhos (Vitória: Edição do autor, 2017) e O ornitorrinco do pau oco (Vitória: Cousa, 2018).

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2019


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Foto de capa:

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Paginação:

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