ANO 5 Edição 78 - Março 2019 INÍCIO contactos

Nayara Fernandes


Poemas    

[(12)]

 

vísceras dos versos
vultos dos verbos
carrego uma alma sólida
correndo num corpo
           [líquido]
infiel a caso concreto
infértil a semente fecunda
invertebrada à espinha da mente
sou a [inércia da] ilusão
fantasmagórica das ferragens.

 

 

 

 

 

 

 

[(5)]

 

de corpo de aço
de destino de pássaro
de coração de lata
mal nenhum me sofre
mal nenhum me sorve
me arrependo do não feito
me arremesso nos efeitos
[feito vinho ou vinagre me bebo]
consagro meus cálices sem sangrar meus
cortes
sangro meus pecados sangrando minhas
chagas.

 

 

 

 

 

 

[(25)]

 

todos [os dias] nós morremos
pelos nossos erros
todos [os dias] nós morremos
pelos nossos ermos
todos [os dias] nós morremos
das nossas penas
todos [os dias] nós morremos
das nossas perdas
todos [os dias] nós morremos
sem percebermos
morremos da morte suicidada
morremos da morte abandonada
morremos da morte apiedada
sem qualquer sensibilidade
de a morte nos matar
como ré-primária
todos [os dias] nós morremos
pelos nossos [punhos]
todos [os dias] nós morremos
pelos nossos apuros
todos [os dias] nós morremos
morremos de medo
morremos de menos
morremos amenos nas somas
das agonias cravadas no peito
em cada morte tudo daquilo
que em nós deu o último suspiro
ressuscita ao que éramos nos matando
ao mirarmos o espelho percebendo
: que ainda somos o que ontem fomos
amanhã sendo a revelia do hoje
até encontrarmos o fundo do poço da alma
– viver é morrer várias vezes em vida
vestindo o luto de cada momento
: sem saber [somos] vários eus numa vida.

 

 

 

 

 

 

[(19)]

 

a vida é um corte
que [sempre sangra
e não] nos mata
entre os punhos ocos os socos
os ócios os pulsos e os ossos
no tamborilar [dos silêncios]
onde o corpo se põe [e se opõe]
prenhe de avessos
prenhe de inércias
a vida é uma eterna morte
[doer, dói invariavelmente]
feito faca sem gume
o tempo mastiga a memória
o vazio a angústia
arrancando de mim todos
os pés os caules as raízes
amputado do próprio corpo
deixaram-me o coração na mão
à deriva o que me salva é a poesia.

 

 

 

 

 

 

[(18)]

 

lágrimas choram dores
dores escorrem feridas
feridas são arranhões leves
[cortes a sangue frio]
lágrimas choram mágoas
mágoas são cascas da angústia
angústia é a pele do medo
medo é o corpo da covardia
covardia é o interior da culpa
que nos mata pouco a pouco
[vivos]
lágrimas choram marcas
marcas sangram rosas
rosas nascem espinhos
espinhos são caminhos das glórias
marchando às feridas que nos salvam dos abismos
[entre a queda e o gemer de peito
no asfalto da vida].

 

 

 

 

 

 

[(16)]

 

se o coração bate
o que sinto espanca
não sinto muito
[sinto tanto]
quanto o horizonte
sente liberdade
que pássaros me recitam
cantam fora o que há [dentro]
encurvado no peito
quieto no silêncio
espreitado em qualquer
suavidade [intrínseca]
concreta doçura amarga densa
e onde cantam os pássaros
amanhecem em mim raios di’versos
recitando minha alma
conta o passaredo
leveza roubada do vento
: eu
tenho asas de pedra.

 

Todos estes poemas fazem parte do livro “Asas de pedra”, Selo Edith 2017.


 

 

 

 

 

O peso e a forma

 

regada à bruta linguagem
sobre um tenso mormaço
a manhã se refez no grito


belo áspero e intratável
[talvez um pouco menos
exato] no impulso do silêncio


ancorada às lagrimas nulas
de um céu semárido quase
como um pulmão asfixiado
pela ausência da sensibilidade


à deriva sobrevivem as perguntas
nos mares dos nadas [se é verdade
que nos habituamos à dor –, como


é que –, com o andar dos anos sofre
mos cada vez mais? onde se ergue
um sossego onde se confia no rasto
das lágrimas e se aprende a viver


fértil útero [de sol e sombra
e angústia] a vida é aquilo se toca
entre o peso e a forma das vertigens.

 

 

 

 

 

 

Coração inaudito


é nítido o breu
ácido das horas
cravadas nas silhuetas
de um coração inaudito
adormecido num passado


inédito dos vultos dos amores
vulgares vulneráveis e incastos
desnudos do milagre de ser-se
a língua na pele – o pelo nos [atiçados] poros
desejos amalgamados nas indefinições


dos corpos das almas e dos planos
taciturnos de um viver dissonante
quase descrente neste escuro cavo
de repente, nos percebemos perdidos
ou perdendo [dentro] parte de alguma coisa
morna e ingênua diluída pelo caminho
hoje sangrou menos, lembro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Coagulado diálogo

sob ossudos silêncios
uma espécie de ânsia
óssea germina o verbo
a semente e o mistério
dentro [de mim] vão nascendo
palavras confusas num idioma oblíquo


imaculado quente abrigo
de tenra pele e pelo tênue
contrariando o tenaz apelo
a pele intemperada da língua
serenamente em riste roçando
o risco embebecido do sorriso
insano do gatilho prenhe do tiro [imprevisível]


nessa desordem líquida de balas
almas e sentidos o sangue coalha
a sangria o sagrado o subtraendo
estado travestido neste acontecer ópio
tripulado pelas horas e lugares e bocas
sem bússolas sem boias sem botes salva diálogo.

 

 

 

 

 

 

Já não sinto

 

já não sei mais
já não sinto quem sou
já não sinto quem soou
sou corpo que chama
suo poros em chama
sou inteiro alma queimando


na pele, em toque, o arrepio
na pele, em frio, o calafrio
na pele o fogo – (a)brasa viva


já não sei mais
já não sinto quem sou
já não sinto quem soou
já não sei dizer
o que sou
o que soou
onde estou
o que sobrou


de mim mesmo acabou
acabou de acabar
foi embora pr’um mundo imenso
o mundo intenso da tua alma
um mundo onde imerso emerso em mim
peno sem tua doçura
peno sem tua ternura
te preciso como cura
te preciso como escudo contra meus eus fantasmas
te pertenço inteiro pra me pertencer em parcelas suaves


sem ti não sou comigo
contigo sou inteiro
sem ti sou metade ignorada de mim
contigo meu sentir não mente
sentimento em suma transborda:
bordando em mim o amor que me salva com glória.

 

 

(foto de Sorailky Lopes)

 

Nayara Fernandes, nasceu em Teresina, PI em setembro de 1988. Escreve nos sites “Eu tenho asas de pedra” e “Liberoamérica”. É autora do livro “Asas de pedra” (Selo Edith, 2017). Tem poemas publicados em diversas revistas literárias como “Alagunas”, “Mallarmargens”, “Acrobata”, “Germina”, “Diversos Afins”, “Escritoras Suicidas” e “The São Paulo Times”. Além dos sites LiteraturaBR e Livre Opinião – ideias em debate. Participou da coletânea “Quebras – uma viagem literária pelo Brasil” (Selo Edith, 2015). Ousada, sistemática e inquieta sou pedra, asa e poesia.

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2019


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Foto de capa:

'Frevo', Cândido Portinari, 1956


Paginação:

Nuno Baptista


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