ANO 5 Edição 78 - Março 2019 INÍCIO contactos

Nuno Rau


Nervura na superfície do real    

 

“Não se engane: não é que  esta última lâmpada dê mais luz – foi o escuro ao redor que se tornou mais profundo.”
Paul Celan

 

 

 

Considere um cenário em que nosso planeta é uma enorme esfera de aço inoxidável com um polimento irretocável e de alto brilho, aquele brilho capaz de refletir as mínimas variações de tonalidade do céu; sobre este imenso corpo regular onde cada ponto de seu exterior guarda uma distância ao centro igual a todos outros incontáveis pontos, cada um de nós é uma outra esfera, igualmente lisa, ápora, impenetrável, de modo tal que não há ponto fixo sobre a superfície que nos faça gozar um momento de repouso – tudo é movimento aleatório e permanente.

 

         Mundo e corpo assim geminados, um refletindo infinitamente o outro – num jogo que não se sabe mais quem formulou as regras – em sucessivas paisagens fractais, imagens convexas que desabam quando cada nanossegundo é incinerado pelo tempo. Este refletir permanente e recíproco não implica num diálogo, entretanto, e as tantas mocroesferas, cada um de nós, deslocam-se atraídas pela força gravitacional ao redor deste globo, ora chocando-se umas nas outras, ora não colidindo por um triz, mas sempre sem estabelecer qualquer contato que não seja o impacto superficial.
         Este é o mundo que assoma ao lermos as páginas de Nervura, livro que Carlos Orfeu traz à luz de nosso presente, para dizer o mínimo, complexo. Índice desta complexidade é a própria escolha do substantivo nervura para dar nome ao conjunto de poemas: resultante da adição do sufixo de origem latina -ura ao substantivo nervo, é uma das quatro únicas palavras que, em português, são formadas, de modo inequívoco, a partir de substantivos e do sufixo -ura: dentadura, musculatura e ossatura completam a lista, e remetem a partes do corpo. Este dado é bastante significativo para o objeto que agora estamos pensando: apenas esses quatro substantivos são gerados a partir de substantivos adicionados de -ura, que ocorre sobretudo em substantivos abstratos, derivados de adjetivos e que designam atributos de uma coisa: brancura, fartura, planura, doçura, formosura, espessura, ternura, amargura, douradura, cultura, envoltura, e, numa rápida busca, mais de cem outras palavras. Nervura constitui-se, assim, numa palavra que, contra a corrente majoritária da forma que lhe é própria, aponta para a materialidade e mais especificamente para nomes de partes do corpo que também nos constitui como sujeitos. 

 

         Seu significado, apesar de ser uma palavra não tão antiga em nosso idioma – entrou no português em 1844, segundo o Dicionário Etimológico Nova Fronteira –, abarca diversas áreas da experiência humana: para a Botânica, nervura é cada um dos feixes ou veios, muitas vezes salientes, que conduzem o limbo das folhas (e corresponde, por outra visada, a um processo de espessamento); na Zoologia, cada uma das saliências nas asas de insetos que sustentam a sua membrana; na Arquitetura, pode ser a moldura saliente no intradorso de uma abóbada ou mesmo uma saliência contínua em qualquer superfície sólida. De um modo geral, podemos sintetizar seu sentido como dobradura, fina ou grossa, em uma superfície. Notemos, a princípio, que em todos os campos acima mencionados, a nervura exerce uma função no organismo a que pertence, seja como parte de uma estrutura ou de rede capilar de irrigação de tecidos, ou ainda de sistema nervoso, que transmite impulsos elétricos que causam sensações.

 

         Este conjunto de poemas, em sua concisão e sua gravidade, parece querer promover uma deformação na superfície da esfera de aço, armar a nervura contra um real sem ponto fixo, sem bordas, limites. O poema não é mais sintoma, mas objeto em si que descreve um trajeto sobre o mundo. Esta nervura, como era de se esperar, não emerge do aço das aparências de modo pacífico, mas pela tensão entre o dito e o não dito, como num conflito entre luz e sombra que encena o impasse entre o dizível e o indizível; é preciso romper de algum modo com nossas formas de relação com o real, e o poema encena uma das possibilidades deste rompimento pondo em cena um jogo de sentidos, a tensão instauradora do espaço em que o poema se inscreve quando gera a fissão do aço pela energia gerada entre os âmbitos de dizer e calar. 

 

         Eis aqui a principal tensão que atravessa Nervura: há nos poemas uma espécie de zona indeterminada em que a linguagem negocia permanentemente com o silêncio. Aqui temos uma duplicidade – mas nunca uma ambiguidade – da relação entre voz e silêncio; se, de um lado, o rompimento da superfície ápora implica um rasgar o que antes era uniforme e, na aparência, são, ou seja, implica num ato de violência gerada pela compressão, de outro temos um pacto de admiração entre a voz e o silêncio. A voz é econômica porque aspira uma densidade que estabeleça o par absolutamente simétrico do que pretende fender e efetivamente fende.

 

         O poema que abre o livro, a carne é escrita, já estabelece a cena desta tensão. Depois de enumerar, entre versos curtos e secos, carne, tato, olho, osso, lábios, hálito, gesto, voz, segue-se pela reiteração de uma amputação – “falta um antebraço/ falta uma perna/ falta o olho direito” –, pela notícia-crime cifrada nas palavras punhais, chagas, flechas, mesmo que a partir deste crime “outra pele” se refaça e dele provavelmente derive o poema que deforma, enfim, a superfície e crie a nervura-poema que acaba por ser “outra coisa/ além do que o olho/ aprofunda”, faz o relato da queda icárica (que em espanhol significa também ‘imprudente’, visto que Ícaro deixou de considerar que o Sol derreteria a cera que fazia a liga de suas asas e, assim, seu fim seria o abismo das águas), e termina por desenhar o drama entre voz e silêncio pela metáfora luz e sombra. Mas neste ponto a potência da energia gerada promove uma inversão: a fala nasce da noite e da sombra, porque a luz do sol apodrece: mas o poema nos lança de novo no abismo quando há uma nova mudança de polo, porque o húmus resultante da luz apodrecida é que poderá gerar a manhã que (apesar de tudo) se espera, e a ‘tinta da escrita’ se faz com esse húmus. O poema é o lugar da sombra, e da tinta da sombra concentrada é que pode derivar, por geração, a luz. 

 

         Não é fortuito que a poesia de Paul Celan é cara a Orfeu. Vejamos este fragmento de Celan: “O poema é obscuro, antes de mais nada, pelo modo como se faz presente, pelo modo como se faz objeto, pelo modo como objeta; portanto, é obscuro no sentido de uma opacidade fenomenal, própria de todo objeto.” A tese do poeta alemão de que a obscuridade é a força mesma do poema emerge em Nervura não exatamente como obscuridade [do sentido], mesmo que a exata concentração da maioria dos versos e palavras não raro tangenciem, criativamente, essa obscuridade, mas pela antes referida tensão entre fala e silêncio, onde o que o poema silencia é seiva e alimento para o que nele é dito.

 

         A concentração que verificamos nos versos deste livro nos faz pensar num ambiente em que o pensamento é objeto de pressão em toda a sua superfície, de tal modo que se adensa. O campo de possibilidades de significados na linguagem, o que podemos extrair de sentidos do espectro das palavras, sozinhas ou em conjunto, é fonte e alimento. Este adensamento cotejado com a tensão entre silêncio e fala (luz e sombra) no poema, nos faz lembrar da matéria escura que permeia o Universo.
A existência do que chamamos matéria escura foi intuída pelo astrônomo suíço Fritz Zwiky, quando estudava aglomerados de galáxias. Ao medir a massa dos aglomerados pelo movimento das galáxias que dele faziam parte, Zwiky verificou que a massa total era significativamente maior do que a soma da massa das galáxias com a do gás quente que ocupa o espaço entre estes aglomerados. O fato é que, apesar de podermos verificar conceitual e matematicamente sua existência, não se sabe o que constitui a matéria escura. Uma parte dela poderia existir sob a forma de planetas, anãs marrons, estrelas compactas e buracos negros; no entanto, a quantidade desses objetos em nossa galáxia constitui menos de 2% da massa, de tal modo que a matéria escura só pode ser feita de outra coisa. Ao que tudo indica, ela é formada por partículas massivas que, aparentemente, não interagem com a matéria normal e com a luz, já que nunca foram detectadas diretamente – mas, a despeito disso, é difícil pensar que duas formas de matéria convivam no Universo sem formar um sistema em que uma parte esteja para outra de acordo com uma função.

 

         Nervura é, do mesmo modo, formado pelos poemas – suas galáxias – e pela matéria escura entre eles, imperceptível a nossos olhos quando flutua entre os versos, quando os permeia. Que prática dialógica é estabelecida entre o silêncio e a voz que emerge não nos é dado saber com precisão; apenas pressentimos que ela existe, e que concentra muita energia. Por vezes a poesia nos exige que abramos mão de nosso afã de decifrar enigmas; precisamos, antes, abraçar o enigma, amar o enigma. De novo, aqui e agora, Celan nos ilumina: “Fala –/ Mas não separa o não do sim./ Dá à tua fala também o sentido: dá-lhe a sombra.” Ou seja, é preciso mais que reconhecer, é preciso proteger no poema o espaço do enigma, da sombra, porque desta concentração é que pode resultar a explosão que esperamos. Só por esta via, onde “o mito se contorce/ rasteja” – como diz o poema deus é uma cicatriz abandonada na carne, o enigma pode ser claro, como intuiu Drummond.

 

         Estes são os eixos principais deste livro; há outros, no entanto, igualmente instigantes para nossa leitura. A divisão do livro em duas partes, ‘Da carne’ e ‘Do osso’, materializa a remissão ao corpo e projeta a ‘nervura’ como o que liga a carne – músculos, tecidos – a nossa estrutura óssea, possibilitando o movimento. O nervo é o entre, o que conduz a eletricidade pelos tecidos e o que faz a ligadura que gera o impulso coordenado e gerado pela vontade do sujeito. Aqui, por evidente, nos valemos da acepção antiga da palavra nervo, quando não se diferenciavam nervos (filamentos que ligam o sistema nervoso com as outras partes do corpo e servem de condutores da sensibilidade e do movimento) de tendões (estruturas fibrosas, com a função de manter o equilíbrio estático e dinâmico do corpo); em latim, nervus significa corda, tendão, em particular os ligamentos das articulações que convertem a força física em movimento. São diversas outras portas de entrada em Nervura. Munido das ferramentas com que habilita a voz no silêncio, o poeta segue sua negociação nos territórios onde a fala não penetra: 

 

vestir outra pele
camada
e crisálida

 

chamar de casa
todas as coisas
indizíveis

 

 

Nuno Rau é poeta, professor de história da arte e arquiteto, tem poemas em diversas revistas e nas antologias ‘Desvio para o vermelho (13 poetas brasileiros contemporâneos)’, ‘Escriptonita', que co-organizou, e ‘29 de Abril: o verso da violência’. Edita a revista de literatura mallarmargens.com desde 2012, e em 2017 publicou 'Mecânica Aplicada’ (poemas), pela Editora Patuá, livro finalista do 60º Prêmio Jabuti e do 3º Prêmio Rio de Literatura.

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Março de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Março de 2019:

HENRIQUE DÓRIA, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, André Nogueira, Artur Alonso, Augusto César, Berta Lucia Estrada, Caio Junqueira Maciel, Fabián Soberón, Fernando Maia da Motta, Gabre Valle, Gerardo Burton; Rolando Revagliatti, I Mulherio das Letras, Joel Henriques, Jorge Castro Guedes, Jorge Elias Neto, Jorge Miranda, José Ioskyn, Leila Míccolis, Luís Henriques, Luísa Demétrio Raposo, Maraíza Labanca, Maria Manuela Jardim, Marinho Lopes, Nayara Fernandes, Nuno Rau, Octavio Perelló, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Rocío Prieto Valdivia, Thiago Ponce de Moraes, Zetho Cunha Gonçalves


Foto de capa:

'Frevo', Cândido Portinari, 1956


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR