ANO 5 Edição 78 - Março 2019 INÍCIO contactos

Octavio Perelló


Pecado    

Meu pai não era o pior dos homens. Do seu ponto de vista ele só queria o meu bem. Eu é que era esquisito, gostava de ficar em casa lendo Santo Agostinho e algumas centenas de outros livros. Mas a minha esquisitice não tinha nada a ver com o que meu pai suspeitava. Você já é um homem, tem que se iniciar! – dizia ele, vendo cílios postiços nos olhos do vento.

 

Criado no interior, meu pai se iniciou num bordel, numa de suas frequentes viagens à cidade grande. Com jeito maroto, gostava de repetir que sentia muita saudade dos tempos da gonorreia. Pegara um monte de vezes e se orgulhava disso como se exibisse troféus. Costumava dizer que conhecia prostituta somente pelo olhar. Eu observava as mulheres para tentar entender o que as revelava, mas só conseguia perceber que elas se dividiam entre as alas das realizadas e das insatisfeitas.

 

Afora a leitura de Santo Agostinho, esse grande e generoso pecador, e de outros tantos autores, eu tinha que sair escondido, ninguém sabia para onde. Isto só aumentava as ilações na cabeça do meu pai. Esse menino está cada vez mais estranho, dizia pelos cantos, isso não pode ficar do jeito que está!

 

Santo Agostinho tinha muita tolerância com os pecadores. Ele próprio fora um deles, o que nunca escondeu, e gostava de dizer que mais santo era o pecador que não perdia a esperança de ser salvo e trilhar os justos caminhos do Senhor. Eu não me sentia pecador, no sentido de desobedecer à vontade de Deus. (O que revela mais a vontade de Deus: os dogmas ou a consciência do homem?). Pecar era uma coisa que me deixava feliz. O que eu fazia era bom demais para ser impuro. Só não podia revelar o que eu fazia.

 

Sempre fui assim. Carregava uma sina que incomodava a meu pai. Era um menino impossível de se educar dentro da moral e dos bons costumes, embora aprendesse bem outros temas dentre os ramos do conhecimento. Na verdade, eu aprendia tudo sobre tudo, mas as questões morais que eram ensinadas não tinham outra fundamentação senão o medo, resultando num punhado de tensões restritivas, e isso eu repelia. Precocemente, acreditava que a ética tinha que compreender valores importantes para a vida do ser humano em sociedade, e que estes tinham que ser testados e formados no sabor das suas melhores aspirações, vivências e noções de consciência. Um tio anarquista dizia que eu me encaminhava para ser um homem mais em busca das verdades e experimentações do que das convicções. E ele estava certo. Lidar com isso não era fácil para um homem adestrado socialmente como o meu pai.

 
No fundo o meu pai gostava de mim. Podia até estranhar a minha personalidade e desaprovar minha conduta, mas dentro do seu peito bem que havia um amor genuíno por mim. O inevitável amor de pai para filho. Eu também gostava dele, do meu jeito, e lhe dei algumas alegrias que só as peripécias infantis são capazes de dar. Mas havia um paradoxo no nosso relacionamento. Algo que se fundara na morte da minha mãe. Eu estranhei que ele lidara um tanto friamente com a partida daquela mulher que fora fundamental na minha vida. Antes disso, eu notava que ele não a tratava como deveria, parecendo se alegrar mesmo era com as companhias eventuais que arrumava nas idas à cidade. Também teve um episódio ainda mais antigo, em que ele tirou de mim uma cadela de estimação, por desaprovar o meu apego por ela. Talvez acreditasse que o afeto pela cadela me fragilizaria ou desconfiasse de que eu estivesse praticando zoofilia. Isso e também o fato de não tratar a minha mãe como ela merecia despertou em mim um sentimento de desapreço por ele. E daí por diante entendemos que eu fizera uma escolha e que isso significava que a minha lealdade a ele podia ser relativizada conforme as circunstâncias.

 

Assim o tempo passou. Por herança cultural familiar ou por força da relação esquizofrênica que nos impelia a sentir afeto e desprezo em intensidades iguais, seguíamos vivendo sob o mesmo teto, de alguma forma dependendo um do outro. Eu tocava os meus interesses, sem saber direito como seria o meu futuro, a minha vida adulta que chegaria em breve. Aos olhos do meu pai eu me tornara um estranho, afeito a viver isolado pelos cantos. E lá vinham mais interpretações equivocadas sobre um ente que a rigor ele pouco conhecia: eu.

 

Silenciosa, ela olhava com os olhos úmidos, querendo me defender. Mas se controlava. Fazia tempo que se segurava, evitando entrar em minha defesa. Eu, que por temperamento desregrado e displicente, pouco me importava com as deduções do meu pai, ficava mesmo era comovido diante das intenções reprimidas dela. Mas ela, sua segunda esposa, sabia da sina de ser algodão entre cristais.

 

As críticas e até as ameaças do meu pai eram exageradas, mas não eram de todo infundadas. Certas ou erradas, justas ou injustas, consistiam em reações às minhas incessantes esquisitices: as incursões nos livros em meu quarto fechado, os sumiços misteriosos, o jeito de andar com passos destrambelhados sobre o velho assoalho, os desejos suspeitos trancafiados no silêncio, as reflexões ameaçadoras e o olhar de quem mirava as miríades de variáveis sobre as verdades.

 

Sentindo que tinha de tomar alguma atitude em meu favor, meu pai marcou tudo. Fomos a um lugar bem fuleiro, pois era o que ele podia pagar. Entrei num quarto e deitei na cama com uma puta um pouco gorda. A mulher foi tomando a frente, mostrando que fazia bem o seu trabalho, mas eu sentia repugnância naquele ambiente escroto. Pedi para esperar eu ir ao banheiro no corredor, desci correndo ao balcão vazio da recepção e liguei escondido para casa. Ainda bem que foi ela que atendeu! Chorava... Ninguém podia saber que eu compartilhava a maior das intimidades com a minha própria madrasta. Angustiado por estar num lugar daqueles, cheio de saudade, desabafei: – Prefiro pecar com você!

 

Octavio Perelló é escritor, jornalista e produtor de conteúdo. Autor do romance “Nem toda humanidade está perdida”, autopublicado em e-book para Kindle, pela Amazon, integrou a coletânea “Espanha”, publicada pela Niterói Livros, com o conto “Memórias de um Mouro”.

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Paginação:

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