ANO 5 Edição 78 - Março 2019 INÍCIO contactos

Ricardo Alfaya


Paris, um estado de espírito    

Paris poderia chamar-se Madrid, ou mesmo, Rio de Janeiro.  Mas quis o destino (ou o acaso) que se chamasse “Paris”, palavra que lembra Paraíso, “Paradise”, “Paradis” e, por que não, “Pasárgada” (aquela, de Manuel Bandeira, 1886-1968).

 

“Jamais visitarei Paris / sem o poeta dos meus sonhos.” ¾ Afirma a mineira Marcia Barroca em um de seus melhores textos do livro “50 Poemas Escolhidos pelo Autor” (Rio de Janeiro, Galo Branco, 2010, v. 51 dessa coleção).  Da mesma forma, Marcia poderia ter dito “Lisboa”, “Roma”, “Amsterdam”.  Porém, se o tivesse feito, o poema teria a mesma expressividade?  Significaria tanto?  “Paris” é tão importante que só faz sentido ao lado do ser amado.  E este “ser” tem de possuir sensibilidade especial, tem de ser “poeta”.

 

O espanhol Miguel Morey, em seu volume “Foucault e Derrida: pensamento francês contemporâneo”, volume 52 da coleção “Descobrindo a Filosofia”, da Salvat, conta-nos que, no período de 1940 a 1945, quando a França caiu sob o nazismo, os alemães não ousaram interromper a vida cultural de Paris. Ao contrário, colaboraram para incrementá-la. Inclusive, chegaram a produzir e financiar 220 filmes na França.  Claro que havia censura prévia e, em alguns casos, a promoção da “mitologia nazista”. As condições, particularmente para a classe teatral, não eram fáceis, conforme mostra, em 1980, o cineasta François Truffaut em “O Último  Trem”.  Seja como for, entre outros, Jean-Paul Sartre, respectivamente em 1943 e 1944, estreará as peças “As Moscas” e “Entre Quatro Paredes”.  Segundo Morey, os alemães  não quiseram, em Paris, incorrer no mesmo erro cometido contra Varsóvia.  Afinal, “Paris é uma festa”, conforme o título de um dos livros de Ernest Hemingway; uma festa que seduzia todos, inclusive, os alemães.

 

Mas o motivo desse comentário e de todas essas anotações sobre a capital francesa decorrem da leitura de um trecho do livro “Um Certo Henrique Bertaso”, de Érico Veríssimo (1905-1975).  Tudo que se diga a respeito da qualidade da escrita do autor de “Incidente em Antares” ainda será pouco.  Em qualquer página que se abra, a sintaxe flui, belamente encadeada, com uma clareza envolvente e uma capacidade de nos tirar de onde estamos e nos transportar para as épocas descritas na obra.   Trata-se de um livro incomum, pois é, ao mesmo tempo, biográfico (em relação a Henrique Bertaso) e autobiográfico.  Isso pelo fato de Henrique Bertaso (1906-1977) ter sido o primeiro e único editor de Érico Veríssimo, além de um dos proprietários da Livraria e Editora Globo, de Porto Alegre, no Sul do Brasil.  E para falar do editor, de quem Érico foi amigo desde a adolescência até o fim da vida, o autor, além de necessariamente ter de discorrer sobre si próprio, acaba desenhando um quadro magnífico da literatura brasileira de sua época, desde o começo de sua carreira, que se deu por volta do emblemático 1922 (ano da famosa “Semana de Arte Moderna”, ocorrida no Teatro Municipal de São Paulo).  E Érico foi um autor que manteve contato estreito com os demais escritores em atuação na sua Porto Alegre. 

 

Desse modo, há uma seção em que Érico fala das angústias dos escritores brasileiros no tempo da Segunda Grande Guerra.  Talvez por estarmos vivendo atualmente, aqui no Brasil, um período em que, ideologicamente, o fascismo impera, senti intensamente cada linha em que se narrava o assunto.  Era como se eu estivesse lá, vivenciando a ansiedade daqueles que acompanhavam daqui as notícias que vinham aos poucos da Europa, falando de uma Grande Guerra, cujo final ainda se mostrava imprevisível. E houve então, na página 99 (Editora Globo, 1973), um trecho que considerei excelente, tanto pela beleza do escrito quanto pelo que coincide com as outras referências a Paris, aqui resumidamente apresentadas.  Além disso, em sua observação, com a qual encerro esta crônica, o poeta rio-grandense Mário Quintana (1906-1994) se revela profético.    Passo, então, a palavra a esses dois grandes de nossas letras: Érico Veríssimo e Mário Quintana.  O texto começa com um comentário de Érico:

 

“Um dia em que eu lamentava em voz alta a queda da capital da França, ele [Mário Quintana] ficou com os olhos postos em parte nenhuma e depois murmurou: ‘Mas ninguém pode conquistar Paris.  Paris não é uma cidade, e sim, um estado de espírito.”

 

 

Ricardo Alfaya, escritor nascido e residente no Rio de Janeiro, Brasil, com cinco livros de poesia publicados e 35 anos de atividade literária.  Contato: ricardo1292@hotmail.com

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