ANO 5 Edição 78 - Março 2019 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: O avô do menino morto    

Não gosto de pensar em morte. Acredito não ser diferente, as pessoas evitam entrar em contato com as coisas imprevistas, o desconhecido, escuridão. Já tive medo, hoje aceito o inevitável sem tanto susto, o tempo passa rápido, logo não mais serei. Contudo, essa coisa de ser ou não, longe de exibir questão filosófica vulgar, tem para mim certa relevância. Existir, estar aqui, conviver com indivíduos de todos os tipos, amar e ser amado, requer presença física. Logo, mesmo sem mais me apavorar em ter de partir, preferia ir ficando, ficando, até esgotar-me a consciência de mim, irei. Gostaria de poder estranhar a figura refletida no espelho, desentender-me.

 

Às vezes, contra todas às expectativas, alguém se despede muito antes da hora. Ou nem chega a dar adeus, apenas se desliga, voa para distante, desaparece. Não há como conviver com tal perda prematura. O hábito de estarmos inseridos dentro de certa normalidade, com as coisas nunca se afastando demais do usitado, produz em todos nós grande dificuldade em aceitar tal quebra no fluxo da vida. Contamos com o crescimento das crianças, desenvolvimento normal, a indesejada das gentes deveria esquecer os imberbes, aguardar pacientemente momento futuro mais propício.

 

Mas chega lá um dia e um vento frio sopra, a escuridão turva tudo e um garoto de apenas sete anos, lindo, se apaga. E como o infante é neto de um rei muito amado pelo povo, os súditos se comovem, choram, lamentam o infortúnio, colocam-se no lugar do homem atingido pela perda. Casualmente o rei está preso mas, embora tenham lhe roubado o trono, não conseguiram arrancar-lhe a majestade.

 

D. Lula I, apesar de ser querido pela população do reino, tem muitos inimigos. Justamente os senhores feudais, os mais abastados, aqueles preocupados em ficar ainda mais ricos. Aceitaram sem pestanejar provas fabricadas contra o monarca por um juiz sem escrúpulos, convenceram alguns plebeus menos instruídos e violentos a se bandearem para o seu lado, conseguiram encurralar D. Lula I. Nas masmorras de um palácio no feudo de Curitiba, o querido monarca envelhece cheio de dignidade.

 

Não posso e não quero aceitar a maldade. Mas ela existe e às vezes se apresenta de forma tão crua e perversa, que fica difícil compreendê-la. E então vieram as comemorações. De algum canto do reino alguém exultou com o passamento do jovenzinho bonito. Disse, insensível, muitas barbaridades. O rei precisava sofrer, Deus escreveria sempre certo. E como nunca soube a respeito dos dotes literários do Senhor, nem li nenhum livro por ele publicado, fiquei imaginando alguém tão poderoso e pretensamente bom, retirando do tabuleiro da vida um menino com a finalidade única de punir um de seus filhos, o avô da criança. Não achei possível.

 

O sobrei, criatura despreparada e pai de três filhos que lembram muito as irmãs de Cinderela, não se dignou a emitir um comunicado oficial oferecendo condolências ao enlutado. Normal. Ninguém esperava dele mesmo algum gesto mais nobre.

 

Um dos garotos, esbanjando peraltice, afirmou que era uma ótima oportunidade para D. Lula I se fazer de coitado.

 

 Algumas mensagens mais, felizmente poucas, evidenciaram um reino podre, doente, esquizofrênico.

 

Permitiram a D. Lula I velar o neto. Ele compareceu quieto, semblante sério e sofrido, cheio de dignidade. Cercado por soldadinhos fantasiados de tropas estrangeiras, caminhou como se ainda portasse a coroa. E ao passar com tamanha força e majestade, tão senhor de si pelo caminho permitido, fez seus inimigos tremerem. Em determinado momento, desobedecendo as ordens recebidas, acenou para todos nós. Moveu a mão com graça e significado. E foi com se nos tivesse piscado um olho, aquecendo nossos corações. Cúmplice. Ele sabe: irá voltar.

 

Fevereiro/2019

 

 

Ricardo Ramos Filho, é escritor com livros editados no Brasil e no exterior, publicados em Portugal e nos Estados Unidos. Mestre em Letras no Programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, doutorando no mesmo programa. Desenvolve pesquisa na área de literatura infantil e juvenil, onde vem trabalhando academicamente Graciliano Ramos, privilegiando o olhar sobre seus textos escritos para crianças e jovens. Ministra diversos cursos e oficinas literárias na Escola do Escritor (literatura infantil, roteiro de cinema, poesia, conto e crônica). É roteirista de cinema com roteiros premiados, tendo ministrado curso de extensão na ESPM. Atua como coach literário, orientando clientes na elaboração de seus livros. Cronista da revista literária eletrônica Escritablog, onde publica mensalmente. Participou como jurado de concursos literários: Proac, Portugal Telecom, Prêmio São Paulo de Literatura, Prêmio Mato Grosso de Literatura, Paulo Setúbal de Tatuí. Curador do 1º Prêmio Nelly Novaes Coelho UBE de Literatura Infantil.  Sócio proprietário da empresa Ricardo Filho Eventos Literários, onde atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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