ANO 5 Edição 78 - Março 2019 INÍCIO contactos

Thiago Ponce de Moraes


POEMAS    

Um poema em português

 

A bell
Is a bell
Is a door

 

 

 

 

 

 

Esmorecer

 

I

 

Vai

 

Vai

 

Vai

 

Verbo irritado
Curva de suspiro e barro

 

 

 

 

 

 

II

 

Rio que desboca agora
Carrega de mãos dadas
Dois bocados de silêncio

 

Não por saber que a fala
Fraco borbulhar de gênio
Tenta irromper na trova

 

Vão pensamento

 

 

 

 

 

 

Poesia ipse

 

δV/ δx = δ2 V/ δx2

 

V = x6/6 + tx4/4 + ux3/3 + vx2/2 +wx

 

V’ = δV/ δx = x5 + tx3 + ux2 + vx + w
V’’ = δ2 V/ δx2 = 5x4 + 3tx2 + 2ux + v

 

Apocalipse?

 

 

 

 

 

 

 

POEMAS DE DE GESTOS LASSOS OU NENHUNS (2010)

 

 

 

ESTRELAS

Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

 

Com a palavra longe te aproximas deste nome,
E de teu nome, arrancado pela Raiz,
Procuras os sais.

 

Confundes a hora da aurora se alvoreces
E tornas originais os que amanhecem
Na palavra dia.

 

Abissais tuas sílabas soam com a melancolia
Natural da melodia que se oculta
Entre a palavra escuta e a palavra escrita.

 

Adias os nomes, de vozes te acercas em portos
Infinitos. E na palavra abismo
Cais.

 

CALIGRAFIA

 

Não imaginas linguagem alguma –
E a manhã rompe como uma ferida em teus lábios.
Tua boca se abre, apenas uma palavra sangra
Enquanto passa o dia.

 

Sépala: na casa do esquecimento afundas.
Folhas no chão e sombras da folhagem das árvores
Por onde o caminho vaza. A noite
Não precisa de estre-

 

Las. Riscam a areia tuas folhas,
Uma palavra ainda tem
Luz:
Nada está perdido.

 

 

 

ANDROMEDAE

 

Não há razão.
Há, quando muito, estrelas, saudades.

 

Abres um livro. Quantas constelações te não acolhem.
Com teus cabelos de ouro desejas que seja esta
A morada que procuras,
A palavra que existe mas escorre pelas mãos.

 

Tens uma recordação apenas, quando luz, e cega,
Para que venham. Guardas qualquer lembrança feito uma cor,
Ainda que morta,
E a ela segues com o fogo-fátuo de tua voz.

 

Nem as mais brilhantes estrelas, nem as mais vorazes
Saudades: tudo falta – Amor/Tempo.
Restam teus cabelos de cinza com que te inclinas
Sobre a vida tornando a face para o céu.

 

 

 

 

 

 

 

POEMAS DE DOBRES SOBRE A LUZ (2016)

 

PALLAKSCH

 

com que a língua em ruína versa e atravessa a vertigem da tua fala
que farfalha entre as torres e rios de Hölderlin

 

Folhas de outro outono feito rastros recém-engolidos pelas sombras
da terra sem rosto do desterro

 

Outrora é hoje-e-agora com seus destroços

 

Rente às margens sentas, sonhas, experimentas os escombros como mobília
para a paisagem de que ora podes somente ouvir o ruir de seu deteriorar

 

O pássaro da noite vibra frente aos teus olhos convertidos à cegueira,
canta o indecifrável,  redime a tua memória, sibila junto ao teu coração

 

Afundas os pés na lama do rio que no fundo é tudo aquilo que cala:
estás em casa, estás
aqui
feito
fluxo de eloquência
da tua
própria presença
que
per-
trans-
ultra-
passa
e
fica

 


Pallaksch

 

 

 

 

 

 

בָּבֶל

 

พูดไม่ได้ แปลไม่ได้
outtalbar oöversättbar
uudsigelige uoversættelige
telaffuz edilemez çevirilemez

 

発音しにくい 翻訳不可能な
unaussprechlich unübersetzbar
kimondhatatlan lefordíthatatlan
onuitspreekbaar onvertaalbaar

 

غير قابلة للنطق غير قابلة للترجمة
ndikatuíva oñembohasá ambuê ñe'me
αναπαραχθεί φωνητικά μη μεταφράσιμο

 

снимачот за пообјективно непреводливи
amhosibl i'w hynganu oes modd ei gyfieithu
hindi kayang bigkasin hindi maisalin sa ibang wika

 

 

 

 

 

 

TENHO PENSADO no fato de haver
neste mundo astronautas e dispersos
maestros, poetas, relojoeiros.
Tenho pensado talvez que no fundo
ourives, alfaiates, sapateiros,
raros afinadores de piano
de cauda, afiadores de facas,
domadores de leões, perfumistas,
lixeiros, transformistas, xamãs, mímicos,
piratas – corsários e bucaneiros –,
tecelãs, coletores de cadáveres,
tocadores de realejo, lambe-
lambes, carpideiras, pajés, arqueiros
etc. etc. e tal

 

sejam todos o mesmo vasto ser,
sejam todos o mesmo vasto nada.

 

 

 

 

 

 

POEMAS DE celacanto (inédito)

 

As migrações que realizam teus pássaros
Peixes nuvens
Cartas endereçadas a quem a ninguém
Despedidas a meio caminho
Despedaçadas
Sem tino ou destino
Cada palavra ave pronúncia
Nada daquilo que leva revela

 

se bem que começasse azul
e então se adensasse
tentando assim assimilar o vento
e o espesso do tempo
abrangendo desde o preto 
até o branco numa intensidade
que fizesse qualquer um
fitar o firmamento
para sempre
desde os tons cinzentos
intermediários e tampouco
decifráveis até a cor vaga
que te parecesse vária
a cada vez que 
sol e nuvens interagissem
nessa confusão de imenso
depois vermelhos que nascessem
e então os rosas que passasses
a admirar perante os púrpuras
a que se dobram gastos
os alaranjados e também
os matizes dourados
ou nem tanto mas sem dúvida
faces indiscerníveis da vida
traços dispersados
pelo breu da noite

 

 

 

 

 

 

VESTÍGIOS DE AVALOVARA

 

I.


reversibilidade vertiginosa das palavras
rumor do mar pela costa
este horizonte
um mapa
apanha traços do destino
emaranha
tua voz
paragem 
em que meus ossos rangem
tuas costas que parecem ir para sempre
espirais
sem início
ou fim

 

 

II.

 

teus pés 
cavados nas plantas
curvas e claras
as solas 
tocam
o solo
escuro do futuro
e com as pontas dos dedos
dispersar sementes 
para germinação na primavera
cavar a terra
revolvê-la
flor e fruto
virá-la
transplantar-se

 

 

III.


damo-nos as mãos

 

morna e cautelosa palma
contra palma
ramos emaranhados
rostos em
exploração
linhas a serem 
cerzidas
por teu olho
em destino 
      encargo tortuoso
pousa o dorso
da tua demora sobre 
a concha que nasce
após meu pulso
ímã sob a pele
danos e enganos
desastre 
de barco à deriva
desvario da alma
e da calma

 

caminhamos

 

 

IV.

 

cem manchas insidiosas
semelhantes a olhos
de que só no sono esqueço
sono
onde incessantemente nasço
e cresço
nos meus subterrâneos
escureço em falso
veias sob a pele
fazem do sangue
centelha ante a chama
estalo diante dos teus passos
dolorosos
qual quebrar de ossos
dos meus braços 
pelo frágil
do teu toque
em que acordo
outro 

e me abraças

 

 

Thiago Ponce de Moraes (Rio de Janeiro, 1986) é poeta, tradutor e professor. Publicou, entre outros, os livros de poemas Imp. (Caetés, 2006), De gestos lassos ou nenhuns (2010) e Dobres sobre a luz (Lumme Editor, 2016, finalista do Prêmio Jabuti). Possui doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) com estudo sobre a obra de Paul Celan. Os poemas presentes nesta seleção fazem uma trajetória por todos os livros publicados até aqui, incluindo seu quarto trabalho, ainda inédito: Celacanto.

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2019


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HENRIQUE DÓRIA, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, André Nogueira, Artur Alonso, Augusto César, Berta Lucia Estrada, Caio Junqueira Maciel, Fabián Soberón, Fernando Maia da Motta, Gabre Valle, Gerardo Burton; Rolando Revagliatti, I Mulherio das Letras, Joel Henriques, Jorge Castro Guedes, Jorge Elias Neto, Jorge Miranda, José Ioskyn, Leila Míccolis, Luís Henriques, Luísa Demétrio Raposo, Maraíza Labanca, Maria Manuela Jardim, Marinho Lopes, Nayara Fernandes, Nuno Rau, Octavio Perelló, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Rocío Prieto Valdivia, Thiago Ponce de Moraes, Zetho Cunha Gonçalves


Foto de capa:

'Frevo', Cândido Portinari, 1956


Paginação:

Nuno Baptista


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