ANO 5 Edição 78 - Março 2019 INÍCIO contactos

Zetho Cunha Gonçalves


Memória breve para uma longa estória    

Na manhã daquele sábado, manhã de sábado imediatamente a seguir ao anúncio da atribuição do Prémio Nobel de Literatura a José Saramago, entrei numa pastelaria do Largo da Graça, em Lisboa, para tomar um café ao balcão.

 

         Como sempre, àquela hora, a pastelaria enchia-se de famílias inteiras e de gente mais apressada e menos numerosa na sua solidão ou companhia, a tomar o pequeno-almoço. Ou um simples café, para acompanhar a leitura do jornal.

 

         Cliente habitual, não precisei dizer mais que «Bom dia», para que me trouxessem o café e o respectivo copo de água.

 

         E foi nesse momento, que reparei naquela figura, ali em pé, alheada de tudo à sua volta e ligeiramente afastada do balcão, a folhear um livro e a falar sozinha (ou a falar para os secretos botões da sua memória), num espanto e comoção que registei.

 

         Era um homem de alguma idade – 83 anos, vim a saber pouco depois. Nado e criado naquele mesmo Bairro da Graça, onde vivia. Na mesma, mesmíssima casa onde nascera, à Rua das Beatas.

 

         Era um homem com 83 anos de idade, que os não aparentava, vestindo blusão desportivo, camisa e calças lavadas e cuidadosamente engomadas, sapatos limpos e engraxados, óculos de algumas dioptrias, e boné a proteger a calvície do sol e do fresco do outono ainda insinuante.

 

         Era este o homem para quem os circunstantes olhavam como quem olha para um avôzinho que se passou completamente para o lado de lá, deu em pírulas, coitadinho, e desatou, agora, a falar sozinho, de livro em punho – qual Bíblia fosse, na sua particular pregação –, feito poeta incompreendido e manso (do género de mensageiro sereno de catástrofes e milagres por haver), ou, ainda, intelectual tardio, ressabiado, certamente inconveniente e menosprezável.

 

         Curiosamente, ninguém se preocupou em fixar o olhar, e ler o nome do autor e o título do livro que aquele avôzinho (sempre a falar sozinho, ou a falar com os mais insondáveis botões da sua estremecida e enternecida memória fatal), tão amorosa e filialmente folheava, e cujas páginas comovidamente acariciava.

 

         – O senhor tem nas mãos uma verdadeira preciosidade – comentei eu, retardando propositadamente o passo a seu lado, em direcção à caixa de pagamento.

 

         Nem um olhar de soslaio, como resposta.

 

         – Desde essa coisa de darem o tal do Nobel, que eu nem sei bem o que é, ao comunista do Saramago – confidenciou a boa da dona Ester enquanto me fazia o troco do café –, o senhor Vieira não se cala, coitado!... – E, à boca pequena, obrigando-me a aproximar o ouvido: – «Fui eu que fiz esta merda toda!... Fui eu que fiz esta merda toda!...», com perdão da palavra, senhor Zetho – continuou a boa da dona Ester, espetando o queixo na direcção do senhor Vieira –, é o que ele passa o tempo a dizer… A dizer, e a virar aquele livro de trás prá frente, sem parar: «Fui eu que fiz esta merda toda, e agora dão aquele prémio ao homem!...» – Deu um suspiro fundo, a boa da dona Ester. Comprimiu os lábios, abanou a cabeça, e acrescentou: – Tão boa pessoa, o senhor Vieira!... Até parece que lhe deu uma coisinha ruim, ou que lhe fizeram um bruxedo qualquer, que lhe virou o juízo todo ao contrário, coitadinho!… Sempre tão respeitador… e agora… olhe-me só para aquilo, até mete dó!...

 

         Olhei para trás, confesso que meio atordoado, enquanto a boa da dona Ester dava um novo suspiro e se preparava para atender o cliente seguinte, resignada e temente a Deus, como todos os dias:
         – Até logo, senhor Zetho, se Deus quiser.

 

         – Até logo, dona Ester.

 

         E já não vi o senhor Vieira.

 

*
*     *

 

         Enquanto atravessava a pastelaria, veio-me à memória o poeta português António Gancho (1940-2006) e a sua tragédia pessoal.

 

         Internado a maior parte da vida numa casa de saúde mental, onde acabou por morrer, a loucura levava-o a acusar de plágio, ou de roubo descarado dos seus dotes e talentos, da sua genialidade inconteste, poetas tão distintos e distantes no tempo, como Dante, Shakespeare, Petrarca, Verlaine, Gil Vicente, Virgílio, Rimbaud, Camões, Vicente Huidobro, Baudelaire, Ezra Pound, Homero, Rilke, Cesar Vallejo, Artaud, Goethe, Fernando Pessoa, Höderlin, Camilo Pessanha, ou Mário de Sá-Carneiro, sendo ele, e apenas ele, António Gancho, o autor legítimo de toda a obra assinada por esses mesmos poetas.

 

         – Todos uns ladrões! – garantia serenamente o poeta António Gancho. – Eu é que escrevi Os Lusíadas e A Divina Comédia! –, acrescentava ele, com um breve sorriso triste, no mesmo tom de voz brando e determinado, queixando-se, de seguida, do nervo em forma de esparguete que os médicos lhe haviam extraído da cabeça há mais de vinte anos, o que o impedia, ainda hoje, de tomar banho que não fosse sem gravata. Caso contrário, entrava-lhe toda a água do duche para dentro do cérebro, que desatava a chocalhar que nem um náufrago, provocando-lhe mazelas de ferrugem irreparáveis.

 

         – Como é que eu, com o cérebro completamente enferrujado, e os miolos bons mas é para a sucata, posso escrever a Odisseia que o Homero me roubou?! Tenho que tomar banho, mesmo que não quisesse, sempre de gravata!

 

*
*     *


 
         Parado no passeio, à esquina da pastelaria com a Rua das Beatas, lá estava o senhor Vieira. Continuava a falar sozinho e a folhear o livro, como se estivesse discretamente à espera da disponibilidade de alguém para uma bela conversa.

 

         – Bom dia, senhor Vieira.

 

         – O senhor quer saber a verdade?! – ripostou, sem me deixar sequer pestanejar. – Fui eu que fiz isto tudo que o senhor aqui vê!... Tudo! – e mostrava-me o livro, acariciando-lhe a capa, a lombada, apontando para as páginas e respectivas manchas de texto, com um orgulho indisfarçável e uma alegria comovida de menino.

 

         Aqui, foi a minha vez de ser cruel:
         – O senhor é que escreveu esse livro?!

 

         – Eu!? – ofendeu-se o senhor Vieira. – Não senhor, homem!... Eu tinha lá “capitulância” para isso!... – e levando a mão ao bolso interior do blusão, retirou a carteira dos documentos, de onde separou a carteira profissional de tipógrafo e o bilhete de identidade que me fez confrontar, de modo a que me não restassem dúvidas sobre a idoneidade da sua pessoa, e eu soubesse, de uma vez por todas, com quem estava a falar.

 

         E assim fiquei a saber, de prova provada por uma requintadíssima minúcia de pormenores, como aquele livro foi todo ele feito por este senhor que eu tinha agora ali à minha frente.

 

         Digo: “todo ele feito”, e digo bem. Porque era à sua feitura de composição tipográfica (em chumbo, letra a letra), concepção gráfica, paginação, revisão e capa (a impressão e acabamentos couberam a outra tipografia), que Fernando dos Santos Vieira se referia e arrogava da autoria.

 

         O livro chama-se Terra do Pecado, e é a obra de estreia de José Saramago. A sua publicação remonta a 1947, e durante cerca de 50 anos foi título que andou rasurado na bibliografia do autor.

 

         Se outra razão não houvesse, esta razão bastaria para tornar aquele exemplar, ali, nas mãos espantadas do velho tipógrafo, numa verdadeira raridade bibliográfica, capaz de atingir uma cotação de mercado disputadíssima e alta. Mas essa, de todo era a importância – em todos os sentidos que na palavra “importância” possam caber ou haver – que o meu interlocutor lhe atribuía. Aquele livro, enquanto objecto físico em si, e para além da autoria e paternidade literária e estética de José Saramago – aquele livro era um filho seu, também. E um filho não tem cotação de mercado capaz de o amputar ao seu progenitor – mal seria, de parte a parte, se tal acontecesse.

 

         – Eu só queria conhecer o homem… – diz-me o senhor Vieira sem levantar os olhos do livro, que nunca deixou de folhear e acariciar, com a voz a toldar-se-lhe pela comoção. – Eu só queria conhecer o homem, para lhe dizer: «Veja lá o senhor, senhor Saramago, as voltas que a vida dá: o senhor ganha o Prémio Nobel, e fui eu quem fez o seu primeiro livro… O seu primeiro livro todo, inteirinho, duma ponta à outra, na tipografia da revista Vida Mundial!... Isto é de um tipo ficar chalupa!...»

 

*
*     *

 

         Imaginei o encontro do escritor cujos livros o tornaram conhecido, amado e celebrado por quantos cantos tem o mundo; o encontro do escritor agora laureado com o mais cobiçado dos prémios literários, e o seu hoje humilde, obnubilado e anónimo dona Estertipógrafo. Mas, também, o encontro desse outro e o mesmo homem – tal como o próprio Saramago o viria a descrever, referindo-se à sua peça de teatro Que Farei Com Este Livro? e a Luís Vaz de Camões, no Discurso Pronunciado na Academia Sueca, em 7 de Dezembro de 1998 –, esse mesmo homem, então obscuro para o mundo das letras, que José Saramago também foi (o mesmo José Saramago, que, ainda em 1978 ou 79, viu o original do seu romance Levantado do Chão ser recusado para publicação por uma importante editora portuguesa, e, em 1982, não teve lugar na mesa de honra das comemorações do 25 de Abril, na cidade de Santarém, em Portugal!), com a humildade orgulhosa de um autor que vai chamando a todas as portas à procura de quem esteja disposto a publicar-lhe o livro que escreveu, sofrendo por isso o desprezo dos ignorantes de sangue e de casta, a indiferença desdenhosa de um rei e da sua companhia de poderosos, o escárnio com que desde sempre o mundo tem recebido a visita dos poetas, dos visionários e dos loucos. Ao menos uma vez na vida, todos os autores tiveram ou terão de ser Luís de Camões, mesmo se não escreveram as redondilhas de «Sôbolos rios…»1 
        
         E imaginei o encontro desse José Saramago com o seu tipógrafo, então prestigiado e disputado chefe-tipógrafo, estimado e conhecido, famoso à escala do seu mundo – esse mesmo chefe-tipógrafo que, ao manuscrito de Terra do Pecado, teve que estudar a caligrafia, para depois lhe compor o texto letra a letra, revê-lo, paginá-lo, e proceder ao milagre de devolver e multiplicar a vida à vida das suas personagens, pela nobreza caligráfica da palavra impressa em letra de forma.  

 

         Imaginei tudo isso – só me faltava, agora, vê-los aos dois à conversa.

 

*
*     *

 

         Muito embora José Saramago vivesse há já alguns anos em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, o seu nome figurava ainda na lista telefónica da cidade de Lisboa. E essa bem poderia ser uma pista para se chegar a ele sem mais delonga. Disso mesmo dei conta ao meu interlocutor, convidando-o a voltarmos à pastelaria, onde poderíamos consultar a lista telefónica, e tomar outro café.

 

         – O senhor conhece o Prémio Nobel de Literatura?! – pergunta-me o senhor Vieira, com um riso incrédulo nos olhos. E era bem um riso incrédulo de menino, a espreitar por detrás das grossas lentes, o que eu vi naqueles olhos cansados do chumbo e dos componedores tipográficos.

 

         – Conheço. E terei o maior prazer em tudo fazer para que vocês se encontrem e se conheçam. Estou certo que o Saramago ficará tão feliz e tão comovido como o senhor Vieira está agora.

 

         – A sério, homem?!

 

         – Não tenho a mais pequena dúvida.

 

         Voltámos a entrar na pastelaria, encostámo-nos ao balcão, e o senhor Vieira pediu a lista telefónica e mais dois cafés.

 

         Peguei numa folha de papel e copiei da lista o número de telefone em nome de José Saramago.

 

         – Deixa-me tentar fazer uma chamada, senhor João?

 

         Reparei que, enquanto o senhor João me colocava o telefone em cima do balcão, a boa da dona Ester se benzeu e pôs as mãos em prece, comprimindo muito os nós dos dedos contra os lábios.

 

         Bebi o último gole de café, levantei o auscultador, e comecei a discar o número.

 

         – O senhor está a ligar para a casa do Prémio Nobel?! – quis saber o senhor Vieira, voltando a folhear e a acariciar o seu exemplar da Terra do Pecado.

 

         Fiz que sim com a cabeça, enquanto discava os últimos dígitos.

 

         Do outro lado, o telefone começou a chamar.

 

         – Senhor Vieira – disse eu –, o telefone está a funcionar.

 

         – Eh pá! – exclamou o senhor Vieira, apoiando-se ao balcão e voltando o olhar para o chão que lhe fugia debaixo dos pés. – Tenho as pernas a tremer que nem varas verdes!... Eh pá, olhe-me só para isto!...

 

         A boa da dona Ester, saindo do seu posto.

 

         – Ai, meu Deus, senhor Vieira!

 

         providenciou um copo de água onde dissolveu um pacote de açúcar.

 

         – Eh pá – insistia o senhor Vieira, ele próprio, entre surpreendido e divertido com a situação –, olha-me só para isto: a tremer que nem varas verdes aos 83 anos de idade!...

 

         – Beba, senhor Vieira – suplicou a boa da dona Ester, estendendo-lhe o copo. – O senhor tem andado muito fora de si, muito nervoso, com essa coisa do Nobel que deram ao comunista do Saramago…

 

         – E não é para um tipo ficar chalupa, acontecer-lhe uma coisa destas, na minha idade?!... – contrapôs o senhor Vieira. – E se o homem é comunista, só tem mais é que ser respeitado! Ladrões e bandidos tementes a Deus, desculpe-me que lhe diga, dona Ester, já nós cá temos de sobra!... Agora, Prémios Nobel!...

 

         – Por isso mesmo é que não se pode enervar, senhor Vieira – admoestou-o a boa da dona Ester, alvitrando: – Beba um bocadinho de água com açúcar, que lhe faz bem às varas verdes do nervoso. E não ligue a essas coisas do Nobel, que a gente nem sabe o que são!...

 

         O senhor Vieira deixou de tremer das pernas, esquecido da razão do telefonema que eu tentava fazer, para abanar a cabeça da esquerda para a direita, e da direita para a esquerda, seguindo, com o seu olhar ofendido, o regresso da boa da dona Ester ao seu posto, atrás da máquina registadora.

 

         Ninguém me atendeu do outro lado da linha, e a ligação telefónica acabou por ser encaminhada para o gravador de chamadas.

 

         Desliguei o telefone, e continuei à conversa com o velho tipógrafo.

 

         Sentámo-nos a uma mesa que entretanto vagara. Trocámos números de telefone e moradas:
         – Aqui tem o meu telefone – disse eu, entregando-lhe uma folha de papel –, e o contacto do Saramago, em Lisboa…

 

         – Eh pá, eu não sou capaz de ligar para o homem! – disse-me o senhor Vieira, dobrando a folha de papel, que colocou junto à sua carteira profissional, na carteira dos documentos.

 

         – Ligue, senhor Vieira – insisti eu. – O Saramago é uma pessoa simples, e vai ficar felicíssimo ao conhecer essa sua história, que é um belo pedaço da história dele, também!... E depois, senhor Vieira, já reparou que este vosso encontro, a concretizar-se – e eu espero bem que sim! –, pode ser até, na História do Prémio Nobel de Literatura, a primeira vez que um escritor galardoado se encontra com o tipógrafo do seu primeiro livro?!

 

         – Porra, senhor Zetho, nem me diga uma coisa dessas!... Com essa é que eu pirava de vez!...

 

         – Mas corre sérios riscos, senhor Vieira… não digo de pirar de vez da bola, mas de ir parar ao Guiness!...

 

         A conversa e a narração de peripécias da vida de Fernando dos Santos Vieira continuaram até à hora do almoço. Combinámos encontrar-nos mais vezes (éramos, afinal, vizinhos!), e ficou assente que, pela minha parte, iria fazer tudo que estivesse ao meu alcance para promover o encontro entre os dois: o escritor e o seu tipógrafo, cinquenta anos depois.

 

         À despedida, pergunto-lhe:
         – O senhor Vieira não se importa de dar uma entrevista sobre esta sua aventura com o primeiro livro do José Saramago?

 

         – Oh senhor Zetho, claro que não! – e saiu, para ir almoçar com o filho.

 

         Fui à caixa pagar o telefonema e os cafés. A boa da dona Ester não resistiu:
         – Como é que o senhor Zetho conseguiu tirar aquela maluqueira do Nobel e do livro, da cabeça do senhor Vieira?!...

 

         – Foi fácil – ripostei eu, com o melhor humor que pude: – desenfeiticei aquilo tudo!

 

         – Abençoado seja, senhor Zetho!

 

         – Até logo, dona Ester.

 

         – Até logo, senhor Zetho, e que Deus o guarde.

 

         A caminho da porta, ainda ouvi a boa da dona Ester comentar para alguém:
         – Graças a Deus que o senhor Zetho conseguiu desenfeitiçar aquela coisa do Nobel e do comunista do Saramago, da cabeça do senhor Vieira!...

 

*
*     *

 

         Dois ou três dias depois, no Bar que nunca foi Bar, mas que foi, durante anos, o nosso escritório das horas de passagem e de encontro, falei desta estória, e da eventual entrevista ao seu protagonista, ao meu amigo, o poeta e jornalista moçambicano Luís Carlos Patraquim.

 

         – Eh pá, camarada Zetho – diz-me ele, sentencioso, no breve intervalo entre duas dessedentosas cervejas –, isso são delírios de velho! Sei bem o que isso é.

 

         E começou a assobiar o I Love Paris In The Morning.

 

         Não foi fácil convencer o meu querido amigo Luís Carlos Patraquim (no sábio parecer do saudoso poeta, e também moçambicano, José Craveirinha, «um barril de desperdícios»), de que aquela estória era verdadeira, comprovada por documentos irrefutáveis. E mesmo fazê-lo deslocar-se do Largo da Misericórdia ao Largo da Graça – breve e rápida viagem, de uma das sete colinas de Lisboa, a outra –, só para entabular conversa e comprovar por si da veracidade, ou não, da estória de Fernando Vieira e do livro inaugural da obra de José Saramago, foi coisa difícil de conseguir que acontecesse.

 

         Até que chegou o dia. E, então, com os seus próprios olhos e ouvidos, Luís Carlos Patraquim encantou-se daquela personagem e da sua narrativa de vida – que não eram, afinal, delírios de velho.

 

         E foi assim, que, por uma tarde de meados de Outubro de 1998, no primeiro andar do n.º 127 do Largo da Graça, nasceu a entrevista a Fernando dos Santos Vieira, «O Tipógrafo de José Saramago».

 

         Assinada por Luís Carlos Patraquim e pelo autor destas linhas, a referida entrevista (que se reproduz na sua íntegra, no capítulo seguinte) viria a ser publicada no suplemento «Vidas» do jornal Expresso, de Lisboa, a 6 de Novembro de 1998.

 

         E esta é a sua verdadeira biografia, na inevitável memória breve para uma longa estória.

 

*
*     *

 

         Enquanto vivi no Largo da Graça, continuei a conviver com Fernando Vieira. E, muitas vezes, também Luís Carlos Patraquim, vindo do seu subúrbio de Santo António dos Cavaleiros, compareceu à conversa.

 

         Foram tardes maravilhosas, aquelas, ali a ouvir, pela voz e pelo humor do velho tipógrafo, o gotejar dos tempos numa memória encantada pela muita vida, e pela cidade de Lisboa, sempre, com todos os seus segredos escancarados à flor do riso.

 

         Tanto eu como Luís Carlos Patraquim (poeta então também publicado pela Editorial Caminho) intercedemos junto do editor Zeferino Coelho – não só na sua qualidade de editor de José Saramago, mas também na sua qualidade de amigo pessoal do autor de Memorial do Convento –, para que contornasse aquela sobrecarga verdadeiramente inumana de solicitações e compromissos que era a agenda de José Saramago, e implementasse (para utilizar um termo que o meu amigo Patraquim adora!) um encontro de memórias e afectos, entre o escritor e o seu tipógrafo.

 

         Acontece, porém, que a sobrecarga da agenda do editor Zeferino Coelho era tão inumana quanto a de José Saramago. E nunca os astros se conjugaram de modo a que o encontro acontecesse, como mereciam José Saramago e Fernando dos Santos Vieira: numa prosa lenta e sem cronómetro para a Vida.

 

Nota:

 

1 SARAMAGO, José. Discursos de Estocolmo. Lisboa: Editorial Caminho, 1999, pp. 20-21.

 

 

Zetho Cunha Gonçalves nasceu na cidade do Huambo, em Angola, a 1 de Julho de 1960. Passou a infância e adolescência no Cutato (pequena povoação na Província do Cuando-Cubango, onde concluiu a instrução primária).
Foi aluno do Colégio Alexandre Herculano, na cidade do Huambo, e estudou Agronomia na extinta Escola de Regentes Agrícolas de Santarém, em Portugal.
Poeta, autor de literatura para a infância e juventude, ficcionista, antologiador, tradutor de poesia e organizador de edições, exerceu várias profissões: de tratador de gado numa fazenda a empregado de escritório, de vendedor de publicidade e publicitário a director adjunto de um jornal de turismo falido, de empregado de mesa em restaurantes e pesquisador de notícias para uma empresa da especialidade a intermediário e conselheiro de bibliófilos. Foi coordenador da página literária Casa-Poema da Língua Portuguesa no jornal Plataforma, de Macau, e coordena actualmente a secção cultural da revista África 21. É membro da União dos Escritores Angolanos.
Tem traduções para alemão, chinês, espanhol, hebraico e italiano, e colaboração dispersa por jornais e revistas de Angola, Brasil, Espanha, Macau, Moçambique e Portugal. Tem participado em vários colóquios e encontros literários em Portugal, Brasil, Cuba e Itália. O seu nome foi proposto para Prémio Nobel de Literatura 2018 (2019).
Está representado nas seguintes antologias, obras colectivas ou livros-catálogo: Vozes Poéticas da Lusofonia, de Luís Carlos Patraquim, 1999; António Prates: Percursos de Um Sonho. Fotobiografia, de Alexandra Silvano Prates e António Prates [Org.], 2007; Sonhos d’Agora e Também d’Outros Tempos, de Roberto Chichorro, 2009; Divina Música: Antologia de Poesia Sobre Música, de Amadeu Baptista, 2009; Coletânea Prêmio OFF FLIP de Literatura 2009, de Ovídio Poli Junior [Org.], 2010; Pensando África. Literatura, Arte, Cultura e Ensaio, de Carmen Lucia Tindó Secco, Maria Teresa Salgado e Silvio Renato Jorge [Org.], 2010; Histórias Pintadas de Azul, de Roberto Chichorro, 2010; Hinc Illae Lacrimae! – Studi in memoria di Carmen Maria Radulet, 2 Vol. A cura di Gaetano Platania, Cristina Rosa e Mariagrazia Russo, 2011; Conversas de Homens no Conto Angolano: Breve Antologia (1980-2010), de António Quino [Org.], 2011; Balada dos Homens Que Sonham: Breve Antologia do Conto Angolano (1980-2010), de António Quino [Org.], 2012; Da África e Sobre a África: Textos de Lá e de Cá, de Emilia Machado, Mariucha Rocha, Ninfa Parreiras e Vânia Salek, 2012; Depois do Silêncio: Escritos Sobre Bartolomeu Campos de Queirós, de Lucilia Soares & Ninfa Parreiras [Org.], 2013; A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua: Antologia Poética, de Amosse Mucavele [Org.], 2013; Mögen Pitangas Wachsen. Literatur aus Angola: Ein Zweisprachiges Lesebuch (antologia bilingue português-alemão: Oxalá Cresçam Pitangas. Literatura de Angola: Um Livro Bilingue). Herausgegeben von Ineke Phaf-Rheinberger; Übersetzung aus dem Angolanischen Portugiesisch: Bárbara Mesquita, Leipzig: Poetenladen, 2014; Mapas Literários: O Rio em Histórias, de Ninfa Parreiras [Org.], 2015; Pássaros de Asas Abertas, de António Quino e Margarida Gil Reis [Org.], 2015; Angola 40 Anos − 40 Contos – 40 Autores, de Arlindo Isabel [Org.], 2015; O Sol É Secreto: Poetas Celebram Eugénio de Andrade, de Carlos d’Abreu [Org.], 2019; Cartas Sem Resposta, de Ninfa Parreiras [Org.], no prelo.
Vive actualmente em Lisboa, dedicando-se inteiramente à literatura.

OBRAS DO AUTOR

POESIA

Exercício de Escrita, 1979
Coração Limite / Sobre a Sombra do Corpo, 1981
A Construção do Prazer / Reportagem do Silêncio, 1981
O Incêndio do Fogo, 1983
O Outro Mapa da Terra, ed. manuscrita, exemplar único, 1997
O Voo da Serpente, ed. manuscrita, 12 exemplares, com 4 desenhos originais do autor, 1998
A Palavra Exuberante, 2004
Sortilégios da Terra: Canto de Narração e Exemplo, 2007
Rio Sem Margem: Poesia da Tradição Oral, 2011
Terra: Sortilégios, 2013
Rio Sem Margem: Poesia da Tradição Oral. Livro II, 2013
Noite Vertical, 2017
O Sábio de Bandiagara: Esconjuros, Ebriedades e Ofícios, 2018
O Leopardo Morre Com as Suas Cores, no prelo

LITERATURA INFANTIL E JUVENIL

Debaixo do Arco-íris Não Passa Ninguém (poemas), ed. brasileira, 2006
A Caçada Real (teatro), 2007; ed. brasileira, 2011; ed. moçambicana, 2013
Brincando, Brincando, Não Tem Macaco Troglodita (poemas), ed. brasileira, 2011
A Vassoura do Ar Encantado (estória), ed. brasileira, 2012
A Semana dos Sete Poemas do Papagaio de Cabinda (poemas), ed. angolana, 2012
Dima, o Passarinho Que Criou o Mundo: Mitos, Contos e Lendas dos Países de Língua Portuguesa (antologia), ed. brasileira, 2013
Rio Sem Margem: Poesia da Tradição Oral Africana, ed. brasileira, 2013
A Minha Primeira Leitora (conto), in: Mapas Literários: O Rio em Histórias, de Ninfa Parreiras, 2015
Com o Cágado Ninguém Brinca (conto), in: Pássaros de Asas Abertas, de António Quino e Margarida Gil Reis, 2015
A Filha do Sol e da Lua (conto), in: Angola 40 Anos − 40 Contos – 40 Autores, de Arlindo Isabel, 2015
A Galinha-de-Angola Que Punha os Ovos no Telhado (poemas), a publicar
Aqui Há Dinossauro (conto), a publicar
A Serpente Que Dançava Para Mudar de Vestido (poemas), a publicar
Relojoeiro de Palavras (poemas), a publicar

TRADUÇÃO DE POESIA

O Desejo É Uma Água, de Antonio Carvajal, 1998
Altazor: Canto II, de Vicente Huidobro, 2012
3 Poemas, de William Carlos Williams, 2012
22 Poemas, de Joan Brossa, 2012
15 Poemas, de Rainer Maria Rilke, 2012
Sete Poemas, de Friedrich Hölderlin, 2012
Chora, Ó Negro, Irmão Bem-amado, de Patrice Lumumba, 2018
A Poesia É Um Atentado Celeste, de Vicente Huidobro, no prelo
Transversões, no prelo

ORGANIZAÇÃO DE EDIÇÕES

Corpo Visível, de Mário Cesariny, ed. especial, 1996
Obra Poética, de Luís Pignatelli, 1999
Uma Rosa na Tromba de Um Elefante, de António José Forte, 2.ª ed., 2001
Uma Faca nos Dentes (Obra Poética), de António José Forte, com Prefácio de Herberto Helder e desenhos e fotografias de Aldina, 2003
Breve História da Mulher e Outros Escritos, de Natália Correia, com Prefácio de Maria Teresa Horta, 2003
A Estrela de Cada Um, de Natália Correia, 2004
Entrevistas a Natália Correia, de Antónia de Sousa, Bruno da Ponte, Dórdio Guimarães e Edite Soeiro, 2004
Contos Inéditos e Crónicas de Viagem, de Natália Correia, 2005
Os Brasileiros, de Eça de Queiroz (em col. com Eduardo Coelho), ed. brasileira, 2008
Contos, Fábulas & Outras Ficções, de Fernando Pessoa, 2008; Tradução italiana de Virgina Caporalli, com o título La Vita non Basta. Racconti, favole e altre prose fantastiche, 2010
Impia Scripta, de Luís Carlos Patraquim, 2011
Contos Completos, de Fernando Pessoa, 2012; ed. brasileira com o título Um Grande Português. Contos, Fábulas & Outras Histórias, 2012; ed. brasileira com o título Contos Completos, 2018.
Manual Para Incendiários e Outras Crónicas, de Luís Carlos Patraquim, 2012
Bonsoir, Madame (Obra Poética), de Manuel de Castro, 2013
Notícia do Maior Escândalo Erótico-Social do Século XX em Portugal, de Fernando Pessoa, Álvaro Maia, Raul Leal (Henoch) e outros, 2014
Sete Poemas Inéditos, de Natália Correia, 2015
Sete Poemas Inéditos, de Ruy Cinatti, 2015
A Pedra-que-Mata. Poesia Japonesa: Uma Antologia do «Período Primitivo» ao «Estilo Moderno», de Luís Pignatelli, 2016
O Senhor Freud Nunca Veio a África, de Luís Carlos Patraquim, 2017
Fernando Pessoa: Um Retrato Fora da Arca. Cartas, Ensaios, Poemas, Testemunhos, Memórias, Inéditos, de Fernando Pessoa e outros, 2018
Paixões & Aventuras de Fernando Pessoa Para Jovens Irreverentes (literatura juvenil), de Fernando Pessoa, no prelo
Os 47 Poemas de Vida de Fernando Pessoa: Antologia de Cabeceira, a publicar
Poemas Traduzidos, de Luís Pignatelli, a publicar
Cartas a Salazar & Outras Epístolas a Caeiro da Mata, John Fitzgerald Kennedy, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa e Aleister Crowley, de Raul Leal (Henoch), a publicar
Obra Poética, de José Sebag, a publicar
Dadá Dadá Dadá – 1914-1970, de Mário Cesariny, a publicar
Esta Cabeça Não É Minha. A (Im)possível História do Chamado Grupo do Café Gelo, de António Barahona, António José Forte, Carlos Loures, Eduardo Valente da Fonseca, Ernesto Sampaio, Fernando Saldanha da Gama, Goulart Nogueira, Henrique Varik Tavares, Helder Macedo, Herberto Helder, João Fernandes (Zanaga), José Carlos González, José Manuel Simões, José Sebag, Luiz Pacheco, Manuel de Lima, Maria Helena Barreiro,  Luís Pignatelli, Manuel de Castro, Mário Cesariny, Máximo Lisboa, Raul Leal (Henoch), Virgílio Martinho, Vitor Silva Tavares; Benjamim Marques, Gonçalo Duarte, João Rodrigues, João Vieira, José Escada, Lurdes Castro, Manuel Cargaleiro, Manuel d’Assumpção, René Bértholo, e outros, em preparação 

ANTOLOGIAS

35 Poemas Para 35 anos de independência, 2010
Antologia de Contos Africanos de Língua Portuguesa [ed. brasileira], no prelo
Antologia do Conto Angolano (em col. com João Melo), no prelo
Antologia da Poesia Angolana, a publicar Poesia Africana de Língua Portuguesa (em col. com Luís Carlos Patraquim), a publicar

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


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Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Março de 2019:

HENRIQUE DÓRIA, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, André Nogueira, Artur Alonso, Augusto César, Berta Lucia Estrada, Caio Junqueira Maciel, Fabián Soberón, Fernando Maia da Motta, Gabre Valle, Gerardo Burton; Rolando Revagliatti, I Mulherio das Letras, Joel Henriques, Jorge Castro Guedes, Jorge Elias Neto, Jorge Miranda, José Ioskyn, Leila Míccolis, Luís Henriques, Luísa Demétrio Raposo, Maraíza Labanca, Maria Manuela Jardim, Marinho Lopes, Nayara Fernandes, Nuno Rau, Octavio Perelló, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Rocío Prieto Valdivia, Thiago Ponce de Moraes, Zetho Cunha Gonçalves


Foto de capa:

'Frevo', Cândido Portinari, 1956


Paginação:

Nuno Baptista


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