ANO 5 Edição 78 - Março 2019 INÍCIO contactos

Artur Alonso


O Brasil tem de converter-se num grande ator global    

Os tristes dias pelos que está transitar o Brasil, dentro dos ciclos menores de expansão e contração, pelos que atravessa em um determinado momento, uma determinada comunidade; está a focar a atenção do país nas suas próprias misérias internas. A sombra negra da divisão irreconciliável e da polaridade  estende seu manto por toda as camadas sociais. Fomentando a separabilidade entre irmãos e irmãs, que deveriam em harmonia criar a rede de força que movimente um grande, imenso, poderoso, fortalecido e amoroso país. Essa sensação de confronto, fomentada desde certas elites políticas, empresariais e mesmo culturais (e sobre dimensionada por uma Mídia totalmente sensacionalista), é um sintoma claro da falta de visão global dos verdadeiros poderes brasileiros e da própria decadência do projeto nacional (assim como do ainda não ultrapassado acervo mental, do extenso neocolonialismo vivido ate épocas muito recentes). Acontece a América do Sul obter no século XIX uma independência política, mas não económica, ficando pressa de vassalagem real, primeiro a Grã  Bretanha e depois dos EEUU (os quais consideravam o continente como seu pátio das traseiras, sendo o mesmo Brasil a “porta de entrada a fazenda”).

 

A princípios do século XXI, a América do Sul, baixo o comando firme de Brasília parecia abandonar definitivamente a tutela norte-americana e rumar, baixo o guarda chuvas do BRICS, a jogar nas grandes ligas globais, onde no (nosso desgraçado mundo de confronto pelas hegemonias, ainda vigente na humanidade) se discutem os grandes temas, que afetam ao mundo. Mas, pela contra, em estes últimos cinco anos, as elites globais financeiras do ocidente parecem de novo ter iniciado a retoma do Pátio Sul Americano das traseiras. O continente aparenta rumar à entrega parcial ou total da sua soberania e património. Condensando em mãos de grupos de investimento estrangeiros suas mais valias materiais e mesmo imateriais.

 

O Brasil como centro continental e porta de entrada à região é vital na realização deste plano de imposição, aos povos sul-americanos, duma nova e forçada vassalagem, definitivamente atrelada ao poder financeiro privado do Ocidente globalista.

 

Do mesmo jeito também o Brasil converteu-se já numa peça chave para os BRICS, na sua tentativa de  fomentar um poder multi-global que concorra com o poder unilateral ocidental. Mas o que Brasil precisa é criar quanto menos uma terceira via. Essa terceira via que procure, ainda que for, um difícil acomodo mundial que evite um confronto planetário, entre estes dois poderes encontrados (mais homogéneo e ocidental, com mais heterogeneidade dentro dos emergentes BRICS).

 

O problema foi que a contrário da Rússia, o Brasil não tinha (ainda não tem) projeto de poder regional ou global (mais parecido com a Índia, aparenta encolhido sobre suas próprias fronteiras, mesmo assim a Índia é muito mais ciosa da sua Independência real). No caso da Rússia, a famosa frase do seu máximo mandatário, Vladimir Putin: “… aqueles (referindo-se aos cidadãos  russos) que não sentem saudades da União Soviética não têm coração, aqueles que acreditam que nós devêramos voltar aos tempos da União Soviética não têm cabeça...” resume perfeitamente a capacidade de integração histórica, política e social, num projeto de continuidade, no que respeita à projeção internacional da Rússia, além fronteiras…  Somente dirigentes que têm a capacidade de unir seu povo (conciliando-o, por cima das divisões partidárias da base, no lógico acomodo - concorrência, entre os diversos sectores de interesses diferentes, no interior do país) podem assumir a chefia dum país que sonha ser grande. 

 

Parecera que o Brasil não estivesse preparado para esse repto maior e, no entanto, tanto, a cidadania brasileira em seu conjunto tem desenvolvido um amor a seu território, cultura e identidade, que criam uma unidade muito por cima das rivalidades políticas atuais.

 

Esse mesmo amor, desenvolvido com sabedoria permitiria ultrapassar, sem muita dificuldade, o marco atual de confronto; criando um novo marco inovador em favor da consagração do poder regional e global brasileiro, no exterior (para o qual é indispensável a unidade interior em torno dum projeto país – continente); assim como o fortalecimento do entendimento e diálogo permanente no interior…

 

Por sua vez, o país da Amazónia, tem um grande problema de falta de Grupos Especialistas em fomentar Ideias e Pensamento, os famosos Think Thanks; o mais importante agora seria criar precisamente um Think Thank que trabalhará em favor da unidade esquerda – centro – direita em um projeto real, factível e realizável de Independência política – económica do país. Grupos e organizações que ponham em valor a consagração dos recursos cientifico – tecnológicos, patrimoniais, culturais, ecológicos, económicos… No intuito de assegurar que estes não sejam entregues a poderes estrangeiros ao serviço de escuras agendas (por parte duma elite local com mentalidade pequena), cuja centralidade e realização dependam de tomadas de decisão, que estejam, na prática, a milhares de quilómetros da nação.  

 

Se não rumar, toda a sociedade e suas elites, em este sentido de unidade – confraternização, os brasileiros e brasileiras acordarão algum dia vendo suas indústrias energéticas em mãos de investidores privados internacionais, seu Banco Central em mãos de banqueiros globais, seu património florestal e cultural dependente de centros de controlo no exterior. Sua riqueza mineira, das maiores do mundo, fora do seu controlo. Deixando Brasília na prática atada às políticas monetárias e decisões estratégicas, levadas à frente desde Washington ou Londres, e urdidas em salões privados, muito perto de Wall Street, Shangai ou Beijing. 

 

O Brasil tem também uma responsabilidade com a humanidade como guardião dum basto património natural, humano e cultural, que deve ser preservado. Assim como o não menos importante e já, a cada dia mais conhecido, património espiritual... A única forma de lograr esta Independência passa pela emancipação aos poderes alheios e a reconexão do imaginário coletivo num projeto fraterno e cívico (que unifique sectores, permita discrepância harmônica e vitalize a inclusão de propostas inovadoras, em torno a mesas de diálogo, tanto no nível acadêmico como social e político).

 

À sua vez o país é chave, também, como ponta de lança indispensável para a consolidação dum espaço lusófono, mais visível internacionalmente, desde a CPLP – hoje tristemente transformada quase que um clube de negócios – mas que, por própria evolução biológica, em algum momento deve voltar à sua essência, muito eticamente inseminada, por pensadores, da categoria de Agostinho da Silva ou Aparecido de Oliveira, para citar algus exemplos
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Muitas pessoas no mundo trabalham para essa futura confraternização da humanidade, da qual a Lusofonia terá de ser uma coluna basilar. Pois fielmente são essas mentes maravilhosas que, ciclicamente, iniciam toda a mudança, por meio de insuflar amor nas mentes da cidadania.

 

As pessoas que podem mudar estas inércias serão verdadeiramente chamados de servidores da humanidade. Esses grupos de pessoas ao serviço da paz global, que agora estão também a ajudar a criar forças de união para um novo Brasil (mais evoluido científica, técnologica e espiritualmente); tal como afirmava Alice A. Bailey surgem de todos os estratos sociais.

 

Assim o referia a grande pensadora norte-americana, falando do grupo de “Servidores do Mundo”: … “ Portanto, os verdadeiros servidores de todas as partes pertencem a este grupo, quer prestem serviço no campo cultural, político, científico, religioso, filosófico, psicológico ou financeiro. Constituem parte, saibam ou não, do grupo interno de trabalhadores para a humanidade (…) Estes grupos não demonstrarão nenhum senso de separatividade, nem terão ambição pessoal ou grupal; reconhecerão sua unidade com tudo o que existe e permanecerão diante do mundo como um exemplo de vida pura, criadora e construtiva, de atividade criadora subordinada ao propósito geral, de beleza e inclusividade”.

 

Em uma humanidade em que ainda existem estados e fronteiras, em que ainda existe medo do diferente, em que ainda prevalece o teu e o meu e, pelo tanto, os muros de contenção… Não pode haver ainda uma grande e correta evolução, tal como nosso desenvolvimento material já permite. Podemos ter grandes avanços científicos e tecnológicos, mas eles, em último caso, estão ao serviço dos senhores do capital e não da população. Pode haver grupos com grande consciência dos problemas vários e, das várias crises interligadas (ecológicas, económicas, sociais, energéticas, políticas) que surgem todas da crise global sistémica e da crise de valores… Pode mesmo haver grupos de pessoas com uma consciência ética elevada, que possam vislumbrar que estas crises interligadas são em realidade os sintomas dessa crise mais ampla, de raiz única: a crise do modelo de guerra e dominação que ainda comanda a humanidade. Modelo predatório, a substituir pelo modelo de Ajuda Mútua, Perdão – Reconciliação: Confraternização.

 

O Cristo Redentor do Rio de Janeiro é precisamente o simbolismo perfeito desta alegoria. Uma humanidade que já atingiu o patamar da física liberdade, simbolizada pela Estátua da Liberdade; passou agora à escravidão sensorial, para viver a escravidão dos instintos, a sexualidade mal entendida, a sensualidade e a materialidade onírica... Essa humanidade ainda não comprendeu o que realmente siginifica o fogo vital que arde na chama da Libertação verdadeira, impossível de realizar sem uma pacificação tripla: individuo (pacificação interior) sociedade-natureza (pacificação exterior dos homens entre si e com o entorno) e comunhão (pacificação das culturas, renligiões, formas de ver e enteder o mundo, mediante o diálogo aberto, sincero e permanente)... Isso deve construir-se ganhando a paz na mente das verdadeiras vanguardas.  

 

Pode haver mesmo grupos de pensamento que já rumam à confraternização mundial: queda de todo tipo de barreiras e fronteiras, começando pelas mentais… No entanto, esse pensamento não permeia todavia ao resto das elites e menos ao grosso do povo comum. Assim, isto demonstra que vivemos ainda muito longe dum patamar evolutivo que nos permita eliminar para sempre o fantasma permanente da guerra.

 

Entendamos, por sua vez, que não podem ser levantados os muros, barreiras das nações sem antes ultrapassar a mentalidade de confronto e medo pela sobrevivência, ainda permanente na humanidade. Entendamos que essa transição e abertura de consciência, tem seus tempos, suas cadências, seus ritmos até assentar em todo o tecido social... Por isso é preciso um centro novo mundial que comece a implementar esse novo pensamento.

Daí que precisamos criar um centro geográfico novo, que dinamize estas novas tendências, um novo centro civilizacional, desde o qual possamos irradiar esta nova conceção ético-ecológica a toda a humanidade. E neste sentido, o Brasil tem uma possibilidade e capacidades imensas que, se superar com acerto estas provações momentâneas da sua história atual, sem duvida desabrochão para o serviço de toda à humanidade…  Sem esquecer como dizia Sri. Ramakrishna, que: “O conhecimento leva à unidade, assim como a ignorância à separação”

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Revista InComunidade, Edição de Março de 2019


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Paginação:

Nuno Baptista


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