ANO 5 Edição 77 - Fevereiro 2019 INÍCIO contactos

Myrian Naves


Sentimento de Minas: uma coletânea de poesia, prosa e arte mineira em 2019, sob a circunstância da mineração    

[Ó MG! 2019. Rita Lessa.]

 

Considerações

 

Sobre esta coletânea e suas circunstâncias, Myrian Naves.

 

1.

 

Sérgio Eustáquio Neto

 

Avaliação mínero-geoambiental da Mina de Gogo Soco para fins de descomissionamento – Propostas

 

2.

 

Rita Lessa

 

Ó MG! 2019. Rita Lessa, imagem.

 

Inassimilável - Brumadinho/ 2019, imagem.

 

Depoimento

 

3.

 

Carlos Drummond de Andrade
 
Áporo

 

Entrevista a Luiz Fernando Imediato

 

Confidência do Itabirano

 

Lira Itabirana

 

4.

 

Alcione Araújo:

 

Pássaros de vôo curto, romance, fragmentos.

 

Ventania, romance, fragmentos.

 

5.

 

Agripa Vasconcelos

 

Gongo-Sôco: Romance do Ciclo do Ouro nas Minas Gerais, fragmento.

 

6.

 

Ricardo Aleixo

 

A doença como metonímia

 

Em Necrópolis

 

7.

 

Luís Fernando Emediato:

 

Entrevista com Carlos Drummond de Andrade, fragmento.

 

8.

 

Jayme Reis

 

Imagem feita por um habitante de Itabira, em Minas Gerais, 1970, foto.
Paisagem itabirana, imagem.

 

Paisagem Mineral, imagem.

 

Conservação, imagem.

 

Depoimento

 

9.

 

Thais Guimarães

 

Lama na alma

 

10.

 

Ronald Cláver

 

Curral Del Rey

 

Cançao Urbana

 

11.

 

Cecília Meireles

 

Romance I ou Da revelação do ouro  Romanceiro da Inconfidência. In: Romanceiro da Inconfidência, Editora: Nova Fronteira. 1989.

 

12.

 

Silvana Guimarães:

 

 Ophelia

 

13.

 

Cláudio Manuel da Costa:
(pseudônimo Glauceste Satúrnio)

 

 “Fundamento Histórico”, VILA RICA, fragmento.

 

14.

 

Antônio Barreto
 
BRUMADO (BALADA DA ALMA LAVADA NA LAMA)

 

15.

 

Myrian Naves

 

Própria Lavra

 

Why?

 

16.

 

Joaquim Norberto de Sousa Silva

 

História da Conjuração Mineira. Tomo I, fragmento.

 

17.

 

Guimarães Rosa

 

Minas

 

18.

 

Jarbas Sertório de Carvalho

 

Visita do Imperador D. Pedro II ao município de Ponte Nova (Minas Gerais) em 30 de junho de 1886, fragmento.

 

19.

 

Cristina Ávila

 

De Lamã  a lama

 

20.

 

Romério Rômulo

 

minas se dissolve

 

21.

 

Caio Junqueira Maciel

 

SÃO SEBASTIÃO DAS ÁGUAS CLARAS


22.

 

Domingos Mazzilli

 

Sem título – assemblage – minério de ferro, mãos de biscuit, santo de madeira e fruteira de vidro – imagem.

 

Posfácio

 

E agora José? Derramamento de Lama Tóxica em Minas Gerais, Cristina Ávila.

 

*** 

 

CONSIDERAÇÕES

 

Sobre esta coletânea e suas circunstâncias

 

Myrian Naves

 

Em um momento de reflexão pretendi reunir e publicar uma pequena mostra da arte e da Literatura Brasileira que poderia bem traduzir o sentimento do povo das Minas Gerais em relação à realidade mineradora que lhe dá nome e História, especialmente nesse momento. Uma realidade inequívoca deste estado brasileiro onde desde janeiro deste ano se dá a maior tragédia da mineração no país.
O rompimento de uma barragem de rejeitos de minério provocou a tragédia em Brumadinho e vai deixando um rastro de destruição no lugar e pelo Rio Paraopeba e seus afluentes, um deles, o São Francisco, , o rio da integração nacional. Aconteceu após três anos da tragédia de Mariana, reconhecida como a pior tragédia ambiental do país, em que também uma barragem se rompeu, transtornando a vida da população do lugar e por onde passa o Rio Doce e afluentes até chegar ao mar. Hoje todo mineiro sabe que a gestão dos rejeitos é uma questão que exige fiscalização criteriosa, articulada bem antes da decisão de concessão de lavra a qualquer empresa e que tal gestão deve durar para sempre.

 

Com a perda de tantas vidas, com os danos ambientais: o comprometimento dos rios, da terra _ fauna e flora, os fatos causadores da tragédia trouxeram questões cruciais ao centro da discussão.O estado de Minas tem 428 barragens de rejeitos, 163 em estado preocupante, segundo dados veiculados em 21.02.2019 pela Rede Minas de TV, orgão do governo do estado. Neste momento todas as barragens sob fiscalização. A situação se agrava a cada dia, em um segundo momento moradores de várias localidades vão sendo retirados de suas casas após alertas sobre o perigo das barragens de rejeitos em suas regiões. Haverá nisso a intenção de desautorizar essas áreas à moradia e de preparar o terreno para que as mineradoras comprem essas terras? Não sabemos ainda.  Não houve prevenção o suficiente para evitar as tragédias, mas o aprendizado pela dor parece profundo e perene, e, dada a consternação e o enlutamento de todos, prenuncia mudança de paradigma.

 

Historicamente há questões como a escravidão do negro, explorado à exaustão também pela mineração no país, e do indígena. No século XX há a utilização da mão de obra não-técnica, barata, advinda da exploração do trabalho local; atualmente também outra ferramenta de produção é utilizada, a terceirização da mão de obra.

 

Ao longo do Rio Paraopeba, em terras indígenas, os danos foram sentidos como a morte de toda tribo, já que a cultura indígena tem a clara consciência de que a morte do rio, sagrado para eles, é a morte de tudo que vive ali, indiscernível.

 

Gostaria de citar aqui Geovani Krenak, representante da etnia Krenak, nascido na cidade mineira de Resplendor, banhada pelo Rio Doce. Ele declarou à imprensa:

 

Com a gente não tem isso de nós, o rio, as árvores, os bichos. Somos um só, a gente e a natureza, um só (…) Morre rio, morremos todos.

 

É dito corrente que a Literatura Brasileira de Minas Gerais é feita de profundidade e depuração. Parte da identidade mineira tem aspectos ligados à natureza, a seus rios, montanhas e às raizes e tradições culturais, mas também ligada a um conflito dual vinculado à exploração dos bens minerais e do homem.

 

Nesta mostra, estão, entre a poesia e a prosa literária, também textos técnicos, informativos e históricos que podem referenciar a leitura. Há também as imagens das artes plásticas, de artistas mineiros contemporâneos, fragmento de uma entrevista, depoimentos pessoais.

 

No exerto abaixo _ extraído de texto acadêmico sobre o assunto específico; o fragmento escolhido, sobre a região do Quadrilátero Ferrífero, pode dar conta de introduzir algumas informações sobre esse veio que nos leva a pensar as Minas Gerais. É uma coletânea sobre a condição desse homem e seu lugar. Traz aos leitores um pouco do sentimento de Minas, aqui traduzido. Entremeando textos, costurando o sentimento, vem a poesia de Carlos Drummond de Andrade.

 

Os artistas, escritores, poetas cujos textos entraram nesta coletânea, são, nesta ordem: Rita Lessa, Carlos Drummond de Andrade, Alcione Araújo, Agripa Vasconcelos, Ricardo Aleixo, Luís Fernando Emediato (como jornalista, em entrevista de Carlos Drummond de Andrade), Jayme Reis, Thais Guimarães, Ronald Cláver, Cecília Meireles, Silvana Guimarães, Cláudio Manuel da Costa, Rita Lessa, Antônio Barreto, Myrian Naves, Guimarães Rosa, Romério Rômulo, Cristina Ávila, Caio Junqueira Maciel, Domingos Mazzilli. Aqui me incluo, agradecendo que aceitem minha contribuição.

 

Além dos artistas e escritores citados, foram utilizados texto técnico de Sérgio Eustáquio Neto e histórico, de Joaquim Norberto de Sousa e de Jarbas Sertório de Carvalho.

 

Dito isso, agradecemos à Revista InComunidade, ao conselho editorial, a Henrique Dória, a Jorge Vicente.

 

Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, em fevereiro de 2019.

 

Myrian Naves.

 

***

 

***

 

Sentimento de Minas: uma coletânea de poesia, prosa e arte mineira sob a circunstância da mineração

 

I.

 

O Lugar

 

Avaliação mínero-geoambiental da Mina de Gogo Soco para fins de descomissionamento – Propostas.

 

 
Sérgio Eustáquio Neto

 

“O Quadrilátero Ferrífero localiza-se no centro do Estado de Minas Gerais ao sul da reserva da biosfera da Serra do Espinhaço e a sudeste de Belo Horizonte, capital do Estado, e tem aproximadamente 7000 km2. É formado por uma região geologicamente importante, com 4,5 bilhões de anos, e considerado uma das principais províncias metalogenéticas do Brasil, exibindo importantes jazimentos de ferro, ouro e manganês. A situação atual da exploração dos bens minerais configura um complexo minerário de grande vulto, com um papel sócio-econômico relevante para o Estado (...)
Os limites do Quadrilátero Ferrífero são bem marcados: ao norte, a serra do Curral, limite sul do município de Belo Horizonte; a oeste, a Serra da Moeda, paralela à rodovia BR-040, que liga Belo Horizonte à cidade do Rio de Janeiro; a sul, a serra de Ouro Branco e a leste a serra do Caraça. Tais serras configuram-se como bordas do Quadrilátero Ferrífero, cuja variedade litológica propiciou o desenvolvimento de ecossistemas também variados.
As principais jazidas encontram-se inseridas na unidade geológica Paleoproterozóica, denominada Formação Cauê, constituída por formações ferríferas bandadas, conhecidas como itabiritos e caracterizadas pela alternância de níveis silicosos e/ou carbonáticos, de tonalidade clara e com níveis hematíticos acinzentados.
De acordo com Câmara & Murta (2007), além da riqueza minerária, o Quadrilátero Ferrífero faz parte de duas das mais importantes bacias hidrográficas de Minas Gerais – A bacia do rio Doce e a do rio das Velhas, e de dois dos mais ricos e ameaçados biomas do planeta – o Cerrado e a Mata Atlântica, considerados hotspots, áreas prioritárias para a conservação da natureza mundial, por sua imensa biodiversidade e pela situação crítica de preservação em que se encontram. São os únicos hotspots indicados no território brasileiro, dos 34 existentes no planeta. Juntos, somam mais de 4000 espécies 17 endêmicas da flora, apesar de reduzidos, hoje, a menos de 25 % de sua área original.
Os hotspots, que representam 1,4 % da superfície terrestre, são regiões de elevada riqueza biológica, abrigam a maior parte da biodiversidade do planeta e estão sob alto grau de ameaça, com 70% ou mais da vegetação original já destruída. A Mata Atlântica encontra-se reduzida a menos de 6,8 % da sua área inicial. As estimativas indicam que existem cerca de 20.000 espécies diferentes de plantas vasculares nesse bioma, mais da metade endêmicas.”

 

[Avaliação mínero-geoambiental da Mina de Gogo Soco para fins de descomissionamento – Propostas. Sérgio Eustáquio Neto. (UFOP- Universidade Federal de Ouro Preto.) Fragmento.]

 

Bibliografia em meio eletrônico:
https://www.nugeo.ufop.br/uploads/nugeo_2014/teses/arquivos/sergio-eustaquio-neto.pdf , pesquisa em  janeiro de 2019.]

 

***

 

II.

 

Carlos Drummond de Andrade

 

Áporo

 

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.

 

Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?

 

Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desafia:

 

em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.

 

(Carlos Drummond de Andrade, Obra Completa.)

 

*

 

Carlos Drummond de Andrade (Itabira do Mato Dentro – MG, 31.10.1902 – Rio de Janeiro - RJ, 17.08.1987.) Poeta brasileiro, cronista e contista, jornalista e tradutor. Para alguns, um dos maiores poetas brasileiros do século XX, para outros, o maior.  Pertenceu à segunda geração modernista, a “Geração de 30”. Foi funcionário do Serviço Histórico e Artístico Nacional entre 1945 e 1962.

 

https://ims.com.br/titular-colecao/carlos-drummond-de-andrade/

 

***

 

Alcione Araújo

 

Pássaros de vôo curto

 

(...) George Chalmers * está no escritório da mina, reunido com oficiais, planejando a ampliação da compra de suprimentos, com vistas ao aumento da produção, quando ouvem um estrondo, sentem a terra tremer sob seus pés, e logo escutam uma sucessão de gritos desesperados. Todos correm para fora e assistem a uma cena impressionante: a boca da mina vomita violenta golfada de pedras, cascalho e madeiras, envoltos por escura poeira, que atira longe o telhado da entrada, Como um vulcão entrando em erupção, à assustadora primeira golfada seguem-se jorros cada vez mais altos, formando colunas _ as que sobem, empurradas por forças das entranhas da mina, e as que caem pela ação da gravidade (...)

 

(p.33)

 

*

 

Depois de quatro meses de trabalho penoso, a maior parte sob nauseante cheiro de corpos humanos em decomposição, com George Chalmers comandando pessoalmente um batalhão de funcionários, que desce até onde pode nas entranhas do Morro Velho, e mais voluntários, incluindo mulheres e idosos, na área externa da Mina, é possível fazer o balanço do que ocorreu na fatídica tarde de 10 de janeiro de 1886: a cerca de 160 metros profundidade, acima do nível de escavação, então a 560, desprenderam-se os blocos de pedra de um pilar de apoio horizontal de uma rocha. O madeiramento de suporte da parede não resistiu às altas pressões e, junto com ele, desmoronaram as muralhas, que não estavam suficientemente firmes, e arrastaram as maciças vigas de sustentação e tudo o mais que havia no caminho. O enorme salão foi tomado por gigantescos blocos de pedra e toneladas de terra. Abaixo dos 160 metros, os patamares desabaram uns sobre os outros, bloqueando o acesso às frentes de escavação. No acidente, possível de se prever, mas impossível de se evitar, 166 homens morreram no interior da mina, sendo 124 escravos. Na parte externa, morreram, na hora da explosão e, nos dias seguintes, em casa e nos hospitais, 14 pessoas adultas, entre as quais uma grávida, e oito crianças, além de um bebê, que foi abortado.
Com a responsabilidade que cabe à maior autoridade da mina e pelo sentimento de culpa, Chalmers, ferido na cabeça, exausto, sem comer nem dormir, participa de todos os enterros, exigindo do padre Petraglia e do reverendo Newbould o ritual completo, e oferecendo caixão de madeira e lápide de pedra _ a maioria dos corpos encontrados não é mais que uma pasta de ossos e músculos. Chalmers assegura aos parentes das vítimas, alimentação, apoio médico e hospitalar, bem como aos trabalhadores parados pela interrupção do trabalho. O custo da operação onera ainda mais a empresa, já sem faturamento, e recai nos ombros dos acionistas, deixando Chalmers e seus projetos em situação difícil e sem futuro previsível. 

 

(p. 38)

 

*

 

Até a abolição, o Brasil praticou abertamente a escravização dos negros. E ainda pratica, a despeito dela. No passado, devido à absoluta carência de mão-de-obra, a Saint John utilizou escravos. Nos últimos anos, porém, não somos mais proprietários de escravos, nem poderíamos ser sem contrariar a lei inglesa e a vontade de nossa soberana. Por faltar mão-de-obra branca, utilizamos, é verdade, o trabalho dos negros para jornadas de oito horas diárias com folga aos domingos, com pagamentos regulares e assistência ao trabalhador. Pagamos a hora de trabalho extra e prêmios de produção que, somados, podem chegar a um terço do salário. Cuidamos da nutrição, oferecendo alimentação gratuita, assim como moradia. Os brasileiros não tratam os escravos como homens; eles produzem pouco, morrem cedo, pouco procriam e raramente envelhecem. Por isso, têm que traficar sem parar.

 

(Pássaros de voo curto, Alcione Araújo. Editora Record. 2008.  p.43)

 

**

 

Ventania

 

(...) Boa parte da população que restou na cidade é idosa. Gente sem raiz, que vendeu o que tinha pra se aventurar na mineração, ou veio depois para se empregar na mina. Sem dinheiro para partir quando foi fechada, ficou aqui, envelhecendo. Hoje arrasta-se pelas ruas, ou senta em cadeiras na calçada para falar da cidade que foi um paraíso no passado.
Semanas após o fechamento da mina, desempregados e famílias entupiam vagões, deixando casas vazias, sonhos suspensos e a cidade sem futuro. A estação era um formigueiro, todos querendo ir embora ao mesmo tempo, brigando por passagem no trem que partia toda tarde. Os ex-funcionários graduados chegavam na hora da partida, não perturbavam porque iam na primeira classe. Já os peões enchiam a plataforma mal o sol nascia. Ninguém imaginava que tanta gente vivesse dia e noite debaixo da terra feito tatu! Quietos, calados, olhar dócil, mulheres tristes, crianças às pencas, malas, trouxas, sacos, redes. Tão apáticos, que tudo parecia previsto, parte de um destino conhecido. (...)

 

(Ventania, romance.Editora Record,  2011. p.66 )

 

*

 

(...) No seu auge, a mina teve inesperada queda na produção. Estudada a causa, concluiu-se que se devia à desnutrição dos peões, que se alimentavam mal e viviam em alojamentos precários. Então a direção decidiu cuidar da nutrição deles. Sem querer tocar negócio alheio à mineração, propôs a Ataliba implantar o refeitório e, para financiar, lhe adiantou o equivalente ao fornecimento de um ano de refeições aos mineiros. Ele topa, deixa a mina e assume o negócio que é um sucesso. (...) logo o chamam para ajudar em outro problema. Acidentes de trabalho e doenças na família têm causado queda da produção. O hospital de Ventania não tem recursos, e querem que os doentes sejam removidos pra cidades que têm hospitais equipados. Adiantam-lhe recurso pra comprar ambulâncias e contratar motoristas _ a ser restituído em serviços prestados. Ele topa também.

 

(Ventania, romance. Editora Record,  2011.p. 84)

 

Logo, outro problema: o número de peões solteiros cresceu mais que o de mulheres disponíveis, criando tensões que, nos fins de semana, são estopins de brigas, violência e vandalismo. Em reuniões sigilosas, a mina acerta com Ataliba patrocinar um novo bordel e a vinda de um plantel de mulheres. (...) É dirigido por Zulandir, testa de ferro de Ataliba (...)

 

(Ventania, romance. Editora Record,  2011. p. 84)

 

Dr. Conrado descobriu, registrou e foi o dono da lavra de ouro. Mas, não tendo recursos pra exploração, tentou se associar a fazendeiros e negociantes locais, que fugiram do negócio: acharam o capital alto, o prazo de retorno longo, e o que os assustou foi o preço do ouro ser decidido no exterior. Dr. Conrado submeteu-se ao contrato de exploração de um grupo estrangeiro, consolando-se com a participação no lucro. Suspeitando que recebesse a menos e sem acesso às contas, honrou o contrato nesses anos todos. Poderia romper, mas teria que indenizar os sócios. E depois, sem capital e sem sócios, teria que fechar a mina, criando um mar de desocupados, o que não queria. Os sócios é que a fecharam sem aviso, alegando “cotação internacional em queda, e custo de mineração em alta”, conforme o relatório. Pronto para reabri-la, Dr. Conrado contratou advogados da capital, reuniu os sócios e ouviu explicações não convincentes. Tentou dissuadi-los, ficaram impassíveis. Falou do desemprego e explosão social, não se comoveram. Cogitou ir à Justiça, os advogados recuaram: o contrato previa a paralisação.

 

[Alcione Araújo, Ventania, romance. Editora Record,  2011.]

 

*
Minerador e empreendedor britânico radicado no Brasil em Alcione Araújo se baseou para a construção da personagem na obra, George Chalmers (Falmouth, 1857 — Nova Lima, 1924) foi recrutado com apenas aos 27 anos, para o cargo de superintendente da mina de Morro Velho, em Minas Gerais, então propriedade da empresa britânica St John del Rey Mining Company.

 

Deu início imediato à reorganização do empreendimento, revolucionando todos os processos industriais e do sistema de trabalho. Mas seus planos foram drasticamente interrompidos por um grave deslizamento da abóbada da mina, que matou dezenas de trabalhadores britânicos e brasileiros, em 1886, que causou o fechamento da mina e levou a companhia a processo de liquidação. Inconformado, Chalmers pediu a confiança da administração em Londres, propondo projetos radicais de salvar a iniciativa, através da abertura de uma nova galeria na jazida, acessível através de poços verticais, bem como a construção de uma nova e moderna usina. A companhia foi reorganizada formalmente em 1887 e, cinco anos depois, a produção de lingotes havia ultrapassado os recordes de 1860 e continuava a aumentar.

 

Permaneceu à frente da direção da empresa até sua morte, em 1924.

 

Notabilizou-se por ter doado à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar (Nova Lima), o acervo do mestre Aleijadinho que mandou retirar de sua Fazenda da Jaguara.

 

[Fonte, Wikipédia que se baseou em:
Sharron P. Schwartz, The Cornish in Latin America; University of Exeter, © 1999- 2008.]

 

Alcione Araújo (Januária, MG. 1945 - 2012). Filósofo, ensaísta, cronista, romancista, autor, diretor e professor de Teatro. Roteirista de cinema e de televisão. Um dos mais importantes articuladores da Cultura Brasileira em sua época. Formado em Engenharia, área em que lecionou na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

 

http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa349392/alcione-araujo

 

***

 

Agripa Vasconcelos *

 

Gongo-Sôco: Romance do Ciclo do Ouro nas Minas Gerais, um fragmento.

 

O Brasil nunca teve nada tão esplendoroso como os palácios de Gongo-Soco e Brumado. As ruínas desses edifícios são a prova real do que pode passar por fábula.
Essa história das Mil e Uma Noites inverossimilíssima, foi verdade nua e crua nas Minas Gerais do Ouro, no primeiro quartel do século XIX.
O luxo em que viveu o barão foi o resultado da fartura das folhetas aluvionais e do ouro de gamela, pois traficantes estrangeiros vinham vender nas bocas das catas, o que havia de mais fino em Londres, em Paris e na Lisboa de Santo Antônio. Ali mercadejavam meias, calções de seda do Japão, chapéus castor ingleses, perfumes dos mais afamados de França, contando jóias esplendorosas, além de bugiarias e confecções mais caras das modas parisienses.

 

[Agripa Vasconcelos, Gongo-Sôco : Romance do Ciclo do Ouro nas Minas Gerais. Sagas do país das Gerais 4.  Agripa Vasconcelos, romance do Ciclo do Ouro.1966. Editora Itatiaia.]
*Agripa Vasconcelos (1896-1969).

 

https://bndigital.bn.gov.br/dossies/periodicos-literatura/personagens-periodicos-literatura/agripa-vasconcellos/

 

 
***

 

Ricardo Aleixo

 

A doença como metonímia

 

Trabalhadores da
St. John del Rey Mining
Company, em Nova Lima,

 

Minas, gabam-se

 

de sua origem
(“mineiros duas vezes”).
Mas descon-

 

fiam que viver
é para nada: morrem
cedo, antes de aprenderem,

 

p.ex., a soletrar pneumoultra-

 

microscopicossilicovulcanoconiose
(=silicose, simpli-
ficam os que ficam).

 

(Modelos vivos, 2010.)

 

**

 

EM NECRÓPOLIS

 

a bala  ,  sob tortura  ,
de fome  ,  por falta
de leitos nos hospitais  ,
esquecida nos presídios
ou tragada pela lama  ,
só morre gente do lado
nosso  (  o da negrada  ,
o da indiaiada  )  , só
gente nossa
é quem morre

 

em massa.


Ricardo Aleixo é poeta, artista visual e sonoro, cantor, compositor, performador, ensaísta e editor. Publicou, entre outros, os livros Pesado demais para a ventania (Todavia, 2018). Antiboi (LIRA/Crisálida, 2017 – finalista do Prêmio Oceanos 2018), Impossível como nunca ter tido um rosto (edição do autor, 2015), Modelos vivos (Ed. Crisálida, 2010 – finalista dos prêmios Portugal Telecom e Jabuti 2011) e Trívio (Ed. Scriptum, 2001). Como solista ou integrante da Cia SeráQuê e do Combo de Artes Afins Bananeira-ciência, já performou na Alemanha, na Argentina, em Portugal, na França e nos EUA. Integra antologias, coletâneas e edições especiais de revistas e jornais dedicados à difusão da poesia brasileira nos EUA, na Argentina, em Portugal, na França, de País de Gales, em Angola e no México. Tem participado de importantes exposições coletivas, como Poiesis < Poema entre pixel e programa > (RJ, 2007), Radiovisual – Em torno de 4’33” (Bienal do Mercosul, Porto Alegre, 2009) e Poética Expositiva (RJ, 2011). É curador dos eventos Feira de Inutensílios e Poesia&. Edita a revista Roda – Arte e Cultura do Atlântico Negro e a Coleção Elixir, de plaquetes tipográficas. Concentra seus projetos de criação e pesquisa no Laboratório Interartes Ricardo Aleixo, no bairro Campo Alegre, em Belo Horizonte, cidade onde nasceu em 1960.

 

***

 

Fragmento de uma entrevista em Jornal

 

(Luíz Fernando Emediato entrevista Carlos Drummond de Andrade)

 

(...)

 

Luíz Fernando Emediato

 

O senhor não acha que sua obra pode ter sido determinada pelo que aconteceu na sua infância, na sua adolescência e, depois, na sua maturidade, essa carga toda de experiência de vida?

 

Drummond

 

A minha obra literária foi determinada pela circunstância de eu ser mineiro. Mineiro do interior de Minas, uma região de mineração, onde a dificuldade de comunicação era maior do que em outras zonas do Estado. Nós vivíamos ilhados. Éramos fechados por necessidade e por contingência.

 

Emediato

 

O senhor acha então que Minas é um lugar especial?

 

Drummond

 

Você é mineiro, não é? Minas foi um lugar especial. Hoje não é.

 

[Créditos: Trechos da entrevista de Carlos Drummond de Andrade a Luiz Fernando Emediato, publicada no Caderno2, do jornal O Estado de S. Paulo em 15 de agosto de 1987. Fragmento.]

 

*

 

Luiz Fernando Imediato:
https://www.portaldosjornalistas.com.br/jornalista/luiz-fernando-emediato/

 

Carlos Drummond de Andrade (Itabira do Mato Dentro – MG, 31.10.1902 – Rio de Janeiro - RJ, 17.08.1987.) Poeta brasileiro, cronista e contista, jornalista e tradutor. Para alguns, um dos maiores poetas brasileiros do século XX, para outros, o maior dos poetas brasileiros.  Pertenceu à segunda geração modernista, a “Geração de 30”. Foi funcionário do Serviço Histórico e Artístico Nacional entre 1945 e 1962.

 

***

 

Carlos Drummond de Andrade

 

Confidência do Itabirano

 

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

 

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

 

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

 

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...

 

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

 

(Carlos Drummond de Andrade, Obra Completa.)

 

**

 

Lira Itabirana

 

I

 

O Rio? É doce.

 

A Vale? Amarga.

 

Ai, antes fosse

 

Mais leve a carga.

 

II

 

Entre estatais

 

E multinacionais,

 

Quantos ais!

 

III

 

A dívida interna.

 

A dívida externa

 

A dívida eterna.

 

IV

 

Quantas toneladas exportamos

 

De ferro?

 

Quantas lágrimas disfarçamos

 

Sem berro?

 

(Carlos Drummond de Andrade. 1984. Obra Completa.)

 

 

***

 

Jayme Reis

 

[Imagem feita por um habitante de Itabira, em Minas Gerais, 1970.]

 

Depoimento

 

Vai junto deste depoimento uma imagem da Matriz de Nossa Senhora do Rosário de Itabira, que desabou em novembro de 1970 em consequência das trepidações provocadas pelas explosões de dinamite na mina do Cauê, mina de minério de ferro explorada pela Companhia Vale do Rio Doce. A foto foi tirada por alguém que estava alí no momento da demolição. Um técnico contratado pela companhia condenou o belo edifício à morte.

 

Neste mesmo ano nos mudamos (toda a família) para Belo Horizonte.

 

Um ano antes a Vale comprou a casa de minha tia solteirona Maria José e a demoliu imediatamente, sem justificativa alguma. Era a primeira casa de Itabira e foi erguida pelos irmãos Albernaz, primeiros desbravadores da cidade. Edificação robusta de pedra, dois andares, amplos espaços no estilo castiço português. A intenção era clara; era preciso destruir rapidamente a memória da cidade.

 

Assisti a muita destruição em minha infância e continuei a acompanhar a destruição de Itabira de longe.
O povo continuou na merda e a Companhia Vale do Rio Doce não melhorou a vida de ninguém. A cidade perdeu suas características e foi perdendo sua memória. Ganhou pó de ferro no ar e nas calçadas. Hoje Itabira registra talvez o maior índice de suicídio do Brasil. A proporção de alcoólatras na população é assustadora.
A barragem de rejeitos da mineração é imensa e está prestes a desmoronar, completando assim a magnifica contribuição da Vale para a cidade.

 

Trago tudo isso em minha alma, mesmo vivendo só até os 13 anos em minha cidade natal, e é claro, essas coisas aparecem sempre em meu trabalho em forma de smbolos e signos.´E em épocas diferentes.

 

Alguns exemplos;

 

Paisagem Itabirana é de 1997.

 

 

Paisagem Mineral é do ano 2000.

 

 

Conservação é de 2008.

 

 

*

 

O artista plástico Jayme Reis nasceu em Itabira, Minas Gerais, onde passou sua infância, e mudou-se com a família para Belo Horizonte em 1970. Seu primeiro contato com a produção artística se deu através da cerâmica. Dedica-se às séries de gravuras e de objetos. Em Portugal, foi premiado na Bienal de Cerveira de 2018. https://www.facebook.com/jayme.reis.7

 

***

 

Thais Guimarães

 

Lama na alma

                                               
Quando a mancha da lama secar
tudo o que nela houver
vai se disseminar
na alma de Minas

 

Ferro, manganês, alumínio
(que ouro já não há)
cromo, chumbo, arsênio
(que ouro já não há)

 

Quando a lama da alma secar
o ar será poeira
tóxico amálgama
de metais pesados

 

A alma contaminada seguirá
o curso da lama
de Vesúvios construídos
no desidério da ganância

 

Cemitérios de minério
cortam o mapa

 

Minas
retrato soterrado

 

Thais Guimarães, poeta, autora de Jogo de Cintura, Jogo de Facas e do infantojuvenil Bom Dia, Ana Maria, além das plaquetes Dez Pretextos , Seis Poemas e Notas de Viagem.

 

***

 

Ronald Cláver

 

Curral Del Rey

 

Era uma vez uma montanha que rodeava a cidade.
A montanha era uma vez que rodeava a cidade.
A montanha que rodeava a cidade
Era cada vez mais uma vez.
Uma vez a montanha que rodeava a cidade
Ja era.

 

Curral Del Rey era o nome de Belo Horizonte.
Um dia o rei foi embora e o curral virou serra.
A Serra do Curral tinha um horizonte belo.
Os homens acharam que horizonte é
Palavra bonita e multinacionalmente
Levaram o substantivo e a serra.

 

O trem que leva minério de Minas para o rio
é um trem igual aos outros que leva minério,
um pouco de paisagem, do ar e da brisa.
Um trem igual aos outros vai levando o minério
a paisagem, o ar, a brisa de fim de tarde
e um pouco do horizonte ainda belo.

 

**

 

Cançao Urbana

 

Antes a montanha
ondulava no horizonte
dos olhos
era belo o verde
era belo esperar a tarde
cair no teu corpo
até que eles chegaram
com ferramentas, pás, palavras,
telegramas, trilhos, siglas
e ancoraram teu corpo
noutros mares
hoje a linha do horizonte
se mede à régua.

 

(Ronald Cláver, Senhora do Mundo. 2ª edição. Ed. UFMG.)

 

*

 

Ronald Claver, poeta brasileiro, mineiro, é professor, escritor. Tem mais de vinte obras publicadas, e diversos prêmios nacionais e internacionais.
https://www.ufmg.br/90anos/testimonial/ronald-claver/

 

***

 

Cecília Meireles

 

FÉ EM DEUS! ESPERANÇA QUE TUDO ISSO NÃO PASSE DE UM PESADÊLO!

 

Que a sede de ouro é sem cura,
e, por ela subjugados,
os homens matam-se e morrem,
ficam mortos, mas não fartos.

 

Romance I
ou Da revelação do ouro

 

Nos sertões americanos,
anda um povo desgrenhado:
gritam pássaros em fuga
sobre fugitivos riachos;
desenrolam-se os novelos
das cobras, sarapintados;
espreitam, de olhos luzentes,
os satíricos macacos.

 

Súbito, brilha um chão de ouro:
corre-se - é luz sobre um charco.

 

A zoeira dos insetos
cresce, nos vales fechados,
com o perfume das resinas
e desse mel delicado
que se acumula nas flores
em grãos de veludo e orvalho.

 

(Por onde é que andas, ribeiro,
descoberto por acaso?)

 

Grossos pés firmam-se em pedras:
sob os chapéus desabados,
o olhar galopa no abismo,
vai revolvendo o planalto;
descobre os índios desnudos,
que se escondem, timoratos;
calcula ventos e chuvas;
mede os montes, de alto a baixo;
em rios a muitas léguas
vai desmontando o cascalho;
em cada mancha de terra,
desagrega barro e quartzo.

 

Lá vão pelo tempo adentro
esses homens desgrenhados:
duro vestido de couro
enfrenta espinhos e galhos;
em sua cara curtida
não pousa vespa ou moscardo;
comem larvas, passarinhos,
palmitos e papagaios;
sua fome verdadeira
é de rios muito largos,
com franjas de prata e de ouro,
de esmeraldas e topázios.

 

(Que é feito de ti, montanha,
que a face escondes no espaço?)

 

E é por isso que investigam
toda a brenha, palmo a palmo;
é por isso que se entreolham
com duras pupilas de aço;
que uns aos outros se destroçam
com seus facões e machados:
companheiros e parentes
são rivais e amigos falsos.

 

(Que é feito de ti, caminho,
em teu segredo enrolado?)

 

Por isso, descem as aves
de distantes céus intactos
sobre corpos sem socorro,
pela sombra apunhalados:
por isso, nascem capelas
no mudo espanto dos matos,
onde rudes homens duros
depositam seus pecados.
Por isso, o vento que gira
assombra as onças e os veados:
que seu sopro, antigamente,
era perfume tão grato,
e, agora, é cheiro de morte,
de feridos enforcados...

 

(Que é feito de ti, remoto
Verbo Divino Encarnado?)

 

Selvas, montanhas e rios
estão transidos de pasmo.
É que avançam, terra adentro,
os homens alucinados.
Levam guampas, levam cuias,
levam flechas, levam arcos;
atolam-se em lama negra,
escorregam por penhascos,
morrem de audácia e miséria,
nesse temerário assalto,
ambiciosos e avarentos,
abomináveis e bravos,
para fortuitas riquezas,
estendendo inquietos braços,
- os olhos já sem clareza,
- os lábios secos e amargos.

 

(Que é feito de vós, ó sombras
que o tempo leva)

 

E, atrás deles, filhos, netos,
seguindo os antepassados,
vêm deixar a sua vida,
caindo nos mesmos laços,´
perdidos na mesma sede,
teimosos, desesperados,
por minas de prata e de ouro
curtindo destino ingrato,
emaranhando seus nomes
para a glória e o desbarato,
quando, dos perigos de hoje,
outros nascerem, mais altos.
Que a sede de ouro é sem cura,
e, por ela subjugados,
os homens matam-se e morrem,
ficam mortos, mas não fartos.

 

(Ai, Ouro Preto, Ouro Preto,
e assim foste revelado!)

 

[Cecília Meireles, Romanceiro da Inconfidência, Editora: Nova Fronteira. 1989.]

 

*

 

Cecília Meireles, (1901- 1964), nasceu no Rio de Janeiro. Escritora, jornalista, professora e pintora, poeta. Entre suas obras, Espectros (1919), Criança, meu amor (1923), Nunca mais... e Poemas dos Poemas (1923), Criança meu amor... (1924), Baladas para El-Rei (1925), O Espírito Vitorioso (1929), Saudação à menina de Portugal (1930), Batuque, Samba e Macumba (1935), A Festa das Letras (1937), Viagem (1939), Vaga Música (1942).

 

***

 

Ophelia

 

Silvana Guimarães

 

plantas flores pasto poste pássaros
peixes árvore poste montanha vacas
poste grama prado árvore escarpas
barro barro barro barro barro bosta

 

estrelas palmeira lua pedra poste
telhados sol borbulho lanterna
rocha poste redemunho garrafa
poste sandália boneca moeda

 

sob a alma a lama sob a lama a alma
o nome na lista dos desaparecidos
enquanto o corpo lacerado respira
enquanto o coração exposto insiste

 

plantas flores pasto poste pássaros
peixes árvore poste montanha vacas
barro barro barro barro barro bosta
e a sede a sede a sede a sede de

 

*

 

Silvana Guimarães (Belo Horizonte/MG). Socióloga, redatora/revisora publicitária. Participou de algumas coletâneas, Editora da Germina — Revista de Literatura & Arte e do site Escritoras Suicidas.  
http://www.germinaliteratura.com.br/

 

***

 

Rita Lessa

 

Inassimilável.
[Brumadinho/ 2019. Rita Lessa.]

 

“Busco falar da lama – metáfora mais forte não pode haver – em que estamos metidos: meu estado abriga quase 50% de todas as barragens do Brasil! Abriga irresponsavelmente, haja vista a última recente tragédia de Mariana, há três anos, o que justificaria que todas as medidas fossem tomadas no sentido de que jamais isso se desse outra vez! Não! Não fiscalizamos. Não zelamos. Isso não vai pra conta mais importante! Ou seja: a lama passa, nos sobrepõe, volta, e não temos garantia quanto à próxima vez! Tem ideia dos danos disso? Concluindo, a lama nos permeia, a nós, no estado de Minas Gerais. É a lama e o descaso do nosso atraso.”

 

*

 

Rita Lessa, artista plástica, designer, pintora, desenhista, cria e inscreve sua marca em suas criações. Possui oficina de estamparia destinada ao mobiliário, ao revestimento de parede, à tapeçaria e à moda. Seu trabalho foi apresentado na feira de design de Milão, em 2015. Em 2014, foi selecionada pela empresa francesa Monoprix para criação de uma coleção inspirada em seus produtos da “linha home”.
https://www.facebook.com/rita.lessa.961

 

 

***

 

Antonio Barreto

 

BRUMADO
(BALADA DA ALMA LAVADA NA LAMA)

 

Quanto vale o peso de sua alma, Mariana,
breada e lavada na lama das malas,
pesada no lombo das mulas cavalas
veladas nas valas das almas insalvas?

 

Vale o de ainda ontonte,
a ordem do horizonte,
Mariana?
Quandonte será o futuro
louvado e bramido bramado gramado
gritado britado brotado embrutado
nas brenhas bruçadas
do breu de Brumado? Salve-se, me salve...

 

Esse furo, esse futuro antes das margens
é o que nos leva e releva, além da relva,
ou das barragens?
(...) para além, muito além
do passado
reminerado?
Que futuro é esse
que nunca chega,
e só passa?

 

Só passagens? Ou só paisagens?

 

Cadê os fiscais municipais,
como os poetas,
estaduais e federais?

 

Ó! De que Mal viestes, Demônio de Vale-Ínfero-Minério
assassino?
Quanto mais de nós queres?
De que mistério
das minas, a se perder de vistas e governos,
almejais?
O que mais, de infernos e reparaísos,
são seus termos?

 

Ou (trocando em miúdos e rejeitos):
Qual é o peso de sua alma brumada, Brumadinho?
Onde estão seus filhos e sujeitos, os paisanos,
os seus inhôs e inhotinhos?

 

Quanto dinheiro agora reza
a alma da lama, Mariana?
Essa mesma melada – MAR-ME-LADA – lavada
limada e alinhavada
com os chorumes das velas e as
palagriminhas
ou tapinhas (de novo)
] o novo ovo [
nos ombros do povo?

 

Cadê as obras
de arte louvadas/roubadas
no “maineirio” dessa rede
de rede
moinhos?

 

Sei.
É ali onde o diabo mora: mas... Ôooooo, povo
de Brumadinho: seja ruidoso. E generoso: não espere,
mas seja esperançoso.
Levante a tampa do vaso, mije, urine, defeque, cague
e expele-expila: com força (essa carga).

 

E depois, puxe a descarga!

 

[Antônio Barreto. Janeiro de 2019.]

 

*

 

Antônio Barreto, escritor brasileiro com mais de quarenta livros publicados desde a década de 80. Estudou História, Letras e Engenharia Civil. Além de poeta, é cronista, contista, romancista e autor de vários livros infanto-juvenis. Ganhou dezenas de prêmios literários importantes no Brasil, Internacional da Paz (ONU), Ezra Jack Keats (Unicef), IBBY (Unesco).
http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa3919/antonio-barreto

 

***

 

Cláudio Manuel da Costa

 

(pseudônimo Glauceste Satúrnio)

 

VILA RICA

 

(...)

“Fundamento Histórico”

 

Depois de passados alguns anos, tempo em que já estava no Trono o Senhor D. Pedro II, sabendo Fernão Dias que com a morte de Agostinho Barbalho não tiveram efeito as ordens que trouxera, se quis encarregar voluntariamente da execução delas, escrevendo primeiro a Afonso Furtado de Mendonça, Governador que era então daqueles Estados, e tinha a sua residência na Bahia, oferecendo-se-lhe para este fim com a sua pessoa, e com todos os seus bens: mandou-lhe Afonso Furtado uma patente de primeiro Chefe daquela empresa aos 3o de abril de 1672. Nos princípios do ano de 1673 se pôs Fernão Dias em marcha com vários parentes e amigos seus, demandando a altura em que Marcos de Azeredo fazia certo o descobrimento das esmeraldas, em cuja diligência sofreu trabalhos infinitos, como testifica o seu panagerista na oitava 35.

 

Parte enfim para os serros pertendidos,
Deixando a Pátria transformada em fontes,
Por termos nunca usados, nem sabidos,
Cortando matos, e arrasando montes;
Os rios vadeando mais temidos
Em jangadas, canoas, balsas, pontes,
Sofrendo calmas, padecendo frios
Por montes, campos, serras, vales, rios.”      
                                                                                          
[Cláudio Manuel da Costa, pseudônimo Glauceste Satúrnio, Vila Rica. A Poesia dos Inconfidentes, Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1996.
Poema de Cládio Manuel da Costa, Árcade Ultramarino, com o nome de Glauceste Satúrnio, oferecido ao Ilmo e Exmo Sr. Conde de Bobadela. Ano de 1773.

 

*

 

Cláudio Manuel da Costa:
http://www.academia.org.br/academicos/claudio-manoel-da-costa/biografia
http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa2770/claudio-manuel-da-costa

 

***

 

Myrian Naves

 

Ex-voto

 

Permiti, disse-lhe:
venha, habite-me. Mas, saiba
quero apenas as inconfidências
não meras reminiscências.
A Musa!

 

Agora usa confidências
trai, hostiliza.
Então, voz desfraldada
exijo: quero imposto!
O quinto dos infernos.

 

Contesto em delação
por decadente nobreza d'alma
pelo mais absoluto desejo material
que venha a devassa
o despejo

 

Eu o esconjuro
e o narro em versos.
Anseio punições
maquiavélicos contratadores.

 

Decreto, sentença retirada à algibeira:
entregue o ouro! Condena-te à morte
: o tempo.

 

Faça-se, pois, do pregão a sentença
em pleno olho da rua
que lhe seja cortada a cabeça
deixada em plena praça,
à sanha de quem desejar possa
à desgraça
até que o tempo a consuma
e pássaros
urubus de sãofranciscoportinari
em falta do fígado
que lhe biquem os miolos.

 

Salguem-lhe as terras,
calcinem-lhe a produção
eu o quero sem nome, sobrenome
herdeiros __ completa a devastação.

 

Fiz o herói, quero que fraqueje
e tenha restos mortais expostos
não em panteão, em altares-mor
mas em cadafalsos
em cada município
frontispício hospício
cadeia escola hospital
clube social.

 

Restos mortais degredados
ao desterro! Adapte-se
e só volte com el rei
quer venha ele ou não
espere por seu dom sebastião
ou quem o homem
por trás das ambiguidades.

 

Após tudo
cumprida a sentença
ordeno, dêem-lhe
pretensa liberdade
deixem-no a putrefar
junto aos restos
em ciclos de ouro
decadente, sempre.

 

Quero-o livre, que governe a si
arque com as consequências.
Tenha decadente a produção
expropriado, governe-se
a exibir riqueza vã
falseada, toda poderio
parco, extemporâneo
provinciano. Gaste
louve a deus
os restos.

 

Arquitete, ser colonial
de gosto estético chinfrim,
em expropriadas artes
mate a própria fome
a sede imensa. Dependa
de bateados metais
em pleno deserto
sem meus rios, veios.

 

Mantenha as aparências
em centro de ofício
em propícias exéquias oficiais
em desdouro. Matrizes
em louvor à morte.

 

Em seus casarios
vai subindo por minhas montanhas
sem meu esteio, em minhas terras
sem minha permissão.

 

Vai
demarcando território
mercado
praças, jardins
chafarizes
solar e fortaleza
centro de poder.

 

Meus vários tempos
em seu traçado urbano
barroquismo, resplendor
documento à reificação.

 

Ignore artes & ofícios
os seres da terra
torne-os dependentes
crédulos de vil metal
ouro de tolo.
Cale os sinos
vivencie o inevitável
afinal.

 

Convença-os
metal vale mais
mais que a orquestra
a banda e santa cecília
a poesia, historia e geografia
mais que a capelinha
plantada nua ao alto
no morro da cruz
única a não receber em visita
o lamaçal podre
o odor.

 

Governe-se para sempre
preserve nome, empresa
esgotadas as minas
após
louve a pobreza que produz
redija os documentos nulos
e entregue os restos.

 

Esteja onde sempre esteve
sem saída, sem mar
agora, sem os rios
amanhã, que lhe falte o ar.

 

Vingança
nunca não deixou de ser bandeira
palavra para sempre
feminina, prazerosa
vã.

 

Eu sou a terra, decreto
: tudo passa
o tempo.

 

Cumpra-se.

 

**

 

Why?

 

Papel aceita tudo, minha filha
papel nenhum segura barragem.

 

O trem tá feio.
No tempo do quinto do ouro
o prejuízo
devia ser mais em conta, né?

 

Ah, isso?
Creia, não.
É pra inglês ver.

 

Quem da gente nunca tentou a sorte
não tem um de seu, na história
ao menos um que bateou
beira-rio, em lavra?
No sítio. Duvido, haja.
Mas se tiver alguém
que esconda a primeira pedra
antes que o façam.

 

Nasceu nessa terra
dizem dele, um
baita santo do pau ôco
e no meu pensar
faz ele muito bem.

 

Então
cês vão cercar tudo, né? 
É, vem gente de todo lado
daí a pouco tá garimpando
lá.
É feio isso, moço.
Vai querer ver
não.

 

A gente nasce aqui
tá ali na certidão, mineiro
das Minas Gerais.
A gente tenta, até
sai de Minas e
carrega o nome, o peso
na certidão, a identidade.
Mas daí um tempo
inicia a contar caso
encomenda queijo
faz franguinho com quiabo.

 

A gente tem família, filho
aí a coisa pega.
É briga feia a deles
lá em cima. Desse jeito.
E a gente fica ali
assiste a tudo
bem em cima do muro.
Afinal fica tudo igual, uai
do mesmo jeitinho
sem tirar nem pôr.

 

*

 

Myrian Naves, poeta e escritora brasileira, professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira desde 1982. Nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais. Publica em diversas antologias, revistas eletrônicas, participa da coletânea de poetas de Blocosonline, em POESIA PARA MUDAR O MUNDO - VOL. 1 - 2019. Dirige a Cantaria, artes e ofícios _ literatura, arte e educação. Curadora do conteúdo brasileiro da Rádio Transforma, da cidade do Porto, Portugal e inicia ali o seu programa Lusofonia à brasileira. Lança este ano a revista eletrônica CANTARIA, sua poesia em Própria Lavra. Organizadora desta coletânea, faz parte do conselho editorial da Revista InComunidade.

 

https://www.facebook.com/myrian.naves

 

***

 

Joaquim Norberto de Sousa Silva

 

“A messe era abundante e a colheita despertava cada vez mais a ambição da mãepátria. Cinco ramos, cada qual mais rendoso, constituía o seu patrimônio, tais como – o quinto do ouro – o contrato das entradas – o contrato dos dízimos – o donativo e a têrça parte dos ofícios – e a extração dos diamantes. De todos eles, porém, o mais vexatório era por sem dúvida o quinto do ouro, e foi esse o púnico que deu lugar a tantos e a tão sérios tumultos, que terminaram por fim com as mais bárbaras e horrendas execuções”

 

(SILVA, Joaquim Norberto de Sousa. História da Conjuração Mineira. Tomo I. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1948, p. 61)
(http://observatoriogeograficoamericalatina.org.mx/egal15/Procesosambientales/Impactoambiental/03.pdf)

 

***

 

Minas

 

João Guimarães Rosa

 

Minas é a montanha, montanhas, o espaço erguido, a constante emergência, a verticalidade esconsa, o esforço estático; a suspensa região — que se escala. Atrás de muralhas, caminhos retorcidos, ela começa, como um desafio de serenidade. Aguarda-nos amparada, dada em neblinas, coroada de frimas, aspada de epítetos: Alterosas, Estado montanhês, Estado mediterrâneo, Centro, Chave da Abóbada, Suíça brasileira, Coração do Brasil, Capitania do Ouro, a Heróica Província, Formosa Província. O quanto que envaidece e intranquiliza, entidade tão vasta, feita de celebridade e lucidez, de cordilheira e História. De que jeito dizê-la? MINAS: patriazinha. Minas — a gente olha, se lembra, sente, pensa. Minas — a gente não sabe.

 

Sei, um pouco, seu facies, a natureza física — muros montes e ultramontes, vales escorregados, os andantes belos rios, as linhas de cumeeiras, a aeroplanície ou cimos profundamente altos, azuis que já estão nos sonhos — a teoria dessa paisagem. Saberia aquelas cidades de esplêndidos nomes, que de algumas já roubaram: Maria da Fé, Sêrro Frio, Brejo das Almas, Dores do Indaiá, Três Corações do Rio Verde, São João del Rei, Mar de Espanha, Tremendal, Coromandel, Grão Mogol, Juiz de Fora, Borda da Mata, Abre Campo, Passa Tempo, Buriti da Estrada, Tiros, Pequi, Pomba, Formiga,  São Manuel do Mutum, Caracol, Varginha, Sete Lagoas, Soledade, Pouso Alegre, Dores da Boa Esperança… Saberei que é muito Brasil, em ponto de dentro, Brasil conteúdo, a raiz do assunto. Soubesse-a, mais.

 

Sendo, se diz, que minha terra representa o elevado reservatório, a caixa-d’água, o coração branco, difluente, multivertente, que desprende e deixa, para tantas direções, formadas em caudais, as enormes vias: o São Francisco, o Paranaíba e o Grande que fazem o Paraná, o Jequitinhonha, o Doce, os afluentes para o Paraíba, e ainda; — e que, desde a meninice de seus olhos-d’água, da discrição de brejos e minadouros, e desses monteses riachinhos com subterfúgios, Minas é a doadora plácida.

 

Sobre o que, em seu território, ela ajunta de tudo, os extremos, delimita, aproxima, propõe transição, une ou mistura: no clima, na flora, na fauna, nos costumes, na geografia, lá se dão encontro, concordemente, as diferentes partes do Brasil. Seu orbe é uma pequena síntese, uma encruzilhada; pois Minas Gerais é muitas. São, pelo menos, várias Minas.
A que via geral se divulga e mais se refere, é a Minas antiga, colonial, das comarcas mineradoras, toda na extensão da chamada Zona Mineralógica, a de montes de ferro, chão de ferro, água que mancha de ferrugem e rubro a lama e as pedras de córregos que dão ainda lembrança da formosa mulher subterrânea que era a Mãe do Ouro, deparada nas grupiaras, datas, cavas, lavras, bocas da serra, à porta dessas velhas cidades feitas para e pelo ouro, por entre o trabeculado de morros, sob picos e atalaias, aos dias longos em nevoeiro e friagem, ao sopro de tramontanas hostis ou ante a fantasmagoria alva da corrubiana nas faces de soalheiro ou noruega, num âmbito que bem congrui com o peso de um legado severo, de lástimas avaliadas, grandes sinos, agonias, procissões, oratórios, pelourinhos, ladeiras,  jacarandás, chafarizes realengos, irmandades, opas, letras e latim, retórica satírica, musas entrevistas, estagnadas ausências, música de flautas, poesia do esvaziado — donde de tudo surde um hábito de irrealidade, hálito do passado, do longe, quase um espírito de ruínas, de paradas aventuras e problemas de conduta, um intimativo nostalgir-se, que vem de níveis profundos, a melancolia que coerce.

 

Essa — tradicional, pessimista talvez ainda, às vezes casmurra, ascética, reconcentrada, professa em sedições — a Minas geratriz, a do ouro, que evoca e informa, e que lhe tinge o nome; a primeira a povoar-se e a ter nacional e universal presença, surgida dos arraiais de acampar dos bandeirantes e dos arruados de fixação do reinol, em capitania e província que, de golpe, no Setecentos, se proveu de gente vinda em multidão de todas as regiões vivas do país, mas que, por conta do ouro e dos diamantes, por prolongado tempo se ligou diretamente à Metrópole de além-mar, como que através de especial tubuladura, fluindo apartada do Brasil restante. Aí, plasmado dos paulistas pioneiros, de lsos aferrados, de baianos trazedores de bois, de numerosíssimos judeus manipuladores de ouro, de africanos das estirpes mais finas, negros reais, aproveitados na rica indústria, se fez a criatura que é o mineiro inveterado, o mineiro mineirão, mineiro da gema, com seus males e bens. Sua feição pensativa e parca, a seriedade e interiorização que a montanha induz — compartimentadora, distanciadora, isolante, dificultosa. Seu gosto do dinheiro em abstrato. Sua desconfiança e cautela — de vez que de Portugal vinham par ali chusmas de policiais, agentes secretos, burocratas, tributeiros, tropas e escoltas, beleguias, fiscais e espiões, para esmerilhar, devassar, arrecadar, intrigar, punir, taxar, achar sonegações, desleixos, contrabandos ou extravios do ouro e os diamantes, e que intimavam sombriamente o poder do Estado, o permanente perigo, àquela gente vigiadíssima, que cedo teve de aprender a esconder-se. Sua honesta astúcia meandrosa, de regato serrano, de mestres na resistência passiva. Seu vezo inibido, de homens aprisionados nas manhãs nebulosas e noites nevoentas de cidades tristes, entre a religião e a regra coletiva, austeras, homens de alma encapotada, posto que urbanos e polidos. Sua carta de menos. Seu fio de barba. Sua arte de firmeza.

 

É a Mata cismontana, molhada de ventos marinhos, agrícola ou madeireira, espessamente fértil. É o Sul, cafeeiro, assentado na terra-roxa de declives ou em colinas que européias se arrumam, quem sa­be uma das mais tranqüilas jurisdições da felicidade neste mundo. É o Triângulo, avançado, forte, franco. É o Oeste, calado e curto nos modos, mas fazendeiro e político, abastado de habilidades. É o Norte, sertanejo, quente, pastoril, um tanto baiano em trechos, ora nordestino na intratabilidade da caatinga, e recebendo em si o Polígono das Secas. E o Centro corográfico, do vale do Rio das Velhas, calcáreo, ameno, claro, aberto à alegria de todas as vozes novas. É o Noroeste, dos chapadrões, dos campos-gerais que se emendam com os de Goiás e da Bahia esquerda, e vão até ao Piauí e ao Maranhão.

 

Se são tantas Minas, porém, e contudo uma, será o que a determina, então, apenas uma atmosfera, sendo o mineiro o homem em estado minasgerais? Nós, os indígenas, nem sempre o percebemos. Acostumaram-nos, entretanto, a um vivo rol de atributos, de qualidades, mais ou menos específicas, sejam as de: acanhado, afável, amante da liberdade, idem da ordem, anti-romântico, benevolente, bondoso, comedido, canhestro, cumpridor, cordato, desconfiado, disciplinado, desinteressado, discreto, escrupuloso, econômico, engraçado, equilibrado, fiel, fleumático, grato, hospitaleiro, harmonioso, honrado, inteligente, irônico, justo, leal, lento, morigerado, meditativo, modesto, moroso, obstinado, oportunidade (dotado do senso da), otário, prudente, paciente, plástico, pachorrento, probo, precavido, pão-duro, personalista, perseverante, perspicaz, quieto, recatado, respeitador, rotineiro, roceiro, secretivo, simples, sisudo, sensato, sem pressa nenhuma, sagaz, sonso, sóbrio, trabalhador, tribal, taciturno, tímido, utilitário, virtuoso.

 

Sendo assim, o mineiro há. Essa raça ou variedade, que, faz já bem tempo, acharam que existia. Se o confirmo, é sem quebra de pejo, pois, de mim, sei, compareço como espécime negativo.

 

Reconheço, porém, a aura da montanha, e os patamares da montanha, de onde o mineiro enxerga. Porque, antes de mais, o mineiro é muito espectador. O mineiro é velhíssimo, é um ser reflexivo, com segundos propósitos e enrolada natureza. É uma gente imaginosa, pois que muito resistente à monotonia. E boa — porque considera este mundo como uma faisqueira, onde todos têm lugar para garimpar. Mas nunca é inocente. O mineiro traz mais individualidade que personalidade. Acha que o importante é ser, e não parecer, não aceitando cavaleiro por argueiro nem cobrindo os fatos com aparatos. Sabe que “agitar-se não é agir”. Sente que a vida é feita de encoberto e imprevisto, por isso aceita o paradoxo; é um idealista prático, otimista através do pessimismo; tem, em alta dose, o amor fati. Bem comido, secularmente, não entra caninamente em disputas. Melhor, mesmo — não disputa. Atencioso, sua filosofia é a da cordialidade universal, sincera; mas, em termos. Gregário, mas necessitando de seu tanto de solidão, e de uma área de surdina, nos contactos verdadeiramente importantes. Desconhece castas. Não tolera tiranias, sabe deslizar para fora delas. Se precisar, briga. Mas, como ouviu e não entendeu a pitonisa, teme as vitórias de Pirro. Tem a memória longa. Não tem audácias visíveis. Ele escorrega para cima. Só quer o essencial, não as cascas. Sempre frequentado pelo enigma, pica o enigma em pedacinhos, como quando pica seu fumo de rolo, e faz contabilidade da metafísica; gente muito apta ao reino-do-céu. Não acredita que coisa alguma se resolva por um gesto ou um ato, mas aprendeu que as coisas voltam, que a vida dá muitas voltas, que tudo pode tornar a voltar. Até sem saber que o faz, o mineiro está sempre pegando com Deus. Principalmente, isto: o mineiro não usurpa.

 

Aí está Minas: a mineiridade.

 

Mas, entretanto, cuidado. Falei em paradoxo. De Minas, tudo é possível. Viram como é de lá que mais se noticiam as coisas sensacionais ou esdrúxulas, os fenômenos? O diabo aparece, regularmente, homens ou mulheres mudam anatomicamente de sexo, ocorrem terremotos, trombas-d’água, enchentes monstras, corridas-de-terreno, enormes ravinamentos que desabam serras, aparições meteóricas, tudo o que aberra e espanta. Revejam, bem. Chamam a seu povo de “carneirada”, porque respeita por modo quase automático seus Governos, impessoalmente, e os acata; mas, por tradição, conspira com rendimento, e entra com decisivo gosto nas maiores rebeliões. Dados por rotineiros e apáticos, foram de repente à Índia, buscar o zebú, que transformaram, dele fazendo uma riqueza, e o exportam até para o estrangeiro. Tidos como retrógrados, cedo se voltaram para a instrução escolar, reformando-a da noite para o dia, revolucionàriamente, e ainda agora dividindo com São Paulo o primeiro lugar nesse campo. Sedentários famosos, mas que se derramaram sempre fora de suas divisas estaduais, iniciando, muito antes do avanço atual, o povoamento do Norte do Paraná, e enchendo com suas colônias o rio, São Paulo, Goiás e até Mato Grosso. Pacíficos por definição, tiveram em sua Força Pública militar, pressianamente instruída e disciplinada, uma formidável tropa de choque, tropa de guerra, que deu o que temer, e com larga razão. E, de seus homens políticos, por exemplo, vê­em-se atitudes por vezes imprevisíveis e desconcertantes; que não serão anômalas, senão antes marcas de sua coerência profunda — a única verdadeiramente com valibilidade e eficácia.

 

Disse que o mineiro não crê demasiado na ação objetiva; mas, com isso, não se anula. Só que mi­neiro não se move de graça. Ele per­­manece e conserva. Ele espia, indaga, protela ou palia, se sopita, tolera, remancheia, perrengueia, sorri, escapole, se retarda, faz véspera, tempera, cala a boca, matuta, destorce, engambela, pauteia, se prepara. Mas, sendo a vez, sendo a hora, Minas entende, atende, toma tento, avança, peleja e faz.

 

Sempre assim foi. Ares e modos. Assim seja.

 

Só, e no mais: sem ti, jamais nunca — Minas, Minas Gerais, inconfidente, brasileira, paulista, emboaba, lírica e sábia, lendária, épica, mágica, diamantina, aurífera, ferrífera, ferrosa, férrica, balneária, hidromineral, jê, puri, acroá, goitacá, goianá, cafeeira, agrária, barroca, luzia, árcade, alpestre, rupestre, campestre, de el-rei, das minas, do ouro das minas, das pretas minas, negreira, mandigueira, moçambiqueira, conga, dos templos, santeira, quaresmeira, processional, granítica, de ouro em ferro, siderúrgica, calcárea, das perambeiras, serrana bela, idílica, ilógica, translógica, supralógica, intemporal, interna, leiteira, do leite e da vaca, das artes de Deus, do caos calmo, malasarte, conjuradora, adversa ao fácil, tijucana, januária, peluda, baeteira, tapiocana, catrumana, fabril, industriosa, industrial, fria, arcaica, mítica, enigmática, asiática, assombrada, salubre e salutar, assobradada, municipal, municipalíssima, paroquial, marília e heliodora, de pedra-sabão, de hematita compacta, da sabedoria, de Borba Gato, Minas joãopinheira, Minas plural, dos horizontes, de terra antiga, das lapas e cavernas, da Gruta de Maquiné, do Homem de Lagoa Santa, de Vila Rica, franciscana, barranqueira, bandoleira, pecuária, retraída, canônica, sertaneja, jagunça, clássica, mariana, claustral, humanista, política, sigilosa, estudiosa, comum, formiga e cigarra, labiríntica, pública e fechada, no alto afundada, toucinheira, metalúrgica, de liteira, mateira, missionária, benta e circuncisa, tropeira, borracheira, mangabeira, comboieira, rural, ladina, citadina, devota, cigana, amealhadora, mineral e intelectual, espiritual, arrieira, boiadeira, urucuiana, cordisburguesa, paraopebana, fluminense-das-velhas, barbacenense, leopoldinense, itaguarense, curvelana, belo-horizontina, do ar, do lar, da saudade, do queijo, do tutu, do milho e do porco, do angu, do frango com quiabo, Minas magra, capioa, enxuta, groteira, garimpeira, sussurrada, sibilada, Minas plenária, imo e âmago, chapadeira, veredeira, zebuzeira, burreira, bovina, vacum, forjadora, nativa, simplória, sabida sem desordem, sem inveja, sem realce, tempestiva, legalista, legal, governista, revoltosa, vaqueira, geralista, generalista, de não navios, de não ver navios, longe do mar, Minas sem mar, Minas em mim: Minas comigo. Minas.

 

[Texto na íntegra. Endereço Eletrônico:
 https://jornalggn.com.br/brasil/a-declaracao-de-amor-de-guimaraes-rosa-a-mineiridade/
Texto publicado originalmente na revista “O Cruzeiro”, em 25 de agosto de 1957, por Guimarães Rosa.]

 

*


Guimarães Rosa:

 

http://advivo.com.br/node/1369764
http://www.academia.org.br/academicos/joao-guimaraes-rosa/biografia

 

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Jarbas Sertório de Carvalho

 

Visita do Imperador D. Pedro II ao município de Ponte Nova (Minas Gerais) em 30 de junho de 1886. – Conferência feita no Rotary Clube de Petrópolis, em 1 de Junho de 1955.

 

(p.12-13)

 

( Durante a visita do Imperador D. Pedro II ao Município de Ponte Nova)
8. Da Estação de Ponte Nova, (...). Chegados ao local pretendido, entre a margem direita do rio Piranga, e à esquerda do ribeirão do Carmo, precisamente no ponto de confluência destes dois rios, e início da formação do rio Doce, ainda em terras deste município, (...)
 
O Sr. Barão (...) dirigiu à Sua Majestade as seguintes palavras (...)
 
Sua Majestade dignou-se a responder:
“Tive muito prazer em vir às fontes do Rio Doce, trinta anos depois de ver-lhe a foz e de ter navegado ali”. Após esta manifestação Sua Majestade tomou um copo de água deste rio.

 
**

 

Visita do Imperador D. Pedro II ao município de Ponte Nova (Minas Gerais) em 30 de junho de 1886, Jarbas Sertório de Carvalho – Conferência feita no Rotary Clube de Petrópolis, em 1º de Junho de 1955 e publicada no Jornal do Comercio, do Rio de Janeiro, em 3 de julho de 1955.
Jarbas Sertório de Carvalho (Rio Casca, MG (1887 – 1965). Médico e historiador mineiro, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, Membro Emérito da Academia Nacional de Medicina (Cadeira No. 21) e da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro.

 

***

 

De Lamã  a lama

 

Se veem restos na Lama
Revivem o Lamã injusto
De homens assim
Governantes da lama
Sobrevive o Lamã

 

Dos céus nos ouvem
Espíritos da lama que escorrem
Pelos dedos do Lamã
Jerusaléns de outrora
São hoje Brumadinhos  -  é Mariana

 

E seres esquecidos
Renascem da Lama
Revoam nas luzes
Dos que recolhem partes
E os anjos no limbo sussurram- socorro

 

Todos somos dejetos de lama
Ou seremos o Lamã?

 

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Cristina Avila:

 

Escritora, ensaísta e historiadora da Arte e da Cultura.  Pós-doc pela Universidade de Campinas ; Doutora em literatura Comparada pela FALE/ UFMG ; Mestre em Artes pela USP ; especialista em Barroco Mineiro pela UFOP. Poeta eventual ou bissexta.

 

***

Romério Rômulo

 

minas se dissolve
no ouro, no ferro
no azedume das almas
no pecado que vive em toda
procissão.

 

quantos deuses de minas
se sacrificaram ao corpo capital
da morte?
precisamos de quantos séculos
dezoito, de quantos açoites precisamos
até arrematar nossos pecados?

 

santo drummond, santo affonso ávila
santos poetas são pedro e são paulo
quantas minas de poesia vão engolir
nossa montanha raquítica?

 

quando gado e aço acabam no meu corpo?
quanta terra ainda tenho que cobrir nos endereços
que me dão?

 

minas são muitas e pálidas como as mãos
de toda gente.

 

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Romério Rômulo é professor de Economia Política da Universidade Federal de Ouro Preto, UFOP, MG. poeta e editor, publicou vários livros de poesia, entre eles "bené para flauta & murilo" (1990), a caixa "tempo quando" (4 livros em 2 volumes, 1996), "matéria bruta" (2006), "per augusto & machina", 2009, "i ah, si yo fuera maradona!" (bilíngue português/espanhol, 2015). Escreve semanalmente uma coluna de poesias no Jornal GGN (http://jornalggn.com.br/), editado pelos jornalistas Lourdes e Luis Nassif. É um dos fundadores do Instituto Cultural Carlos Scliar, com sede no Rio de Janeiro.

 

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Caio Junqueira Maciel

 

SÃO SEBASTIÃO DAS ÁGUAS CLARAS

 

Por que te chamam de Macacos,
Macacos me mordam,
Se tens um nome límpido
São Sebastião das Águas Claras?

 

Penduro minhas dúvidas
em cada galho.
Quisera não ver
Não ouvir
Não falar.
Mas o medo de teus moradores
não me deixa também dormir.

 

As flechas de São Sebastião
são inúteis como arma de defesa.
As águas claras podem virar lama.
E é duro pensar na engenharia
e na sede de ganhos do homo sapiens.

 

Luiz Carlos Junqueira Maciel é o nome de batismo de Caio, nascido em Cruzília, MG, em 8 de maio de 1952. Formou-se em Letras, pela UFMG, em 1974. Em 1982, recebeu o título de Mestre em Literatura Brasileira, pela UFMG, dissertando sobre o poeta mineiro Dantas Motta. Lecionou nessa instituição como professor substituto em 1992 e 1993. Foi professor e coordenador de literatura no Curso Promove por quase quarenta anos. Foi editor da revista Literatura comentada, das edições Horta Grande. Faz parte da antologia Jovens contos eróticos, da editora Brasiliense (1987). Publicou os livros de poemas Sonetos dissonantes (1980), Felizes os convidados (1984), Doismaisdoido é igual ao vento (1997), Sonetos só pra netos (2005), Paiol (2017). Participou do grupo de escritores mineiros Coletivo 21, fazendo parte das antologias Coletivo 21 (2011) e Adolescência & Companhia (2012). Publicou ensaios no Suplemento literário Minas Gerais. Possui CDs em parceria com Newton Maciel Ribeiro (Parceiros do tempo, 2002) e Zebeto Corrêa (Era uma voz, 2005; Trilhas da literatura brasileira, 2007; Recados de Minas, 2009). Em 2017, obteve primeiro lugar, em Lisboa, com um poema num concurso em homenagem a Teixeira de Pascoaes. Em 2018 obteve primeiro lugar num concurso de crônicas em Campos do Jordão. Atualmente colabora com ensaios, contos e poemas na revista portuguesa InComunidade. Vive com sua mulher Francisca, em Sabará MG, com quem tem três filhos e duas netas.

 

 

Sem título – assemblage – minério de ferro, mãos de biscuit, santo de madeira e fruteira de vidro – 2016. Domingos Mazzilli.
*

 

Domingos Mazzilli:
http://www.mazzilli.art.br/

 

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Posfácio

 

E agora José? Derramamento de Lama Tóxica em Minas Gerais

 

Cristina Ávila

 

O rompimento da barragem de Fundão, localizada no subdistrito de Bento Rodrigues, a 35 km do centro do município brasileiro de Mariana, Minas Gerais, ocorreu na tarde de 5 de novembro de 2015. Trata-se de uma barragem de rejeitos de mineração controlada pela Samarco Mineração S.A., um empreendimento conjunto das maiores empresas de mineração do mundo, a brasileira Vale S.A. e a anglo-australiana BHP Billiton.
O rompimento da barragem de Fundão foi considerado o maior desastre ambiental da história brasileira e o maior do mundo envolvendo barragens de rejeito. A lama chegou ao rio Doce, cuja bacia hidrográfica abrange 230 municípios dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, muitos dos quais abastecem sua população com a água do rio.
Ambientalistas consideraram que o efeito dos rejeitos no mar continuará por pelo menos mais 100 anos, mas não houve uma avaliação de todos os danos causados pelo desastre.
A calamidade que já se anunciava com vários alertas dados por técnicos e especialistas em ecologia, geologia e engenharia ambiental causou enorme comoção nacional, mas não teve efetivamente nenhuma solução para os municípios afetados em Minas Gerais e no Estado do Espirito do Santo chegando até ao Oceano Atlântico.
A lama desceu pelo Vale Doce destruindo o que estava a sua frente, atingindo patrimônio histórico artístico dos séculos XVIII e XIX, vilas, populações de dois subdistritos, com toda a sua economia, flora e fauna, além do patrimônio imaterial e afetivo. Destruiu a economia de populações indígenas e ribeirinhos, que viviam essencialmente da pesca e flora.
O descaso das empresas responsáveis e de setores públicos e privados indignou não só especialistas, Associações Ambientais e populações de atingidos sem nenhuma solução efetiva para resgate do que se perdeu.
Visando fazer algo pelo antigo distrito de Bento Rodrigues e pelo patrimônio perdido, passados 30 anos do estudo para tombamento, fui ao local e entrevistei pessoas, e voltei-me a meu pai poeta. Como fui sua parceira na organização de seu acervo, que se estendeu por todos os cômodos da casa da Rua Cristina, 1.300, vindo a ser doado e acolhido pelo Acervo de Escritores Mineiros da UFMG, sabia que ali estava o registro dos projetos de patrimônio de meu pai. Encontrei várias pastas com estudos sobre Ouro Preto, Mariana e distritos com propósito de ação visionária da preservação e do futuro dos bens culturais mineiros. Não é que achei, entre os diversos estudos, o parecer técnico de geólogos que desaconselhava a mineração, mesmo a de céu aberto, às margens e proximidades dos distritos e cidades nascidas no seio da Bacia do Rio Doce. Tentei de tudo para ao menos preservar e não deixar no esquecimento os restos e fragmentos do distrito de Bento Rodrigues. Hoje, alguns guardados como objetos afetivos do povo que viu desaparecer a memória cultural de seu distrito e arredores estão selecionados e guardados para um futuro Museu, trabalho realizado pelo CECOR/Escola de Belas Artes. O que diria o poeta a respeito das destruições sucessivas de patrimônios mineiros, brasileiros e universais? Adivinho. Denunciaria com mais poemas.

 

Passados três anos apenas, no dia 25 de janeiro, a história se repete. Mais lama tóxica da Companhia Vale do Rio Doce, desta vez, sobre a cidade de Brumadinho, cuja perda de centenas de vidas e da contaminação do Rio Paraopeba chocou Minas Gerais, o Brasil e o Mundo. E em toda minha tristeza pessoal desvela três autores mineiros, que compartilharam a mesma dor ao ver o espírito da ondulada e montanhosa paisagem de Minas, hoje feita de buracos e lama pela ganância que se comprova desde o chamado Ciclo do Ouro. São estes Carlos Drummond de Andrade e suas contendas em poesia e prosa contra a interferência da Vale em Itabira, sua cidade natal, que se resume afinal no verso “ Itabira é apenas um retrato na parede e como dói”; nas referências de Rosa ao destruído sertão e as flores do cerrado mineiro na sua invenção – Grande Sertão: Veredas e na dedicatória que Ávila faz a Rosa em referência, em epígrafe, ao texto “Aí está Minas, a mineiridade” - “Minas em Minas, Minas comigo, Minas”, que precede o poema de Affonso Ávila, Trilemas da Mineridade.

 

(...)
eu em fossa de óxido
eu em fóssil de óxido
eu in-fólio de óxido

 

Do século XVIII, na chamada corrida do ouro, ao século XX, na corrida do ferro, Minas sofre com a mineração. Se antes morriam escravos e aumentavam o lucro da Coroa, conforme se vê nos mapas de envio do ouro, no século XX surge a gigante Vale do Rio Doce, outro tipo de ganância se anuncia e outro tipo de escravo, neste momento escravo do capitalismo, sofre com suas perdas e danos.
Em 1909, os ingleses compraram todas as reservas de minério de ferro de Minas Gerais e formaram uma empresa de capital inglês que se tornaria, depois de ser encampada pelo governo de Getúlio Vargas em 1942, a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD).
A empresa surgiu de um acordo assinado entre Estados Unidos, Inglaterra e Brasil, em plena Segunda Guerra. EUA e Inglaterra, dedicados ao esforço de guerra contra Hitler, necessitavam que o Brasil fornecesse minério de ferro para sua indústria. Daí nasceu a CVRDm que passa a fornecer minérios para a reconstrução do Japão, depois da guerra. Enquanto o Japão se convertia em uma potência econômica mundial, a Vale se tornava uma grande mineradora.
Sua ocupação se estende por toda Minas Gerais.  Na cidade de Itabira descaracteriza sua feição urbana e paisagem do entorno.  O poeta itabirano grita, os itabiranos o acusam de inimigo do progresso. O verso revela “Itabira é um retrato na parede e como dói.”
Pouco a pouco todas as cidades do chamado quadrilátero ferrífero foram sendo exploradas e foi desmontada a paisagem montanhosa original que se torna esburacada e ferida.  Em 7 de maio de 1997, a empresa foi privatizada e comprada por um consórcio liderado pela CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), que adquiriu 41,73% das ações ordinárias do governo federal por US$ 3,338 bilhões. O clima se eleva na região, os rios são assoreados e a gigante Vale do Rio Doce muda de nome para Vale.
A mineração é traidora e gera uma dependência econômica nos municípios que já não podem sobreviver economicamente sem ela. Por outro lado, em contrapartida, a vale financia a arte, algumas restaurações de patrimônio histórico se revelando como uma faca de dois gumes. Esgotada a mineração em algumas áreas ficam as barragens sem monitoramento técnico e torna-se cada vez mais parceira de partidos políticos, financiando campanhas milionárias. O século XXI mostra a estranha convivência das cidades históricas e outros municípios mineiros com a Vale.
Em Brumadinho surge, em 2004, uma instituição para abrigar a coleção de Bernardo Paz, empresário da área de mineração e siderurgia que forma o acervo de arte contemporânea do Instituto Inhotim. Em 2014, o museu a céu aberto foi eleito, pelo site TripAdvisor, um dos 25 museus do mundo mais bem avaliados pelos usuários.
Brumadinho se enche de turistas de todos os lugares do mundo, surgem diversas pousadas, a cidade ganha mais graça. E, pela sorte do destino o Museu sobrevive, pois se encontra longe do derramamento de lama e permanece em pé. Mas a avassaladora lama tóxica mata muito mais seres humanos, entre funcionários da VALE e moradores da região. O que podemos dizer, mais que as cenas e o circo de horrores do trauma revivido sob o lema do atual presidente; – Mariana nunca mais. Denúncias e acertos políticos apontam para a impunidade. Agora nós, poetas, artistas e todo o povo consternado, fazemos coro ao nosso poeta maior: – E agora José?

 

 

 

Cristina Avila é escritora, ensaísta e historiadora da Arte e da Cultura.  Pós-doc pela Universidade de Campinas; Doutora em Literatura Comparada pela FALE/ UFMG; Mestre em Artes pela USP; especialista em Barroco Mineiro pela UFOP. Poeta eventual ou bissexta.

 

*****

 

Myrian Naves, poeta e escritora brasileira, professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira desde 1982. Nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais. Publica em diversas antologias, revistas eletrônicas, e participa da coletânea dos poetas de Blocosonline, em POESIA PARA MUDAR O MUNDO - VOL. 1 - 2019. Dirige a Cantaria, artes e ofícios _ literatura, arte e educação. Curadora do conteúdo brasileiro da Rádio Transforma, da cidade do Porto, Portugal e inicia ali o seu programa Lusofonia à brasileira. Lança este ano a revista eletrônica CANTARIA. Publicará este ano sua poesia em Própria Lavra. Organizadora desta coletânea.

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2019


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Paginação:

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