ANO 5 Edição 77 - Fevereiro 2019 INÍCIO contactos

Alexandra Vieira de Almeida


A presença do corpóreo e do incorpóreo em “A liturgia do tempo e outros silêncios”, de Wanda Monteiro    

 

Se a linguagem é a ausência de corpo e a realidade a presença de materialidade, Wanda Monteiro no belíssimo livro de poemas, A liturgia do tempo e outros silêncios (Patuá, 2019), subverte os padrões, dando carnadura às palavras e invisibilidade ao real. E é o tempo que faz esta comunicação entre o concreto e abstrato. O tempo se transforma em questão e é a pergunta que move o livro na sua força ritualística de voltar à origem, ao primeiro ato que originou o tempo. Segundo Baudelaire, o tempo é “o inimigo vigilante e funesto, o obscuro inimigo que nos corrói o coração.” (Spleen e Ideal). O tempo é signo de morte, mas também de vida, pois nos aprisiona ao que nos cerca, aos objetos e pessoas. Mesclando versos com poesia em prosa a partir das frases, a poeta aqui em questão, realiza um gênero híbrido de cabeça bifronte, unindo nas frases as máximas filosóficas ao lirismo da poesia com radiância de sol a gerar a urdidura textual.

 

Ela diz: “Aqui, nesse tudo de fora, é preciso transver as paisagens e na escrita etérea da ideia, torná-las inapagáveis diante do fenecimento corpóreo - a impossibilidade material da presença do imponderável silêncio”. A morte do corpo da palavra resiste ao tempo e procura a eternidade do tempo presente que reúne todos os tempos (passado, presente e futuro) num só instante. Um átimo que percorre as pupilas da ideia, do pensamento, reunindo o corpo das ideias ao corpo do mundo, numa comunhão mística, numa liturgia que busca romper a semente do silêncio numa árvore frondosa das palavras com seus frutos metafóricos e imagéticos. A gestação espaço-tempo avança através das eras a partir da fecundidade da literatura que é feita de silêncios e gritos. No E-Dicionário de termos literários, organizado por Carlos Ceia, há o verbete “tempo”, escrito por João Adalberto Campato Júnior, onde ele diz: “Pertencem a Santo Agostinho as famosas palavras que nos dão conta da complexidade do tempo: “Que é, portanto, o tempo? Se ninguém me coloca a questão, eu sei; se alguém coloca a questão e se eu quero explicar, eu já não sei”.

 

Por isso, o tempo, para Wanda Monteiro nesse novo livro de poemas, se coloca como pergunta filosófica que só a sabedoria do indizível da poesia pode explicar. A poesia é capaz de preencher de corpo essa questão tão silenciosa de sentidos que desafia nossos limites mais constantes. Wanda Monteiro diz: “no rito infindo das estações/o tempo faz seu casulo/na rocha/consagra a sina de guardar/no silêncio/a contrafação de suas faces”. Ou seja, algo tão impalpável como o tempo ganha toda uma ritualística corpórea, o tempo é uma hóstia sagrada a desafiar a limitação mortífera da vida. Na realidade, no corpo do mundo também encontramos a transcendência da vida a partir da força que a palavra lhe dá. Uma liturgia da negação é posta em destaque e Wanda Monteiro a partir do verbo quer desafiar a morte que o tempo nos coloca. Pela presença da visibilidade e invisibilidade das palavras, Wanda Monteiro refaz a criação do mundo onde surgiu o tempo com seus véus de matéria e incorporeidade. O poema é sangue, é vida a corroer a morte mais voraz e fugaz: “O poema se escreve com sangue-tinto”.

 

Wanda Monteiro faz do tempo um templo de mudez, de silêncios e vazios, mas também do dom da escrita: “no exato ato da escrita/não há nada fora do tempo” O tempo é sagrado porque recria o mundo pela palavra. É como o retorno ao ato inaugural. O poema, a linguagem é terra, fogo, ar e água. Tem a força metamorfótica de Proteu e a imaginação de Ícaro em querer alcançar o sol dos sonhos e da imaginação fértil. As palavras têm asas na sua dominação aérea que ultrapassa os sentidos: “no gargalo da garganta/ergue-se um mausoléu de asas/em santo sepulcro de palavras aladas.” Para Platão, a verdade é alétheia, “não esquecimento”. Wanda Monteiro não bebe das águas do Lethes: “esquecer é silenciar o ser”. A memória compõe nossa essência e é domada pelo tempo sempre presente. A nossa subjetividade é controlada pelo tempo. E a escrita está dentro dele, como diz a poeta. O ser é uma fera aprisionada pelo tempo, seu algoz mais cruel a corroer tudo com suas mãos proeminentes.

 

Alfredo Bosi, nosso grande teórico, disse, em O ser e o tempo da poesia: “Qual o núcleo da proposta? Em um primeiro momento, captar o nexo íntimo entre o fluxo sonoro do texto, e sua constelação de figuras e o seu pathos, até aqui, o ser da poesia. Em seguida, atentar para a presença e o seu significado no curso do tempo intersubjetivo, social, que é a cultura vivida por geração de leitores: o tempo histórico da poesia”. Ou seja, a poesia é ritmada pelo tempo em que vivemos e o eu-lírico é o ser inserido nesse mesmo tempo, parece nos dizer Wanda Monteiro nos seus mais criativos e filosóficos versos e frases deste livro excepcional. A memória no tempo é verbo, palavra. O esquecimento é o silêncio, o esvaziamento de sentidos. Com a conjugação memória-esquecimento, está estruturada sua poesia, que através do devir do tempo mancha com tintas de sangue a face esquelética e branca da página vazia, prenhe de possibilidades de criação. O silêncio é o movimento inicial da criação e o mistério se revela num rito temporal que se repete na travessia das eras. Sua poesia é plena de significados e as águas não poderiam faltar. O rio, imagem constante em sua poesia serve como metáfora do tempo linear a propagar auroras e crepúsculos. O tempo como imagens do círculo também comparece a partir do ritmo de sua poesia que utiliza a força da melopeia a criar música encantatória.

 

Portanto, a poética de Wanda Monteiro navega nas águas da transitoriedade e movimento da vida que também ultrapassa esse mesmo tempo limitante pela eternidade das horas simbólicas da grande poesia. A transcendência da vida é recriada pela palavra que é um espectro de silêncios e vazios inaugurais. A poesia ganha carne, o verbo se faz carne e mutila a imaterialidade do mundo que é feito de fantasmas e sombras. O sol do verbo acorda os sons invisíveis dos signos que de ossos se recompõe em seres, seres humanos e incompletos no seu devir de passagens. O passageiro do tempo navega nas águas sempre renovadas e originais da presença inquietante dos significados mais densos e plurais. Seu livro tem a profundidade dos abismos e a claridade do sol a irromper nas manhãs sonoras do tempo. Um rito é criado. O tempo é sacralizado e ganha as asas do mito. O mito e a realidade se unem para depurar o tempo e reorganizá-lo pelos versos de uma grande poeta que sabe fazer do silêncio uma voz delirante do grito filosófico.

 

 

Alexandra Vieira de Almeida é poeta, contista, cronista, ensaísta e resenhista.Tem Doutorado em Literatura Comparada (UERJ). Tem quarto livros de poesia publicados, sendo o mais recente Dormindo no verbo ( Penalux, 2016). Tem poemas traduzidos para vários idiomas e publica constantemente em jornais, revistas, antologias, e alternativos por todo Brasil e também no exterior.

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2019


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