ANO 5 Edição 77 - Fevereiro 2019 INÍCIO contactos

Calí Boreaz


6 poemas    

#dia25 | falha geográfica

 

esta noite não sei
o mundo, arrepiado,
está entrando aos trambolhões
todo pela rachadura que se abriu
à latitude -22.9 com longitude
-43.1 ali mais coisa
menos coisa na altura
do posto 5 mais concretamente
a 20 passos da linha do Atlântico
exatamente no ponto em que
é possível caber entre braços
toda a paisagem indecente
quântico interstício
de tudo
que é íntimo e ausente e eu não sei
o mundo, arrepiado, está
todo indo por ali abaixo
num vício biográfico
danado
o pior minha gente
é que a fenda tem luz própria
é toda colorida de açaí e acerola
e tem um barulhinho
lá no fundo
espera aí
é uma caixa de fósforo
tem alguém batendo nela
a cadência nova do samba
o mundo tá doido
o mundo tá doído
quer chegar junto
chega mais cabe mais
e não há controle
não há respeito
é trambolhão mesmo
o mundo está desaparecendo
aos poucos esta noite
a rachadura fechará
pontualmente antes que eu chegue
para ligar o dia
e avaliar os danos
é assim desde que a geografia nos falhou

 

 

 

 

 

 

 

ps: este domingo
passa lá no posto 5
para eu te ver passar
vou estar lá na areia
a 20 passos da linha do
atlântico
com os pés firmes
no magma azul
pulmões expandidos para a avalanche
quântica de oxigênio
de binóculos
ou telescópio
só para te ver passar
no equilibrismo óptico
de te encontrar entre milhões
de meteoros secundários
e depois, o mundo
o calendário o mar os luzeiros
talvez se entendam
vou estar lá na areia
para te ver passar

 

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a(l)titude

 

o vento que se
ouve dentro:
invento


 

 

 

 

 

efeito kahlo kuleshov

 

estou imóvel
suspeito que me tornei um quadro
com debrum de areia  pequenas conchas
e pontas de cigarro
à minha beira está o mar em março
ele desatentamente cospe nos meus pés. e através
de mim desamarro o vendaval morse
/ não escutes. ainda estou imóvel
sobre mim-onde há uma constelação
de abutres como uma indecisão boiando
aos fundos de mim-quando há a ficção
citadina  inacessível
entre o tempo da água e o destempero do asfalto
a destempo tento — ainda — criar poesia
/ ay llorona / olhos negros /
e crio silêncios. basaltos. silêncios
a fazerem sala às tuas perguntas
no horário nobre do despresente
faço um esforço — me recorto
dou um passo na via láctea
meus pés imprimindo a marca de água
e enquanto me arranco à imobilidade
/ as tuas perguntas /
a cidade se petrifica
basaltos. silêncios. solidões acústicas
presas na véspera — ou num dia advindo
a gastarem-se companhia
no horário nobre da vida

 

que é a fina presença da morte
agarro com força a escuridão
e dou mais um passo
o garoto de short azul na areia sentado
ficou ali com o olhar perdido no desenho de um nome
a cadeirante com o paninho de chão ao ar erguido
ficou ali com a mão esperando os 4 reais
o velho de 88 anos cansado demais
ficou ali com a expressão do primeiro estremecimento
do infarto
passo por todos  passando neutra por mim mesma
vou direto à tua porta
enquanto junto pedaços

 

   em morse
amar-se
      em março
          um amor se

 

            maio

 

              ainda for

 

                tempo

 

estou batendo. batendo: atendo?

 

 

 

 

 

 

fóton

 

isso era no tempo em que
a luz de maio entrava
pontualmente
às quatro da tarde naquela
avenida da Urca com aquela
soberba dourada bêbeda de américa
e se refratava nos recortes
insuspeitos dos troncos dos coqueiros
do alcatrão malemolente
para finalmente se alojar
em algum indício corpóreo
de uma microexplosão
e durava quatro minutos
precisamente — a luz dos maios rotos
e logo mais à frente
o verde dos morros
a respirar nuvens

 

isso era no tempo
em que maio explodia e éramos jovens
de nós — e logo esplendia
pelos ralos tudo que escrevíamos
com luz

 

 

 

 

 

fortaleza

 

ver-te é o poema — a ver se te vê
por tempo que chegue para te ver
por trás dos olhos quando ver-te
for invisível
ver-te ouvir-te tocar-te imensa-me
há vento em amar-te e isso dispersa-me
sangue para um lado átomos para outro
sou o desencontro do meu corpo
clamando que o reúnas em maior beleza
obra de arte amar-te
na infinita-metragem dos turning points
que afortalezam o saber-me tua
ainda que
no buraquinho discreto que faço na noite
mas é nesse buraquinho que se acoita o ato-lua
de me debruçar sobre o mundo
e sobre o tempo — e me rir deles
porque te conheci

 

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toda varanda quer ser um navio

 

escrevo como quem se abrevia
às coisas:
vou ali e já volto
só uma saidinha
pra arejar, ar

 

no dia em que sumi no mundo
(nasci de parto mortal e mais
ninguém me viu)
ali comecei discreta a construir uma varanda
no planeta

 

abenluada
solidão

 

repente
a varanda do planeta
ficou escuramente maior

 

maior que o próprio planeta
não cabe na solidão
nem mesmo nestas
palavras verticais com que vou
vasculhando
oxigênio enquanto
empurro com todas
as fraquezas o portão
de parto que ainda me aparta
dos olhos que me escrevendo
me expandiram

abensomada
ausência

 

dia destes ainda sou capaz de zarpar, ar

 

com eles
numa distração do silêncio
na varanda desarvorada
enfim feita navio

 

poemas do livro outono azul a sul[2018], de calí boreaz, publicado em Portugal e no Brasil pela editora Urutau [editoraurutau.com.br], com ilustrações de Edgar Duvivier e António Martins-Ferreira e posfácio de João Almino.

Calí Boreaz nasceu no outono, em Portugal. era madrugada de uma sexta-feira, dia de Vênus, ou do amor. faz-se poeta perante a insuficiência, a aridez, a melancolia — o que não constitui uma distinção. de origem parte do Ribatejo, parte da Beira Baixa, estudou Direito em Lisboa em meio às noites de fado, depois aventurou-se a leste, viveu um tempo em Bucareste, onde estudou Língua e Literatura Romena, e também Tradução Literária, até que atravessa o Atlântico rumo ao sul, no virar de 2009 para 2010, para viver no Rio de Janeiro, onde estudou [e continua a estudar, e a realizar] o ofício do Teatro. Na literatura, traduziu do romeno os romances O Regresso do Hooligan [ed. ASA, Portugal], de Norman Manea, e Lisboa para sempre [ed. Thesaurus, Brasil], de Mihai Zamfir. Seu livro de estreia, outono azul a sul [2018], marca sua luso-brasilidade e tem uma extensão fotonarrativa no instagram @caliboreaz — ferramenta dinâmica que complementa o livro com as imagens que o inspiraram e as que seguem precedendo novas escritas.
[ www.caliboreaz.com | instagram.com/caliboreaz ]

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2019


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Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandra Vieira de Almeida, Alicia Salinas, Ana Romano, Avelino de Araujo, Caio Junqueira Maciel, Calí Boreaz, Celso de Alencar, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Edivaldo Ferreira, Eduardo Rennó, Fabiano Silmes, Fernando Andrade, Fernando Sorrentino ; Rolando Revagliatti, Hermínio Prates, Inês Lourenço, Jorge Castro Guedes, Juliana Maffeis, Leila Míccolis, Leonora Rosado, Lisa Alves, Marinho Lopes, Meire Viana, Moisés Cárdenas, Myrian Naves, Nagat Ali, Octavio Perelló, Paulo Nilson, Ricardo Ramos Filho, Ronaldo Cagiano, Tânia Diniz, Ulisses de Carvalho


Foto de capa:

Quadro de Ismael Nery, 'O encontro', de 1928


Paginação:

Nuno Baptista


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