ANO 5 Edição 77 - Fevereiro 2019 INÍCIO contactos

Edivaldo Ferreira


Cinco Poemas    

PRA ONDE OS POMBOS VÃO QUANDO A NOITE CAI

 

Tenho observado as garotas
do outro lado da calçada
e dedicado poemas pra elas
carrego um pocket book que eu nunca li
no bolso interno da minha jaqueta
e um refrão blues na cabeça
Tenho pensado em acertar as contas com os deuses
quebrar o bar
e te chamar pra dançar
tenho pensado em fugir
pra onde os pombos se escondem quando a noite cai
e planejado finais felizes
que não cabem no orçamento do teatro

 

 

 

 

 

 

TEMPORAL

 

Nesses dias de chuva
sempre parece
que voltamos algumas décadas no tempo
as pessoas empunhando guarda-chuvas
correndo assustadas
pisando em poças d’água
eu fico olhando pela janela
aquele menino
imperturbável na calçada
contando as gotas
que caem
na
ponta
de
sua
língua

 

 

 

 

 

RAGTIME

 

Nós dançávamos velhos ragtimes na calçada
em frente a esse restaurante que já não tem mais aquele
majestoso piano de calda
toda sexta-feira tinha esse pianista que tocava ragtimes
e emendava uns blues tristes pra caralho
a gente gosta disso
dessa aura melancólica
melodias blueseadas deslizando como fumaça no ambiente
e a gente comprava cervejas no mercado
e sentava na calçada desse restaurante
não conversávamos só ouvíamos atentamente o som
que escapava pela janela
e dávamos risada daquelas caras pálidas sentadas à mesa
outro dia você ouviu uma música do Tom Waits e me disse que
a voz de Deus devia ser assim
eu retruquei dizendo que aquilo era o resultado de anos
lapidando a voz
com whisky e cigarros
e Deus não teria essa manha
você deu risada
um trago no whisky
e acendeu mais um cigarro
quando começava a tocar um ragtime seus olhos brilhavam
eu levantava bebadamente e te tirava pra dançar
você tá bêbada assim como eu e tropeça mas logo começa a dançar
leve e suave como nem o vento consegue ser
as deusas devem dançar assim
uma hora você se desequilibra e eu te seguro
firme entre meus braços
e ficamos lá se equilibrando no meio-fio da vida
a rua é toda silêncios e luzes amarelas
um mendigo bêbado vomita num poste alguns metros à nossa frente
olhamos nos olhos um do outro
como num filme mudo não precisamos dizer nada
e ficamos até o fim da madrugada
personagens desse filme
que sempre termina
antes do sol nascer

 

 

 

 

 

URUBUS NO CÉU DE GOIÂNIA ÀS 11 DA MANHÃ

 

Minha garota me abraça
como quem se despede de um sonho bom
a cozinha fica apertada
enquanto sinto o cheiro de seu cabelo
acaricio sua nuca
enquanto no rádio do quarto
Sinatra canta alguns versos sobre altos e baixos da vida
a goteira da torneira na pia ecoa
e mantém o mesmo ritmo
que algum sentimento azul
cava buracos no meu peito

 

Calejados pelas teclas meus dedos
percorrem seu corpo e ela geme
um blues
sorrindo maliciosa

 

Se desvencilha do meu abraço
e corre pra janela
seus olhos carregam o oceano
ficamos algum tempo
observando
pela janela do 15º andar
os urubus voando em círculos
no céu azul da cidade

 

 

 

 

 

CONCENTRAÇÃO

 

O escritor em transe
tece palavras
sobre a página
freneticamente
mantém o ritmo das teclas
agora
ele é uma orquestra de um homem só
um jazzman
um deus pagão exilado em sua quitinete
aqui
no lado escuro da cidade

 

mergulha fundo

 

então volta a respirar
sabendo que
esse monte de palavras
antes de ser literatura
será sua cama de pregos

 

 

Edivaldo Ferreira nasceu em 1992 na cidade brasileira de São Paulo. Escritor e tradutor. Em 2016 publicou seu primeiro livro "Ragtimes, beijos na nuca & buracos no peito" pela BAR Editora. Em 2018 traduziu, em parceria com o escritor Matheus Peleteiro, a poesia do autor dinamarquês Niels Hav publicada no livro "A Alma Dança em Seu Berço" (Editora Penalux) e participou da antologia "Cidade Sombria" (Editora Mmarte), uma coleção de contos noir ambientados na cidade de Goiânia.

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2019


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Paginação:

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