ANO 5 Edição 77 - Fevereiro 2019 INÍCIO contactos

Fernando Andrade


Livro de poemas Variações do exílio colore memória, afeto, em poesia-cinética    

 

É possível cortar um nó de um caule. Dizem que cada círculo desenhado nele é uma nódoa de idade que a árvore perpetua em sua raiz solar, aqui, vislumbro tanto o umo do solo como umidade do sol. Mas pergunto a vocês, crianças, quantos poemas tem destes nos dedos nos enredos de tantas memórias de tantas histórias... Gente a poesia não se faz só de navegações de correntezas de rimas, de sons-assônancias, se faz também do universo da infância, de uma cidade que tanto parece uma Amarcord uma recordação felliniana de uma Dona em cima da árvore.

 

 Uma vida não dá uma medida de um filme, se no filme há fotogramas em micro-segundos, passagem-sequência já carrega na vida do autor, o mundo, todas as pegadas, as largadas, as chegadas. Por tanto vinil por tanta (an) rodança, me vi um pouco memorialístico neste belo livro do poeta Fiori Ferrari, Variações do Exílio, pela Editora Penalux.

 

Pois vim do cinema,  (ou)vi(m) da Itália, reli montões de vezes  o Sorriso Etrusco sobre raízes familiares. Minha mãe foi para Itália, depois morou em São Paulo, tive um amigo Giorgio que morou comigo na infâcia de rua, e de bola para mato que o jogo é de campeonato. Fiori escreve como os bons autores italianos, aquele misto de saudade e auto-centralidade, sem macerar ego-ismos de gêneros. Texto vazado de afeto por uma intimidade que não captamos em ponto morto nem de fuga, pois tem vida, muita, mas é preciso silêncio na leitura para captar nuances que ligam fractais reminicências do autor em sua cidade natal Itapetininga.
 
Aqui digo um pouco que Minas de Drummond é também Nápoles, Calabria, Roma, que o bom soldado que vai à guerra, claro, temos guerras citadinas, exílios voluntários em cidades-(pai)sagens. Muda-se de endereço, mas aquele tronco aquele entrocamento entre esquinas, onde se ia beber um café às seis da manhã na manhã de Itapetininga.

 

Fiori tece uma anti-bússola, pois descontrói um fio uma urdidura narrativa em seu livro-poema. Talvez ele siga uma rede tão invisível como as cidades desejantes de Calvino, pois aqui como acolá, temos fios - redes conectos ativos a conectar tempos, afetos, símbolos, mas o autor não os unifica, em verso - conversa - unidade. É como lembrar de uma melodia muito antiga. Pedaços de massas sonoras peleiam pelo prancton da lembrança. E temos eu, você, muito em comum.  

 

 

Fernando Andrade, 49 anos, é jornalista e poeta. Faz parte do Coletivo de Arte Caneta Lente e Pincel e do coletivo Clube de leitura onde tem dois conto Quadris na coletânea  “volume 3” e Canteiro no “volume 4” do Clube da leitura. Colaborador no Portal Ambrosia com entrevistas com escritores e resenhas de livros.  Tem dois livros de poesia pela editora Oito e meio.  “Lacan Por Câmeras Cinematográficas” e “Poemoemetria”, “Enclave” ( poemas) pela Editora Patuá e “A perpetuação da espécie” pela Editora Penalux.

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Revista InComunidade, Edição de Fevereiro de 2019


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